terça-feira, 13 de novembro de 2018

A Arte Muda da Fuga, página de guarda e orelha

Página de guarde e segunda orelha. São umas 120 páginas de poemas, mais fotos de recortes de meus Diários de Ateliê, intercalando os blocos temáticos, além de um posfácio da Marta Morais da Costa. As fotos do livro são de Pith Raid e minhas. 


VAZIOS

o vazio está cheio
de possibilidades e não transborda

a clareira no meio do mato
o pátio na arquitetura
o silêncio no teatro
o côncavo da caverna
o oco do quarto
o domo da Stª Maria del Fiore

quanto vazio para dizer
sem palavras
a plenitude de deus
o maior de todos os vazios

dala stella

A ARTE MUDA DA FUGA / Este retrato e as fotos do livro são de Pith Haid. VAZIOS é o poema que abre o livro.
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UM LAMBARI, PRONTO PRA ATRAVESSAR O MAR

A imagem pode conter: listras

Embora seja um livro de poemas, A ARTE MUDA DA FUGA, pela Editora Positivo, conta com uma dúzia de imagens de meus recortes. A ideia foi da editora Cristiane Mateus, que não queria perder o link entre os diários de ateliê, onde fiz os recortes originais, e os poemas, com os quais as imagens naturalmente dialogam. O resultado é um livro híbrido, de uma harmonia visual muito sutil.

O fotógrafo dos recortes foi Pith Haid, que esteve no ateliê duas vezes e capturou essa luz leitosa e matizada que entra pelas grandes janelas verticais e que me agrada tanto.

Também se somou ao projeto Marta Morais da Costa, fazendo a seleção dos poemas, agrupando-os tematicamente e escrevendo um posfácio onde conta como surgiu o livro e como podem ser lidos os poemas.

A essas pessoas se somaram outras, como Raquel Matsushita, no projeto gráfico e capa, e Fabíola Castellar, na edição de arte, entre outros. A todos agradeço imensamente. O livro é resultado desse coletivo, dessa competência mútua, orquestrada por Cristiane Mateus. Foram eles que vestiram meus poemas pra festa.

A Arte Muda da Fuga, poesia

Editora Positivo lança “A arte muda da fuga”, de Carlos Dala Stella, no próximo sábado, em Curitiba. Autor e organizadora Marta Morais da Costa fazem tarde de autógrafos na livraria Arte & Letra
A Editora Positivo lança, no próximo sábado, dia 10, um livro inédito do poeta e artista plástico curitibano Carlos Dala Stella: “A arte muda da fuga”. O lançamento acontece na livraria Arte & Letra, em Curitiba, a partir das 11h.
Os poemas reunidos na obra foram manuscritos nos cadernos de ateliê de Dala Stella. Uma seleção criteriosa foi feita por Marta Morais da Costa, doutora em literatura pela USP, a partir de um conjunto com aproximadamente duas mil páginas de textos, desenhos, recortes e colagens. As imagens do livro são pistas sobre o processo criativo do autor, que escreve e desenha cotidianamente em seus cadernos ilustrados há 39 anos.
No posfácio da obra, Marta explica que a maior dificuldade foi conter a riqueza da obra do poeta em apenas um livro. “Como selecionar, entre a riqueza de obras artísticas do Louvre, apenas uma? Como selecionar, entre as aves do Pantanal, apenas uma? Como, diante do Universo, afirmar a existência de apenas um planeta habitado? A tarefa de fazer nascer A arte muda da fuga pertencia a difíceis – e impossíveis – seleções”, descreve a organizadora.
A saída, segundo ela, foi solicitar ao poeta a escolha da produção recente que, segundo ele, representasse melhor sua poesia do presente. “Eram dezenas e dezenas de textos, com temas, motivos e extensão variados, a pedir tinta, impressão, luz do dia. Em sua autonomia e feliz liberdade, proclamavam, no entanto, elementos comuns, parentescos, liames e conjuntos”, conta Marta. “Em busca dos fios a se entrelaçar, a se combinar e enovelar, fui pouco a pouco descobrindo meadas comuns, matizes de cores predominantes, possíveis agrupamentos. Nasceram assim as categorias de amarração dos poemas pré-selecionados pelo autor e novamente selecionados por mim. O volume ganhou sua primeira forma, que a editora aperfeiçoou e enriqueceu, imprimindo-lhe ritmo e visualidade”, afirma.
De acordo com a editora de literatura da Positivo, Cristiane Mateus, responsável pela edição do livro, a obra é publicada com uma tiragem inicial de três mil exemplares e outra, ainda sem quantidade definida, já está prevista para 2019. “A edição do livro durou pouco mais de um ano e começou com uma visita ao ateliê do autor. A ideia agora é fazer circular de verdade a escrita desse artista singular e de múltiplas habilidades, já que seus dois primeiros livros de poemas tiveram uma tiragem bastante restrita – o que é muito comum quando falamos em livros de poemas no Brasil”, afirma.


As imagens
Nos vazados e nas aberturas das imagens, o artista revela uma multiplicação de planos: camadas sucessivas em que continente e conteúdo se alternam e se contrapõem. “É uma poesia em que a imagem, aparentemente plana, aos poucos se abre em recortes e vazados por onde o leitor (também um espectador) é atraído para camadas profundas das palavras, dos ritmos e da poderosa visualidade que sedimenta sua obra”, revela a organizadora. Os desenhos a nanquim do ateliê, que aparecem na abertura e no encerramento, também são de autoria de Dala Stella e foram feitos especialmente para este livro.
A natureza
A presença da natureza, representada na obra por uma pluralidade de elementos simples – aves, árvores, chuva, sol, estrelas, grão de areia –, poderia beirar o bucólico, caso não fosse ampliada em dimensões cósmicas ou em estados de alma. O poeta constata com espanto as manifestações da natureza: voejam pararus, urubus, sabiás, pintassilgos; a lesma se arrasta sobre o mármore, a libélula esplende em vitral e a aranha tece, como o tempo. “São pequenos animais a significar enigmas da vida e da arte”, define Marta.
A subjetividade e o silêncio
A poesia de Dala Stella produzida neste estágio de sua obra artística incorpora uma visão madura aos questionamentos sobre a subjetividade, uma das linhas mestras temáticas de sua escrita. Há uma aceitação tranquila da singularidade entre os mortais e uma inquirição constante da individualidade em face do universo.
Segundo Marta, essa busca dos sentidos do mundo e do tempo, esse indagar os vazios e os silêncios como repositórios de respostas e de beleza acabam por conferir à poesia de Carlos Dala Stella a marca indelével de uma poética de inquirição, de comunhão estelar, de denúncia dos desacertos do homem em sociedade, de incompletudes pessoais e sociais. “Constrói, à semelhança de Bach, uma arte como fuga, isto é, uma composição polifônica no contraponto de conjuntos temáticos”, define a organizadora.
O silêncio, presente em diversos versos do poeta, é também o título da poesia que encerra a obra. Para Dala Stella, “A arte muda da fuga” chama a atenção pela polifonia de percepções e materialidades verbais de que é feito cada poema. “Um poema não é uma linha reta entre o que o poeta sente, ou pensa, e a expressão desse sentimento ou dessa ideia. É no percurso da escrita que o sentimento de mundo se dá, num espelhamento interno e externo sem o qual a vida resultaria num simples artefato de palavra, desprovido da animação que lhe é tão cara. Um poema é um pequeno percurso de linguagem onde a vida, misteriosa e engenhosamente, se dá. A linha reta, em poesia, é sempre curva”, diz o poeta.

a arte muda da fuga

o silêncio sempre foi
meu maior interlocutor
qualquer coisa que eu diga
um monossílabo que engula
ele ouve e sopesa
por mais que eu grite
para dentro e sufoque
um substantivo, ele me acolhe 
côncavo e atento
mesmo que eu sopre pérolas 
inaudíveis, ele recupera a concha 
nunca o silêncio me foi 
indiferente, cada vez mais 
interfiro na trama
de seus fios transparentes
quem sabe dessa parceria
um dia não surja
a arte muda da fuga

silêncio

o bom de pensar 
é que depois 
vem o silêncio

não o silêncio 
absoluto da morte

mas esse silêncio 
– relativo –
cheio de vida
que de repente 
faz todo sentido

Notícias Central Press / 08.11.2018
Serviço
Lançamento do livro “A arte muda da fuga”, de Carlos Dala Stella
Data: 10 de novembro de 2018, às 11h
Local: Livraria Arte & Letra (Alameda Dom Pedro II, 44 – Batel, Curitiba/PR).

DALA STELLA, o poeta em silêncio

A imagem pode conter: 1 pessoa
José Carlos Fernandes/ GAZETA DO POVO 10.11.2018

Reparem – o desejo de uma boa parcela de gente é descobrir alguém. Fulana cozinha como poucos, mas só os seus familiares o sabem. Lembra o João? Ele escreve e terá história semelhante à do Geovani Martins, o jovem do morro carioca que estourou no mundo com o livro O sol na cabeça. Não foi o Nelson Motta quem descobriu a Marisa Monte num boteco? Na impossibilidade de não sermos todos uma promessa do universo, resta-nos a chance de revelar para o universo a genialidade de alguém. Troca justa.

Alguns talentosos, inclusive, são descobertos mais de uma ocasião e por mais de uma pessoa, tamanho o impacto que causam. É o caso do escritor e artista plástico curitibano Carlos Dala Stella, 57 anos. A primeira vez que ouvi falar dele foi por meio do escritor paranaense Miguel Sanches Neto – e faz tempo. Sugeriu-o como cronista para a Gazeta do Povo. Não economizou nas tintas. Falava a verdade. O texto de Dala Stella chegava límpido, enxuto e cortante, uma afinação perfeita para a leitura de jornais. Editá-lo seria passível de prisão em cela de delegacia.

Até hoje cito com prazer uma de suas publicações, sobre a obscuridade das apresentações que diversos críticos de arte fazem nos catálogos de exposição. Algumas frases pinçadas por Carlos provavam que o “arteplastiquês” dizia… nada. A análise que fez é perfeita para ilustrar o culto ao obscurantismo cultivado pelos mais letrados, prática que serve apenas para embananar o acesso ao conhecimento. A carreira de Carlos como cronista foi curta – tinha mais o que fazer, inclusive em silêncio. O isolamento voluntário reforçou sua aura, e o número de candidatos a descobridores. Eis a graça.

Entre seus admiradores teve ninguém menos do que Poty Lazzarotto. Frequentavam-se. Não tenho a fonte, mas Poty teria visto em Carlos, se não um continuador, um elo. Não tive coragem de lhe perguntar a respeito: Dala Stella é reservado como um monge, sensível aos elogios, que lhe soam como palavras fora do lugar. A propósito, soube que tem entre seus admiradores Dalton Trevisan, mas, como reza a cartilha do Vampiro, esquiva-se do assunto. Ponha-se na lista de admiradores toda a horda literária da cidade – que sonha tê-lo como ilustrador – e ex-professores, a exemplo de Marta Morais da Costa, que acaba de organizar e prefaciar uma coletânea de poesias do pupilo, A arte muda da fuga, em edição de luxo da Editora Positivo.

Ao lado de Marta (a mulher de fino trato que lhe apresentou O casamento, de Adélia Prado, corrompendo-o de uma vez por todas), a editora Cristiane Mateus fez o que qualquer um faria diante da obra literária e gráfica de Carlos – estranhar que ainda pareça inédito e se apressar em contar para meio mundo o que acontece no esconderijo em que vive, no bairro Santa Felicidade. O último livro de Carlos é fruto da teimosia de Cristine.

É fato que nosso artista em segredo andou pelo mundo. Na mocidade, mochileiro, recém-formado em Letras pela UFPR, vagou pela Europa. Na Itália fez sua primeira exposição – e vendeu tudo, mesmo sem ser escultor ou desenhista. Na ocasião, estabeleceu-se a deliciosa contradição da sua vida. Ele se vê como escritor – dado ao conto e à poesia –, mas os seletos que se aproximam dele se rendem, sobretudo, à engenhosidade dos desenhos que faz, em especial os realizados com a ponta de um estilete. O livro Bicicletas de Montreal, produzido no breve período vivido no Canadá, é uma prova disso. Os felizes proprietários de um exemplar o exibem aos amigos e cumprem o ritual: “Esse é o Carlos Dala Stella”. Quando dizem isso, o artista está onde sempre esteve – num terreno escondidinho, nas cercanias do Bosque São Cristóvão, em Santa…

Os avós, os pais, os irmãos, Carlos e seus dois filhos – o cineasta Matias e o filósofo Gabriel –, todos nasceram e cresceram no mesmo lugar. Não é espaço luxuoso – o patriarca dos Dala Stella trabalhava como caminhoneiro e tinha ciência para a marcenaria, o que explica muita coisa. “Acho que herdei a habilidade dele”, diz Carlos, numa rara concessão ao autoelogio. A casa com quintal está preservada, com muitas árvores – que barato os pinheiros gigantes. O poeta-artista sabe nominá-las, assim como a qualquer matinho secundário e passarinhos que porventura apareçam por lá. Da varanda, vê-se o bairro italiano por cima da copa das árvores, paisagem interrompida apenas pela torre da Igreja São José. O proprietário quase não sai dali. Vez ou outra recebe alunos de publicidade, trazidos pelo amigo André Tezza, ou visitantes para as esparsas exposições que monta no ateliê, sem pompa.

Durante um bom período, o sustento da casa vinha de aulas de escrita para doutorandos, mestrandos e vestibulandos. Até a gota d’água. Carlos se tornou um daqueles casos invejáveis de cidadão que consome pouco, vive sem precisar de muito e, em troca, tem horas e horas para cultivar a cultura, essa amante exigente. “Corto meu cabelo”, avisa. Os dias no imenso ateliê erguido com tijolo bruto são longos, ocupados com música de qualidade, leituras e produção sem peias. Um sem-número de poemas acaba por ser concluído na cama, madrugada adentro. Quanto à produção gráfica e as pinturas, é variada, produzida sem pressa. “Para que tanta mesa?”, sussurrou uma conhecida, dia desses. São para produzir melhor, em diferentes pontos do espaço, de onde enxerga de outra maneira.

Acerta quem suspeita que, a essa altura de tanta entrega, a obra de Carlos Dala Stella seja… gigante. Apenas A arte muda da fuga tem 110 poemas selecionados – dentre os produzidos entre 2014 e 2015 (“nunca o silêncio me foi indiferente, cada vez mais interfiro na trama de seus fios transparentes / quem sabe dessa parceria um dia surja a arte muda da fuga”). Dá para imaginar a lenha que foi escolhê-los. As paredes estão repletas de telas e, pelos cantos, os relevos monumentais, técnica aprendida com Poty. Ali se esconde também um dos, digamos, tesouros de Dala Stella: os diários. São cravados 70 livros, produzidos ao longo de 39 anos. Mas não são livrinhos. Somam entre 15 mil e 20 mil páginas. Precisam ser vistos numa mesa, tamanhos. Pretos, capa-dura e costurados nas mais diversas técnicas das antigas impressoras – “aprendi a fazer na internet” –, guardam reflexões do artista sobre tudo.

Não tomem os diários pelos nossos caderninhos suarentos, escondidos nalguma gaveta para a mãe não achar. Trata-se de obras de arte, de primeiríssima. Os escritos são intercalados com desenhos – inclusive os feitos com recortes de estilete –, colagens, e por versos, ali transcritos assim que concluídos, com lápis de cor. Um primor gráfico. Nenhum dos cadernos de Carlos está à venda. No máximo, foram vistos ali mesmo, por meia dúzia de eleitos. Ainda que admita não gostar da palavra, o “virtuosismo” das figuras construídas com vazados impressiona tanto que nos rouba atenção da poesia. Ele se chateia com a escolha, é claro. Tive a honra de ver uma parte da produção de arte erótica guardada nos diários. Pedem silêncio. Essa parte da produção “depende de quem estiver namorando no momento”, brinca. Uma amostra dessa categoria de obras ilustra o livro Bilhetes para Wallace, de Paulo Venturelli, lançado pela Kotter Editorial em 2017.

Os amigos-descobridores, como Venturelli, arrumam pretextos para romper o quase anonimato de Dala Stella, condição da qual, creiam, não lhe rouba um minuto de sono. Simples entender. Por força dos dois filhos muito jovens, Carlos se tornou um observador sagaz da mocidade. Admira-lhe o cuidado que eles têm pelo planeta, o respeito às diferenças, a tal da “espiritualidade laica”, para emprestar aqui a expressão cunhada pelo filósofo francês Luc Ferry. A convivência com a moçada lhe deu a convicção de que o trabalho que faz não precisa ser consumido agora. É seu testamento para o futuro. Lá… na frente, acredita, alguém entenderá a despretensão da poesia que escreve todos os dias, os desenhos cheios de tesão e por que é tão saudável ter tantas mesas espalhadas pela casa, de onde se pode ver – ainda que um microespaço – de mais de um ângulo. Sim, a obra desconhecida de Carlos Dala Stella é um documento visual e poético para o amanhã. Para concluí-lo, ele precisa da solidão de um quintal em Santa Felicidade.
***
A arte muda da fuga, de Carlos Dala Stella, tem lançamento neste sábado, dia 10, na Livraria Arte e Letra (Rua Dom Pedro II, 44), a partir das 11 horas."

terça-feira, 28 de agosto de 2018

CANDELIERE
         ad Antonio Candela

c’è una candela nella demenza
che brucia piú del sole al mezzogiorno
ma non è giallo il suo fuoco
né fatto di infiammato rossore
proprio il rovescio: è bianco
l’alone della sua circonferenza
e s’ingrandi come una luna
sempre più piena di se

la candela della demenza
fa fiorire ieri i fiori di domani
e piove senza acqua
tutto un diluvio di stupore
ma dentro la coperta barca
non ci manca nemmeno uno degli piccoli
o grandi animali del mondo
innominati ad uno ad uno

fuori del cercchio della demenza
orbitano gli stessi occhi illuminati
nello stesso buio universale
forse dimenticare sia uno specchio
provvidenziale che anticipa
le nuvole in noi, il ceruleo cielo
e gli uccelli che qualcuno vedrà
come se nulla fosse cambiato

27.06.2018
carlos dala stella

Num domingo à tarde, Antonio Candela me mandou uma mensagem pedindo se eu escreveria um poema sobre a demência, dedicado a ele. Uma semana antes ele havia expedido seu livro IO SONO ANCORA QUI, do sul da Itália, para o sul do Brasil. A franqueza daquele pedido inusitado, nunca me haviam pedido um poema antes, e sobre um tema tão delicado, o Alzheimer, me pôs em cheque e me fez aceitar no ato. Eu planejava ler o livro e só depois partir para o poema.

Antes de conhecê-lo, tive dois confrontos indiretos com a doença. Um em Sampa, quando uma amiga me apresentou sua mãe, portadora de Alzheimer. Foi num jantar delicioso, descontraído, quando pude presenciar a conversa franca entre ambas. Em alguns momentos o grau de consciência da mãe era tão grande, conforme nos contou a filha, que ela se autoanalisava. Mas os lapsos também eram grandes, a ponto dela confundir sua casa com a da filha.

O outro confronto, mais próximo, foi com a terceira avó de meus filhos, que aos poucos vai perdendo fatias cada vez maiores da memória. Uma mulher que é uma nascente viva de afetividade, e inesgotável, cujas mãos fizeram-se ninho para a infância de muitas crianças. Sobre ela Matias, meu filho mais velho, fez um média-metragem chamado CINCO ESTAÇÕES NO CASULO DO TEMPO.

Como disse antes, eu pretendia ler o livro de Antonio Candela e só depois partir para o poema. Mas antes que o livro chegasse, numa madrugada insone do final de junho, sentei na cama e durante duas horas de absoluto silêncio escrevi verso a verso o poema. Na manhã seguinte fiz os reparos necessários e enviei o poeminha a quem ele foi dedicado.

Faço aqui uma única observação sobre o poema, intitulado CANDELIERE, candelabro em italiano, numa referência explícita ao sobrenome de Antonio Candela. Candela, em italiano, é literalmente vela. Não resisti a usar essa referência como imagem principal do poema, meu candelabro verbal de três estrofes/velas.


domingo, 24 de junho de 2018


COPA DO MUNDO
                                      para Marilia Kubota


me descrevem o que estou perdendo


engulo um a um os versos que escrevi
o sol de meus sonhos passando
pelo buraco da agulha
esse silêncio imperativo que volta
a se fazer sobre a face do mundo
e que vara a calma das horas
mentiroso e assassino


me narram os gols da prorrogação


engulo rajadas apocalípticas
dos caveirões do céu e da terra
uma a uma as últimas palavras
do piá se esvaindo nos braços da mãe
cada escama da esperteza ingênua
e frágil que vai se descolando
do corpo meio vivo, meio morto


me contam que o craque chorou


engulo minhas lágrimas privadas
e escondo a caixa preta
quem quiser que siga o lance
pela tela de plasma, o controle na mão
nós seguimos descontrolados
toneladas de alegria e penas
na caçamba, pela contramão


inédito de Carlos Dala Stella


domingo, 27 de maio de 2018

Niobe Xandó, da série RETRATOS


Colagem a partir de foto de Niobe Xandó, artista brasileira para quem escrita e pintura são indissociáveis. Com ela dou prosseguimento à série de retratos, iniciada há trinta anos, de artistas que admiro, vivos e mortos, brasileiros e estrangeiros, escritores e pintores, amigos próximos ou distantes.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Emily Dickinson, poema 77



nunca ouço a palavra 'fuga'
sem que o coração
me saia pela boca
na iminência de voar

nunca ouço que arrombaram
uma prisão, sem sacudir
estas grades, na ilusão
de ganhar liberdade

tradução de Carlos Dala Stella

Primeiro quis traduzir a urgência do sentimento de fuga, ou de aprisionamento, desincumbido dos recursos técnicos do original, depois fazer uma variação interpretativa desse sentimento, que de alguma forma é aparentado com minha arte muda da fuga, embora aqui a ênfase recaia sobre o silêncio mudo de meu diálogo com o mundo. E finalmente acabei ganhando essa liberdade abstrata que os pintores exercitam reinterpretando pinturas famosas, de artistas que admiram, e que lhes permite de um lado alargar a própria fala, de outro botar mais um elo nessa corrente de imaginação que dá volta ao mundo. 
I never hear the word “escape”
Without a quicker blood,
A sudden expectation
A flying attitude!
I never hear of prisons broad
By soldiers battered down,
But I tug childish at my bars
Only to fail again!
Emily Dickinson

segunda-feira, 13 de março de 2017

A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS de PAULO VENTURELLI


A sensibilidade delicada de PAULO VENTURELLI é peça rara no quebra-cabeças da literatura nacional. Independentemente do tema, ele toca na palavra com um cuidado e com um ardor inventivo que fazem dele um poeta da linhagem de Mario Quintana e Manoel de Barros, especialmente quando escreve ficção, como nesse A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS. A inspiração e o labor resultam tão imbricados que seria impossível separá-los. Em tempos de maniqueismo e barbárie, como o presente, a literatura de VENTURELLI é uma manhã de frescor em nossas vidas.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Seamus Heaney



UM ARTISTA


Adoro o cismar de sua ira. 
A obstinação contra a pedra, a tensão
sobre a carnadura das maçãs verdes. 

Como ele se fazia de cachorro, latindo
para a imagem rosnenta de si mesmo.
E o ódio à própria ideia do trabalho
como única coisa que funcionava - 
a vulgaridade de se submeter sempre
ao reconhecimento e à admiração
consentindo em ser roubado. 

Como atuava sua força, adensada
porque agir era sua sabedoria. 
Sua testa à mostra como bola 
de bocha atravessando o espaço virgem
atrás da maçã e da montanha. 


Tradução de Carlos Dala Stella

Resultado de imagem para cezanne pomme vertes



An Artist


I love the thought of his anger.
His obstinacy against the rock, his coercion
of the substance from green apples.
The way he was a dog barking
at the image of himself barking.
And his hatred of his own embrace
of working as the only thing that worked –
the vulgarity of expecting ever
gratitude or admiration, which
would mean a stealing from him.

The way his fortitude held and hardened
because he did what he knew.
His forehead like a hurled boule
travelling unpainted space
behind the apple and behind the mountain.

Seamus Heaney

Cézanne, Mont Sainte-Victoire

domingo, 29 de janeiro de 2017

ENIGMAS


olho pro céu e vejo o incompreensível
olho pro quintal e vejo vaga-lumes
piscando o silêncio úmido da noite

na laranjeira junto ao quarto
um luze-lume acende a laranja e apaga

como é vasto o desconhecido
desconheço cada partícula de minha vastidão

o que eu sei faz silêncio em mim
desde antes de eu nascer

em minha ignorância sempre cabe mais um espanto

a noite é comigo
e eu sou uma multidão de desconhecidos

esses cachorros devo ser eu latindo a escuridão

à noite ausculto o mundo da janela
as árvores tão paradas
é assombroso e incompreensível

os primneiros pingos da chuva são partículas
de milagre que despencam do céu

a natureza só existe em polifonia

os primeiros pingos nas folhas
prometem um paraíso de ingenuidades

a cada noite que passa morro um pouco
e o pouco que sobra mais me vivifica

é tanto desencontro de beleza
que eu não caibo em mim

se eu soubesse chover dormiria menos aflito

sem o disfarce da repetição como suportaríamos
esse entorno contínuo de fatalidades?

de madrugada passo horas à janela
pasmo das ternuras que perdi

contemplar é mil vezes mais atento
e silencioso do que se distrair

desde criança a chuva me fascina
os vaga-lumes me iluminam
e a noite me desperta os enigmas

inédito de Carlos Dala Stella

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Emily Dickinson / 7


Se eu não estiver viva
Quando as Sabiás chegarem,
Dê à de Peito Vermelho
Migalhas em meu Nome.

Se eu não disser obrigado,
Tanto o sono me devora,
Saibam que tento mover
Lábios de Mármore agora!

Tradução de Carlos Dala Stella

182; c.1860/1890

If I shouldn't be alive
When the Robins come,
Give the one in Red Cravat,
A Memorial crumb.

If I couldn't thank you,
Being fast asleep,
You will know I'm trying
Why my Granite lip! 

















"Oxeye-daisy" in Emily Dickinson. Herbarium, ca. 1839-1846. MS Am 1118.11. Gift, Gilbert H. Montague, 1950. © President and Fellows of Harvard College.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

CADERNOS DE ATELIÊ / NEBULA

Esse mini doc sobre meus cadernos de ateliê foi feito por Victor Spadotto e Leo Bourscheid, do canal Nebula, a quem sou grato pela generosidade da iniciativa e pela delicadeza do resultado. 

Os cadernos são um filão que abri, sem saber, lá no início da adolescência. Desde então trabalho neles, em torno de 15 mil páginas, com desenhos, recortes, aforismos, reflexões sobre artes plásticas e literatura, sonhos e sobretudo poemas. Lá está a raiz de O caçador de vaga-lumes, O gato sem nome, Bicicletas de Montreal e Quer Jogar?, entre outros livros. É um pouco desses cadernos que dividimos com você. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

QUEM DIRIA


todos os dias tranço
as várias franjas de silêncio
que o vento sopra e balança

e colho cada moedinha de luz
que a manhã espalha na grama

quem diria que o sentido
fosse tão dispensável à vida
e mesmo assim tão genuína
a alegria