segunda-feira, 13 de março de 2017

A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS de PAULO VENTURELLI


A sensibilidade delicada de PAULO VENTURELLI é peça rara no quebra-cabeças da literatura nacional. Independentemente do tema, ele toca na palavra com um cuidado e com um ardor inventivo que fazem dele um poeta da linhagem de Mario Quintana e Manoel de Barros, especialmente quando escreve ficção, como nesse A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS. A inspiração e o labor resultam tão imbricados que seria impossível separá-los. Em tempos de maniqueismo e barbárie, como o presente, a literatura de VENTURELLI é uma manhã de frescor em nossas vidas.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Seamus Heaney



UM ARTISTA


Adoro o cismar de sua ira. 
A obstinação contra a pedra, a tensão
sobre a carnadura das maçãs verdes. 

Como ele se fazia de cachorro, latindo
para a imagem rosnenta de si mesmo.
E o ódio à própria ideia do trabalho
como única coisa que funcionava - 
a vulgaridade de se submeter sempre
ao reconhecimento e à admiração
consentindo em ser roubado. 

Como atuava sua força, adensada
porque agir era sua sabedoria. 
Sua testa à mostra como bola 
de bocha atravessando o espaço virgem
atrás da maçã e da montanha. 


Tradução de Carlos Dala Stella


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An Artist


I love the thought of his anger.
His obstinacy against the rock, his coercion
of the substance from green apples.
The way he was a dog barking
at the image of himself barking.
And his hatred of his own embrace
of working as the only thing that worked –
the vulgarity of expecting ever
gratitude or admiration, which
would mean a stealing from him.

The way his fortitude held and hardened
because he did what he knew.
His forehead like a hurled boule
travelling unpainted space
behind the apple and behind the mountain.

Seamus Heaney

Cézanne, Mont Sainte-Victoire

domingo, 29 de janeiro de 2017

ENIGMAS


olho pro céu e vejo o incompreensível
olho pro quintal e vejo vaga-lumes
piscando o silênio úmido da noite

na laranjeira junto ao quarto
um luze-lume acende a laranja e apaga

como é vasto o desconhecido
desconheço cada partícula de minha vastidão

o que eu sei faz silêncio em mim
desde antes de eu nascer

em minha ignorância sempre cabe mais um espanto

a noite é comigo
e eu sou uma multidão de desconhecidos

esses cachorros devo ser eu latindo a escuridão

à noite ausculto o mundo da janela
as árvores tão paradas
é assombroso e incompreensível

os primneiros pingos da chuva são partículas
de milagre que despencam do céu

a natureza só existe em polifonia

os primeiros pingos nas folhas
prometem um paraíso de ingenuidades

a cada noite que passa morro um pouco
e o pouco que sobra mais me vivifica

é tanto desencontro de beleza
que eu não caibo em mim

se eu soubesse chover dormiria menos aflito

sem o disfarce da repetição como suportaríamos
esse entorno contínuo de fatalidades?

de madrugada passo horas à janela
pasmo das ternuras que perdi

contemplar é mil vezes mais atento
e silencioso do que se distrair

desde criança a chuva me fascina
os vaga-lumes me iluminam
e a noite me desperta os enigmas

inédito de Carlos Dala Stella

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Emily Dickinson / 7


Se eu não estiver viva
Quando as Sabiás chegarem,
Dê à de Peito Vermelho
Migalhas em meu Nome.

Se eu não disser obrigado,
Tanto o sono me devora,
Saibam que tento mover
Lábios de Mármore agora!

Tradução de Carlos Dala Stella

182; c.1860/1890

If I shouldn't be alive
When the Robins come,
Give the one in Red Cravat,
A Memorial crumb.

If I couldn't thank you,
Being fast asleep,
You will know I'm trying
Why my Granite lip! 

















"Oxeye-daisy" in Emily Dickinson. Herbarium, ca. 1839-1846. MS Am 1118.11. Gift, Gilbert H. Montague, 1950. © President and Fellows of Harvard College.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

CADERNOS DE ATELIÊ / NEBULA

Esse mini doc sobre meus cadernos de ateliê foi feito por Victor Spadotto e Leo Bourscheid, do canal Nebula, a quem sou grato pela generosidade da iniciativa e pela delicadeza do resultado. 

Os cadernos são um filão que abri, sem saber, lá no início da adolescência. Desde então trabalho neles, em torno de 15 mil páginas, com desenhos, recortes, aforismos, reflexões sobre artes plásticas e literatura, sonhos e sobretudo poemas. Lá está a raiz de O caçador de vaga-lumes, O gato sem nome, Bicicletas de Montreal e Quer Jogar?, entre outros livros. É um pouco desses cadernos que dividimos com você. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

QUEM DIRIA


todos os dias tranço
as várias franjas de silêncio
que o vento sopra e balança

e colho cada moedinha de luz
que a manhã espalha na grama

quem diria que o sentido
fosse tão dispensável à vida
e mesmo assim tão genuína
a alegria