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domingo, 24 de dezembro de 2017

Emily Dickinson, poema 77



nunca ouço a palavra 'fuga'
sem que o coração
me saia pela boca
na iminência de voar

nunca ouço que arrombaram
uma prisão, sem sacudir
estas grades, na ilusão
de ganhar liberdade

tradução de Carlos Dala Stella

Primeiro quis traduzir a urgência do sentimento de fuga, ou de aprisionamento, desincumbido dos recursos técnicos do original, depois fazer uma variação interpretativa desse sentimento, que de alguma forma é aparentado com minha arte muda da fuga, embora aqui a ênfase recaia sobre o silêncio mudo de meu diálogo com o mundo. E finalmente acabei ganhando essa liberdade abstrata que os pintores exercitam reinterpretando pinturas famosas, de artistas que admiram, e que lhes permite de um lado alargar a própria fala, de outro botar mais um elo nessa corrente de imaginação que dá volta ao mundo. 
I never hear the word “escape”
Without a quicker blood,
A sudden expectation
A flying attitude!
I never hear of prisons broad
By soldiers battered down,
But I tug childish at my bars
Only to fail again!
Emily Dickinson

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Seamus Heaney



UM ARTISTA


Adoro o cismar de sua ira. 
A obstinação contra a pedra, a tensão
sobre a carnadura das maçãs verdes. 

Como ele se fazia de cachorro, latindo
para a imagem rosnenta de si mesmo.
E o ódio à própria ideia do trabalho
como única coisa que funcionava - 
a vulgaridade de se submeter sempre
ao reconhecimento e à admiração
consentindo em ser roubado. 

Como atuava sua força, adensada
porque agir era sua sabedoria. 
Sua testa à mostra como bola 
de bocha atravessando o espaço virgem
atrás da maçã e da montanha. 


Tradução de Carlos Dala Stella

Resultado de imagem para cezanne pomme vertes



An Artist


I love the thought of his anger.
His obstinacy against the rock, his coercion
of the substance from green apples.
The way he was a dog barking
at the image of himself barking.
And his hatred of his own embrace
of working as the only thing that worked –
the vulgarity of expecting ever
gratitude or admiration, which
would mean a stealing from him.

The way his fortitude held and hardened
because he did what he knew.
His forehead like a hurled boule
travelling unpainted space
behind the apple and behind the mountain.

Seamus Heaney

Cézanne, Mont Sainte-Victoire

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Emily Dickinson / 7


Se eu não estiver viva
Quando as Sabiás chegarem,
Dê à de Peito Vermelho
Migalhas em meu Nome.

Se eu não disser obrigado,
Tanto o sono me devora,
Saibam que tento mover
Lábios de Mármore agora!

Tradução de Carlos Dala Stella

182; c.1860/1890

If I shouldn't be alive
When the Robins come,
Give the one in Red Cravat,
A Memorial crumb.

If I couldn't thank you,
Being fast asleep,
You will know I'm trying
Why my Granite lip! 

















"Oxeye-daisy" in Emily Dickinson. Herbarium, ca. 1839-1846. MS Am 1118.11. Gift, Gilbert H. Montague, 1950. © President and Fellows of Harvard College.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

E. M. Cioran / 3



Quando percebo que estou escorregando para o sono, tenho a impressão de mergulhar num paraíso providencial, de cair por toda a eternidade, sem nunca mais poder escapar. Então, nenhuma vontade de fugir me perturba. O que desejo, nessas ocasiões, é poder perceber cada um daqueles instantes o mais nitidamente possível, sem perder nada, usufruindo deles até o limite da inconsciência, antes da beatitude.

Tradução de Carlos Dala Stella


Quand j'observe mon glissement dans le sommeil, j'ai l'impression de m'enfoncer dans un abîme providentiel, d'y tomber pour l'éternité, sans pouvoir jamais m'en évader. D'ailleurs aucun désir d'évasion ne m'effleure. Ce que je souhaite dans ces instants, c'est de les percevoir le plus nettement possible, de n'en rien perdre et d'en jouir jusqu'au dernier, avant l'inconscience, avant la béatitude.

Aveux et Anathémes, E.M.Cioran


E. M. Cioran, Spaima, manuscrit de la traduction roumaine du poème Angoisse de Stéphane Mallarmé - next picture
     E. M. Cioran, Spaima, manuscrito da tradução romena do poema
                        Angústia, de Stéphane Mallarmé.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Eugenio Montale / 11


DEPOIS DA CHUVA


Ideogramas na areia molhada, 
pés de galinha. Me viro
mas onde uma ave poderá se esconder?
Talvez uma gaivota cansada, ou manca.
Nem sendo chinês para decifrar
aquela língua. Um sopro
e ela já era. Mentira que a natureza
é muda. Fala pelos cotovelos.
Tomara que ela não tagarele
demais sobre eu e você. 

Tradução de Carlos Dala Stella


DOPOPIOGGIA

Sulla rena bagnata appaiono ideogrammi
a zampa di gallina. Guardo addietro
ma non vedo rifugi o asili di volatili.
Sarà passata un'anatra stanca, forse azzoppata.
Non saprei decrittare quel linguaggio
se anche fossi cinese. Basterà un soffio
di vento a scancellarlo. Non è vero
che la Natura sia muta. Parla a vanvera
e la sola speranza è che non si occupi
troppo di noi.


Não há dúvida que algumas liberdades que se tomam ao traduzir são exageradas, mas às vezes sem esses exageros é praticamente impossível revivificar, na língua de destino, esse animal tão voluntarioso que é o poema. Avançamos o sinal também porque não conseguimos controlar completamente nossa vontade, mais ou menos idiossincrática, de meter o bedelho na criação alheia. De qualquer forma, o que conta mesmo é como o poema se comporta dentro do quadro da língua para a qual ele foi traduzido. Frequentemente as traduções de poesia mais 'fiéis' não impedem que os poema cheguem desconjuntados na nova língua. 

Foram essas liberdades que tomei ao traduzir Dopopioggia, de Eugenio Montale, acentuando certa concisão ideogramática a que o poema aspira. 


segunda-feira, 28 de março de 2016

Eugenio Montale / 10


INÍCIO DE JULHO

Julho mal começa e o pensamento
já está devendo.
Nenhum drama à vista, 
um mínimo de perturbações. 
O ritmo da mente em ponto morto
inexplicavelmente inspira sérias preocupações. 
Melhor se enfrenta o tempo afoito,
meio dia basta para liquidá-lo. 
Mas nesse início de julho cada segundo goteja 
e o encanador saiu de férias. 

Tradução de Carlos Dala Stella


I PRIMI DI LUGLIO


Siamo ai primi di luglio e già il pensiero
è entrato in moratoria.
Drammi non se ne vedono,
se mai disfunzioni.
Che il ritmo della mente si dislenti,
questo inspiegabilmente crea serie preoccupazioni.
Meglio si affronta il tempo quando è folto,
mezza giornata basta a sbaraccarlo.
Ma ora ai primi di luglio ogni secondo sgoccia
e l’idraulico è in ferie.


Poema do livro Diário de 71 e de 72, de Eugenio Montale, também traduzido para o português por Geraldo Holanda Cavalcanti, no livro Poesias, editora Record, transcrito a seguir.


COMEÇOS DE JULHO

Mal julho começa e já o pensamento
declara-se em moratória.
Dramas não mais ocorrem,
no máximo disfunções.
Que o ritmo da mente se relaxe,
e isso inexplicavelmente gera sérias preocupações.
Melhor se afronta o tempo quando é denso,
meia jornada basta a dispensá-lo.
Mas agora neste início de julho cada segundo pinga
e o bombeiro está de férias.

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Emily Dickinson / 6

Emily Dickinson

O Silêncio é nosso maior temor.
A Voz acena com o Resgate -
Mas o Silêncio é Infinitude.
Sequer tem um rosto.

Tradução de Carlos Dala Stella

J1251 (1873)

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.


Esta a versão italiana de Giuseppe Ierolli

Il Silenzio è tutto ciò che temiamo.
C'è Riscatto in una Voce -
Ma il Silenzio è Infinità.
In sé non ha un volto.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Emily Dickinson / 5


821


Longe de Casa, estamos Eles e eu –
Ser um Imigrante
Em uma Metrópole Residencial
É fácil, quase sempre –

Habituar-se a um Céu Estrangeiro
Difícil – senão impossível
Como o Rosto das Crianças
Tanto mais se afastam – mais visível.

 Tradução de Carlos Dala Stella


Away from Home, are They and I -
An Emigrant to be
In a Metropolis of Homes
Is easy, possibly -

The Habit of a Foreign Sky
We - difficult acquire
As Children, who remain in Face
The more their Feet, retire.


Away from home, are they and IAway from home, are they and I 






















Minhas traduções são exercícios de leitura, amparadas sempre que possível por traduções para o italiano e espanhol, além de paráfrases em prosa. A disponibilidade dessas versões agora pela internet torna o processo muito prazeroso, e muito menos trabalhoso do que há pouco tempo. Mesmo assim sempre parto da edição completa que ganhei em 2008 de Cristovão Tezza, pela Little, Brown and Company, editada por Thomas H. Johnson, biógrafo e editor definitivo da escritora.

O poema 821 (segundo a datação Johnson), foi escrito em Cambridge, em abril de 1864, onde Emily Dickinson se recuperava de um problema nos olhos e onde ficaria até novembro. O que me atraiu foi a comparação do céu de onde nascemos com o rosto de uma criança, tanto mais vivo quanto mais ela caminha para longe, por artifício da memória. É fascinante que particularizemos uma porção do céu como mais íntima aos olhos de nossa alma do que o céu de outros lugares.

O céu parece sempre o mesmo, em qualquer lugar do mundo; não para os astrônomos, nem para os poetas. Os poetas moram poeticamente onde moram, o que significa que aquela porção do mundo foi sendo metaforizada por força da escrita, e da multiplicidade de percepções que a alimenta. Emily se habitua com a multidão de uma metrópole, não com seu céu desconhecido. Talvez porque o céu onde nascemos e vivemos boa parte da vida seja o cúmplice silencioso e compreensivo de nossa vocação, de nossa diária dedicação a ela. Nenhum outro céu acolhe tão incondicionalmente nossos olhos - doridos, cheios de júbilo, dúvida, indiferença, cegos de tanto ver.
    

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Óscar Hahn 9



Do poeta chileno, Mario Vargas Llosa disse: " A obra poética de Óscar Hahn é magnífica e verdadeiramente original, além de ser a mais pessoal que li em língua espanhola em muito tempo". 

Do livro Los espejos comunicantes, publicado na Coleção Visor em 2014, traduzo o poema Solidão, inspirado na belíssima canção de Duke Ellington. Vale lembrar que além de temas clássicos, como a solidão, o amor, a morte e o tempo, Óscar Hahn tem se dedicado cada vez mais a temas caros à atualidade, como consumismo, ecologia, energia nuclear e mesmo a celebridades da música pop, sempre com uma lucidez poética perturbadora.




SOLIDÃO

           In my solitude you haunt me
               with reveries of days gone by
                        música de Duke Ellington


Não está sozinha minha solidão:
está comigo
Onde quer que eu vá
ela vai ao meu lado
dorme em minha cama
come na minha mão: respira
o mesmo ar que respiro
Fala com minha voz
caminha com minhas pernas
sente tudo que eu sinto
Uma única vez se afastou
minha solidão
me abandonou: sumiu
Nessa tarde conheci
a mulher da minha vida
Meses e meses longe de minha solidão
Noites a fio junto a meu grande amor
ocupando o espaço vazio
de meu desamparo
Até que um dia tudo acabou
como sempre acabam
os amores eternos:
num piscar de olhos
E agora que volto para casa
minha solidão me recebe
de braços abertos
sem uma palavra
sequer uma crítica
Apenas me abraça: consoladora
e chora comigo

Tradução de Carlos Dala Stella


SOLITUDE

            In my solitude you haunt me
            with reveries of days gone by
                        Música de Duke Ellington

Mi soledad no está sola:
está conmigo
Me acompaña dondequiera
que voy: duerme en mi cama
come de mi mano: respira
el aire que respiro
Me habla con mi voz
camina como yo camino
siente lo que yo siento
Sólo una vez mi soledad
se alejó de mi lado
me abandonó: partió
Fue esa tarde que conocí
a la mujer de mi vida
Meses y meses sin mi soledad
noche tras noche con mi gran amor
ocupando el espacio
de mi desamparo
Hasta que un día todo terminó
como siempre terminan
los amores eternos:
en un abrir y cerrar de ojos
Y ahora
he regresado a mi casa
Mi soledad me recibe
con los brazos abiertos
no me dice nada
no me reprocha nada
me abraza me consuela
Llora conmigo

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Óscar Hahn 8



Sigo lendo o chileno Óscar Hahn (vencedor em 2014 do Prêmio Loewe de Poesia, na Espanha). Por dois motivos, principalmente: porque ele entra nos temas de um modo tão direto que entramos juntos, sem hesitação; e também porque mal entramos, esses temas nos afligem como se  fossem nossos. Nem a ironia, nem o insólito de algumas imagens são capazes de nos afastar de nós mesmos. Que mais pode querer um autor do que essa fusão espelhada com o leitor?


NA PRAIA NUDISTA DO INCONSCIENTE



Um homem está deitado na praia nudista
     do inconsciente
quando surgem na noite dois sóis

A metade mulher do homem corre graciosamente
     para o mar
A metade homem caminha pela orla

Na praia nudista do inconsciente
as duas metades se banham de mãos dadas

O sol negro sobe no horizonte
O sol branco desce vermelho incandescente

A mulher e o homem fazem amor até a vertigem
Seus corpos lutam sobre a areia fosforescente

E o firmamento se enche de meteoritos
que se deslocam à velocidade da luz

Tradução de Carlos Dala Stella



EN LA PLAYA NUDISTA DEL INCONSCIENTE


Un hombre está tendido en la playa nudista del
     inconsciente
a esa hora de la noche en que salen dos soles

La parte mujer del hombre corre graciosamente hacia el
     agua
La parte hombre camina en dirección a la orilla

En la playa nudista del inconsciente
las dos partes se bañan tomadas de la mano

El sol negro se alza en el horizonte
El son blanco se pone al rojo vivo

La mujer y el hombre hacen amor hasta el vértigo
Sus cuerpos luchan en la arena fosforescente

Y el firmamento se llena de aerolitos
que se desplazan a la velocidad de la luz


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O MAGO DO VIOLÃO



Agustín Pío Barrios Ferreyra nasceu em 5 de maio de 1885, quase certamente em San Juan Bautista de las Missiones, Paraguai. Reconhecido como o maior compositor para violão de todos os tempos, a partir de 1928 passou a usar o pseudônimo Nitsuga Mangoré; Nitsuga, Agustin ao reverso, e Mangoré como homenagem a um cacique Guarani, fuzilado por raptar uma espanhola por quem estaria apaixonado. A partir de então, para atrair a assistência, apresentou-se seguidamente paramentado como índio guarani. 

Foi o primeiro a gravar discos de violão, em torno de 40, a partir de 1915, quinze anos antes do primeiro registro de Andrés Segóvia. Além de compositor inigualável, foi intérprete genial, poeta e refinado desenhista. Depois de percorrer boa parte da América do Sul e América Central, além de algumas cidades da Europa, morreu em San Salvador, em 1944. Apesar das dificuldades de se fazer ouvir enquanto vivo, hoje Mangoré é tocado em todos os cantos do mundo, por quem estuda violão, e ouvido com o mesmo misto de reverência e espanto com que se ouve João Sebastião Bach.  


O BOÊMIO


Como giro rápido! Sou cata-vento,
movido pelos impulsos do destino
vou dançando em louco torvelino
planeta afora, junto aos quatro ventos.

Em mim, no cerne de uma vida inquieta,
vai este vagar incerto e peregrino
e a arte alumiando o caminho
como facho de um fantástico cometa.

Sou irmão em glória como em dores
daqueles mesmos medievais trovadores
que padeceram romântica loucura.

Como eles, quando eu estiver morto,
só Deus sabe em que distante porto
encontrarei minha áspera sepultura!

Tradução de Carlos Dala Stella


EL BOHEMIO

Resultado de imagem para agustin barrios mangore!Cuán raudo es mi girar! Yo soy veleta
Que moviéndose a impulsos del destino
Va danzando en loco torbellino
Hacia los cuatro vientos del planeta.

Llevo en mí el plasma de una vida inquieta
Y en mi vagar incierto, peregrino,
El Arte va alumbrando mi camino
Cual si fuera un fantástico cometa.

Yo soy hermano en gloria y en dolores
De aquellos medievales trovadores
Que sufrieron romántica locura.

Como ellos, también, cuando haya muerto,
!Dios solo sabe en qué lejano puerto
Iré a encontrar mi tosca sepultura!

Agustín Barrios Mangoré