terça-feira, 8 de janeiro de 2019




dispersão universal


Três dias antes de morrer
o latido foi se apagando
até a afonia completa

depois os olhos envidraram
baços de indiferença e dor

até a tremedeira convulsiva
e o espasmo final

agora, na primeira manhã
sem o cachorro, um silêncio
branco com manchas  pretas
vaga pelo terreno de sombra
em sombra, primeiro indício
da dispersão universal

Carlos Dala Stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

A foto tem quatro ou cinco anos. Hanna, a pastora, morreu há pouco mais de um ano. Não é o cão do poema. Nem eu sou mais o mesmo. Mas a dispersão universal continua, impreterivelmente. Como continua nossa identidade maio humana, meio animal. Gosto de pensar que somos nós que dependemos deles, cães e gatos; só assim podemos exercer nossa docilidade animal. Porque há uma nossa ternura, completamente muda e alheia à palavra, que de outra forma não saberíamos como externar. Certo, há o amor, a infância, a velhice, mas os cães correspondem a nosso silêncio com mais silêncio, um silêncio de indizível ternura. Fica a impressão, possivelmente equivocada, de que nos compreendemos.
A imagem pode conter: desenho

casulos de sol


faço parte dos que são sem sina
dos que sonham abismados no paraíso
dos que têm no pressentimento
o prêmio e em jejum multiplicam
todos os dias a fome de viver
somos os que ouvem o silêncio
universal quando não nos ouvem
os que preenchem o vazio das horas
com os casulos de sol da manhã
os que frequentemente não sabem
o que fazer de estar vivo e vazam
pelos olhos uma biografia completa
de ignorâncias e são sem nome
sem norte sem ambição e no entanto
somos a insignificância que somos
na galáxia do que podíamos ser

carlos dala stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA