sexta-feira, 1 de março de 2019




Museu Guido Viaro recebe obras de Dala Stella 

a partir de 14 de março  28.02.2019



"Variáveis" promete ser uma exposição com formato inusitado, adianta o artista, que reúne nesta mostra desenhos, recortes, telas e esculturas. A abertura será no dia 14 de março, às 19h, no Museu Guido Viaro (Rua XV de Novembro, 1348) em Curitiba. A visitação ficará aberta até 10 de abril.

Carlos Dala Stella conta que muitos trabalhos fazem referência a outros artistas, "citados mais ou menos explicitamente, do que resulta um subtexto cifrado. Decifrá-lo é mais do que uma charada: contribui para manter o sentido de cada trabalho momentaneamente em suspensão", explica.


"A mostra propõe variações sobre incógnitas constantes. Percorrer essas variações e identificar algumas de suas incógnitas é o convite que se faz ao espectador".

No espaço, o público poderá percorrer por pequenos núcleos temáticos, idealizados pelo artista: Ícaros, instrumentos musicais imaginários, gatos, cachorros. Embora figurativos, esses temas dialogam fortemente com a abstração, seja na construção da ‘figura’, seja no uso da cor. Cada núcleo temático está composto de técnicas distintas, como desenho, recorte, pintura e escultura em madeira.


"Assim organizados, apesar da diversidade técnica e temática, os trabalhos delineiam um conjunto de VARIÁVEIS constantes, um fio condutor que está sempre propondo a suspensão do peso e do lugar-comum do sentido."

O Museu Guido Viaro fica aberto de terça a sábado, das 14h às 18h e tem entrada franca.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Recriações / Picasso 3

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O retrato caiu em desuso, o retrato de ateliê, com tinta, grafite, arame, argila. Não entre as crianças, felizmente, nem entre os pintores de final de semana. Talvez por conta da abstratização nem tanto da arte em si, iniciada há cem anos, mas do discurso artístico mantido vivo ainda hoje no grande circuito das bienais, galerias e leilões mundo afora. De qualquer modo, o retrato resiste num mundo meio à parte. Tomar o rosto de alguém como pretexto para um trabalho, e não se trata mais do que isso, significa explorar uma topografia riquíssima, à qual subjaz um substrato ainda mais rico de possibilidades. Esse jogo de desvelamento, por mais velozmente que se resolva, embora possa durar dias intermináveis, esconde a construção compósita de um rosto espelhado, misto do que vemos a nossa frente e do que supomos ver, feito de nossas próprias marcas de identidade, incluídas as idiossincrasias. Explorar essa pequena baía é um prazer; não há paisagem humana tão adensada de sentidos. Não chega a ser um grande prejuízo os retratados quase nunca ficarem satisfeitos com o resultado. A exploração plástica já coletou uma vértebra que seja do inominável que supomos estar descobrindo.

Recriações / Picasso 2

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Há artistas incontornáveis. Pablito é um deles. Fecundo, exuberante, destruidor, genial mesmo nas precariedades. Gosto de pensar que o grande artista é aquele que deixa transparecer sua personalidade tanto nos acertos como nos erros. Porque alguns artistas são tão ímpares que não conseguem errar senão de modo personalíssimo. Há equívocos incontornáveis na história da arte. Tatear como um cego os avanços e recuos, as hesitações, os ímpetos camicazes desses erros permite desvelar os mecanismos mais íntimos de elaboração da obra, sem meias verdades, sem mistificação. O erro, mais do que o acerto, deixa transparecer de que ímpeto é feita a tecitura de uma tela, uma escultura, um desenho. O erro: essa mina.

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Recriações / Picasso 1

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O dia-a-dia do ateliê também é feito de recriações. Copiando se aprende sem dispor das palavras. Porque as palavras não dão conta da imensidão de estar vivo. De minha parte, para que o exercício não se reduza ao lugar-comum do grafite ou do nanquim, essenciais, copio com estilete. Recortar me coloca problemas que tenho que resolver na urgência do traço, sem possibilidade de correção. Satisfaz-se a curiosidade correndo uma série de pequenos riscos. Essas recriações dão a medida, ainda que em escala mínima, mas sempre de modo inequívoco, da amplitude de nossa imaginação ou de seu raquitismo. Põe-se à prova, como em treinamento. E sem exercícios diários não há curiosidade que nos salve.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

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AULAS EM DEZEMBRO

duas foram as aulas de emudecer

a primeira com meu pai
atingido subitamente na garganta
na raiz das cordas vocais

a segunda com meu irmão
podado drasticamente no cérebro
sem que sobrasse viva ramificação

ambas as aulas em dezembro
ambas fatais – 7 anos a separá-las

desde então engulo o que digo
sílaba a sílaba, grão a grão

22.01.2007

Essa cadeira foi um presente ao meu pai, no último ano. Com um binóculos ele ficava observando as pombas carijós comendo milho sob o eucalipto do quintal. Depois ela pertenceu ao meu irmão. Até que, infelizmente, voltou a mim. Sento nela para ler, no ateliê, e ver o verde ternura rebrotando todo ano nos galhos das árvores.

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O INDIZÍVEL E TRANSLÚCIDO SENTIDO DO AMOR

Num encontro relativamente caótico no restaurante Gilda, dia desses, ganhei de presente de Marilia Kubota ‘O indizível sentido do amor’, autografado com uma letrinha miúda pela própria autora, Rosângela Vieira Rocha, que eu não conhecia. Contente com a dupla gentileza, da poeta e da romancista, tratei de minorar, ainda que tardiamente, minha ignorância, iniciando naquela mesma noite a leitura.
E o milagre se deu, atiçado pelo sentido poético do título, logo nas primeiras páginas: o amor eterno, agora rememorado, ou revivido num contínuo vir-a-ser, vem em nossa direção com uma translucidez absoluta, como se fôssemos nós a pessoa que a narradora busca desde o primeiro parágrafo para fechar a ferida da perda do marido. Sentimos desde o início que é em nós que ela vai ‘alvejar a alma’ e ‘alcançar um fiapo de paz’ – e nós nela, a contraface do mesmo milagre, mediado pela leitura.
Mas a força do livro não está apenas no transcurso de suas duas narrativas, a do encontro do casal ainda jovem, seguido de seus desdobramentos ao longo do tempo, e os vinte e três dias de internamento do marido na UTI, até a morte, alternadas em capítulos curtos. A força está principalmente na própria natureza da linguagem utilizada, de uma transparência cuja naturalidade não só veste com justeza cada fato e cada sentimento narrado, mas também assombra pela translucidez com que cada sentimento e cada fato ecoa em nós. 
Parece muito simples e natural essa linguagem absolutamente transparente, pela qual passamos como quem respira, ou bebe água, ou caminha – como não podia deixar de ser. Mas essa simplicidade estrutural não pode ser senão fruto de uma maturação complexa da vida e da própria escrita. Ela evidencia um grau tão grande de adequação da história de amor que se narra, incluídos os percalços políticos do período da ditadura, com o próprio uso da linguagem, que temos a ilusão de que as coisas não podiam ser senão assim como foram. E o arco se completa: não há nenhuma desumanidade na tragédia final, é a vida apenas, ora feita de desejo, luta e amor, ora de perda, dor e ainda amor, agora cernido e quase metafísico. 
Em duas ou três noites li o livro. Procurei na internet uma resenha que fosse, na Folha, no Estadão, n’O Globo, e nada, embora o livro tenha saído em 2017 e a autora tenha outros onze livros publicados, além de ter recebido vários prêmios literários. Fiquei pensando que essa transparência translúcida de linguagem talvez não tenha sido bem compreendida; tão fácil reduzir o livro a um relato de perda, o que já seria um esforço tremendo de auto-análise e superação, quando na verdade, por mais relativa que seja a verdade, o que temos nas mãos é a invenção de uma lucidez sem transbordamento, justíssima. Nem a narrativa desborda para além das margens, inverossímil, nem a linguagem reivindica exibicionismos. 
Se somarmos esse domínio narrativo inequívoco, porém não sobressalente, ao fato de uma mulher nos ter franqueado o acesso a ele, talvez expliquemos em boa parte o silêncio imperdoável da crítica. O posfácio de Maria Valéria Rezende, no entanto, preenche substancialmente essa lacuna, explicitando, por exemplo, a adesão solidária e cúmplice do leitor à narrativa. Além de matéria no Correio Braziliense e a ótima entrevista ao Leituras, da TV Senado, entre outros. 
De maneira alguma procuro preencher essa lacuna escrevendo aqui. Isso é um agradecimento e o desejo alegre de a partir de agora me pôr publicamente entre os leitores de Rosângela Vieira Rocha.

domingo, 20 de janeiro de 2019

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CHUVINHA FINA

chove manso
sem relâmpago e sem trovão
chove uma chuva de gato
no peitoril da janela
chuvinha fina
sobre os lírios e begônias
do jardim
chove tão bonito de ver
e ouvir que dá vontade
de hibernar ao pé
do everest das cobertas
e nunca mais sair de lá
completamente esvaziado
dos sentidos do mundo
senhor, obrigado
porque tirais os sentidos
do mundo ao menos
por um segundo
Carlos Dala Stella, do livro A ARTE MUDA DA FUGA/Editora POSITIVO

Essa tela faz parte de uma série que chamo provisoriamente de "gatos à janela, com flores". Não tenho mais nenhuma comigo. Menos de uma dúzia, outra dúzia de desenhos e colagens do mesmo tema. Nelas exercito a faceta mais lúdica de minha pintura, conforme fui percebendo depois. Porque na hora tudo são questões plásticas bem objetivas. Fora essa pressão que se exerce em nós quando pintamos, quase involuntariamente, pressão física de sentido, ainda que oculto, a que também chamamos personalidade.



A BELEZA DOS BICHOS
os bichos
que triste seria o mundo sem os bichos
como viver sem o silêncio voluntarioso
e elástico do gato
sem esses dois planetas de ternura
com que o cachorro nos vê
sem a delicadeza fragilíssima e alada
de um passarinho
sem o espetáculo conciso e coordenado
de lentidão
da tartaruga da preguiça do jabuti
e a galinha
com seus movimentos pasmos de perna e pescoço
bruscos de parvo pânico
e esses barulhentos besouros de carcaças secas
pendulando no ar
e o ilusionismo mudo dos vaga-lumes
o corpo metafísico dos grilos
triste da criança que não conhece
o aquário de milagres
que desliza sinuosamente nos olhos do peixe
que não provocou, com um graveto
um curto-circuito
no carreiro de formigas carregadeiras
tenho tanta pena
do adulto que nunca viu a luz passando
pelo vitral das asas de uma libélula
sem os bichos
estaríamos muito mais sós
e a grandeza de deus
seria infinitamente menor
que a beleza ágil de uma lagartixa
Carlos Dala Stella, do livro A Arte Muda da Fuga
O colagem do gatinho foi feita em um dos 40 cardápios da Aldeia do Beto, em Curitiba, do querido amigo Robert Amorim. Foram mais de quatrocentos desenhos e recortes originais, que devem estar por aí, espalhados pelo mundo.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2019




dispersão universal


Três dias antes de morrer
o latido foi se apagando
até a afonia completa

depois os olhos envidraram
baços de indiferença e dor

até a tremedeira convulsiva
e o espasmo final

agora, na primeira manhã
sem o cachorro, um silêncio
branco com manchas  pretas
vaga pelo terreno de sombra
em sombra, primeiro indício
da dispersão universal

Carlos Dala Stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

A foto tem quatro ou cinco anos. Hanna, a pastora, morreu há pouco mais de um ano. Não é o cão do poema. Nem eu sou mais o mesmo. Mas a dispersão universal continua, impreterivelmente. Como continua nossa identidade maio humana, meio animal. Gosto de pensar que somos nós que dependemos deles, cães e gatos; só assim podemos exercer nossa docilidade animal. Porque há uma nossa ternura, completamente muda e alheia à palavra, que de outra forma não saberíamos como externar. Certo, há o amor, a infância, a velhice, mas os cães correspondem a nosso silêncio com mais silêncio, um silêncio de indizível ternura. Fica a impressão, possivelmente equivocada, de que nos compreendemos.
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casulos de sol


faço parte dos que são sem sina
dos que sonham abismados no paraíso
dos que têm no pressentimento
o prêmio e em jejum multiplicam
todos os dias a fome de viver
somos os que ouvem o silêncio
universal quando não nos ouvem
os que preenchem o vazio das horas
com os casulos de sol da manhã
os que frequentemente não sabem
o que fazer de estar vivo e vazam
pelos olhos uma biografia completa
de ignorâncias e são sem nome
sem norte sem ambição e no entanto
somos a insignificância que somos
na galáxia do que podíamos ser

carlos dala stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

PAULO LEMINSKI / da série Retratos

1 O processo de apreender um rosto, em mim, se dá durante e não antes do desenho. Quanto mais desenho, mais compreendo, ou tenho a ilusão de compreender, determinado olhar, mais apreendo um determinado sorriso, ambíguo e discreto. Como se o traço corresse a par e passo com o pensamento, separados, mas em sincronia. Por isso faço pequenas sequências de um ‘retratado’, para me dar tempo. O primeiro normalmente sai mais espontâneo, contradizendo a tensão inicial, o último mais sintético. Mas não há uma regra fixa.

2 No primeiro desenho a gente quer dar conta de todo o rosto, esquecendo que apenas alguns de seus traços lhe conferem a marca simplificada com que ele é visto. O bigode em Leminski, o sorriso discreto, gozoso. E um certo modo de olhar, sempre armando o que virá depois, a leveza inteligente do último verso. Desenhar um rosto é fazer escolhas, mas num nível quase inconsciente. Às vezes penso que apenas a mão guarda certo grau de consciência.

E no final a síntese, quase um processo de desmonte. O rosto reduzido a uma membrana de percepção, mais ou menos certeira, mais ou menos equivocada. Mas sempre um artefato simplificado de linhas. Pode que o Leminski mais jovem pareça mais seguro, mesmo o riso é de uma natureza mais controlada, o rosto antes do desmonte - que a vida impõe. O que importa no entanto é tomar o rosto de carne e osso como pretexto para a especulação do desenho.
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Poesia Brasileira / Jornal RASCUNHO

PARTINDO LENHA


quando a lâmina em cunha do machado
está afiada e o golpe é bem dado
a lenha se abre à primeira machadada

a força é necessária, mas a qualidade
do golpe, a favor do veio seco
nunca contra, é que faz a diferença

o ângulo reto sobre o topo da acha
ou levemente inclinado desviando o nó
vai determinar a eficácia da batida

o estalido seco e rasgado das fibras
aquece antes do fogo o corpo
como o esforço físico despendido

aos oitenta e dois anos, minha nona
três dias antes de morrer, partia lenha
no tronco, sob o telhadinho do paiol

 o vestido azul xadrez, o coque branco
o corpo magro e enérgico, e súbito
o quarto de círculo do golpe no ar

sem nenhum trejeito ou desperdício
de energia, concentrado em fender
no ponto certo o pinho ou a bracatinga

lembro do azul limpo e alegre dos olhos
em comunhão com o céu maior
da pele fina das mãos e das pernas

daquele modo justo de caber na vida
e eficiente, sem que no entanto
sua aura de alfazema se perdesse

carlos dala stella

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NONA IZA / PARTINDO LENHA

O desenho tem trinta anos, notação rápida, de lembrança. Foi feito pouco mais de um ano depois da morte de minha avó paterna. Essa cachorra no canto direito se chamava Suzi. (Depois vieram pelo menos três gerações de Quincas Borba, que sempre preferi à Memórias Póstumas e Dom Casmurro. Quanto a Brás Cubas, ao depois amor pegou, como diria Drummond, mas Dom Casmurro continua até hoje preterido. Quase trezentas páginas remoendo a traição é um pouco demais, evidência inequívoca do prazer de corno do falso casmurro.) E a avó é a mesma do poema Partindo Lenha, publicado na edição de dezembro do jornal Rascunho, na coluna Poesia Brasileira, de Mariana Ianelli.

sábado, 15 de dezembro de 2018

mallarmargens 

 revista de poesia e arte contemporânea 


por Marília Kubota - 19/01/2017


Achei dificílimo selecionar seis poemas do livro O gato sem nome, de Carlos Dala Stella. Foi trabalhoso escolher apenas seis peças, entre tanto deslumbramento. Este artista múltiplo, que pinta, desenha, esculpe, recorta e escreve na solidão de seu ateliê, no bucólico bairro de Santa Felicidade, em Curitiba, registra inúmeros episódios de epifania em imagens e escritos. Pelo menos uma vez na vida, os poetas deviam experimentar este tipo de solidão, simultaneamente monástica e erótica, que conduz os sentidos a um fluxo vertiginoso  em que a ordem é a beleza da intimidade.  

Carlos escreve poemas em diários, ou cadernos de artista, nos quais testa projetos de obras que engendrará em telas ou em esculturas de madeira e papel. Ao visitar seu ateliê – e o blog diário de ateliê, em que registra tudo, ou quase tudo que cria, o observador fica tonto com a profusão de ideias e obras.

Mas Carlos é minucioso. Se publicou O gato sem nome em edição caprichada do Caderno Listrado (assinada pelo artesão gráfico Daniel Barbosa), tem ciúmes dos poemas que escreve nos diários. Não quer divulgá-los, a não ser quando publicados em livro, ou no blog. Por isto, cada poema é uma revelação.  

O ateliê de Carlos lembrou a casa de Claudio Seto, já falecido, que morava no bairro de São Brás.  Seto não tinha um ateliê : seu escritório era atulhado de revistas, jornais, livros, zines, publicações de histórias em quadrinhos, arte e cultura japonesa,  ciência, astrologia, futebol, magia, desenhos, idéias para quadros. No quintal abundavam bonsais e pinturas, como saídos de uma cornucópia. Carlos é disciplinado em sua desordem criativa. De sua cornucópia também jorra leite e mel, e como Seto, ele vinga-se dos avaros que só produzem para o imperativo do mercado. 

Para os artistas fora do eixo, felicidade é encontrar uma arte em sintonia com a observação da delicadeza da vida. Uma arte que, por contaminação, reproduz esta delicadeza em obras ímpares.  

O silêncio da escrita

ENGODO

Vida é esse miolo pulsante
limitado sempre pela casca.

Ao contrário do pão e do ovo
a gema que há dentro
está condenada a alimentar o escuro.
A luz latente, circular e bela
em sua substância amarela
não passa de engodo.

Mas o olho interno entrevê
na luz fecundante da única vela
o esplendor vermelho do sol.


ADRIANO LUGARINI, 14

Enquanto risco o carvão na tela virgem
com a ajuda de uma haste de bambu
- antiga vara de pesca de meu pai –
seu Daniel cuida das mudas de girassol
plantadas ao longo do muro branco
entre a porta do ateliê e o portão de ferro.
Paciente, aguardo que a frágil linha,
invisível para quem passa na rua,
cresça amarela, e acenda os olhos
de quem se perde por aqui.


A MARIPOSA

tromba contra o isopor do teto,
contra o prato da lâmpada mais forte,
contra a superfície colorida das telas.
As trombadas seccionam
seu vôo espiralado com golpes
aparentemente inofensivos, indolores.

O som oco se repete dezenas de vezes
mais do que um estalo,
menos do que um choque,
até que o silêncio volta, sem pânico.

Sobre o caderno de desenho aberto,
caminha a mariposa
num treme-treme ritualístico.

Dois olhos nas asas perguntam
se o que fiz de mim nesta segunda-feira
terá algum sentido depois, e qual ?
- dois inquietos olhos negros
vindos do amanhã.

O ensaio da escrita

COMO OS CHINESES

Escrevo meus quadros
às vezes nem é o quadro que me interessa
mas a pipa em que ele se transformou
- vermelha, com sua longa rabiola
chicoteando o azul.

Quando sinto nos dedos
a tensão do fio, o vento das alturas
atuando sobre a estrutura de paina e seda,
reconheço espantado que o voo do quadro
nasce em mim
mas não sei para onde me leva.


NA VOLTA DO ATELIÊ

Mãe e filha
batem bola na rua
em frente de casa.
Param para que eu passe.
Pelo espelho retrovisor vejo
a alegria com que retomam o jogo
no antipó remendado.
Ambas de calça curta.

Que diferença faz
se está nublado e se eu não pintei
nenhum quadro ?


OS OLHOS DO PAI

Tão frágil a borboletinha do fim da tarde
Com seu voo leve de asas helicoidais.

Tão doce o perfume do jasmineiro miúdo
Apenas cai a tarde começa a noite.

Tão imóveis o juvevê sem folhas
A varaneira sem galhos
O pinheiro só tronco e espinhos.

Tão parado o ar
Tão sem estrelas a noite
Sem grilos vaga-lumes besouros
Sem lua.

Três anos que meu pai morreu.

1o. Voo
CARLOS DALA STELLA, poeta-pintor nascido em Curitiba, em 1961. O diálogo entre artes plásticas e escrita permeia tanto seus desenhos e telas, quanto seus painéis de cimento e vidro. Ilustrador de livros, jornais e cartazes, expôs pela primeira vez em Monselice, Itália. É autor de Caçador de Vaga-lumes(poemas), Riachuelo, 266 (contos e crônicas), Bicicletas de Montreal (desenhos e fotos) e O gato sem nome(poemas) e Nanquim (desenhos).