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sábado, 21 de maio de 2011

E. M. Cioran 2

Traduzo mais um excerto do filósofo romeno Cioran, agora retirado da entrevista concedida a Luis Jorge Jalfen, em 1982. E não consigo deixar de pensar nesse mar de telas que simultaneamente nos conectam e nos isolam uns dos outros.

SOLIDÃO

A catástrofe, para o homem, é que ele não consegue ficar sozinho. Não há sequer uma pessoa que consiga ficar só consigo mesma. Atualmente, todos os que deviam viver consigo mesmos se apressam em ligar a televisão ou o rádio. Acredito que se um governo acabasse com o televisor, os homens se matariam uns aos outros nas ruas, porque o silêncio os aterrorizaria. Antigamente, as pessoas ficavam muito mais tempo consigo mesmas, durante dias e meses, mas hoje isso não é mais possível. É por isso que se pode dizer que a catástrofe está aí, que nós vivemos catastroficamente.  

SOLITUDE

La catastrophe, pour l’homme, vient du fait qu’il ne peut rester seul. Il n’y a pas une seule personne qui puisse rester seule avec elle-même. Actuellement, tous ceux qui devraient vivre avec eux-même s’empressent d’allumer le téléviseur ou la radio. Je crois que si un gouvernement supprimait la télévision, les hommes s’entre-tueraient dans la rue, parce que le silence les terroriserait. Dans un lointain passé, les gens demeuraient beaucoup plus en contact avec eux-mêmes, pendant des jours et des mois, mais à présent, ce n’est plus possible. C’est pour cela que l’on peut dire que la catastrophe s’est produite, que nous vivons catastrophiquement.

Tradução: Carlos Dala Stella

sexta-feira, 20 de maio de 2011

E. M. Cioran

Desde 2003 leio sistematicamente o romeno Emil Cioran. Apesar de toda sua amargura e niilismo, frequentemente me pego rindo dos meandros de seu pensamento, como me ocorre quando leio Kafka. Há algo de cômico em sua tragicidade, que fica ainda mais evidente em seu uso constrito da língua francesa. Seus aforismos parecem se ater somente ao produto, à soma final, à conclusão, o que vai de par com certa agudeza no uso da linguagem..

BACH

Sem Bach, Deus seria menor. Sem Bach, Deus seria um tipo de terceira grandeza. Bach é a única coisa que dá a impressão de que o universo não é falho. Tudo nele é profundo, real, sem teatro. Não dá pra suportar Liszt depois de Bach. Se há um absoluto, é Bach. [...] Sem Bach, eu seria um niilista completo.

BACH

Sans Bach, Dieu serait diminué. Sans Bach, Dieu serait un type de troisième ordre. Bach et la seule chose qui vous donne l’impression que l’univers n’est pas raté. Tout y est profond, réel, sans théâtre. On ne peut supporter Liszt après Bach. S’il y a un absolu, c’est Bach. [...] Sans Bach, je serais un nihiliste absolu.

Avec Benjamin Ivry, 1989

Tradução: Carlos Dala Stella