segunda-feira, 1 de junho de 2020

A ARTE DA INVENÇÃO MÁGICA / Mariana Ianelli

Que triste seria nosso ofício sem as parcerias. Sem algumas delas nosso trabalho sequer seria conhecido. Outras acrescem sentido ao sentido que acreditamos estar produzindo. Me sinto grato a ambas, imensamente grato. E alegre com os encontros.
Reproduzo a seguir a apresentação de Mariana Ianelli ao meu livro NAS MÃOS DE BENEDITA, Ed. Positivo. A ilustração pertence ao conto que dá título ao livro.


A ARTE DA INVENÇÃO MÁGICA / Mariana Ianelli

Começar por onde, se aqui entramos irresistivelmente atraídos como naquele livro de areia sem princípio nem fim? Que não se enganem os leitores com a aparente brevidade destes contos. Carlos Dala Stella é sabedor de ilusionismos, transfigurações, metamorfoses, secretas alquimias. Tudo neste livro é império das mãos e dos olhos: pequenos jardins, teatros e seus bastidores, pensares que ganham corpo dentro de oficinas e ateliês, cinemas mudos da infância. O insubordinável dos sonhos e suas armadilhas encontram campo fértil onde se multiplicar. Vê-se de cima, dos cimos, por dentro, no escuro. Ver é também, aqui, uma experiência tátil.
Entre as camadas destes textos, alguém talvez se lembre do conto A continuidade dos parques, de Cortázar. Talvez alguém pense em Um sonho na Alemanha, de Borges. Em todos eles o conto se estrutura meticulosamente para funcionar numa invenção mágica. Vislumbramos a invenção na ideia e articulação de suas partes, mas seu predicado mágico vai além: nos envolve. Está naquilo que imanta as partes num corpo só, naquilo que insufla espírito numa figura de barro.
Lembram-se da máquina de voar, em O memorial do Convento? Como que simboliza o que ocorre nos textos de Dala Stella. Não é só o extraordinário de pensar uma máquina de voar desenhando suas peças, dispondo pedras, arames, âmbar, lamelas de ferro, esferas. Há ainda o segredo do que vai dentro das esferas. Há ainda o mistério do que atrairá o âmbar e dará unidade viva às partes, leveza, poder de voo. “Oh que maravilha é viver e inventar”, exclama Bartolomeu Lourenço, o padre sonhador (re)criado por Saramago. Por obra da virtude desse fascínio primeiro, desse devanear que medita numa passarola e outras artes, os olhos do inventor pairam sobre campos e telhados antes mesmo de sua máquina de voar ganhar altura.
Assim os olhos do artista Dala Stella, e os de seu livro: olhos de inventor, olhos que meditam, que estão por toda parte, como borboletas indo de pistilo em pistilo, demorando-se aqui e ali, sem se resguardar dos riscos nem se deter num destino final. Importa que pervaguem, tateiem, fecundem, e experienciem o desdobrar-se de uma imagem em outra, em transfigurações potencialmente intermináveis. É “o grande olho lacrimoso” de uma vaca perscrutando transeuntes. São os olhos silenciosos do cachorro ou os “escandalosos olhos amarelos” dos girassóis. São os olhos “em ronda carniceira”, olhares que matam, que compreendem, ou que apenas se cruzam, “cúmplices do mesmo desespero”.
As mãos participam igualmente desse devanear, são mãos que observam tanto quanto os olhos tateiam, mãos que acarinham ou advertem, que plantam ou debulham, fazem música, leem, esculpem, jogam, rezam. Mãos que sustentam o peso imaterial de uma lembrança numa pequena pedra branca e um caderninho. Mãos forjando, junto aos olhos, o nascimento da leveza. Notem que elas aparecem em quase todas as imagens do livro, produzindo, ou contendo nelas mesmas, outros signos, grafismos, gestos. Nelas, o ímpeto, a precisão, o afeto, o zelo, a tentação, a fantasia, potência de amor e morte, linguagem.
Penetramos o infinito espaço imaginário de espelhos contra espelhos e o que vemos nos enreda em mistérios à luz do sol. Há coisas terríveis, inauditas, delicadamente silenciadas. Há esplendores que assombram e terrores como que serenados. Somos invariavelmente atraídos, por fascínio, e fascinados vamos apalpando edifícios de fábula, pisando chãos de miragem, nos fazendo testemunhas oculares de transmutações poéticas, como, nas transmutações visuais de M. C. Escher, peixes se tornando pássaros, escadas para belvederes que sobem enquanto descem ou a mão desenhada que se esgalha do papel para encarnar a mão que trabalha.
Os materiais para esse trabalho de artista são de naturezas e densidades várias: cera de carnaúba e dor de ternura, palavra e emoção muda, violão e pedra. Todos entram na cozinha destes contos, como na vida. São conluios do fogo com o ar, da madeira com a lâmina, da ternura com a tristeza. São armadilhas da lógica, da música, da transparência. Nem mesmo sob a capa do mágico seus truques se acomodam em inofensiva realidade. Os bastidores também têm seus segredos e perigos, como os têm as superfícies polidas e espelhadas.
Um rosto, um pedaço de papel, a madeira, uma ninhada de cachorros, tudo, nos contos de Nas mãos de Benedita, está a transmudar-se constantemente, tudo está “a meio caminho”, como a escultura de Estrutura da leveza, e, por esse mesmo velado fluxo imparável, instante a instante, imagem por imagem, como que um lento e entranhado remodelar se tornasse inaparente, e o olho mais e mais suscetível a espantos no correr do grande tempo.
A respeito da gênese dos contos, ficamos a saber, pelo próprio autor, que alguns vieram de seus diários de ateliê, de “excertos de sonhos, reflexões sobre literatura, música, o tempo”, para os quais depois ele criou “entrechos narrativos”. Excertos e entrechos, agora os leitores poderão perceber, transmudaram-se no cosmo próprio de cada texto, não mais apenas sobre literatura, música e o tempo, mas por obra da literatura, da música e do tempo. São armadilhas de espanto, ternuras acutilantes, finas membranas de mistérios, visões que brotam de demoras contemplativas, entre pressentimento e revelação, pesadelo e maravilha. São calores de infância e pavores em quartos claro-escuros de qualquer um de nós.
Ainda que as imagens possam ser admiradas autonomamente em relação aos textos, é delicioso encontrar aqui e ali o alento comum do inventor que lhes deu forma e figura. Encontrar, por exemplo, nas páginas de A arte muda da fuga, livro anterior de Dala Stella, sua estreia na poesia, a imagem de um galinho de gesso, num desenho, e um certo peixe esculpido em lâminas de papel superpostas, que agora reaparecem (ou assim podemos imaginar), neste livro, na forma e figura de dois contos. Um corpo desdobrável, de papel, que quase se move sozinho, faz-se emblemático da arte de Dala Stella contista: o texto como um corpo-cosmo estruturado em diferentes planos, com energia, harmonia e um algo mais, perturbador, que nos enreda, nos tira o chão, e então o segredo: nos suspende no ar, como naquela máquina de voar, nos e(n)leva.


Como escreve Carlos Dala Stella


Foto de Matias Dala Stella
Carlos Dala Stella é poeta-pintor.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Nos últimos três, quatro anos tenho acordado bem tarde, às vezes depois do meio-dia. Depende até que horas fiquei trabalhando, no ateliê ou em casa mesmo. Faço exercícios por 40, 45 minutos, muito lentamente, como quem medita. Enquanto preparo meu café, olho pela janela: lá estão a torre da igreja de Santa Felicidade, a copada das árvores, cobrindo quase completamente o dorso do bairro. Algumas vezes o sol esplende, outras a neblina engolfa as araucárias e os podocarpus lambertii – a tal Curitiba londrina! Depois de comer algumas frutas e tomar café, desço para o ateliê, a 50 metros de casa, atravessando um pequeno bosque. Com algumas interrupções trabalho por 12, 14 horas, todos os dias. Mas é óbvio que contada assim essa rotina é teatral; as coisas se dão muito mais naturalmente, com pequenas variações. O mais importante de tudo é o silêncio. Passo dias inteiros sem pronunciar uma palavra.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
Prefiro as madrugadas, o silêncio quase absoluto. Assim posso trabalhar por estirões de duas, três horas sem interrupção. Mas acordo e durmo escrevendo, e escrevo entre uma tela e outra, entre um desenho e outro: reflexões sobre artes plásticas, sobre a natureza dos materiais, sobre trabalhos que estou fazendo, escólios de leitura, poesia e alguma ficção. O que mais se aproxima de um ritual é escrever em meus diários de ateliê. Faço isso há 41 anos, quase todos os dias. Com o tempo escreve-se pelo prazer e pela necessidade de nos desdobrarmos em direção àquilo que ainda não somos, ou não sabemos que somos. Não há ritual, tudo é questão de pôr-se em movimento. Ou, mais precisamente, de não interromper o fluxo do movimento. Gosto de escrever em mesas atulhadas de sobras, aparas, livros, recortes, lápis de cor, tesouras, pedaços de isopor, madeira… Poesia escrevo basicamente na cama, no finalzinho da madrugada ou no início da manhã.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Escrevo quase todos os dias, e reescrevo sempre. Escrever e reescrever são práticas inseparáveis. Mesmo depois de anos, ao retomar um conjunto para um livro, reescrevo boa parte dos poemas. É interessante perceber que às vezes, desarmado pelo cansaço, o poema finalmente vem a nós. Há uma excessiva consciência, ou lucidez reflexiva, que só atrapalha a escritura, pondo limites a um corpo verbal que parece vocacionado, ‘naturalmente’ carregado de sentidos. Em alguns casos o poema vem quase pronto, como um descarrego, artesania e sentido inseparáveis. Noutros, é preciso dias e dias de dedicação, sem garantia de que se vai chegar a bom termo. Noutros ainda o resultado não vai além de um exercício, de alguma forma útil, mesmo que seja para afiar a lâmina da língua portuguesa. De comum entre esses casos, o manuseio permanente do artefato verbal.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
O que entra na composição de um poema não resulta de uma pesquisa objetiva, mas de anos e anos de percepções, mais ou menos elaboradas, mais ou menos conclusivas. Mesmo quando tomamos nota de uma expressão, de uma notícia de jornal, de um verso alheio, estamos lidando com a porção mais fluida da realidade, no limite com o que não se sabe, com o que não se vê, mas que de alguma forma se pressente, se intui, às vezes de modo inequívoco. Compatibilizar essas percepções à primeira vista abstratas com um corpo verbal permeado de objetividades, sonoras, visuais e semânticas, num todo eletrificado pelo mesmo tônus – é que são elas. Gosto da ideia de que a poesia repara a realidade, recuperando dela aquela porção subjetiva desprezada pela lógica racional, mas agora promovida à corporeidade do mundo físico. Porque é isso que um poema faz, dá corpo à fluidez do sentido.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Vamos por partes. Não há travas na poesia, pelo menos na poesia lírica, por mais reflexiva que ela seja. Procrastinar um poema significa perdê-lo para sempre. Em raros casos, depois de muito treino, é possível manter viva por dois ou três dias a pulsão de um futuro poema e de sua circunstância. Às vezes a ocasião é tão forte que a premonição do poema perdura, latejando à nossa volta, à espera. Mas mesmo nesses casos não há garantia de que o poema venha à luz com relativa perfeição. Melhor largar tudo e dar vasão à premência. Não há outra alternativa. Mesmo poemas mais longos, reflexivos, como um poema sobre o riso de Rembrandt no seu último autorretrato, por exemplo, riso de insondável ambiguidade, só se resolverão em processo. Por mais que se tenha tomado notas e levantado dados, é no calor da hora que o poema se arma. Quanto às expectativas, elas fazem parte de um horizonte tão difuso que é melhor nem perder tempo com elas. As expectativas são as nossas no momento da escrita, de percorrermos um percurso de relativa obscuridade de sentido em direção a uma explicitação que ainda desconhecemos, mas que cremos não só possível como comum a outras pessoas. Afora o prazer de exercitarmos o risco de uma habilidade que não depende de ninguém senão de nós mesmos.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Alguns poemas merecem revisão contínua, e mesmo assim não chegamos a lugar nenhum. Meu primeiro livro de poemas, O caçador de vaga-lumesé o diagrama de um projeto malogrado. O livro era originalmente composto por uma centena de poemas de dez estrofes cada, cada uma com dois versos. Esses dísticos elegíacos pretendiam dar conta de um fusionamento de ‘imagens altamente reflexivas’, com cortes tão abstratos entre si que cada dístico poderia valer por um poema isolado. O projeto tinha certa beleza. À medida que fui trabalhando, no entanto, os poemas foram encurtando de tamanho, alguns resultaram em quatro ou mesmo dois versos. Outros simplesmente desapareceram. O livro saiu mirradinho, magro e empalidecido. Recebeu duas resenhas altamente positivas, mas nunca mais esqueci que em poesia é preciso partir para o ataque antes que um plano estratégico seja elaborado. Sobre a segunda pergunta, não envio meus originais a ninguém, mas tenho o hábito de ler alguns poemas aos amigos que recebo no ateliê. A leitura em voz alta explicita tanto as qualidades como os defeitos de um poema. Quase sempre funciona.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Escrevo sempre à mão. Gosto da porção gráfica da escrita, do atrito da caneta no papel, do traço preto da tinta na superfície não encerada dos papeis que uso. De alguma forma, bastante ingênua e mesmo antiquada, me ponho numa tradição antiquíssima de amor à escrita grafada minuciosamente. Tem sido assim desde os dois anos, imagino, quando ganhei os primeiros lápis, com grafites mais moles e mais duros, conforme a porção menor ou maior de argila. Escrever é já um desenho; desenhar é a escrita esquecida de si, em sonho. Mas às vezes uso computador, como no livro de contos “Nas mãos de Benedita”, a sair pela Ed. Positivo. Pequenos trechos dos contos foram pinçados dos diários de ateliê, manuscritos, mas acabaram estruturados no computador, onde o processo de revisão é muito mais prático e mais rápido. Talvez porque o tempo da poesia me seja outro, mais dilatado e silencioso.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Tudo é pretexto para a invenção, se estivermos atentos. A intuição inicial, ou a ideia, pode ter uma descendência bem definida, restrita a um naipe de percepções que estrutura nosso sentimento de mundo, mas pode-se alimentá-la com o que a circunstância nos oferece, quaisquer circunstâncias. É muito frequente que um gesto ou uma fala oferecidos pelo acaso deem corpo a um sopro de vida com o qual acordamos, e detone todo o mecanismo de um poema. Outras vezes o ímpeto para a alegria, gratuito e misteriosamente renovado, se estrutura em versos ao primeiro parágrafo do livro que estamos lendo, o céu pela janela, hortênsia ao alcance das mãos, como em sonho. Misterioso também é como a premência da circunstância que nos socorre se apaga no trajeto do poema, à superfície feito de uma rarefação surpreendente de contexto. Talvez por isso tanta gente tenha a impressão que certos poemas foram escritos exclusivamente para elas, como se elas devolvessem ao poema a circunstância que ele obliterou.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Comecei a escrever muito cedo, aos dez, talvez onze, escrevia para um jornalzinho mimeografado da escola, onde também tapava buracos com desenhos. Minha referência eram os poetas românticos. Mas fazia alguns poemas gráficos também. Não se mexe com esse período de formação, sob o risco de pôr tudo a perder. Há um frescor no primeiro manuseio da palavra, um tal desejo de aproximação, de intimidade, que o resultado prático pouco importa. Antes mesmo do aprendizado da leitura e da escrita, a palavra já atua em nós. Quando ouvi Evocação do Recife, aos cinco, seis anos, no primeiro ano do primário, atual ensino básico, lido pela professora, numa salinha multisseriada de madeira, aquela sonoridade melodiosamente repetida: Rua da União, Capiberibe-Capibaribe, Rua da Saudade, Rua da Aurora, aquele carinho evocatório me pegou para sempre. Decerto muita coisa mudou de lá para cá, mudei eu e mudou o mundo, mas aquela sensação de acolhimento no ninho da palavra continua viva até hoje, apesar dos percalços. Se pudesse voltar àquele tempo, me sentaria ao lado do menino que reprovou o primeiro ano por não conseguir aprender a ler, e faria um carinho em seu ombro, convidando-o para soltar pipa depois da aula.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Gostaria de publicar livros com um único poema ilustrado para adultos. Tenho um poema pronto, mais longo, chamado “O riso de Rembrandt”, e uma ideia relativamente precisa das ilustrações. Essa segunda pergunta nunca me ocorreu. A grandeza do que já foi escrito é inabarcável. A ela se somam milhares de livros publicados todos os anos. Espero poder ler alguns deles.
Ao dar início a um novo projeto, você planeja tudo antes ou apenas deixa fluir? Qual o mais difícil, escrever a primeira ou a última frase?
Como escritor de poesia, não funciono movido por projetos. Me mantenho trabalhando. Depois de anos, se a oportunidade de publicar surge, organizo um conjunto segundo coordenadas que os próprios poemas sugerem. É a hora de construir um corpo orgânico, cortando muito e às vezes preenchendo lacunas.
Os primeiros versos de um poema quase sempre me são dados. Os últimos são os mais difíceis. Há todo um jogo verbal de sentido, uma notação de sensibilidade, um adensamento, que tanto mais nos aproximamos do final mais pode se perder. Quando um poema falha nos últimos versos, todo o edifício desmorona.
Como você organiza sua semana de trabalho? Você prefere ter vários projetos acontecendo ao mesmo tempo?
Não organizo. Minha regra é me pôr a trabalhar, se possível todos os dia. Daí decorre uma certa direção, um esclarecimento que se ilumina e se perde, e volta a se iluminar e a se perder. Os intervalos às vezes duram anos. Sempre fico surpreso como esses vazios amadurecem. É preciso ter paciência, constância e paciência.
Para me aliviar da escrita, desenho e pinto. De modo que por aqui tudo se dá simultaneamente. O que acontece é que tenho que fazer algo de mim, e em alguns dias a pressão aumenta, então trabalho em várias direções ao mesmo tempo, para me aliviar. É um milagre que algum sentido resulte desse pequeno caos. Às vezes não resulta nada. Mas não existo mais fora desse percurso.
O que motiva você como escritor? Você lembra do momento em que decidiu se dedicar à escrita?
Não houve um momento específico. Houve a premência de sentido, de fazer um mínimo de sentido, lá no início desprovida quase completamente de autoconsciência. Para além da epiderme fatual do poema, cavo um buraco nos primeiros versos que não sei onde vai dar. Mas há sempre alguma estrutura de sentido que se arma e me surpreende, pelo menos enquanto escrevo. Não é raro que alguns dias depois eu mesmo não consiga mais enxergá-la. Por isso repito tanto alguns temas, na esperança de ser mais bem-sucedido.
Que dificuldades você encontrou para desenvolver um estilo próprio? Algum autor influenciou você mais do que outros?
O estilo, essa marca pessoal, não me parece algo que se construa laboriosamente. No meu caso, padeço a um certo modo de escrever e sentir o mundo. Se isso se configura num estilo ou não, pouco me importa. Claro, com o passar dos anos a coisa flui mais, vemos melhor os atributos que compõem nosso modus operandi. Mas muita coisa nos escapa. Às vezes acredito mesmo que a maior parte fica de fora. E é exatamente ela que nos motiva.
Kafka foi um susto na adolescência. Montale na maturidade. Emily Dickinson sempre. Mas há tantos outros, Pasolini, Juana Inés de la Cruz, Bandeira, dentro e fora dos livros.
Você poderia recomendar três livros aos seus leitores, destacando o que mais gosta em cada um deles?
Os que acabo de ler.
As Luas de Júpiter, de Alice Munro. Há uma loquacidade fluida em todos os contos, que contrasta suavemente com a franqueza com que barbaridades são ditas, desamores são revelados, fracassos são expostos sobre a mesa ou banalidades absurdas. Há sempre uma personagem perguntando: você já amou alguém de verdade? E as respostas são um absurdo de franqueza e sinceridade. Mas ninguém se aflige com nada, o dia a dia simplesmente flui.
Ciência e Técnica, antologia de textos históricos, organização de Ruy Gama. O ensaio sobre a cúpula da Santa Maria del Fiore, de William Barclay Parsons, é uma maravilha. Filippo Brunelleschi por muito pouco teria passado como um lunático com fumos de grandeza. A figura que emerge do ensaio é um misto de arquiteto da ousadia com um habilíssimo gestor político de sua empreitada. E a cúpula é essa grandeza que o põe ao lado de Dante e Bach.
O mesmo mar, de Amós Oz. A desconjunção dos capítulos, ora poemas, ora entradas de diário, ora pequenos contos, reflexões e sonhos, confere a esse romance uma narrativa tão fluida que às vezes ela quase se perde. A gente está sempre vendo a realidade através da bruma, e essa bruma narrativa desenha um retrato poético do narrador. Difícil não incorrer no pecado de às vezes ver o próprio Amós se expondo com pudor.

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Diário de Ateliê 41/Dala Stella





O BARQUINHO

um barquinho de três centímetros
singra a mesa da cozinha
o mar ignoto é de granito
o casco e o velame
uma figurinha delicadamente dobrada
pelas mesmas mãos que à noite
nas profundezas abissais do sono
procuram as minhas
cegas de paixão
e videntes de carinho

(poema inédito/carlos dala stella)

quinta-feira, 28 de março de 2019

Como escreve Carlos Dala Stella

Carlos Dala Stella é poeta-pintor.
Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Nos últimos três, quatro anos tenho acordado bem tarde, às vezes depois do meio-dia. Depende até que horas fiquei trabalhando, no ateliê ou em casa mesmo. Faço exercícios por 40, 45 minutos, muito lentamente, como quem medita. Enquanto preparo meu café, olho pela janela: lá estão a torre da igreja de Santa Felicidade, a copada das árvores, cobrindo quase completamente o dorso do bairro. Algumas vezes o sol esplende, outras a neblina engolfa as araucárias e os podocarpus lambertii – a tal Curitiba londrina! Depois de comer algumas frutas e tomar café, desço para o ateliê, a 50 metros de casa, atravessando um pequeno bosque. Com algumas interrupções trabalho por 12, 14 horas, todos os dias. Mas é óbvio que contada assim essa rotina é teatral; as coisas se dão muito mais naturalmente, com pequenas variações. O mais importante de tudo é o silêncio. Passo dias inteiros sem pronunciar uma palavra.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
Prefiro as madrugadas, o silêncio quase absoluto. Assim posso trabalhar por estirões de duas, três horas sem interrupção. Mas acordo e durmo escrevendo, e escrevo entre uma tela e outra, entre um desenho e outro: reflexões sobre artes plásticas, sobre a natureza dos materiais, sobre trabalhos que estou fazendo, escólios de leitura, poesia e alguma ficção. O que mais se aproxima de um ritual é escrever em meus diários de ateliê. Faço isso há 41 anos, quase todos os dias. Com o tempo escreve-se pelo prazer e pela necessidade de nos desdobrarmos em direção àquilo que ainda não somos, ou não sabemos que somos. Não há ritual, tudo é questão de pôr-se em movimento. Ou, mais precisamente, de não interromper o fluxo do movimento. Gosto de escrever em mesas atulhadas de sobras, aparas, livros, recortes, lápis de cor, tesouras, pedaços de isopor, madeira… Poesia escrevo basicamente na cama, no finalzinho da madrugada ou no início da manhã.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Escrevo quase todos os dias, e reescrevo sempre. Escrever e reescrever são práticas inseparáveis. Mesmo depois de anos, ao retomar um conjunto para um livro, reescrevo boa parte dos poemas. É interessante perceber que às vezes, desarmado pelo cansaço, o poema finalmente vem a nós. Há uma excessiva consciência, ou lucidez reflexiva, que só atrapalha a escritura, pondo limites a um corpo verbal que parece vocacionado, ‘naturalmente’ carregado de sentidos. Em alguns casos o poema vem quase pronto, como um descarrego, artesania e sentido inseparáveis. Noutros, é preciso dias e dias de dedicação, sem garantia de que se vai chegar a bom termo. Noutros ainda o resultado não vai além de um exercício, de alguma forma útil, mesmo que seja para afiar a lâmina da língua portuguesa. De comum entre esses casos, o manuseio permanente do artefato verbal.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
O que entra na composição de um poema não resulta de uma pesquisa objetiva, mas de anos e anos de percepções, mais ou menos elaboradas, mais ou menos conclusivas. Mesmo quando tomamos nota de uma expressão, de uma notícia de jornal, de um verso alheio, estamos lidando com a porção mais fluida da realidade, no limite com o que não se sabe, com o que não se vê, mas que de alguma forma se pressente, se intui, às vezes de modo inequívoco. Compatibilizar essas percepções à primeira vista abstratas com um corpo verbal permeado de objetividades, sonoras, visuais e semânticas, num todo eletrificado pelo mesmo tônus – é que são elas. Gosto da ideia de que a poesia repara a realidade, recuperando dela aquela porção subjetiva desprezada pela lógica racional, mas agora promovida à corporeidade do mundo físico. Porque é isso que um poema faz, dá corpo à fluidez do sentido.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Vamos por partes. Não há travas na poesia, pelo menos na poesia lírica, por mais reflexiva que ela seja. Procrastinar um poema significa perdê-lo para sempre. Em raros casos, depois de muito treino, é possível manter viva por dois ou três dias a pulsão de um futuro poema e de sua circunstância. Às vezes a ocasião é tão forte que a premonição do poema perdura, latejando à nossa volta, à espera. Mas mesmo nesses casos não há garantia de que o poema venha à luz com relativa perfeição. Melhor largar tudo e dar vasão à premência. Não há outra alternativa. Mesmo poemas mais longos, reflexivos, como um poema sobre o riso de Rembrandt no seu último autorretrato, por exemplo, riso de insondável ambiguidade, só se resolverão em processo. Por mais que se tenha tomado notas e levantado dados, é no calor da hora que o poema se arma. Quanto às expectativas, elas fazem parte de um horizonte tão difuso que é melhor nem perder tempo com elas. As expectativas são as nossas no momento da escrita, de percorrermos um percurso de relativa obscuridade de sentido em direção a uma explicitação que ainda desconhecemos, mas que cremos não só possível como comum a outras pessoas. Afora o prazer de exercitarmos o risco de uma habilidade que não depende de ninguém senão de nós mesmos.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Alguns poemas merecem revisão contínua, e mesmo assim não chegamos a lugar nenhum. Meu primeiro livro de poemas, O caçador de vaga-lumesé o diagrama de um projeto malogrado. O livro era originalmente composto por uma centena de poemas de dez estrofes cada, cada uma com dois versos. Esses dísticos elegíacos pretendiam dar conta de um fusionamento de ‘imagens altamente reflexivas’, com cortes tão abstratos entre si que cada dístico poderia valer por um poema isolado. O projeto tinha certa beleza. À medida que fui trabalhando, no entanto, os poemas foram encurtando de tamanho, alguns resultaram em quatro ou mesmo dois versos. Outros simplesmente desapareceram. O livro saiu mirradinho, magro e empalidecido. Recebeu duas resenhas altamente positivas, mas nunca mais esqueci que em poesia é preciso partir para o ataque antes que um plano estratégico seja elaborado. Sobre a segunda pergunta, não envio meus originais a ninguém, mas tenho o hábito de ler alguns poemas aos amigos que recebo no ateliê. A leitura em voz alta explicita tanto as qualidades como os defeitos de um poema. Quase sempre funciona.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Escrevo sempre à mão. Gosto da porção gráfica da escrita, do atrito da caneta no papel, do traço preto da tinta na superfície não encerada dos papeis que uso. De alguma forma, bastante ingênua e mesmo antiquada, me ponho numa tradição antiquíssima de amor à escrita grafada minuciosamente. Tem sido assim desde os dois anos, imagino, quando ganhei os primeiros lápis, com grafites mais moles e mais duros, conforme a porção menor ou maior de argila. Escrever é já um desenho; desenhar é a escrita esquecida de si, em sonho. Mas às vezes uso computador, como no livro de contos “Nas mãos de Benedita”, a sair pela Ed. Positivo. Pequenos trechos dos contos foram pinçados dos diários de ateliê, manuscritos, mas acabaram estruturados no computador, onde o processo de revisão é muito mais prático e mais rápido. Talvez porque o tempo da poesia me seja outro, mais dilatado e silencioso.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Tudo é pretexto para a invenção, se estivermos atentos. A intuição inicial, ou a ideia, pode ter uma descendência bem definida, restrita a um naipe de percepções que estrutura nosso sentimento de mundo, mas pode-se alimentá-la com o que a circunstância nos oferece, quaisquer circunstâncias. É muito frequente que um gesto ou uma fala oferecidos pelo acaso deem corpo a um sopro de vida com o qual acordamos, e detone todo o mecanismo de um poema. Outras vezes o ímpeto para a alegria, gratuito e misteriosamente renovado, se estrutura em versos ao primeiro parágrafo do livro que estamos lendo, o céu pela janela, hortênsia ao alcance das mãos, como em sonho. Misterioso também é como a premência da circunstância que nos socorre se apaga no trajeto do poema, à superfície feito de uma rarefação surpreendente de contexto. Talvez por isso tanta gente tenha a impressão que certos poemas foram escritos exclusivamente para elas, como se elas devolvessem ao poema a circunstância que ele obliterou.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Comecei a escrever muito cedo, aos dez, talvez onze, escrevia para um jornalzinho mimeografado da escola, onde também tapava buracos com desenhos. Minha referência eram os poetas românticos. Mas fazia alguns poemas gráficos também. Não se mexe com esse período de formação, sob o risco de pôr tudo a perder. Há um frescor no primeiro manuseio da palavra, um tal desejo de aproximação, de intimidade, que o resultado prático pouco importa. Antes mesmo do aprendizado da leitura e da escrita, a palavra já atua em nós. Quando ouvi Evocação do Recife, aos cinco, seis anos, no primeiro ano do primário, atual ensino básico, lido pela professora, numa salinha multisseriada de madeira, aquela sonoridade melodiosamente repetida: Rua da União, Capiberibe-Capibaribe, Rua da Saudade, Rua da Aurora, aquele carinho evocatório me pegou para sempre. Decerto muita coisa mudou de lá para cá, mudei eu e mudou o mundo, mas aquela sensação de acolhimento no ninho da palavra continua viva até hoje, apesar dos percalços. Se pudesse voltar àquele tempo, me sentaria ao lado do menino que reprovou o primeiro ano por não conseguir aprender a ler, e faria um carinho em seu ombro, convidando-o para soltar pipa depois da aula.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Gostaria de publicar livros com um único poema ilustrado para adultos. Tenho um poema pronto, mais longo, chamado “O riso de Rembrandt”, e uma ideia relativamente precisa das ilustrações. Essa segunda pergunta nunca me ocorreu. A grandeza do que já foi escrito é inabarcável. A ela se somam milhares de livros publicados todos os anos. Espero poder ler alguns deles.

Dala Stella lança "A ARTE MUDA DA FUGA" em São Paulo

Dala Stella, escritor de a "A arte muda da fuga", faz o lançamento de seu livro em São Paulo. 24/03/2019/Livraria Zaccara/16h



O livro inédito "A arte muda da fuga" do poeta e artista plástico curitibano Carlos Dala Stella - uma seleção criteriosa de 108 poemas feita por Marta Morais da Costa, doutora em literatura pela USP, a partir de um conjunto com aproximadamente duas mil páginas de textos, desenhos, recortes e colagens. As imagens do livro são pistas sobre o processo criativo do autor, que escreve e desenha cotidianamente em seus cadernos ilustrados há 40 anos.

Nos vazados e nas aberturas das imagens, o artista revela uma multiplicação de planos: camadas sucessivas em que continente e conteúdo se alternam e se contrapõem. Os desenhos a nanquim do ateliê, que aparecem na abertura e no encerramento, também são de autoria de Dala Stella e foram feitos especialmente para este livro.
A presença da natureza é representada na obra por uma pluralidade de elementos simples - aves, árvores, chuva, sol, estrelas, grão de areia. O poeta constata com espanto as manifestações da natureza: voejam pararus, urubus, sabiás, pintassilgos; a lesma se arrasta sobre o mármore, a libélula esplende em vitral e a aranha tece, como o tempo. "São pequenos animais a significar enigmas da vida e da arte", define Marta.
O silêncio, presente em diversos versos do poeta, é também o título da poesia que encerra a obra. Para Dala Stella, "A arte muda da fuga" chama a atenção pela polifonia de percepções e materialidades verbais de que é feito cada poema. "Um poema não é uma linha reta entre o que o poeta sente, ou pensa, e a expressão desse sentimento ou dessa ideia. É no percurso da escrita que o sentimento de mundo se dá, num espelhamento interno e externo sem o qual a vida resultaria num simples artefato de palavra, desprovido da animação que lhe é tão cara. Um poema é um pequeno percurso de linguagem onde a vida, misteriosa e engenhosamente, se dá. A linha reta, em poesia, é sempre curva", diz o poeta.
Sobre Carlos Dala Stella
Carlos Dala Stella nasceu em 1961, no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba. É poeta, artista plástico e também contista. Formado em Letras pela Universidade Federal do Paraná, dedica-se ao desenho desde a década de 80, quando expôs na Itália. Publicou os livros "O caçador de vaga-lumes" (poemas, 1998), "Riachuelo, 266" (contos e crônicas, 2000), "Bicicletas de Montreal" (fotografia e outras artesvisuais,2002) e "Ogatosemnome" (poemas, 2007). Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2012 na categoria Ilustração com o livro "Quer Jogar?" (livro ilustrado, 2011). Nas artes, o autor transita por murais de cimento e vidro, telas, retratos a lápis, nanquim e esculturas em papel, mas é nos cadernos de ateliê que cotidianamente escreve e desenha.
Sobre Marta Morais da Costa
Marta Morais da Costa é crítica literária, escritora e professora. É doutora em literatura pela USP. Nasceu em Ouro - Santa Catarina, em 1945. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e tem Mestrado e Doutorado em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Professora desde 1965, lecionou no Colégio Estadual do Paraná, entre outras escolas. É professora da UFPR e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Sempre considerou o estudo uma forma prazerosa de viver, o que veio a se estender ao ensino, em sua atividade no magistério. O interesse pelo teatro e pela literatura, principalmente vistos pelo olhar crítico, a fez produzir textos por encomenda ou por interesse pessoal.
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sexta-feira, 1 de março de 2019




Museu Guido Viaro recebe obras de Dala Stella 

a partir de 14 de março  28.02.2019



"Variáveis" promete ser uma exposição com formato inusitado, adianta o artista, que reúne nesta mostra desenhos, recortes, telas e esculturas. A abertura será no dia 14 de março, às 19h, no Museu Guido Viaro (Rua XV de Novembro, 1348) em Curitiba. A visitação ficará aberta até 10 de abril.

Carlos Dala Stella conta que muitos trabalhos fazem referência a outros artistas, "citados mais ou menos explicitamente, do que resulta um subtexto cifrado. Decifrá-lo é mais do que uma charada: contribui para manter o sentido de cada trabalho momentaneamente em suspensão", explica.


"A mostra propõe variações sobre incógnitas constantes. Percorrer essas variações e identificar algumas de suas incógnitas é o convite que se faz ao espectador".

No espaço, o público poderá percorrer por pequenos núcleos temáticos, idealizados pelo artista: Ícaros, instrumentos musicais imaginários, gatos, cachorros. Embora figurativos, esses temas dialogam fortemente com a abstração, seja na construção da ‘figura’, seja no uso da cor. Cada núcleo temático está composto de técnicas distintas, como desenho, recorte, pintura e escultura em madeira.


"Assim organizados, apesar da diversidade técnica e temática, os trabalhos delineiam um conjunto de VARIÁVEIS constantes, um fio condutor que está sempre propondo a suspensão do peso e do lugar-comum do sentido."

O Museu Guido Viaro fica aberto de terça a sábado, das 14h às 18h e tem entrada franca.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Recriações / Picasso 3

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O retrato caiu em desuso, o retrato de ateliê, com tinta, grafite, arame, argila. Não entre as crianças, felizmente, nem entre os pintores de final de semana. Talvez por conta da abstratização nem tanto da arte em si, iniciada há cem anos, mas do discurso artístico mantido vivo ainda hoje no grande circuito das bienais, galerias e leilões mundo afora. De qualquer modo, o retrato resiste num mundo meio à parte. Tomar o rosto de alguém como pretexto para um trabalho, e não se trata mais do que isso, significa explorar uma topografia riquíssima, à qual subjaz um substrato ainda mais rico de possibilidades. Esse jogo de desvelamento, por mais velozmente que se resolva, embora possa durar dias intermináveis, esconde a construção compósita de um rosto espelhado, misto do que vemos a nossa frente e do que supomos ver, feito de nossas próprias marcas de identidade, incluídas as idiossincrasias. Explorar essa pequena baía é um prazer; não há paisagem humana tão adensada de sentidos. Não chega a ser um grande prejuízo os retratados quase nunca ficarem satisfeitos com o resultado. A exploração plástica já coletou uma vértebra que seja do inominável que supomos estar descobrindo.

Recriações / Picasso 2

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Há artistas incontornáveis. Pablito é um deles. Fecundo, exuberante, destruidor, genial mesmo nas precariedades. Gosto de pensar que o grande artista é aquele que deixa transparecer sua personalidade tanto nos acertos como nos erros. Porque alguns artistas são tão ímpares que não conseguem errar senão de modo personalíssimo. Há equívocos incontornáveis na história da arte. Tatear como um cego os avanços e recuos, as hesitações, os ímpetos camicazes desses erros permite desvelar os mecanismos mais íntimos de elaboração da obra, sem meias verdades, sem mistificação. O erro, mais do que o acerto, deixa transparecer de que ímpeto é feita a tecitura de uma tela, uma escultura, um desenho. O erro: essa mina.

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Recriações / Picasso 1

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O dia-a-dia do ateliê também é feito de recriações. Copiando se aprende sem dispor das palavras. Porque as palavras não dão conta da imensidão de estar vivo. De minha parte, para que o exercício não se reduza ao lugar-comum do grafite ou do nanquim, essenciais, copio com estilete. Recortar me coloca problemas que tenho que resolver na urgência do traço, sem possibilidade de correção. Satisfaz-se a curiosidade correndo uma série de pequenos riscos. Essas recriações dão a medida, ainda que em escala mínima, mas sempre de modo inequívoco, da amplitude de nossa imaginação ou de seu raquitismo. Põe-se à prova, como em treinamento. E sem exercícios diários não há curiosidade que nos salve.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019


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AULAS EM DEZEMBRO

duas foram as aulas de emudecer

a primeira com meu pai
atingido subitamente na garganta
na raiz das cordas vocais

a segunda com meu irmão
podado drasticamente no cérebro
sem que sobrasse viva ramificação

ambas as aulas em dezembro
ambas fatais – 7 anos a separá-las

desde então engulo o que digo
sílaba a sílaba, grão a grão

22.01.2007

Essa cadeira foi um presente ao meu pai, no último ano. Com um binóculos ele ficava observando as pombas carijós comendo milho sob o eucalipto do quintal. Depois ela pertenceu ao meu irmão. Até que, infelizmente, voltou a mim. Sento nela para ler, no ateliê, e ver o verde ternura rebrotando todo ano nos galhos das árvores.

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O INDIZÍVEL E TRANSLÚCIDO SENTIDO DO AMOR

Num encontro relativamente caótico no restaurante Gilda, dia desses, ganhei de presente de Marilia Kubota ‘O indizível sentido do amor’, autografado com uma letrinha miúda pela própria autora, Rosângela Vieira Rocha, que eu não conhecia. Contente com a dupla gentileza, da poeta e da romancista, tratei de minorar, ainda que tardiamente, minha ignorância, iniciando naquela mesma noite a leitura.
E o milagre se deu, atiçado pelo sentido poético do título, logo nas primeiras páginas: o amor eterno, agora rememorado, ou revivido num contínuo vir-a-ser, vem em nossa direção com uma translucidez absoluta, como se fôssemos nós a pessoa que a narradora busca desde o primeiro parágrafo para fechar a ferida da perda do marido. Sentimos desde o início que é em nós que ela vai ‘alvejar a alma’ e ‘alcançar um fiapo de paz’ – e nós nela, a contraface do mesmo milagre, mediado pela leitura.
Mas a força do livro não está apenas no transcurso de suas duas narrativas, a do encontro do casal ainda jovem, seguido de seus desdobramentos ao longo do tempo, e os vinte e três dias de internamento do marido na UTI, até a morte, alternadas em capítulos curtos. A força está principalmente na própria natureza da linguagem utilizada, de uma transparência cuja naturalidade não só veste com justeza cada fato e cada sentimento narrado, mas também assombra pela translucidez com que cada sentimento e cada fato ecoa em nós. 
Parece muito simples e natural essa linguagem absolutamente transparente, pela qual passamos como quem respira, ou bebe água, ou caminha – como não podia deixar de ser. Mas essa simplicidade estrutural não pode ser senão fruto de uma maturação complexa da vida e da própria escrita. Ela evidencia um grau tão grande de adequação da história de amor que se narra, incluídos os percalços políticos do período da ditadura, com o próprio uso da linguagem, que temos a ilusão de que as coisas não podiam ser senão assim como foram. E o arco se completa: não há nenhuma desumanidade na tragédia final, é a vida apenas, ora feita de desejo, luta e amor, ora de perda, dor e ainda amor, agora cernido e quase metafísico. 
Em duas ou três noites li o livro. Procurei na internet uma resenha que fosse, na Folha, no Estadão, n’O Globo, e nada, embora o livro tenha saído em 2017 e a autora tenha outros onze livros publicados, além de ter recebido vários prêmios literários. Fiquei pensando que essa transparência translúcida de linguagem talvez não tenha sido bem compreendida; tão fácil reduzir o livro a um relato de perda, o que já seria um esforço tremendo de auto-análise e superação, quando na verdade, por mais relativa que seja a verdade, o que temos nas mãos é a invenção de uma lucidez sem transbordamento, justíssima. Nem a narrativa desborda para além das margens, inverossímil, nem a linguagem reivindica exibicionismos. 
Se somarmos esse domínio narrativo inequívoco, porém não sobressalente, ao fato de uma mulher nos ter franqueado o acesso a ele, talvez expliquemos em boa parte o silêncio imperdoável da crítica. O posfácio de Maria Valéria Rezende, no entanto, preenche substancialmente essa lacuna, explicitando, por exemplo, a adesão solidária e cúmplice do leitor à narrativa. Além de matéria no Correio Braziliense e a ótima entrevista ao Leituras, da TV Senado, entre outros. 
De maneira alguma procuro preencher essa lacuna escrevendo aqui. Isso é um agradecimento e o desejo alegre de a partir de agora me pôr publicamente entre os leitores de Rosângela Vieira Rocha.