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segunda-feira, 1 de junho de 2020

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Diário de Ateliê 41/Dala Stella





O BARQUINHO

um barquinho de três centímetros
singra a mesa da cozinha
o mar ignoto é de granito
o casco e o velame
uma figurinha delicadamente dobrada
pelas mesmas mãos que à noite
nas profundezas abissais do sono
procuram as minhas
cegas de paixão
e videntes de carinho

(poema inédito/carlos dala stella)

quinta-feira, 28 de março de 2019

Como escreve Carlos Dala Stella

Carlos Dala Stella é poeta-pintor.
Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Nos últimos três, quatro anos tenho acordado bem tarde, às vezes depois do meio-dia. Depende até que horas fiquei trabalhando, no ateliê ou em casa mesmo. Faço exercícios por 40, 45 minutos, muito lentamente, como quem medita. Enquanto preparo meu café, olho pela janela: lá estão a torre da igreja de Santa Felicidade, a copada das árvores, cobrindo quase completamente o dorso do bairro. Algumas vezes o sol esplende, outras a neblina engolfa as araucárias e os podocarpus lambertii – a tal Curitiba londrina! Depois de comer algumas frutas e tomar café, desço para o ateliê, a 50 metros de casa, atravessando um pequeno bosque. Com algumas interrupções trabalho por 12, 14 horas, todos os dias. Mas é óbvio que contada assim essa rotina é teatral; as coisas se dão muito mais naturalmente, com pequenas variações. O mais importante de tudo é o silêncio. Passo dias inteiros sem pronunciar uma palavra.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
Prefiro as madrugadas, o silêncio quase absoluto. Assim posso trabalhar por estirões de duas, três horas sem interrupção. Mas acordo e durmo escrevendo, e escrevo entre uma tela e outra, entre um desenho e outro: reflexões sobre artes plásticas, sobre a natureza dos materiais, sobre trabalhos que estou fazendo, escólios de leitura, poesia e alguma ficção. O que mais se aproxima de um ritual é escrever em meus diários de ateliê. Faço isso há 41 anos, quase todos os dias. Com o tempo escreve-se pelo prazer e pela necessidade de nos desdobrarmos em direção àquilo que ainda não somos, ou não sabemos que somos. Não há ritual, tudo é questão de pôr-se em movimento. Ou, mais precisamente, de não interromper o fluxo do movimento. Gosto de escrever em mesas atulhadas de sobras, aparas, livros, recortes, lápis de cor, tesouras, pedaços de isopor, madeira… Poesia escrevo basicamente na cama, no finalzinho da madrugada ou no início da manhã.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Escrevo quase todos os dias, e reescrevo sempre. Escrever e reescrever são práticas inseparáveis. Mesmo depois de anos, ao retomar um conjunto para um livro, reescrevo boa parte dos poemas. É interessante perceber que às vezes, desarmado pelo cansaço, o poema finalmente vem a nós. Há uma excessiva consciência, ou lucidez reflexiva, que só atrapalha a escritura, pondo limites a um corpo verbal que parece vocacionado, ‘naturalmente’ carregado de sentidos. Em alguns casos o poema vem quase pronto, como um descarrego, artesania e sentido inseparáveis. Noutros, é preciso dias e dias de dedicação, sem garantia de que se vai chegar a bom termo. Noutros ainda o resultado não vai além de um exercício, de alguma forma útil, mesmo que seja para afiar a lâmina da língua portuguesa. De comum entre esses casos, o manuseio permanente do artefato verbal.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
O que entra na composição de um poema não resulta de uma pesquisa objetiva, mas de anos e anos de percepções, mais ou menos elaboradas, mais ou menos conclusivas. Mesmo quando tomamos nota de uma expressão, de uma notícia de jornal, de um verso alheio, estamos lidando com a porção mais fluida da realidade, no limite com o que não se sabe, com o que não se vê, mas que de alguma forma se pressente, se intui, às vezes de modo inequívoco. Compatibilizar essas percepções à primeira vista abstratas com um corpo verbal permeado de objetividades, sonoras, visuais e semânticas, num todo eletrificado pelo mesmo tônus – é que são elas. Gosto da ideia de que a poesia repara a realidade, recuperando dela aquela porção subjetiva desprezada pela lógica racional, mas agora promovida à corporeidade do mundo físico. Porque é isso que um poema faz, dá corpo à fluidez do sentido.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Vamos por partes. Não há travas na poesia, pelo menos na poesia lírica, por mais reflexiva que ela seja. Procrastinar um poema significa perdê-lo para sempre. Em raros casos, depois de muito treino, é possível manter viva por dois ou três dias a pulsão de um futuro poema e de sua circunstância. Às vezes a ocasião é tão forte que a premonição do poema perdura, latejando à nossa volta, à espera. Mas mesmo nesses casos não há garantia de que o poema venha à luz com relativa perfeição. Melhor largar tudo e dar vasão à premência. Não há outra alternativa. Mesmo poemas mais longos, reflexivos, como um poema sobre o riso de Rembrandt no seu último autorretrato, por exemplo, riso de insondável ambiguidade, só se resolverão em processo. Por mais que se tenha tomado notas e levantado dados, é no calor da hora que o poema se arma. Quanto às expectativas, elas fazem parte de um horizonte tão difuso que é melhor nem perder tempo com elas. As expectativas são as nossas no momento da escrita, de percorrermos um percurso de relativa obscuridade de sentido em direção a uma explicitação que ainda desconhecemos, mas que cremos não só possível como comum a outras pessoas. Afora o prazer de exercitarmos o risco de uma habilidade que não depende de ninguém senão de nós mesmos.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Alguns poemas merecem revisão contínua, e mesmo assim não chegamos a lugar nenhum. Meu primeiro livro de poemas, O caçador de vaga-lumesé o diagrama de um projeto malogrado. O livro era originalmente composto por uma centena de poemas de dez estrofes cada, cada uma com dois versos. Esses dísticos elegíacos pretendiam dar conta de um fusionamento de ‘imagens altamente reflexivas’, com cortes tão abstratos entre si que cada dístico poderia valer por um poema isolado. O projeto tinha certa beleza. À medida que fui trabalhando, no entanto, os poemas foram encurtando de tamanho, alguns resultaram em quatro ou mesmo dois versos. Outros simplesmente desapareceram. O livro saiu mirradinho, magro e empalidecido. Recebeu duas resenhas altamente positivas, mas nunca mais esqueci que em poesia é preciso partir para o ataque antes que um plano estratégico seja elaborado. Sobre a segunda pergunta, não envio meus originais a ninguém, mas tenho o hábito de ler alguns poemas aos amigos que recebo no ateliê. A leitura em voz alta explicita tanto as qualidades como os defeitos de um poema. Quase sempre funciona.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Escrevo sempre à mão. Gosto da porção gráfica da escrita, do atrito da caneta no papel, do traço preto da tinta na superfície não encerada dos papeis que uso. De alguma forma, bastante ingênua e mesmo antiquada, me ponho numa tradição antiquíssima de amor à escrita grafada minuciosamente. Tem sido assim desde os dois anos, imagino, quando ganhei os primeiros lápis, com grafites mais moles e mais duros, conforme a porção menor ou maior de argila. Escrever é já um desenho; desenhar é a escrita esquecida de si, em sonho. Mas às vezes uso computador, como no livro de contos “Nas mãos de Benedita”, a sair pela Ed. Positivo. Pequenos trechos dos contos foram pinçados dos diários de ateliê, manuscritos, mas acabaram estruturados no computador, onde o processo de revisão é muito mais prático e mais rápido. Talvez porque o tempo da poesia me seja outro, mais dilatado e silencioso.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Tudo é pretexto para a invenção, se estivermos atentos. A intuição inicial, ou a ideia, pode ter uma descendência bem definida, restrita a um naipe de percepções que estrutura nosso sentimento de mundo, mas pode-se alimentá-la com o que a circunstância nos oferece, quaisquer circunstâncias. É muito frequente que um gesto ou uma fala oferecidos pelo acaso deem corpo a um sopro de vida com o qual acordamos, e detone todo o mecanismo de um poema. Outras vezes o ímpeto para a alegria, gratuito e misteriosamente renovado, se estrutura em versos ao primeiro parágrafo do livro que estamos lendo, o céu pela janela, hortênsia ao alcance das mãos, como em sonho. Misterioso também é como a premência da circunstância que nos socorre se apaga no trajeto do poema, à superfície feito de uma rarefação surpreendente de contexto. Talvez por isso tanta gente tenha a impressão que certos poemas foram escritos exclusivamente para elas, como se elas devolvessem ao poema a circunstância que ele obliterou.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Comecei a escrever muito cedo, aos dez, talvez onze, escrevia para um jornalzinho mimeografado da escola, onde também tapava buracos com desenhos. Minha referência eram os poetas românticos. Mas fazia alguns poemas gráficos também. Não se mexe com esse período de formação, sob o risco de pôr tudo a perder. Há um frescor no primeiro manuseio da palavra, um tal desejo de aproximação, de intimidade, que o resultado prático pouco importa. Antes mesmo do aprendizado da leitura e da escrita, a palavra já atua em nós. Quando ouvi Evocação do Recife, aos cinco, seis anos, no primeiro ano do primário, atual ensino básico, lido pela professora, numa salinha multisseriada de madeira, aquela sonoridade melodiosamente repetida: Rua da União, Capiberibe-Capibaribe, Rua da Saudade, Rua da Aurora, aquele carinho evocatório me pegou para sempre. Decerto muita coisa mudou de lá para cá, mudei eu e mudou o mundo, mas aquela sensação de acolhimento no ninho da palavra continua viva até hoje, apesar dos percalços. Se pudesse voltar àquele tempo, me sentaria ao lado do menino que reprovou o primeiro ano por não conseguir aprender a ler, e faria um carinho em seu ombro, convidando-o para soltar pipa depois da aula.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Gostaria de publicar livros com um único poema ilustrado para adultos. Tenho um poema pronto, mais longo, chamado “O riso de Rembrandt”, e uma ideia relativamente precisa das ilustrações. Essa segunda pergunta nunca me ocorreu. A grandeza do que já foi escrito é inabarcável. A ela se somam milhares de livros publicados todos os anos. Espero poder ler alguns deles.

Dala Stella lança "A ARTE MUDA DA FUGA" em São Paulo

Dala Stella, escritor de a "A arte muda da fuga", faz o lançamento de seu livro em São Paulo. 24/03/2019/Livraria Zaccara/16h



O livro inédito "A arte muda da fuga" do poeta e artista plástico curitibano Carlos Dala Stella - uma seleção criteriosa de 108 poemas feita por Marta Morais da Costa, doutora em literatura pela USP, a partir de um conjunto com aproximadamente duas mil páginas de textos, desenhos, recortes e colagens. As imagens do livro são pistas sobre o processo criativo do autor, que escreve e desenha cotidianamente em seus cadernos ilustrados há 40 anos.

Nos vazados e nas aberturas das imagens, o artista revela uma multiplicação de planos: camadas sucessivas em que continente e conteúdo se alternam e se contrapõem. Os desenhos a nanquim do ateliê, que aparecem na abertura e no encerramento, também são de autoria de Dala Stella e foram feitos especialmente para este livro.
A presença da natureza é representada na obra por uma pluralidade de elementos simples - aves, árvores, chuva, sol, estrelas, grão de areia. O poeta constata com espanto as manifestações da natureza: voejam pararus, urubus, sabiás, pintassilgos; a lesma se arrasta sobre o mármore, a libélula esplende em vitral e a aranha tece, como o tempo. "São pequenos animais a significar enigmas da vida e da arte", define Marta.
O silêncio, presente em diversos versos do poeta, é também o título da poesia que encerra a obra. Para Dala Stella, "A arte muda da fuga" chama a atenção pela polifonia de percepções e materialidades verbais de que é feito cada poema. "Um poema não é uma linha reta entre o que o poeta sente, ou pensa, e a expressão desse sentimento ou dessa ideia. É no percurso da escrita que o sentimento de mundo se dá, num espelhamento interno e externo sem o qual a vida resultaria num simples artefato de palavra, desprovido da animação que lhe é tão cara. Um poema é um pequeno percurso de linguagem onde a vida, misteriosa e engenhosamente, se dá. A linha reta, em poesia, é sempre curva", diz o poeta.
Sobre Carlos Dala Stella
Carlos Dala Stella nasceu em 1961, no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba. É poeta, artista plástico e também contista. Formado em Letras pela Universidade Federal do Paraná, dedica-se ao desenho desde a década de 80, quando expôs na Itália. Publicou os livros "O caçador de vaga-lumes" (poemas, 1998), "Riachuelo, 266" (contos e crônicas, 2000), "Bicicletas de Montreal" (fotografia e outras artesvisuais,2002) e "Ogatosemnome" (poemas, 2007). Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2012 na categoria Ilustração com o livro "Quer Jogar?" (livro ilustrado, 2011). Nas artes, o autor transita por murais de cimento e vidro, telas, retratos a lápis, nanquim e esculturas em papel, mas é nos cadernos de ateliê que cotidianamente escreve e desenha.
Sobre Marta Morais da Costa
Marta Morais da Costa é crítica literária, escritora e professora. É doutora em literatura pela USP. Nasceu em Ouro - Santa Catarina, em 1945. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e tem Mestrado e Doutorado em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Professora desde 1965, lecionou no Colégio Estadual do Paraná, entre outras escolas. É professora da UFPR e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Sempre considerou o estudo uma forma prazerosa de viver, o que veio a se estender ao ensino, em sua atividade no magistério. O interesse pelo teatro e pela literatura, principalmente vistos pelo olhar crítico, a fez produzir textos por encomenda ou por interesse pessoal.
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019


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AULAS EM DEZEMBRO

duas foram as aulas de emudecer

a primeira com meu pai
atingido subitamente na garganta
na raiz das cordas vocais

a segunda com meu irmão
podado drasticamente no cérebro
sem que sobrasse viva ramificação

ambas as aulas em dezembro
ambas fatais – 7 anos a separá-las

desde então engulo o que digo
sílaba a sílaba, grão a grão

22.01.2007

Essa cadeira foi um presente ao meu pai, no último ano. Com um binóculos ele ficava observando as pombas carijós comendo milho sob o eucalipto do quintal. Depois ela pertenceu ao meu irmão. Até que, infelizmente, voltou a mim. Sento nela para ler, no ateliê, e ver o verde ternura rebrotando todo ano nos galhos das árvores.

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domingo, 20 de janeiro de 2019

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CHUVINHA FINA

chove manso
sem relâmpago e sem trovão
chove uma chuva de gato
no peitoril da janela
chuvinha fina
sobre os lírios e begônias
do jardim
chove tão bonito de ver
e ouvir que dá vontade
de hibernar ao pé
do everest das cobertas
e nunca mais sair de lá
completamente esvaziado
dos sentidos do mundo
senhor, obrigado
porque tirais os sentidos
do mundo ao menos
por um segundo
Carlos Dala Stella, do livro A ARTE MUDA DA FUGA/Editora POSITIVO

Essa tela faz parte de uma série que chamo provisoriamente de "gatos à janela, com flores". Não tenho mais nenhuma comigo. Menos de uma dúzia, outra dúzia de desenhos e colagens do mesmo tema. Nelas exercito a faceta mais lúdica de minha pintura, conforme fui percebendo depois. Porque na hora tudo são questões plásticas bem objetivas. Fora essa pressão que se exerce em nós quando pintamos, quase involuntariamente, pressão física de sentido, ainda que oculto, a que também chamamos personalidade.

A BELEZA DOS BICHOS



A BELEZA DOS BICHOS
os bichos
que triste seria o mundo sem os bichos
como viver sem o silêncio voluntarioso
e elástico do gato
sem esses dois planetas de ternura
com que o cachorro nos vê
sem a delicadeza fragilíssima e alada
de um passarinho
sem o espetáculo conciso e coordenado
de lentidão
da tartaruga da preguiça do jabuti
e a galinha
com seus movimentos pasmos de perna e pescoço
bruscos de parvo pânico
e esses barulhentos besouros de carcaças secas
pendulando no ar
e o ilusionismo mudo dos vaga-lumes
o corpo metafísico dos grilos
triste da criança que não conhece
o aquário de milagres
que desliza sinuosamente nos olhos do peixe
que não provocou, com um graveto
um curto-circuito
no carreiro de formigas carregadeiras
tenho tanta pena
do adulto que nunca viu a luz passando
pelo vitral das asas de uma libélula
sem os bichos
estaríamos muito mais sós
e a grandeza de deus
seria infinitamente menor
que a beleza ágil de uma lagartixa
Carlos Dala Stella, do livro A Arte Muda da Fuga
O colagem do gatinho foi feita em um dos 40 cardápios da Aldeia do Beto, em Curitiba, do querido amigo Robert Amorim. Foram mais de quatrocentos desenhos e recortes originais, que devem estar por aí, espalhados pelo mundo.
.
.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019




dispersão universal


Três dias antes de morrer
o latido foi se apagando
até a afonia completa

depois os olhos envidraram
baços de indiferença e dor

até a tremedeira convulsiva
e o espasmo final

agora, na primeira manhã
sem o cachorro, um silêncio
branco com manchas  pretas
vaga pelo terreno de sombra
em sombra, primeiro indício
da dispersão universal

Carlos Dala Stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

A foto tem quatro ou cinco anos. Hanna, a pastora, morreu há pouco mais de um ano. Não é o cão do poema. Nem eu sou mais o mesmo. Mas a dispersão universal continua, impreterivelmente. Como continua nossa identidade maio humana, meio animal. Gosto de pensar que somos nós que dependemos deles, cães e gatos; só assim podemos exercer nossa docilidade animal. Porque há uma nossa ternura, completamente muda e alheia à palavra, que de outra forma não saberíamos como externar. Certo, há o amor, a infância, a velhice, mas os cães correspondem a nosso silêncio com mais silêncio, um silêncio de indizível ternura. Fica a impressão, possivelmente equivocada, de que nos compreendemos.
A imagem pode conter: desenho

casulos de sol


faço parte dos que são sem sina
dos que sonham abismados no paraíso
dos que têm no pressentimento
o prêmio e em jejum multiplicam
todos os dias a fome de viver
somos os que ouvem o silêncio
universal quando não nos ouvem
os que preenchem o vazio das horas
com os casulos de sol da manhã
os que frequentemente não sabem
o que fazer de estar vivo e vazam
pelos olhos uma biografia completa
de ignorâncias e são sem nome
sem norte sem ambição e no entanto
somos a insignificância que somos
na galáxia do que podíamos ser

carlos dala stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Poesia Brasileira / Jornal RASCUNHO

PARTINDO LENHA


quando a lâmina em cunha do machado
está afiada e o golpe é bem dado
a lenha se abre à primeira machadada

a força é necessária, mas a qualidade
do golpe, a favor do veio seco
nunca contra, é que faz a diferença

o ângulo reto sobre o topo da acha
ou levemente inclinado desviando o nó
vai determinar a eficácia da batida

o estalido seco e rasgado das fibras
aquece antes do fogo o corpo
como o esforço físico despendido

aos oitenta e dois anos, minha nona
três dias antes de morrer, partia lenha
no tronco, sob o telhadinho do paiol

 o vestido azul xadrez, o coque branco
o corpo magro e enérgico, e súbito
o quarto de círculo do golpe no ar

sem nenhum trejeito ou desperdício
de energia, concentrado em fender
no ponto certo o pinho ou a bracatinga

lembro do azul limpo e alegre dos olhos
em comunhão com o céu maior
da pele fina das mãos e das pernas

daquele modo justo de caber na vida
e eficiente, sem que no entanto
sua aura de alfazema se perdesse

carlos dala stella



NONA IZA / PARTINDO LENHA

O desenho tem trinta anos, notação rápida, de lembrança. Foi feito pouco mais de um ano depois da morte de minha avó paterna. Essa cachorra no canto direito se chamava Suzi. (Depois vieram pelo menos três gerações de Quincas Borba, que sempre preferi à Memórias Póstumas e Dom Casmurro. Quanto a Brás Cubas, ao depois amor pegou, como diria Drummond, mas Dom Casmurro continua até hoje preterido. Quase trezentas páginas remoendo a traição é um pouco demais, evidência inequívoca do prazer de corno do falso casmurro.) E a avó é a mesma do poema Partindo Lenha, publicado na edição de dezembro do jornal Rascunho, na coluna Poesia Brasileira, de Mariana Ianelli.

sábado, 15 de dezembro de 2018

mallarmargens 

 revista de poesia e arte contemporânea 


por Marília Kubota - 19/01/2017


Achei dificílimo selecionar seis poemas do livro O gato sem nome, de Carlos Dala Stella. Foi trabalhoso escolher apenas seis peças, entre tanto deslumbramento. Este artista múltiplo, que pinta, desenha, esculpe, recorta e escreve na solidão de seu ateliê, no bucólico bairro de Santa Felicidade, em Curitiba, registra inúmeros episódios de epifania em imagens e escritos. Pelo menos uma vez na vida, os poetas deviam experimentar este tipo de solidão, simultaneamente monástica e erótica, que conduz os sentidos a um fluxo vertiginoso  em que a ordem é a beleza da intimidade.  

Carlos escreve poemas em diários, ou cadernos de artista, nos quais testa projetos de obras que engendrará em telas ou em esculturas de madeira e papel. Ao visitar seu ateliê – e o blog diário de ateliê, em que registra tudo, ou quase tudo que cria, o observador fica tonto com a profusão de ideias e obras.

Mas Carlos é minucioso. Se publicou O gato sem nome em edição caprichada do Caderno Listrado (assinada pelo artesão gráfico Daniel Barbosa), tem ciúmes dos poemas que escreve nos diários. Não quer divulgá-los, a não ser quando publicados em livro, ou no blog. Por isto, cada poema é uma revelação.  

O ateliê de Carlos lembrou a casa de Claudio Seto, já falecido, que morava no bairro de São Brás.  Seto não tinha um ateliê : seu escritório era atulhado de revistas, jornais, livros, zines, publicações de histórias em quadrinhos, arte e cultura japonesa,  ciência, astrologia, futebol, magia, desenhos, idéias para quadros. No quintal abundavam bonsais e pinturas, como saídos de uma cornucópia. Carlos é disciplinado em sua desordem criativa. De sua cornucópia também jorra leite e mel, e como Seto, ele vinga-se dos avaros que só produzem para o imperativo do mercado. 

Para os artistas fora do eixo, felicidade é encontrar uma arte em sintonia com a observação da delicadeza da vida. Uma arte que, por contaminação, reproduz esta delicadeza em obras ímpares.  

O silêncio da escrita

ENGODO

Vida é esse miolo pulsante
limitado sempre pela casca.

Ao contrário do pão e do ovo
a gema que há dentro
está condenada a alimentar o escuro.
A luz latente, circular e bela
em sua substância amarela
não passa de engodo.

Mas o olho interno entrevê
na luz fecundante da única vela
o esplendor vermelho do sol.


ADRIANO LUGARINI, 14

Enquanto risco o carvão na tela virgem
com a ajuda de uma haste de bambu
- antiga vara de pesca de meu pai –
seu Daniel cuida das mudas de girassol
plantadas ao longo do muro branco
entre a porta do ateliê e o portão de ferro.
Paciente, aguardo que a frágil linha,
invisível para quem passa na rua,
cresça amarela, e acenda os olhos
de quem se perde por aqui.


A MARIPOSA

tromba contra o isopor do teto,
contra o prato da lâmpada mais forte,
contra a superfície colorida das telas.
As trombadas seccionam
seu vôo espiralado com golpes
aparentemente inofensivos, indolores.

O som oco se repete dezenas de vezes
mais do que um estalo,
menos do que um choque,
até que o silêncio volta, sem pânico.

Sobre o caderno de desenho aberto,
caminha a mariposa
num treme-treme ritualístico.

Dois olhos nas asas perguntam
se o que fiz de mim nesta segunda-feira
terá algum sentido depois, e qual ?
- dois inquietos olhos negros
vindos do amanhã.

O ensaio da escrita

COMO OS CHINESES

Escrevo meus quadros
às vezes nem é o quadro que me interessa
mas a pipa em que ele se transformou
- vermelha, com sua longa rabiola
chicoteando o azul.

Quando sinto nos dedos
a tensão do fio, o vento das alturas
atuando sobre a estrutura de paina e seda,
reconheço espantado que o voo do quadro
nasce em mim
mas não sei para onde me leva.


NA VOLTA DO ATELIÊ

Mãe e filha
batem bola na rua
em frente de casa.
Param para que eu passe.
Pelo espelho retrovisor vejo
a alegria com que retomam o jogo
no antipó remendado.
Ambas de calça curta.

Que diferença faz
se está nublado e se eu não pintei
nenhum quadro ?


OS OLHOS DO PAI

Tão frágil a borboletinha do fim da tarde
Com seu voo leve de asas helicoidais.

Tão doce o perfume do jasmineiro miúdo
Apenas cai a tarde começa a noite.

Tão imóveis o juvevê sem folhas
A varaneira sem galhos
O pinheiro só tronco e espinhos.

Tão parado o ar
Tão sem estrelas a noite
Sem grilos vaga-lumes besouros
Sem lua.

Três anos que meu pai morreu.

1o. Voo
CARLOS DALA STELLA, poeta-pintor nascido em Curitiba, em 1961. O diálogo entre artes plásticas e escrita permeia tanto seus desenhos e telas, quanto seus painéis de cimento e vidro. Ilustrador de livros, jornais e cartazes, expôs pela primeira vez em Monselice, Itália. É autor de Caçador de Vaga-lumes(poemas), Riachuelo, 266 (contos e crônicas), Bicicletas de Montreal (desenhos e fotos) e O gato sem nome(poemas) e Nanquim (desenhos).


sábado, 1 de dezembro de 2018

Falas ao Acaso



Blog de JOBA TRIDENTE

sábado, 1 de dezembro de 2018


Carlos Dala Stella: A Arte Muda da Fuga


Neste novembro primaveril de 2018, o escritor de verso e prosa e artista plástico brasileiro Carlos Dala Stella lançou o belíssimo livro A Arte Muda da Fuga, que traz 108 poemas meticulosamente pinçados dos seus fascinantes Cadernos de Ateliê, onde há 39 anos ele une recortes, colagens e manuscritos poéticos. Para esta luxuosa edição ilustrada com obras do autor, a crítica literária e escritora Marta Morais da Costa, doutora em literatura pela Universidade de São Paulo, e autora do excelente posfácio, mergulhou em aproximadamente duas mil páginas dos Cadernos 47 a 57, produzidos em 2014 e 2015, para desvelar ao grande público leitor e apreciador da boa arte a intensa e desconcertante produção de Dala Stella, que já está em seu Caderno de Ateliê 70.




A princípio pensei em apresentar alguns extratos do posfácio de Marta Morais, mas ponderei que, além de mutilar o encadeamento perfeito do seu extenso texto, este não seria suficiente para o leitor conhecer Carlos Dala Stella em sua plenitude. Assim, preferi sugerir alguns links de postagens anteriores aqui no Falas ao Acaso, de blogs do autor e da editora, entre outros, em sua breve biografia, ao final da página.



Para esta postagem selecionei cinco poemas do livro A Arte Muda da Fuga (2018): a arte muda da fugavaziosparlatórioignorância solaraprendizado. As fotos (fac-símiles do livro ou dos Cadernos)  são de Pith Haid.



      
     
a arte muda da fuga
Carlos Dala Stella

o silêncio sempre foi
meu maior interlocutor
qualquer coisa que eu diga
um monossílabo que engula
ele ouve e sopesa
por mais que eu grite
para dentro e sufoque
um substantivo, ele me acolhe
côncavo e atento
mesmo que eu sopre pérolas
inaudíveis, ele recupera a concha
nunca o silêncio me foi
indiferente, cada vez mais
interfiro na trama
de seus fios transparentes
quem sabe dessa parceria
um dia não surja
a arte muda da fuga


vazios
Carlos Dala Stella

o vazio está cheio
de possibilidades e não transborda

a clareira no meio do mato
o pátio na arquitetura
o silêncio no teatro
o côncavo da caverna
o oco do quarto
o domo da Stª Maria del Fiore

quanto vazio para dizer
sem palavras
a plenitude de deus
o maior de todos os vazios


parlatório
Carlos Dala Stella

chega uma hora em que o mundo
nos fala sem intermediários

falam as nuvens carregadas
e falam cúmulos de organza

falam as janelas fechadas
e fala o branco no varal

falam as pálpebras ligeiras
e falam os olhos leonardos

fala tudo que se mostra
e tudo que se esconde

o que se exibe no espelho
e o que se dá trás-os-montes

só não fala o desconhecido
que todas as manhãs acorda


comigo


ignorância solar
Carlos Dala Stella

estamos no meio do mar morto
encalhados, mais vivos impossível
por todos os lados esse silêncio religioso
essa linha circular do horizonte
reduzidos à chama bruxuleante
da respiração, mudos de tocar
com os olhos o brocado das estrelas
mudos e entregues à ignorância
solar de não saber cada vez mais
em que Ítaca esse barco vai dar


aprendizado
Carlos Dala Stella

tão longo o aprendizado
pra chegar no mesmo lugar
onde nossos antepassados chegaram
pra cair exatamente
no mesmíssimo buraco
e no entanto nossos amores
proibidos e absolutos foram todos
intimamente particulares

tão vário o aprendizado
tão moderno e diverso daquele
de nossos queridos pais
e no entanto o deserto florido
a que chegamos é o mesmo
deserto de nossos ancestrais
a mesma areia entre os dedos
os mesmos cegos girassóis

de uma alegria tão doce
e genuína, e tão imprevista
que nem chega a ser aprendizado
é vida que sucede à vida
e no entanto acabamos
desaguando no mesmo rio
de peixes imemoriais
que vai dar no sal do mar

tanto ímpeto desse corpo
tanto esforço renovado
e tanto gozo na lida amorosa
com o corpo cheio de paraísos
e armadilhas do outro
e no entanto não aprendemos
nada de novo senão reavivar
o espírito rubro do fogo


Carlos Dala Stella em seu ateliê, no Bairro de Santa Felicidade, em Curitiba

Carlos Dala Stella é escritor de verso e prosa e artista plástico. Nasceu no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba, Brasil, no ano de 1961. É formado em Letras, pela Universidade Federal do Paraná e desde a década de 1980 dedica-se ao desenho. Carlos, que já expôs na Itália, publicou os livros O Caçador de Vaga-lumes (poemas, 1998), Riachuelo, 266 (contos e crônicas, 2000), Bicicletas de Montreal (fotografia e outras artes visuais, 2002), O gato sem nome (poemas, 2007) e A Arte Muda da Fuga (poemas, 2018). Em 2012, Dala Stella foi finalista do prestigiado Prêmio Jabuti, na categoria Ilustração, com o livro Quer Jogar?(2011), de Adriana Klisys.
Para saber mais: no Falas ao Acaso, cinco poemas do livro O Gato sem NomePoema I;Poema IIPoema IIIPoema IVPoema V..., e o magnífico A Beleza dos Bichos, poema que está presente em A Arte Muda da Fuga; blogs de Carlos Dala Stella: dalastella e cdalastella; resenhando: entrevista com Carlos Dalla Stella; site da Editora Positivo, que publicou A Arte Muda da Fuga, para compra online...