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segunda-feira, 1 de junho de 2020

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Diário de Ateliê 41/Dala Stella





O BARQUINHO

um barquinho de três centímetros
singra a mesa da cozinha
o mar ignoto é de granito
o casco e o velame
uma figurinha delicadamente dobrada
pelas mesmas mãos que à noite
nas profundezas abissais do sono
procuram as minhas
cegas de paixão
e videntes de carinho

(poema inédito/carlos dala stella)

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Recriações / Picasso 3

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O retrato caiu em desuso, o retrato de ateliê, com tinta, grafite, arame, argila. Não entre as crianças, felizmente, nem entre os pintores de final de semana. Talvez por conta da abstratização nem tanto da arte em si, iniciada há cem anos, mas do discurso artístico mantido vivo ainda hoje no grande circuito das bienais, galerias e leilões mundo afora. De qualquer modo, o retrato resiste num mundo meio à parte. Tomar o rosto de alguém como pretexto para um trabalho, e não se trata mais do que isso, significa explorar uma topografia riquíssima, à qual subjaz um substrato ainda mais rico de possibilidades. Esse jogo de desvelamento, por mais velozmente que se resolva, embora possa durar dias intermináveis, esconde a construção compósita de um rosto espelhado, misto do que vemos a nossa frente e do que supomos ver, feito de nossas próprias marcas de identidade, incluídas as idiossincrasias. Explorar essa pequena baía é um prazer; não há paisagem humana tão adensada de sentidos. Não chega a ser um grande prejuízo os retratados quase nunca ficarem satisfeitos com o resultado. A exploração plástica já coletou uma vértebra que seja do inominável que supomos estar descobrindo.

Recriações / Picasso 2

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Há artistas incontornáveis. Pablito é um deles. Fecundo, exuberante, destruidor, genial mesmo nas precariedades. Gosto de pensar que o grande artista é aquele que deixa transparecer sua personalidade tanto nos acertos como nos erros. Porque alguns artistas são tão ímpares que não conseguem errar senão de modo personalíssimo. Há equívocos incontornáveis na história da arte. Tatear como um cego os avanços e recuos, as hesitações, os ímpetos camicazes desses erros permite desvelar os mecanismos mais íntimos de elaboração da obra, sem meias verdades, sem mistificação. O erro, mais do que o acerto, deixa transparecer de que ímpeto é feita a tecitura de uma tela, uma escultura, um desenho. O erro: essa mina.

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Recriações / Picasso 1

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O dia-a-dia do ateliê também é feito de recriações. Copiando se aprende sem dispor das palavras. Porque as palavras não dão conta da imensidão de estar vivo. De minha parte, para que o exercício não se reduza ao lugar-comum do grafite ou do nanquim, essenciais, copio com estilete. Recortar me coloca problemas que tenho que resolver na urgência do traço, sem possibilidade de correção. Satisfaz-se a curiosidade correndo uma série de pequenos riscos. Essas recriações dão a medida, ainda que em escala mínima, mas sempre de modo inequívoco, da amplitude de nossa imaginação ou de seu raquitismo. Põe-se à prova, como em treinamento. E sem exercícios diários não há curiosidade que nos salve.

domingo, 20 de janeiro de 2019

A BELEZA DOS BICHOS



A BELEZA DOS BICHOS
os bichos
que triste seria o mundo sem os bichos
como viver sem o silêncio voluntarioso
e elástico do gato
sem esses dois planetas de ternura
com que o cachorro nos vê
sem a delicadeza fragilíssima e alada
de um passarinho
sem o espetáculo conciso e coordenado
de lentidão
da tartaruga da preguiça do jabuti
e a galinha
com seus movimentos pasmos de perna e pescoço
bruscos de parvo pânico
e esses barulhentos besouros de carcaças secas
pendulando no ar
e o ilusionismo mudo dos vaga-lumes
o corpo metafísico dos grilos
triste da criança que não conhece
o aquário de milagres
que desliza sinuosamente nos olhos do peixe
que não provocou, com um graveto
um curto-circuito
no carreiro de formigas carregadeiras
tenho tanta pena
do adulto que nunca viu a luz passando
pelo vitral das asas de uma libélula
sem os bichos
estaríamos muito mais sós
e a grandeza de deus
seria infinitamente menor
que a beleza ágil de uma lagartixa
Carlos Dala Stella, do livro A Arte Muda da Fuga
O colagem do gatinho foi feita em um dos 40 cardápios da Aldeia do Beto, em Curitiba, do querido amigo Robert Amorim. Foram mais de quatrocentos desenhos e recortes originais, que devem estar por aí, espalhados pelo mundo.
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terça-feira, 27 de novembro de 2018


APRENDIZADO

tão longo o aprendizado
pra chegar no mesmo lugar
onde nossos antepassados chegaram
pra cair exatamente
no mesmíssimo buraco
e no entanto nossos amores
proibidos e absolutos foram todos
intimamente particulares


tão vário o aprendizado
tão moderno e diverso daquele
de nossos queridos pais
e no entanto o deserto florido
a que chegamos é o mesmo
deserto de nossos ancestrais
a mesma areia entre os dedos
os mesmos cegos girassóis

de uma alegria tão doce
e genuína, e tão imprevista
que nem chega a ser aprendizado
é vida que sucede à vida
e no entanto acabamos
desaguando no mesmo rio
de peixes imemoriais
que vai dar no sal do mar

tanto ímpeto desse corpo
tanto esforço renovado
e tanto gozo na lida amorosa
com o corpo cheio de paraísos
e armadilhas do outro
e no entanto não aprendemos
nada de novo senão reavivar
o espírito rubro do fogo

Carlos Dala Stella, 
do livro A ARTE MUDA DA FUGA


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terça-feira, 13 de novembro de 2018

A Arte Muda da Fuga, página de guarda e orelha

Página de guarde e segunda orelha. São umas 120 páginas de poemas, mais fotos de recortes de meus Diários de Ateliê, intercalando os blocos temáticos, além de um posfácio da Marta Morais da Costa. As fotos do livro são de Pith Raid e minhas. 


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

caderno de ateliê 61 / 17














And now the final frame. Com esta cabeça em dobradura fecho o diário de ateliê 61. No verso desse recorte, na última página, um pequeno poema/aforisma:

                              POTERE

                              tu sei al mondo
                              perchè c'è posto
                              dice l'uccellaccio
                              all'uccellino
                                                                                
Inédito de Dala Stella

domingo, 2 de outubro de 2016

caderno de ateliê 61 / 15




Seria possível continuar desenhando pelo resto da vida. Cada desenho é uma passagem, de um ímpeto para outro ímpeto. No corpo de cada ímpeto, por menor que ele seja, há sempre uma vastidão sem sentido de eternidade. Desenhar é fazer conjeturas e refutações sobre um sentido momentaneamente eleito, para logo em seguida partir para nova tentativa, e assim sucessivamente até que a roda nos pareça redonda o suficiente. Quem vê de fora vê desenhos; quem vê de dentro não vê, sente-se fluxo, entre acidentes pacientemente elaborados ou inesperados. Cada desenho é uma passagem; quando alguém entra, não estamos mais lá, mas alguém vai nos representar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

caderno de ateliê 61 / 13




























E assim esses rostos da última quinta parte do caderno vão se afastando mais e mais dos primeiros, sobras dos recortes para o livro BILHETES PARA WALLACE, de Paulo Venturelli. Quando menos esperava, esse barbudo picasseano sobre azuis de Ianelli. Ainda uma vez lembro de Poty: descarregos, esses recortes são meus descarregos, quando estou de varde, entre uma tela e outra, entre um poema e outro. Como o livro das bicicletas, como o livro dos jogos, volto que volto às variações sobre o mesmo tema. São minhas chaconas - que ofereço aos curiosos que eventualmente passarem por aqui.