segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Emily Dickinson / 2


Pisei Tábua após Tábua
Lenta e cautelosamente.
Sobre a Cabeça, as Estrelas
E o Mar, sob os Pés.

Sem saber se o próximo
seria o último passo –
Vem daí minha Marcha incerta
Que alguém chama Experiência.


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I stepped from Plank to Plank
A slow and cautious way
Tha Stars about my Head I felt
About my Feet the Sea.

I Knew not but the next
Would be my final inch –
This gave me that precarious Gait
Some call Experience.

Tradução de Carlos Dala Stella

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Emily Dickinson


Sou ninguém! E você, é quem?
Ninguém – também?
Então formamos um par?
Fale baixo – seríamos condenados!

Que tristeza – ser Alguém!
Que Celebridade – a do Sapo –
coaxar o próprio nome –
para as cintilâncias do Banhado!



I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – too?
Then there’s a pair of us?
Don’t tell they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

Tradução de Carlos Dala Stella

Que me perdoe Augusto de Campos, com sua bela e erudita tradução desse poema de Emily Dickinson, mas de anonimato entendo eu.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

poemas de madeira / 4









Estas esculturas, chamo-as de poemas de madeira porque seu sentido me escapa, porque de alguma forma elas me devolvem a um espaço de essencialidade onde o mundo se resume ao rés do chão. E à delicadeza densa que há nele, simples como a madeira, como uma pedra, inequívocas.

Estas esculturas, elas são feitas de bambu, barbante, madeira, pedra e papel arroz. Quase todas foram surgindo de sonhos, de visões fragmentadas que depois tento recuperar, não como quem costura pedaços avulsos. Mas tentando sempre me manter fiel a uma impressão geral que esses sonhos causam em mim. 

Estas esculturas, me surpreendo a cada instante quando trabalho nelas, com o rumo que as coisas vão tomando, imprevisto, apesar de um fio guia intuitivo que me alimenta. O sentido que há nelas, procuro tocá-lo desprovido das palavras, mas com as mãos todas dos olhos, tateantes. Com um medo tremendo que sua fragilidade se perca. E agradeço pela leveza com que elas se dão.   

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Eugenio Montale, 2

Cada poema traduzido me custa meses. Pela dificuldade de encontrar a palavra que melhor traduza aquilo que, imagino, o autor quis dizer; e de fazê-la ocupar seu lugar preciso no corpo do poema vertido para a língua portuguesa. Sem essa integridade semântica, que dá à versão de certos poemas uma autonomia misteriosa, nenhuma tradução vale a pena. Todo bom poema é um corpo vivo, um enfeixamento inequívoco de significados em tensão permanente. Recriá-lo em outra língua é uma operação delicada e a língua portuguesa oferece um arsenal amazônico de delicadezas, muitas delas ainda indomadas. Além das dificuldades tantas vezes apontadas. Embrenhar-se nessa empreitada significa expor-se a dificuldades intransponíveis, mas com que prazer ela permite nanusear o corpo da língua portuguesa. 

Por isso, quando no início dessa semana li que Nikos Kazantzakis, além da vastidão do que escreveu, ainda traduziu a Divina Comédia, a Ilíada, Fausto, Otelo, os poetas espanhóis modernos e Tagore... fiquei envergonhado e decidi retomar ainda uma vez a tradução do poema Minha musa, de Eugenio Montale, não como "remédio seguro contra o tédio", segundo as surpreendentes palavras do escritor grego, mas pelo prazer miúdo de transplantar uma nova espécie para o jardim semântico da língua portuguesa.


MINHA MUSA

Já vai longe minha musa: talvez
nunca tenha existido (como crê a maioria).
Mas se uma houve, veste trapos de espantalho
improvisado sobre o tabuleiro verde das videiras.

Esvoaça como pode; resistiu ao vento
ficando reta, só um pouco inclinada.
Se o vento para, continua a agitar-se
como se me dissesse: caminha sem medo,
enquanto te puder ver, terás vida.

Minha musa há muito deixou um armário
com trajes de teatro; saía dele o refinamento
com que se vestia. Um dia se encheu de mim
e se foi, orgulhosa. Hoje ainda resta uma manga;
com ela dirige um quarteto de sopros,
a única música que suporto.



LA MIA MUSA

La mia Musa è lontana: si direbbe
(è il pensiero dei più) che mai sia esistita.
Se pure una ne fu, indossa i panni dello spaventacchio
alzato a malapena su una scacchiera di viti.

Sventola come può; ha resistito a monsoni
restando ritta, solo um po’ ingobbita.
Se il vento cala sa agitarsi  ancora
quasi a dirmi cammina non temere,
finché potrò vederti ti darò vita.

La mia Musa ha lasciato da tempo un ripostiglio
di sartoria teatrale; ed era d’alto bordo
chi di lei si vestiva. Un giorno fu riempita
di me e ne andò fiera. Ora ha ancora una manica
e con quella dirige un suo quartetto
di cannucce. È la sola musica che sopporto.

Tradução de Carlos Dala Stella

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

vir a ser


como custa a passar
o tempo que não para
um segundo de me escapar

como custam a fluir
esses minutos que a noite
logo vai engolir

como custam a secar
as vagens vazias das horas
sempre indo embora

como custa a transcorrer
esse dia que me faltará
pouco antes de morrer

quanto desperdício
me custa o vir a ser

poema inédito de Carlos Dala Stella

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

sábado, 24 de dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

A forma mora nele

Sentir em mim tem um corpo. Quando você me sente, nossos corpos se tocam.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

2ª EXPO DE ATELIÊ / convite



Nesta exposição de ateliê, abro as portas de meu estúdio para mostrar o trabalho que realizei no último ano, como a série completa de telas e desenhos sobre o tema dos gatos à janela, com flores, painéis de cimento e vidro e especialmente o conjunto de pequenas esculturas monumentais em que trabalho atualmente, em madeira, bambu e papel arroz. Também estarão expostos alguns cadernos de ateliê, com desenhos, recortes, esboços e poemas; além de fotos da série sombras.


Se você é curioso e gosta de arte, venha para a vernissage.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

4 gatos ao sol


Insisto com esses gatos, não sei porque; eles insistem em mim. A janela se reduziu a persianas estilizadas, o verde de tantas janelas antigas, as flores-luminárias, esse ar distendido, alheio ao corre-corre, o silêncio... Sobretudo o silêncio, esse silêncio metafísico que reduz as almas ao seu nó vital, no interior do corpo, no interior das casas, entregues ao doce desamparo do mundo. Silêncio ao rés-do-chão, quente, que distende mais do que constrange. Que não serve para nada, num mundo cada vez mais cheio de ruídos, de funções, de processos, de atividade frenética e insessante. Esses gatos são minha porção animal mandando à merda a civilização em mim, em você também.
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