domingo, 20 de janeiro de 2019

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CHUVINHA FINA

chove manso
sem relâmpago e sem trovão
chove uma chuva de gato
no peitoril da janela
chuvinha fina
sobre os lírios e begônias
do jardim
chove tão bonito de ver
e ouvir que dá vontade
de hibernar ao pé
do everest das cobertas
e nunca mais sair de lá
completamente esvaziado
dos sentidos do mundo
senhor, obrigado
porque tirais os sentidos
do mundo ao menos
por um segundo
Carlos Dala Stella, do livro A ARTE MUDA DA FUGA/Editora POSITIVO

Essa tela faz parte de uma série que chamo provisoriamente de "gatos à janela, com flores". Não tenho mais nenhuma comigo. Menos de uma dúzia, outra dúzia de desenhos e colagens do mesmo tema. Nelas exercito a faceta mais lúdica de minha pintura, conforme fui percebendo depois. Porque na hora tudo são questões plásticas bem objetivas. Fora essa pressão que se exerce em nós quando pintamos, quase involuntariamente, pressão física de sentido, ainda que oculto, a que também chamamos personalidade.



A BELEZA DOS BICHOS
os bichos
que triste seria o mundo sem os bichos
como viver sem o silêncio voluntarioso
e elástico do gato
sem esses dois planetas de ternura
com que o cachorro nos vê
sem a delicadeza fragilíssima e alada
de um passarinho
sem o espetáculo conciso e coordenado
de lentidão
da tartaruga da preguiça do jabuti
e a galinha
com seus movimentos pasmos de perna e pescoço
bruscos de parvo pânico
e esses barulhentos besouros de carcaças secas
pendulando no ar
e o ilusionismo mudo dos vaga-lumes
o corpo metafísico dos grilos
triste da criança que não conhece
o aquário de milagres
que desliza sinuosamente nos olhos do peixe
que não provocou, com um graveto
um curto-circuito
no carreiro de formigas carregadeiras
tenho tanta pena
do adulto que nunca viu a luz passando
pelo vitral das asas de uma libélula
sem os bichos
estaríamos muito mais sós
e a grandeza de deus
seria infinitamente menor
que a beleza ágil de uma lagartixa
Carlos Dala Stella, do livro A Arte Muda da Fuga
O colagem do gatinho foi feita em um dos 40 cardápios da Aldeia do Beto, em Curitiba, do querido amigo Robert Amorim. Foram mais de quatrocentos desenhos e recortes originais, que devem estar por aí, espalhados pelo mundo.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2019




dispersão universal


Três dias antes de morrer
o latido foi se apagando
até a afonia completa

depois os olhos envidraram
baços de indiferença e dor

até a tremedeira convulsiva
e o espasmo final

agora, na primeira manhã
sem o cachorro, um silêncio
branco com manchas  pretas
vaga pelo terreno de sombra
em sombra, primeiro indício
da dispersão universal

Carlos Dala Stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

A foto tem quatro ou cinco anos. Hanna, a pastora, morreu há pouco mais de um ano. Não é o cão do poema. Nem eu sou mais o mesmo. Mas a dispersão universal continua, impreterivelmente. Como continua nossa identidade maio humana, meio animal. Gosto de pensar que somos nós que dependemos deles, cães e gatos; só assim podemos exercer nossa docilidade animal. Porque há uma nossa ternura, completamente muda e alheia à palavra, que de outra forma não saberíamos como externar. Certo, há o amor, a infância, a velhice, mas os cães correspondem a nosso silêncio com mais silêncio, um silêncio de indizível ternura. Fica a impressão, possivelmente equivocada, de que nos compreendemos.
A imagem pode conter: desenho

casulos de sol


faço parte dos que são sem sina
dos que sonham abismados no paraíso
dos que têm no pressentimento
o prêmio e em jejum multiplicam
todos os dias a fome de viver
somos os que ouvem o silêncio
universal quando não nos ouvem
os que preenchem o vazio das horas
com os casulos de sol da manhã
os que frequentemente não sabem
o que fazer de estar vivo e vazam
pelos olhos uma biografia completa
de ignorâncias e são sem nome
sem norte sem ambição e no entanto
somos a insignificância que somos
na galáxia do que podíamos ser

carlos dala stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA