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segunda-feira, 1 de junho de 2020

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Diário de Ateliê 41/Dala Stella





O BARQUINHO

um barquinho de três centímetros
singra a mesa da cozinha
o mar ignoto é de granito
o casco e o velame
uma figurinha delicadamente dobrada
pelas mesmas mãos que à noite
nas profundezas abissais do sono
procuram as minhas
cegas de paixão
e videntes de carinho

(poema inédito/carlos dala stella)

quinta-feira, 28 de março de 2019

Como escreve Carlos Dala Stella

Carlos Dala Stella é poeta-pintor.
Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Nos últimos três, quatro anos tenho acordado bem tarde, às vezes depois do meio-dia. Depende até que horas fiquei trabalhando, no ateliê ou em casa mesmo. Faço exercícios por 40, 45 minutos, muito lentamente, como quem medita. Enquanto preparo meu café, olho pela janela: lá estão a torre da igreja de Santa Felicidade, a copada das árvores, cobrindo quase completamente o dorso do bairro. Algumas vezes o sol esplende, outras a neblina engolfa as araucárias e os podocarpus lambertii – a tal Curitiba londrina! Depois de comer algumas frutas e tomar café, desço para o ateliê, a 50 metros de casa, atravessando um pequeno bosque. Com algumas interrupções trabalho por 12, 14 horas, todos os dias. Mas é óbvio que contada assim essa rotina é teatral; as coisas se dão muito mais naturalmente, com pequenas variações. O mais importante de tudo é o silêncio. Passo dias inteiros sem pronunciar uma palavra.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
Prefiro as madrugadas, o silêncio quase absoluto. Assim posso trabalhar por estirões de duas, três horas sem interrupção. Mas acordo e durmo escrevendo, e escrevo entre uma tela e outra, entre um desenho e outro: reflexões sobre artes plásticas, sobre a natureza dos materiais, sobre trabalhos que estou fazendo, escólios de leitura, poesia e alguma ficção. O que mais se aproxima de um ritual é escrever em meus diários de ateliê. Faço isso há 41 anos, quase todos os dias. Com o tempo escreve-se pelo prazer e pela necessidade de nos desdobrarmos em direção àquilo que ainda não somos, ou não sabemos que somos. Não há ritual, tudo é questão de pôr-se em movimento. Ou, mais precisamente, de não interromper o fluxo do movimento. Gosto de escrever em mesas atulhadas de sobras, aparas, livros, recortes, lápis de cor, tesouras, pedaços de isopor, madeira… Poesia escrevo basicamente na cama, no finalzinho da madrugada ou no início da manhã.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Escrevo quase todos os dias, e reescrevo sempre. Escrever e reescrever são práticas inseparáveis. Mesmo depois de anos, ao retomar um conjunto para um livro, reescrevo boa parte dos poemas. É interessante perceber que às vezes, desarmado pelo cansaço, o poema finalmente vem a nós. Há uma excessiva consciência, ou lucidez reflexiva, que só atrapalha a escritura, pondo limites a um corpo verbal que parece vocacionado, ‘naturalmente’ carregado de sentidos. Em alguns casos o poema vem quase pronto, como um descarrego, artesania e sentido inseparáveis. Noutros, é preciso dias e dias de dedicação, sem garantia de que se vai chegar a bom termo. Noutros ainda o resultado não vai além de um exercício, de alguma forma útil, mesmo que seja para afiar a lâmina da língua portuguesa. De comum entre esses casos, o manuseio permanente do artefato verbal.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
O que entra na composição de um poema não resulta de uma pesquisa objetiva, mas de anos e anos de percepções, mais ou menos elaboradas, mais ou menos conclusivas. Mesmo quando tomamos nota de uma expressão, de uma notícia de jornal, de um verso alheio, estamos lidando com a porção mais fluida da realidade, no limite com o que não se sabe, com o que não se vê, mas que de alguma forma se pressente, se intui, às vezes de modo inequívoco. Compatibilizar essas percepções à primeira vista abstratas com um corpo verbal permeado de objetividades, sonoras, visuais e semânticas, num todo eletrificado pelo mesmo tônus – é que são elas. Gosto da ideia de que a poesia repara a realidade, recuperando dela aquela porção subjetiva desprezada pela lógica racional, mas agora promovida à corporeidade do mundo físico. Porque é isso que um poema faz, dá corpo à fluidez do sentido.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Vamos por partes. Não há travas na poesia, pelo menos na poesia lírica, por mais reflexiva que ela seja. Procrastinar um poema significa perdê-lo para sempre. Em raros casos, depois de muito treino, é possível manter viva por dois ou três dias a pulsão de um futuro poema e de sua circunstância. Às vezes a ocasião é tão forte que a premonição do poema perdura, latejando à nossa volta, à espera. Mas mesmo nesses casos não há garantia de que o poema venha à luz com relativa perfeição. Melhor largar tudo e dar vasão à premência. Não há outra alternativa. Mesmo poemas mais longos, reflexivos, como um poema sobre o riso de Rembrandt no seu último autorretrato, por exemplo, riso de insondável ambiguidade, só se resolverão em processo. Por mais que se tenha tomado notas e levantado dados, é no calor da hora que o poema se arma. Quanto às expectativas, elas fazem parte de um horizonte tão difuso que é melhor nem perder tempo com elas. As expectativas são as nossas no momento da escrita, de percorrermos um percurso de relativa obscuridade de sentido em direção a uma explicitação que ainda desconhecemos, mas que cremos não só possível como comum a outras pessoas. Afora o prazer de exercitarmos o risco de uma habilidade que não depende de ninguém senão de nós mesmos.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Alguns poemas merecem revisão contínua, e mesmo assim não chegamos a lugar nenhum. Meu primeiro livro de poemas, O caçador de vaga-lumesé o diagrama de um projeto malogrado. O livro era originalmente composto por uma centena de poemas de dez estrofes cada, cada uma com dois versos. Esses dísticos elegíacos pretendiam dar conta de um fusionamento de ‘imagens altamente reflexivas’, com cortes tão abstratos entre si que cada dístico poderia valer por um poema isolado. O projeto tinha certa beleza. À medida que fui trabalhando, no entanto, os poemas foram encurtando de tamanho, alguns resultaram em quatro ou mesmo dois versos. Outros simplesmente desapareceram. O livro saiu mirradinho, magro e empalidecido. Recebeu duas resenhas altamente positivas, mas nunca mais esqueci que em poesia é preciso partir para o ataque antes que um plano estratégico seja elaborado. Sobre a segunda pergunta, não envio meus originais a ninguém, mas tenho o hábito de ler alguns poemas aos amigos que recebo no ateliê. A leitura em voz alta explicita tanto as qualidades como os defeitos de um poema. Quase sempre funciona.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Escrevo sempre à mão. Gosto da porção gráfica da escrita, do atrito da caneta no papel, do traço preto da tinta na superfície não encerada dos papeis que uso. De alguma forma, bastante ingênua e mesmo antiquada, me ponho numa tradição antiquíssima de amor à escrita grafada minuciosamente. Tem sido assim desde os dois anos, imagino, quando ganhei os primeiros lápis, com grafites mais moles e mais duros, conforme a porção menor ou maior de argila. Escrever é já um desenho; desenhar é a escrita esquecida de si, em sonho. Mas às vezes uso computador, como no livro de contos “Nas mãos de Benedita”, a sair pela Ed. Positivo. Pequenos trechos dos contos foram pinçados dos diários de ateliê, manuscritos, mas acabaram estruturados no computador, onde o processo de revisão é muito mais prático e mais rápido. Talvez porque o tempo da poesia me seja outro, mais dilatado e silencioso.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Tudo é pretexto para a invenção, se estivermos atentos. A intuição inicial, ou a ideia, pode ter uma descendência bem definida, restrita a um naipe de percepções que estrutura nosso sentimento de mundo, mas pode-se alimentá-la com o que a circunstância nos oferece, quaisquer circunstâncias. É muito frequente que um gesto ou uma fala oferecidos pelo acaso deem corpo a um sopro de vida com o qual acordamos, e detone todo o mecanismo de um poema. Outras vezes o ímpeto para a alegria, gratuito e misteriosamente renovado, se estrutura em versos ao primeiro parágrafo do livro que estamos lendo, o céu pela janela, hortênsia ao alcance das mãos, como em sonho. Misterioso também é como a premência da circunstância que nos socorre se apaga no trajeto do poema, à superfície feito de uma rarefação surpreendente de contexto. Talvez por isso tanta gente tenha a impressão que certos poemas foram escritos exclusivamente para elas, como se elas devolvessem ao poema a circunstância que ele obliterou.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Comecei a escrever muito cedo, aos dez, talvez onze, escrevia para um jornalzinho mimeografado da escola, onde também tapava buracos com desenhos. Minha referência eram os poetas românticos. Mas fazia alguns poemas gráficos também. Não se mexe com esse período de formação, sob o risco de pôr tudo a perder. Há um frescor no primeiro manuseio da palavra, um tal desejo de aproximação, de intimidade, que o resultado prático pouco importa. Antes mesmo do aprendizado da leitura e da escrita, a palavra já atua em nós. Quando ouvi Evocação do Recife, aos cinco, seis anos, no primeiro ano do primário, atual ensino básico, lido pela professora, numa salinha multisseriada de madeira, aquela sonoridade melodiosamente repetida: Rua da União, Capiberibe-Capibaribe, Rua da Saudade, Rua da Aurora, aquele carinho evocatório me pegou para sempre. Decerto muita coisa mudou de lá para cá, mudei eu e mudou o mundo, mas aquela sensação de acolhimento no ninho da palavra continua viva até hoje, apesar dos percalços. Se pudesse voltar àquele tempo, me sentaria ao lado do menino que reprovou o primeiro ano por não conseguir aprender a ler, e faria um carinho em seu ombro, convidando-o para soltar pipa depois da aula.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Gostaria de publicar livros com um único poema ilustrado para adultos. Tenho um poema pronto, mais longo, chamado “O riso de Rembrandt”, e uma ideia relativamente precisa das ilustrações. Essa segunda pergunta nunca me ocorreu. A grandeza do que já foi escrito é inabarcável. A ela se somam milhares de livros publicados todos os anos. Espero poder ler alguns deles.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019


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AULAS EM DEZEMBRO

duas foram as aulas de emudecer

a primeira com meu pai
atingido subitamente na garganta
na raiz das cordas vocais

a segunda com meu irmão
podado drasticamente no cérebro
sem que sobrasse viva ramificação

ambas as aulas em dezembro
ambas fatais – 7 anos a separá-las

desde então engulo o que digo
sílaba a sílaba, grão a grão

22.01.2007

Essa cadeira foi um presente ao meu pai, no último ano. Com um binóculos ele ficava observando as pombas carijós comendo milho sob o eucalipto do quintal. Depois ela pertenceu ao meu irmão. Até que, infelizmente, voltou a mim. Sento nela para ler, no ateliê, e ver o verde ternura rebrotando todo ano nos galhos das árvores.

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domingo, 20 de janeiro de 2019

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CHUVINHA FINA

chove manso
sem relâmpago e sem trovão
chove uma chuva de gato
no peitoril da janela
chuvinha fina
sobre os lírios e begônias
do jardim
chove tão bonito de ver
e ouvir que dá vontade
de hibernar ao pé
do everest das cobertas
e nunca mais sair de lá
completamente esvaziado
dos sentidos do mundo
senhor, obrigado
porque tirais os sentidos
do mundo ao menos
por um segundo
Carlos Dala Stella, do livro A ARTE MUDA DA FUGA/Editora POSITIVO

Essa tela faz parte de uma série que chamo provisoriamente de "gatos à janela, com flores". Não tenho mais nenhuma comigo. Menos de uma dúzia, outra dúzia de desenhos e colagens do mesmo tema. Nelas exercito a faceta mais lúdica de minha pintura, conforme fui percebendo depois. Porque na hora tudo são questões plásticas bem objetivas. Fora essa pressão que se exerce em nós quando pintamos, quase involuntariamente, pressão física de sentido, ainda que oculto, a que também chamamos personalidade.

A BELEZA DOS BICHOS



A BELEZA DOS BICHOS
os bichos
que triste seria o mundo sem os bichos
como viver sem o silêncio voluntarioso
e elástico do gato
sem esses dois planetas de ternura
com que o cachorro nos vê
sem a delicadeza fragilíssima e alada
de um passarinho
sem o espetáculo conciso e coordenado
de lentidão
da tartaruga da preguiça do jabuti
e a galinha
com seus movimentos pasmos de perna e pescoço
bruscos de parvo pânico
e esses barulhentos besouros de carcaças secas
pendulando no ar
e o ilusionismo mudo dos vaga-lumes
o corpo metafísico dos grilos
triste da criança que não conhece
o aquário de milagres
que desliza sinuosamente nos olhos do peixe
que não provocou, com um graveto
um curto-circuito
no carreiro de formigas carregadeiras
tenho tanta pena
do adulto que nunca viu a luz passando
pelo vitral das asas de uma libélula
sem os bichos
estaríamos muito mais sós
e a grandeza de deus
seria infinitamente menor
que a beleza ágil de uma lagartixa
Carlos Dala Stella, do livro A Arte Muda da Fuga
O colagem do gatinho foi feita em um dos 40 cardápios da Aldeia do Beto, em Curitiba, do querido amigo Robert Amorim. Foram mais de quatrocentos desenhos e recortes originais, que devem estar por aí, espalhados pelo mundo.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2019




dispersão universal


Três dias antes de morrer
o latido foi se apagando
até a afonia completa

depois os olhos envidraram
baços de indiferença e dor

até a tremedeira convulsiva
e o espasmo final

agora, na primeira manhã
sem o cachorro, um silêncio
branco com manchas  pretas
vaga pelo terreno de sombra
em sombra, primeiro indício
da dispersão universal

Carlos Dala Stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

A foto tem quatro ou cinco anos. Hanna, a pastora, morreu há pouco mais de um ano. Não é o cão do poema. Nem eu sou mais o mesmo. Mas a dispersão universal continua, impreterivelmente. Como continua nossa identidade maio humana, meio animal. Gosto de pensar que somos nós que dependemos deles, cães e gatos; só assim podemos exercer nossa docilidade animal. Porque há uma nossa ternura, completamente muda e alheia à palavra, que de outra forma não saberíamos como externar. Certo, há o amor, a infância, a velhice, mas os cães correspondem a nosso silêncio com mais silêncio, um silêncio de indizível ternura. Fica a impressão, possivelmente equivocada, de que nos compreendemos.
A imagem pode conter: desenho

casulos de sol


faço parte dos que são sem sina
dos que sonham abismados no paraíso
dos que têm no pressentimento
o prêmio e em jejum multiplicam
todos os dias a fome de viver
somos os que ouvem o silêncio
universal quando não nos ouvem
os que preenchem o vazio das horas
com os casulos de sol da manhã
os que frequentemente não sabem
o que fazer de estar vivo e vazam
pelos olhos uma biografia completa
de ignorâncias e são sem nome
sem norte sem ambição e no entanto
somos a insignificância que somos
na galáxia do que podíamos ser

carlos dala stella
do livro A ARTE MUDA DA FUGA

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Poesia Brasileira / Jornal RASCUNHO

PARTINDO LENHA


quando a lâmina em cunha do machado
está afiada e o golpe é bem dado
a lenha se abre à primeira machadada

a força é necessária, mas a qualidade
do golpe, a favor do veio seco
nunca contra, é que faz a diferença

o ângulo reto sobre o topo da acha
ou levemente inclinado desviando o nó
vai determinar a eficácia da batida

o estalido seco e rasgado das fibras
aquece antes do fogo o corpo
como o esforço físico despendido

aos oitenta e dois anos, minha nona
três dias antes de morrer, partia lenha
no tronco, sob o telhadinho do paiol

 o vestido azul xadrez, o coque branco
o corpo magro e enérgico, e súbito
o quarto de círculo do golpe no ar

sem nenhum trejeito ou desperdício
de energia, concentrado em fender
no ponto certo o pinho ou a bracatinga

lembro do azul limpo e alegre dos olhos
em comunhão com o céu maior
da pele fina das mãos e das pernas

daquele modo justo de caber na vida
e eficiente, sem que no entanto
sua aura de alfazema se perdesse

carlos dala stella



NONA IZA / PARTINDO LENHA

O desenho tem trinta anos, notação rápida, de lembrança. Foi feito pouco mais de um ano depois da morte de minha avó paterna. Essa cachorra no canto direito se chamava Suzi. (Depois vieram pelo menos três gerações de Quincas Borba, que sempre preferi à Memórias Póstumas e Dom Casmurro. Quanto a Brás Cubas, ao depois amor pegou, como diria Drummond, mas Dom Casmurro continua até hoje preterido. Quase trezentas páginas remoendo a traição é um pouco demais, evidência inequívoca do prazer de corno do falso casmurro.) E a avó é a mesma do poema Partindo Lenha, publicado na edição de dezembro do jornal Rascunho, na coluna Poesia Brasileira, de Mariana Ianelli.

terça-feira, 27 de novembro de 2018


APRENDIZADO

tão longo o aprendizado
pra chegar no mesmo lugar
onde nossos antepassados chegaram
pra cair exatamente
no mesmíssimo buraco
e no entanto nossos amores
proibidos e absolutos foram todos
intimamente particulares


tão vário o aprendizado
tão moderno e diverso daquele
de nossos queridos pais
e no entanto o deserto florido
a que chegamos é o mesmo
deserto de nossos ancestrais
a mesma areia entre os dedos
os mesmos cegos girassóis

de uma alegria tão doce
e genuína, e tão imprevista
que nem chega a ser aprendizado
é vida que sucede à vida
e no entanto acabamos
desaguando no mesmo rio
de peixes imemoriais
que vai dar no sal do mar

tanto ímpeto desse corpo
tanto esforço renovado
e tanto gozo na lida amorosa
com o corpo cheio de paraísos
e armadilhas do outro
e no entanto não aprendemos
nada de novo senão reavivar
o espírito rubro do fogo

Carlos Dala Stella, 
do livro A ARTE MUDA DA FUGA


Resultado de imagem para "a arte muda da fuga"

domingo, 24 de junho de 2018


COPA DO MUNDO
                                      para Marilia Kubota


me descrevem o que estou perdendo


engulo um a um os versos que escrevi
o sol de meus sonhos passando
pelo buraco da agulha
esse silêncio imperativo que volta
a se fazer sobre a face do mundo
e que vara a calma das horas
mentiroso e assassino


me narram os gols da prorrogação


engulo rajadas apocalípticas
dos caveirões do céu e da terra
uma a uma as últimas palavras
do piá se esvaindo nos braços da mãe
cada escama da esperteza ingênua
e frágil que vai se descolando
do corpo meio vivo, meio morto


me contam que o craque chorou


engulo minhas lágrimas privadas
e escondo a caixa preta
quem quiser que siga o lance
pela tela de plasma, o controle na mão
nós seguimos descontrolados
toneladas de alegria e penas
na caçamba, pela contramão


inédito de Carlos Dala Stella


domingo, 29 de janeiro de 2017

ENIGMAS


olho pro céu e vejo o incompreensível
olho pro quintal e vejo vaga-lumes
piscando o silêncio úmido da noite

na laranjeira junto ao quarto
um luze-lume acende a laranja e apaga

como é vasto o desconhecido
desconheço cada partícula de minha vastidão

o que eu sei faz silêncio em mim
desde antes de eu nascer

em minha ignorância sempre cabe mais um espanto

a noite é comigo
e eu sou uma multidão de desconhecidos

esses cachorros devo ser eu latindo a escuridão

à noite ausculto o mundo da janela
as árvores tão paradas
é assombroso e incompreensível

os primneiros pingos da chuva são partículas
de milagre que despencam do céu

a natureza só existe em polifonia

os primeiros pingos nas folhas
prometem um paraíso de ingenuidades

a cada noite que passa morro um pouco
e o pouco que sobra mais me vivifica

é tanto desencontro de beleza
que eu não caibo em mim

se eu soubesse chover dormiria menos aflito

sem o disfarce da repetição como suportaríamos
esse entorno contínuo de fatalidades?

de madrugada passo horas à janela
pasmo das ternuras que perdi

contemplar é mil vezes mais atento
e silencioso do que se distrair

desde criança a chuva me fascina
os vaga-lumes me iluminam
e a noite me desperta os enigmas

inédito de Carlos Dala Stella

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

QUEM DIRIA


todos os dias tranço
as várias franjas de silêncio
que o vento sopra e balança

e colho cada moedinha de luz
que a manhã espalha na grama

quem diria que o sentido
fosse tão dispensável à vida
e mesmo assim tão genuína
a alegria



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

ULISSES


primeiro escave a bacia do silêncio
até encontrar um veio d'água
então aguarde à margem que o nível
suba cada vez mais lento
depois atravesse a nado
a vastidão transbordante do nada
até chegar cheio de si do outro lado
finalmente chegaste a ser Ulisses
e o mundo não existiria sem ti.

carlos dala stella


quinta-feira, 31 de março de 2016

Eugenio Montale / 11


DEPOIS DA CHUVA


Ideogramas na areia molhada, 
pés de galinha. Me viro
mas onde uma ave poderá se esconder?
Talvez uma gaivota cansada, ou manca.
Nem sendo chinês para decifrar
aquela língua. Um sopro
e ela já era. Mentira que a natureza
é muda. Fala pelos cotovelos.
Tomara que ela não tagarele
demais sobre eu e você. 

Tradução de Carlos Dala Stella


DOPOPIOGGIA

Sulla rena bagnata appaiono ideogrammi
a zampa di gallina. Guardo addietro
ma non vedo rifugi o asili di volatili.
Sarà passata un'anatra stanca, forse azzoppata.
Non saprei decrittare quel linguaggio
se anche fossi cinese. Basterà un soffio
di vento a scancellarlo. Non è vero
che la Natura sia muta. Parla a vanvera
e la sola speranza è che non si occupi
troppo di noi.


Não há dúvida que algumas liberdades que se tomam ao traduzir são exageradas, mas às vezes sem esses exageros é praticamente impossível revivificar, na língua de destino, esse animal tão voluntarioso que é o poema. Avançamos o sinal também porque não conseguimos controlar completamente nossa vontade, mais ou menos idiossincrática, de meter o bedelho na criação alheia. De qualquer forma, o que conta mesmo é como o poema se comporta dentro do quadro da língua para a qual ele foi traduzido. Frequentemente as traduções de poesia mais 'fiéis' não impedem que os poema cheguem desconjuntados na nova língua. 

Foram essas liberdades que tomei ao traduzir Dopopioggia, de Eugenio Montale, acentuando certa concisão ideogramática a que o poema aspira. 


segunda-feira, 28 de março de 2016

Eugenio Montale / 10


INÍCIO DE JULHO

Julho mal começa e o pensamento
já está devendo.
Nenhum drama à vista, 
um mínimo de perturbações. 
O ritmo da mente em ponto morto
inexplicavelmente inspira sérias preocupações. 
Melhor se enfrenta o tempo afoito,
meio dia basta para liquidá-lo. 
Mas nesse início de julho cada segundo goteja 
e o encanador saiu de férias. 

Tradução de Carlos Dala Stella


I PRIMI DI LUGLIO


Siamo ai primi di luglio e già il pensiero
è entrato in moratoria.
Drammi non se ne vedono,
se mai disfunzioni.
Che il ritmo della mente si dislenti,
questo inspiegabilmente crea serie preoccupazioni.
Meglio si affronta il tempo quando è folto,
mezza giornata basta a sbaraccarlo.
Ma ora ai primi di luglio ogni secondo sgoccia
e l’idraulico è in ferie.


Poema do livro Diário de 71 e de 72, de Eugenio Montale, também traduzido para o português por Geraldo Holanda Cavalcanti, no livro Poesias, editora Record, transcrito a seguir.


COMEÇOS DE JULHO

Mal julho começa e já o pensamento
declara-se em moratória.
Dramas não mais ocorrem,
no máximo disfunções.
Que o ritmo da mente se relaxe,
e isso inexplicavelmente gera sérias preocupações.
Melhor se afronta o tempo quando é denso,
meia jornada basta a dispensá-lo.
Mas agora neste início de julho cada segundo pinga
e o bombeiro está de férias.

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Emily Dickinson / 6

Emily Dickinson

O Silêncio é nosso maior temor.
A Voz acena com o Resgate -
Mas o Silêncio é Infinitude.
Sequer tem um rosto.

Tradução de Carlos Dala Stella

J1251 (1873)

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.


Esta a versão italiana de Giuseppe Ierolli

Il Silenzio è tutto ciò che temiamo.
C'è Riscatto in una Voce -
Ma il Silenzio è Infinità.
In sé non ha un volto.

sábado, 24 de outubro de 2015

para ROBERT AMORIM


ASAS DA INGENUIDADE


aos poucos vou reconectando cabos
refazendo os frisos
substituindo algumas placas de cristal
o amarelo no lugar do cinza
com muito cuidado redesenho as bordas
reviso as articulações

tudo para que o vitral
de minha ingenuidade volte a se abrir
alado, sobre o vale do medo
e me leve em sobrevoo
para as campinas das papoulas
e volte a planar
sobre o deserto dos girassóis 
e eu possa mais uma vez
respirar as correntes ascendentes de ar

carlos dala stella


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Emily Dickinson / 5


821


Longe de Casa, estamos Eles e eu –
Ser um Imigrante
Em uma Metrópole Residencial
É fácil, quase sempre –

Habituar-se a um Céu Estrangeiro
Difícil – senão impossível
Como o Rosto das Crianças
Tanto mais se afastam – mais visível.

 Tradução de Carlos Dala Stella


Away from Home, are They and I -
An Emigrant to be
In a Metropolis of Homes
Is easy, possibly -

The Habit of a Foreign Sky
We - difficult acquire
As Children, who remain in Face
The more their Feet, retire.


Away from home, are they and IAway from home, are they and I 






















Minhas traduções são exercícios de leitura, amparadas sempre que possível por traduções para o italiano e espanhol, além de paráfrases em prosa. A disponibilidade dessas versões agora pela internet torna o processo muito prazeroso, e muito menos trabalhoso do que há pouco tempo. Mesmo assim sempre parto da edição completa que ganhei em 2008 de Cristovão Tezza, pela Little, Brown and Company, editada por Thomas H. Johnson, biógrafo e editor definitivo da escritora.

O poema 821 (segundo a datação Johnson), foi escrito em Cambridge, em abril de 1864, onde Emily Dickinson se recuperava de um problema nos olhos e onde ficaria até novembro. O que me atraiu foi a comparação do céu de onde nascemos com o rosto de uma criança, tanto mais vivo quanto mais ela caminha para longe, por artifício da memória. É fascinante que particularizemos uma porção do céu como mais íntima aos olhos de nossa alma do que o céu de outros lugares.

O céu parece sempre o mesmo, em qualquer lugar do mundo; não para os astrônomos, nem para os poetas. Os poetas moram poeticamente onde moram, o que significa que aquela porção do mundo foi sendo metaforizada por força da escrita, e da multiplicidade de percepções que a alimenta. Emily se habitua com a multidão de uma metrópole, não com seu céu desconhecido. Talvez porque o céu onde nascemos e vivemos boa parte da vida seja o cúmplice silencioso e compreensivo de nossa vocação, de nossa diária dedicação a ela. Nenhum outro céu acolhe tão incondicionalmente nossos olhos - doridos, cheios de júbilo, dúvida, indiferença, cegos de tanto ver.
    

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Óscar Hahn 8



Sigo lendo o chileno Óscar Hahn (vencedor em 2014 do Prêmio Loewe de Poesia, na Espanha). Por dois motivos, principalmente: porque ele entra nos temas de um modo tão direto que entramos juntos, sem hesitação; e também porque mal entramos, esses temas nos afligem como se  fossem nossos. Nem a ironia, nem o insólito de algumas imagens são capazes de nos afastar de nós mesmos. Que mais pode querer um autor do que essa fusão espelhada com o leitor?


NA PRAIA NUDISTA DO INCONSCIENTE



Um homem está deitado na praia nudista
     do inconsciente
quando surgem na noite dois sóis

A metade mulher do homem corre graciosamente
     para o mar
A metade homem caminha pela orla

Na praia nudista do inconsciente
as duas metades se banham de mãos dadas

O sol negro sobe no horizonte
O sol branco desce vermelho incandescente

A mulher e o homem fazem amor até a vertigem
Seus corpos lutam sobre a areia fosforescente

E o firmamento se enche de meteoritos
que se deslocam à velocidade da luz

Tradução de Carlos Dala Stella



EN LA PLAYA NUDISTA DEL INCONSCIENTE


Un hombre está tendido en la playa nudista del
     inconsciente
a esa hora de la noche en que salen dos soles

La parte mujer del hombre corre graciosamente hacia el
     agua
La parte hombre camina en dirección a la orilla

En la playa nudista del inconsciente
las dos partes se bañan tomadas de la mano

El sol negro se alza en el horizonte
El son blanco se pone al rojo vivo

La mujer y el hombre hacen amor hasta el vértigo
Sus cuerpos luchan en la arena fosforescente

Y el firmamento se llena de aerolitos
que se desplazan a la velocidad de la luz