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quinta-feira, 13 de setembro de 2012





Dia desses, antes que algumas visitas chegassem, me pus a desenhar sobre uma tela há meses no cavalete, esboçada com linhas praticamente invisíveis. Quando dei por mim, estava no meio de uma estrutura complexa, mobilizado até a medula, mas de certa forma distraído, mobilizado por uma atenção de viés. Isso tem me acontecido com certa frequência, quanto mais alheio, obediente a sabe-se lá que fio condutor, melhor trabalho. É como se eu me entregasse, desprevenido, ao mais desconhecido em mim mesmo. Assim sem temor, sem pompa, sem expectativa. Entregue ao acaso das mãos, decerto conectadas ao que me passa pela cabeça, mas como se autônomas. Como se eu fosse uno e todo à superfície. Quando na verdade sou um feixe de fragmentos mal cosidos, cheio de temores e pressentimentos.

Hoje cedo me aconteceu algo idêntico, enquanto o pessoal do Estúdio 42 filmava o "processo" (que palavra horrorosa!) de criação das formas em isopor para o painel de Inácio de Loyola, em cimento, para o Colégio Medianeira. Inventei de recortar de improviso o peixe que é um dos elementos do conjunto. E as coisas foram se dando, quanto mais me entreguei ao gume da pequena faca que uso para cortar o branco do isopor, mais os volumes foram se organizando, assim de graça. Tudo que tenho que fazer é ficar à superfície, longe da gosma "do íntimo da alma humana". Pode que a colheita se dê, pode que não.

Muitas vezes é a pressão de tempo que me põe nesse estado. Às cinco horas tenho que jatear um vidro na vidraçaria. São três da tarde e eu ainda não comecei o que já deveria estar pronto. Me concentro e no limite do desespero ataco. E o estilete inventa linhas, corta, separa, correndo de um extremo ao outro da lâmina de vidro. Parece que nada vai funcionar, mas quando vejo algo se deu. Corro para a vidraçaria. A sensação ruim ainda continua, mas tudo está lá, muito mais do que o previsto. E eu não compreendo mais nada. Então quanto mais me dedico, minucioso, mais empato o jogo, quanto mais corro e improviso, melhor o resultado? É como se eu tivesse que mergulhar para a superfície, para a superfície abissal da realidade.

O que se dá é mais ou menos isso: quanto mais me cobram, mais me disperdiço. E o desperdiço me devolve a um eu que eu mal sabia em mim, um estranho com quem convivo entre contente e desconfiado. Silenciosamente agradecido.

domingo, 25 de março de 2012

non mi mancano luci



Duas versões da mesma tela esboçada: gatos ainda, flores, janela e um nanopoema. E esse silêncio brando, cheio de ternura, que é em si pura afirmação.




sexta-feira, 16 de abril de 2010

Insignificâncias


Esses estudos acabam descartados com o tempo, ou ficam por aí, pelos cantos do ateliê, empoeirados. Preparava uma série de desenhos para um livro do Chico dos Bonecos, descartei um recorte, que depois retomei, por brincadeira. Coloquei um papel de seda vermelho, no fundo, desses que se usam para fazer pipas e balões. Prendi tudo numa placa de isopor como suporte, usando pequenos pregos. Agora ele descansa sobre um balcão, no primeiro piso, entre outros objetos heteróclitos.
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Gosto da idéia de que a identidade é construída também dessas insignificâncias, desses descartes, desses desperdícios. Quanto aos atos heróicos, me nego a vê-los sem as lentes do riso, às vezes mesmo da ironia. Desconfio deles. Sempre preferi a alegria à tragicidade, o primeiro traço ao desenho pronto, a hesitação do que está por nascer ao bem composto, ao aprumado. As insignificâncias de um dia ensolarado - como o de hoje - dizem mais do que toda uma vida de compostura.
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terça-feira, 22 de setembro de 2009

da foto à tela







(clique nas imagens para ampliá-las)


Depois de 5 meses, desde a primeira colagem, terminei a tela a partir da fotografia do Matias. Além da estrutura do tema, que se manteve desde o início, acabei acentuando a geometria plana da grande parede clara da casa à esquerda, sobre o muro preto. E veio o azul, um azul apenas sugerido na fotografia, talvez pela lembrança do mar, fora do campo de visão.
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À estrutura geométrica da foto, acrescentei meu desenho, feito de linhas e grafismo, especialmente na porção inferior esquerda, onde se localiza o núcleo abstrato da tela. O que fiz foi abrandar a porção negra do muro e acentuar as linhas de força da fotografia, fazendo-as dialogar com finas linhas brancas, encurvadas, na vertical.
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Espero ter amanhecido a geometria noturna da fotografia, acrescentando a ela uma nota de alegria.
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