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segunda-feira, 1 de junho de 2020


Como escreve Carlos Dala Stella


Foto de Matias Dala Stella
Carlos Dala Stella é poeta-pintor.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Nos últimos três, quatro anos tenho acordado bem tarde, às vezes depois do meio-dia. Depende até que horas fiquei trabalhando, no ateliê ou em casa mesmo. Faço exercícios por 40, 45 minutos, muito lentamente, como quem medita. Enquanto preparo meu café, olho pela janela: lá estão a torre da igreja de Santa Felicidade, a copada das árvores, cobrindo quase completamente o dorso do bairro. Algumas vezes o sol esplende, outras a neblina engolfa as araucárias e os podocarpus lambertii – a tal Curitiba londrina! Depois de comer algumas frutas e tomar café, desço para o ateliê, a 50 metros de casa, atravessando um pequeno bosque. Com algumas interrupções trabalho por 12, 14 horas, todos os dias. Mas é óbvio que contada assim essa rotina é teatral; as coisas se dão muito mais naturalmente, com pequenas variações. O mais importante de tudo é o silêncio. Passo dias inteiros sem pronunciar uma palavra.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
Prefiro as madrugadas, o silêncio quase absoluto. Assim posso trabalhar por estirões de duas, três horas sem interrupção. Mas acordo e durmo escrevendo, e escrevo entre uma tela e outra, entre um desenho e outro: reflexões sobre artes plásticas, sobre a natureza dos materiais, sobre trabalhos que estou fazendo, escólios de leitura, poesia e alguma ficção. O que mais se aproxima de um ritual é escrever em meus diários de ateliê. Faço isso há 41 anos, quase todos os dias. Com o tempo escreve-se pelo prazer e pela necessidade de nos desdobrarmos em direção àquilo que ainda não somos, ou não sabemos que somos. Não há ritual, tudo é questão de pôr-se em movimento. Ou, mais precisamente, de não interromper o fluxo do movimento. Gosto de escrever em mesas atulhadas de sobras, aparas, livros, recortes, lápis de cor, tesouras, pedaços de isopor, madeira… Poesia escrevo basicamente na cama, no finalzinho da madrugada ou no início da manhã.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Escrevo quase todos os dias, e reescrevo sempre. Escrever e reescrever são práticas inseparáveis. Mesmo depois de anos, ao retomar um conjunto para um livro, reescrevo boa parte dos poemas. É interessante perceber que às vezes, desarmado pelo cansaço, o poema finalmente vem a nós. Há uma excessiva consciência, ou lucidez reflexiva, que só atrapalha a escritura, pondo limites a um corpo verbal que parece vocacionado, ‘naturalmente’ carregado de sentidos. Em alguns casos o poema vem quase pronto, como um descarrego, artesania e sentido inseparáveis. Noutros, é preciso dias e dias de dedicação, sem garantia de que se vai chegar a bom termo. Noutros ainda o resultado não vai além de um exercício, de alguma forma útil, mesmo que seja para afiar a lâmina da língua portuguesa. De comum entre esses casos, o manuseio permanente do artefato verbal.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
O que entra na composição de um poema não resulta de uma pesquisa objetiva, mas de anos e anos de percepções, mais ou menos elaboradas, mais ou menos conclusivas. Mesmo quando tomamos nota de uma expressão, de uma notícia de jornal, de um verso alheio, estamos lidando com a porção mais fluida da realidade, no limite com o que não se sabe, com o que não se vê, mas que de alguma forma se pressente, se intui, às vezes de modo inequívoco. Compatibilizar essas percepções à primeira vista abstratas com um corpo verbal permeado de objetividades, sonoras, visuais e semânticas, num todo eletrificado pelo mesmo tônus – é que são elas. Gosto da ideia de que a poesia repara a realidade, recuperando dela aquela porção subjetiva desprezada pela lógica racional, mas agora promovida à corporeidade do mundo físico. Porque é isso que um poema faz, dá corpo à fluidez do sentido.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Vamos por partes. Não há travas na poesia, pelo menos na poesia lírica, por mais reflexiva que ela seja. Procrastinar um poema significa perdê-lo para sempre. Em raros casos, depois de muito treino, é possível manter viva por dois ou três dias a pulsão de um futuro poema e de sua circunstância. Às vezes a ocasião é tão forte que a premonição do poema perdura, latejando à nossa volta, à espera. Mas mesmo nesses casos não há garantia de que o poema venha à luz com relativa perfeição. Melhor largar tudo e dar vasão à premência. Não há outra alternativa. Mesmo poemas mais longos, reflexivos, como um poema sobre o riso de Rembrandt no seu último autorretrato, por exemplo, riso de insondável ambiguidade, só se resolverão em processo. Por mais que se tenha tomado notas e levantado dados, é no calor da hora que o poema se arma. Quanto às expectativas, elas fazem parte de um horizonte tão difuso que é melhor nem perder tempo com elas. As expectativas são as nossas no momento da escrita, de percorrermos um percurso de relativa obscuridade de sentido em direção a uma explicitação que ainda desconhecemos, mas que cremos não só possível como comum a outras pessoas. Afora o prazer de exercitarmos o risco de uma habilidade que não depende de ninguém senão de nós mesmos.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Alguns poemas merecem revisão contínua, e mesmo assim não chegamos a lugar nenhum. Meu primeiro livro de poemas, O caçador de vaga-lumesé o diagrama de um projeto malogrado. O livro era originalmente composto por uma centena de poemas de dez estrofes cada, cada uma com dois versos. Esses dísticos elegíacos pretendiam dar conta de um fusionamento de ‘imagens altamente reflexivas’, com cortes tão abstratos entre si que cada dístico poderia valer por um poema isolado. O projeto tinha certa beleza. À medida que fui trabalhando, no entanto, os poemas foram encurtando de tamanho, alguns resultaram em quatro ou mesmo dois versos. Outros simplesmente desapareceram. O livro saiu mirradinho, magro e empalidecido. Recebeu duas resenhas altamente positivas, mas nunca mais esqueci que em poesia é preciso partir para o ataque antes que um plano estratégico seja elaborado. Sobre a segunda pergunta, não envio meus originais a ninguém, mas tenho o hábito de ler alguns poemas aos amigos que recebo no ateliê. A leitura em voz alta explicita tanto as qualidades como os defeitos de um poema. Quase sempre funciona.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Escrevo sempre à mão. Gosto da porção gráfica da escrita, do atrito da caneta no papel, do traço preto da tinta na superfície não encerada dos papeis que uso. De alguma forma, bastante ingênua e mesmo antiquada, me ponho numa tradição antiquíssima de amor à escrita grafada minuciosamente. Tem sido assim desde os dois anos, imagino, quando ganhei os primeiros lápis, com grafites mais moles e mais duros, conforme a porção menor ou maior de argila. Escrever é já um desenho; desenhar é a escrita esquecida de si, em sonho. Mas às vezes uso computador, como no livro de contos “Nas mãos de Benedita”, a sair pela Ed. Positivo. Pequenos trechos dos contos foram pinçados dos diários de ateliê, manuscritos, mas acabaram estruturados no computador, onde o processo de revisão é muito mais prático e mais rápido. Talvez porque o tempo da poesia me seja outro, mais dilatado e silencioso.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Tudo é pretexto para a invenção, se estivermos atentos. A intuição inicial, ou a ideia, pode ter uma descendência bem definida, restrita a um naipe de percepções que estrutura nosso sentimento de mundo, mas pode-se alimentá-la com o que a circunstância nos oferece, quaisquer circunstâncias. É muito frequente que um gesto ou uma fala oferecidos pelo acaso deem corpo a um sopro de vida com o qual acordamos, e detone todo o mecanismo de um poema. Outras vezes o ímpeto para a alegria, gratuito e misteriosamente renovado, se estrutura em versos ao primeiro parágrafo do livro que estamos lendo, o céu pela janela, hortênsia ao alcance das mãos, como em sonho. Misterioso também é como a premência da circunstância que nos socorre se apaga no trajeto do poema, à superfície feito de uma rarefação surpreendente de contexto. Talvez por isso tanta gente tenha a impressão que certos poemas foram escritos exclusivamente para elas, como se elas devolvessem ao poema a circunstância que ele obliterou.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Comecei a escrever muito cedo, aos dez, talvez onze, escrevia para um jornalzinho mimeografado da escola, onde também tapava buracos com desenhos. Minha referência eram os poetas românticos. Mas fazia alguns poemas gráficos também. Não se mexe com esse período de formação, sob o risco de pôr tudo a perder. Há um frescor no primeiro manuseio da palavra, um tal desejo de aproximação, de intimidade, que o resultado prático pouco importa. Antes mesmo do aprendizado da leitura e da escrita, a palavra já atua em nós. Quando ouvi Evocação do Recife, aos cinco, seis anos, no primeiro ano do primário, atual ensino básico, lido pela professora, numa salinha multisseriada de madeira, aquela sonoridade melodiosamente repetida: Rua da União, Capiberibe-Capibaribe, Rua da Saudade, Rua da Aurora, aquele carinho evocatório me pegou para sempre. Decerto muita coisa mudou de lá para cá, mudei eu e mudou o mundo, mas aquela sensação de acolhimento no ninho da palavra continua viva até hoje, apesar dos percalços. Se pudesse voltar àquele tempo, me sentaria ao lado do menino que reprovou o primeiro ano por não conseguir aprender a ler, e faria um carinho em seu ombro, convidando-o para soltar pipa depois da aula.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Gostaria de publicar livros com um único poema ilustrado para adultos. Tenho um poema pronto, mais longo, chamado “O riso de Rembrandt”, e uma ideia relativamente precisa das ilustrações. Essa segunda pergunta nunca me ocorreu. A grandeza do que já foi escrito é inabarcável. A ela se somam milhares de livros publicados todos os anos. Espero poder ler alguns deles.
Ao dar início a um novo projeto, você planeja tudo antes ou apenas deixa fluir? Qual o mais difícil, escrever a primeira ou a última frase?
Como escritor de poesia, não funciono movido por projetos. Me mantenho trabalhando. Depois de anos, se a oportunidade de publicar surge, organizo um conjunto segundo coordenadas que os próprios poemas sugerem. É a hora de construir um corpo orgânico, cortando muito e às vezes preenchendo lacunas.
Os primeiros versos de um poema quase sempre me são dados. Os últimos são os mais difíceis. Há todo um jogo verbal de sentido, uma notação de sensibilidade, um adensamento, que tanto mais nos aproximamos do final mais pode se perder. Quando um poema falha nos últimos versos, todo o edifício desmorona.
Como você organiza sua semana de trabalho? Você prefere ter vários projetos acontecendo ao mesmo tempo?
Não organizo. Minha regra é me pôr a trabalhar, se possível todos os dia. Daí decorre uma certa direção, um esclarecimento que se ilumina e se perde, e volta a se iluminar e a se perder. Os intervalos às vezes duram anos. Sempre fico surpreso como esses vazios amadurecem. É preciso ter paciência, constância e paciência.
Para me aliviar da escrita, desenho e pinto. De modo que por aqui tudo se dá simultaneamente. O que acontece é que tenho que fazer algo de mim, e em alguns dias a pressão aumenta, então trabalho em várias direções ao mesmo tempo, para me aliviar. É um milagre que algum sentido resulte desse pequeno caos. Às vezes não resulta nada. Mas não existo mais fora desse percurso.
O que motiva você como escritor? Você lembra do momento em que decidiu se dedicar à escrita?
Não houve um momento específico. Houve a premência de sentido, de fazer um mínimo de sentido, lá no início desprovida quase completamente de autoconsciência. Para além da epiderme fatual do poema, cavo um buraco nos primeiros versos que não sei onde vai dar. Mas há sempre alguma estrutura de sentido que se arma e me surpreende, pelo menos enquanto escrevo. Não é raro que alguns dias depois eu mesmo não consiga mais enxergá-la. Por isso repito tanto alguns temas, na esperança de ser mais bem-sucedido.
Que dificuldades você encontrou para desenvolver um estilo próprio? Algum autor influenciou você mais do que outros?
O estilo, essa marca pessoal, não me parece algo que se construa laboriosamente. No meu caso, padeço a um certo modo de escrever e sentir o mundo. Se isso se configura num estilo ou não, pouco me importa. Claro, com o passar dos anos a coisa flui mais, vemos melhor os atributos que compõem nosso modus operandi. Mas muita coisa nos escapa. Às vezes acredito mesmo que a maior parte fica de fora. E é exatamente ela que nos motiva.
Kafka foi um susto na adolescência. Montale na maturidade. Emily Dickinson sempre. Mas há tantos outros, Pasolini, Juana Inés de la Cruz, Bandeira, dentro e fora dos livros.
Você poderia recomendar três livros aos seus leitores, destacando o que mais gosta em cada um deles?
Os que acabo de ler.
As Luas de Júpiter, de Alice Munro. Há uma loquacidade fluida em todos os contos, que contrasta suavemente com a franqueza com que barbaridades são ditas, desamores são revelados, fracassos são expostos sobre a mesa ou banalidades absurdas. Há sempre uma personagem perguntando: você já amou alguém de verdade? E as respostas são um absurdo de franqueza e sinceridade. Mas ninguém se aflige com nada, o dia a dia simplesmente flui.
Ciência e Técnica, antologia de textos históricos, organização de Ruy Gama. O ensaio sobre a cúpula da Santa Maria del Fiore, de William Barclay Parsons, é uma maravilha. Filippo Brunelleschi por muito pouco teria passado como um lunático com fumos de grandeza. A figura que emerge do ensaio é um misto de arquiteto da ousadia com um habilíssimo gestor político de sua empreitada. E a cúpula é essa grandeza que o põe ao lado de Dante e Bach.
O mesmo mar, de Amós Oz. A desconjunção dos capítulos, ora poemas, ora entradas de diário, ora pequenos contos, reflexões e sonhos, confere a esse romance uma narrativa tão fluida que às vezes ela quase se perde. A gente está sempre vendo a realidade através da bruma, e essa bruma narrativa desenha um retrato poético do narrador. Difícil não incorrer no pecado de às vezes ver o próprio Amós se expondo com pudor.

sábado, 16 de novembro de 2013

DOMINGO EM SANTA FELICIDADE



   
         Sobre a mesa da biblioteca havia uma bandejinha de isopor com três libélulas secas. Faltavam algumas pernas. Mas as asas estavam intactas: minúsculos vitrais sem cor, translúcidos. Acompanhar com uma lupa aquela nervura de delicadezas foi a primeira coisa que ele fez naquele domingo, antes mesmo de preparar o café.

         Depois, já na cozinha, o café preto na xícara, ficou pensando se seria capaz de desenhar uma libélula. Não uma libélula ipsis litteris, mas o grafismo dela, com seu motor dormente, pousada. “Abstrata e vera”, disse em voz alta, como um mensageiro de si mesmo, vindo de longe. Entre um gole e outro, o pressentimento de sempre, agridoce, de que o mundo cabia numa ninharia.

         No caminho para o ateliê, quebrou um galho de pitangueira da grossura de um dedo. Foi torcendo lentamente o galho para que as fibras se descolassem umas das outras antes de romperem. Conseguiu uma quebra irregular, cheia de pontas finas, como um tufo de escova. Mais a frente, arrancou um galhinho fino de um arbusto, repetindo o gesto de torcer até que primeiro a casca depois o cerne se rompessem, fibrentos. Ainda quebrou um terceiro galho.

         Enquanto caminhava, pisando na sombra diagonal da araucária do pequeno bosque, ouriçava com o polegar a ponta dos gravetos que tinha colhido. Ao mais grosso caberia a conformação do corpo, “num gesto único”, soprou o chinês andarilho que percorria algum desfiladeiro obscuro de sua cabeça, irônico. Com os outros dois, dependendo da conformação de cada um, a nervura das asas.

         Abriu a porta de baixo e subiu direto para o piso de cima. O sol entrava pelas janelas, desenhando longas tiras no cimento alisado. Espalhados pelo chão, pedaços de chassi, revistas, aparas de papel das últimas colagens, barbantes, lascas de bambu, panos sujos, algodão cru. Ele se apegava a toda espécie de sobra, porque sabia que em algum momento precisaria delas para começar algum trabalho. Tinha prazer em caminhar sobre essa porcaria toda, não havia melhor modo de tratar a inspiração.

         Apanhou uma folha grande de papel e prendeu-a sobre um pedaço de papelão, que soltou no chão. Usava grampos de roupa, desses de madeira, antigos. Abriu o tinteiro de nanquim e ajoelhou-se em silêncio. O ronco dos motores, o som alto, martelado nos graves, chegava como se os carros passassem logo ali, do outro lado da parede. Mas nada disso tinha muita importância, ele precisava apenas começar. À primeira equação se sucederiam outras, num ritmo às vezes mais, às vezes menos difícil, mas que afinal de contas daria em algum lugar. 

         Quem o visse pelas costas não veria nada. Apenas alguns movimentos repetitivos do braço direito, indo e vindo, a troca dos gravetos, o mergulhar deles na tinta, alguns respingos, resmungos. Mais nada. Foi o que pode ver e ouvir a garota que acabava de subir as escadas, em absoluto silêncio, quase em câmara lenta, agora parada no último degrau, sem ser percebida. 

         Várias vezes ela o havia surpreendido assim, entregue ao trabalho. Sabia que era bem vinda, mas não devia interrompê-lo. Ficou lá parada por uma boa meia hora, até que decidiu sentar. Ao dobrar as pernas o vestido armou um pouco, exalando o perfume do banho recém-tomado. Talvez ele tivesse terminado o desenho, mas também é possível que tenha sentido o aroma familiar – e virado de leve a cabeça, o olhar sobre o ombro esquerdo, convidando-a a se aproximar antes mesmo de sorrir.

         Ela levantou, o contentamento assustado crescendo por dentro, e só então sorriu em retribuição àquele olhar. Ele largou o pincel improvisado, fechou o tinteiro e antes que levantasse sentiu os joelhos da filha nas costas, as coxas aninhando a cabeça.

         – Achei que você ia dormir a manhã toda.
         – Mas eu dormi a manhã toda – ela disse apontando com os olhos marotos o relógio parado numa das paredes, os ponteiros marcando 11h45 há séculos.
         – É, vai ver eu não vi o tempo passar, como sempre. E, apertando os tornozelos da menina como se a chamasse: O que você acha, essa libélula está viva ou morta?
         – Morta, claro – ela disse, entrando no parque de diversões do pai.
         – Mas ela acabou de nascer.
         – Sinto muito te dizer, mestre china, mas então ela nasceu morta.
         – Você não gostou?
         – Gostei muito, você fez com esses pauzinhos aí?
         – Como é que você pode gostar se ela está morta?
         – Não complica, uma coisa é uma libélula de verdade, voando solta por aí, outra um desenho.

         É verdade que ele se sentia prolixo, gostaria de controlar o ímpeto de compreender as coisas, sem didatizá-las como fazia tão frequentemente. Será que a filha pressentia, como ele, que a vida sempre levava vantagem sobre um desenho, uma pintura ou um poema? Mas daí a dizer que um desenho é coisa morta...
         Como se lesse seus pensamentos, ela continuou:
          – Esquece, você complica tudo.  – E puxou o pai pela mão.  – Quero te mostrar uma coisa.  

         No sofá vermelho, lado a lado, ela levanta o vestido quase até a cintura, a calcinha branca transparente à mostra.
         – Comprei ontem, não parece uma nuvem?

         Pelas janelas pressente-se que o tempo está mudando. O vento faz caírem sapés sobre o telhado do ateliê, alguns pinhões encruados despencam. No pátio lateral, as folhas das helicônias e da bananeira balançam para lá e para cá, estandartes firmemente presos ao mastro. Os bambus rangem uns contra os outros. As rajadas de vento entram pelas frestas, levantando um pedaço de papel, uma asa seca de borboleta, um toco de barbante. A fina camada de pó do chão rodopia, invisível. O ar está mais quente do que de costume, a chuva prestes a desabar.

         Quando a chuva amaina, eles sobem, não pelo bosque, mas pela estradinha de pedra, a cumplicidade em água viva. De ambos os lados, mais helicônias, touceiras de gengibre azul, espíritos santos. Tudo molhado, luzidio. Ela se inclina e arranca dois dentes de leão, curvados sobre o meio fio de cimento, protegidos por uma folha de bananeira.  Dá um para o pai e levanta o outro na altura dos olhos. E assopra, fazendo as minúsculas sementes se soltarem bruscamente, flutuando no ar, para cima, para depois descerem, lentamente, algumas mais perto, ao alcance das mãos, outras mais longe, sobre o verde úmido, junto ao muro. O pai segura com cuidado aquele caule frágil, para que nenhuma semente se solte.

         Mais tarde, enquanto ela põe uma música depois de passar bom tempo procurando um cd, na cozinha o molho para o macarrão vai adiantado. Banho tomado, o pai pica bem a cebola, corta em pedaços muito pequenos as azeitonas e separa os temperos: massala, tândori, pimenta Jamaica, noz moscada, manjericão...

         – Hoje o molho bolonhesa vai ficar meio asiático. Diz, como se tivesse absoluto controle culinário sobre os improvisos de sempre, irrepetíveis.
         – Uma amiga que morou na Itália me disse que o macarrão que você usa é bem fajuto lá. E completou, se adiantando ao que pressentiu que o pai diria – Mas aqui deve custar uma nota.  

         De costas, ele levanta e abaixa os ombros, simulando desconsolo. Voltando-se, a faca na mão, pede que música era aquela, meio melancólica. Já se podia sentir no ar o aroma da carne moída dourando, misturada aos primeiros ingredientes. Ela disse que o pianista tinha sido seu professor de piano há uns dois anos – lembra? Sobre a tampa do teclado, num vasinho de cinco centímetros, o dente de leão que ele havia ganho há pouco, as sementes brancas descabeladas.

         – Wandula, ele toca num grupo chamado Wandula, aqui de Curitiba. Não acho melancólico, também não se parece com aquela porraloquice do Bordello que você ouve. E dirigiu-se à cozinha, onde começou a pôr a mesa, sem pressa. Antes mesmo de terminar, serviu dois copos de vinho e ofereceu ao pai. O seu não tinha mais do que um dedo. Bebericaram brindando de longe, com os olhos. Ela tinha olhos verdes, bem à superfície.

         Depois do almoço, enquanto a filha carrega a máquina de lavar com pratos e talheres, ele deita no sofá da sala. A música terminou. Por uma das portas de vidro vê-se o frescor das folhas no pequeno bosque, as milhares de gotículas resplandecendo ao sol, que acaba de voltar.  As bromélias estão transbordantes de água, os galhos dos podocarpos encharcados. O verde, vivificado pela tromba d’água de há pouco, deixa passar agora os raios do sol.

         A tarde vai pela metade. Uma faixa de sol entra na sala e ilumina a fotografia na parede dos fundos, junto à escada. Nela aprecem mãe e filha, brincando na areia da praia, à sombra de um imenso guarda sol branco. A filha tem um ano, ano e meio, no máximo. A mãe não mais do que vinte. A menina tenta enfiar o dedo em alguns buraquinhos feitos na areia, que a mãe não para de encher de água. Se fosse rememorar aquela manhã na praia, o pai certamente lembraria da gargalhada da menina quando a água borrifava para fora assim que o dedo entrava no buraco. Apesar das várias tentativas, não conseguiu registrar o riso da filha. Mas a expressão de alegria da mãe estava lá.

         Aos poucos o sono foi chegando, até que ele capotou, para só acordar no finalzinho da tarde, com frio nas pernas. Sentou-se. Sobre o vidro da mesinha de centro um bilhete, a letra uniforme, levemente inclinada para a direita, e a moldura em arabesco, emoldurando as três linhas. Leu, sem que se apagasse a expressão de sono em seu rosto. O que teria sonhado? Não lembrava. Colocou o bilhete de volta sobre a mesa, olhou ao redor da sala conferindo num milésimo de segundo o lugar de tudo, apatetado. E levantou.

         Depois de caminhar a esmo pela casa, desceu para a lavanderia, onde encheu o regador, jogando uma tampinha de adubo na água. Subiu, molhando as plantas dos vasos, os lírios da paz, capim limão, cróton, o bonsai sobre a pedra, os cactos minúsculos. Aos poucos percorreu a varanda de uma ponta a outra, até chegar ao antúrio, junto à biblioteca. O balde vermelho tinha desaparecido dentro do vaso, arrebentado por força das raízes, apodrecido. Há vinte anos aquele antúrio ocupava o mesmo lugar, pegando o sol da manhã, há vinte anos dava flores ininterruptamente. Quantas vezes não pegara a menina, ainda criança, brincando com elas, um pedaço da folha vermelha na boca, ou a espiga amarela na mão.

         Anoiteceu, faz mais de hora que ele está na biblioteca, sentado à mesa de trabalho. Logo ao lado estão as libélulas secas, mas ele não se ocupa delas. Na frente da telinha do computador, abre e fecha janelas, checando informações. Eventualmente vai até a estante e separa um livro. Escreve e reescreve, sempre com interrupções. Às vezes levanta, vai até a enorme porta de correr e encosta o nariz no vidro. Lá fora os sininhos japoneses estão mudos. Nenhum vento, nenhum sopro, sequer uma brisa. A escuridão engole tudo, mal se vê o contorno das árvores, o bloco maciço do ateliê – bloqueando a rua.

         O telefone toca, preenchendo o vazio. Pelo som da campainha ele intui quem é. Atende, indo para o sofazinho de vime. Em silêncio puxa as pernas para cima, aconchegando o corpo nas almofadas. Sente-se no ar o prazer com que ele se entrega à semiobscuridade da biblioteca. Só o abajur da mesa de trabalho está aceso. A tela do computador continua aberta, luminescente. Antes que a proteção de tela apague tudo, não há porque não satisfazer pelo menos essa curiosidade, afinal aquele poema nunca seria publicado:

há dois escândalos
antípodas porém complementares
no reino das flores: o antúrio
cuja espiga central enche os olhos da menina
de espanto e inflorescências
e a tulipa africana, que ao romper
o invólucro de sua florescência
expõe ao sol a vulva de pétalas rubras
fazendo arder obscenidades
nos olhos do velho

Carlos Dala Stella, Revista Helena, nº 3, setembro 2013

sábado, 12 de março de 2011

A casa ao pé do penhasco


O bom de morar entre as pedras, quando chove, é sentir o vapor mineral que sobe depois dos primeiros pingos e desaparece quando as rochas estão completamente molhadas.

O barulho da chuva consola. Mas é triste ver os pingos explodindo nas pedras e a água escorrendo pelos veios vermelhos, tão longe da terra.


Tao-chi (1641-1717): A Man in a House beneath a Cliff

***
.
A única música que se ouve é o vento, mas nessa época do ano ele apenas sussurra durante o dia e se cala à noite. Nem parece o vento cortante do inverno, que assobia semanas a fio, limando os nervos.

Às vezes grito palavrões, de pé na varanda. Ninguém responde. Um desconhecido que errasse por esses lados na certa ia espalhar que um louco mora no pé do penhasco. Um outro, ouvindo contar essa história, acrescentaria que há muitos anos um homem abandonara seu filho no alto de um penhasco, afogara a mulher e fugira para os braços da amante, na cidade vizinha. Outro ainda ajuntaria que o menino crescera falando com as pedras. E que, fato inédito, as pedras não só compreendiam o que ele dizia, como o consolavam com palavras de afeto.
.
***.

Nos fundos da casa de meus pais, caminhando descalço sobre as pedras do pequeno rio, descobri ainda menino como os pés dependem dos olhos.

Embora eu conseguisse chegar antes que meus irmãos na outra margem, pulando sobre as pedras, demorei muito até aprender a manter o equilíbrio numa única perna, com os olhos fechados, sobre uma pedra escolhida ao acaso. Eu acreditava que para manter o equilíbrio era preciso esquecer os gritos, assim como o barulho da água.

Quantas vezes não fiquei de pé, depois que vim morar aqui, os olhos fechados, uma perna dobrada, sobre essas pedras cor-de-rosas, ridículo e imóvel. Os ouvidos bem abertos, para que o silêncio passasse por mim como o vento pelos cômodos abertos de minha casa.
***
Ontem, tinha apenas escurecido, eu estava deitado sem fazer nada, flutuando entre fragmentos de idéias, desejos, lembranças. Uma cigarra continuava cantando apesar do sol ter se posto há pelo menos uma hora. Dormi profundamente, embora não costume dormir tão cedo. Sonhei com uma mulher que gritava do meio das pedras para a casa:

- O penhasco começa ou termina aqui?
.
Subitamente confuso, sem conseguir resolver essa equação que me parecia um enigma terrível, não tive discernimento senão para dizer algumas bobagens como é preciso subir muito ainda até o topo, ou muitos já passaram por aqui, alguns nunca voltaram.

A mulher, visivelmente desapontada, virou as costas e desapareceu atrás de uma rocha mais alta. No resto do sonho, essa espécie de eternidade que todos conhecemos, eu fazia cálculos e mais cálculos debruçado sobre uma folha tão grande como um mapa, mas não conseguia chegar a um resultado convincente. Até que rascunhei dois versos no meio daquele universo caótico de traços e números. E tive certeza de ter encontrado a chave.
.
Acordado, no meio da noite escura, os dois versos ainda estavam frescos na memória, os mesmos dois versos que agora, à luz do dia, ditos em voz alta, não significam nada.

***
.
Todas as manhãs estendo essa tira preta de papel à minha frente e penso: eis a morte. Assim, sobre o assoalho, o preto parece a delimitação de um espaço a ser preenchido. Nada mais enganoso. Resisto como posso à tentação de espalmar as mãos sobre ele. Seria belo, eu sei, colocar sobre suas extremidades algumas dessas pedras espalhadas pela casa, de diferentes formas e tamanhos. Ou escrever uma única palavra, qualquer uma, sobre sua superfície aveludada, pressionando as fibras contra as tábuas do chão. Belo, talvez, mas falso.

Depois de algum tempo torno a enrolar a tira preta, com cuidado para não deixar nenhuma marca no papel, e guardo o rolo dentro de um vaso de boca estreita, sobre a mesa.

Nunca me ocorreu enfeitar o vaso com uma flor, até a primavera do ano passado, quando milhares de florzinhas silvestres desabrocharam nas frinchas do penhasco. O rolo negro, então, deu lugar por alguns dias ao amarelo, ao branco e ao lilás aquarelados dessas espécies vulgares que parecem brotar das pedras e que não vivem mais do que um par de dias.

***

Há pedras tão moles e farelentas que lembram o talco. Outras mais duras do que o ferro. A unidade absoluta de ambas, porém, não esconde sua natureza composta. Foi mais ou menos isso que meu professor de ciências escreveu no quadro há mais de trinta anos, numa de suas primeiras aulas, nos obrigando a copiar em silêncio, como se por trás daquelas palavras houvesse um significado oculto, que ele naturalmente conhecia e ao qual nunca teríamos acesso.
.
Aquele platô à nossa esquerda, logo abaixo - ele na certa acrescentaria, caso estivesse aqui - por mais coeso que pareça é a soma de milhões de fragmentos. O segredo das pedras está em dar integridade à dispersão...
.
Mas é bem capaz daquele desgraçado já ter morrido e eu estar evocando um fantasma.

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Você está vendo aquela pedra maior, depois do caminho, ao lado de outras duas que parecem monges? Alguém que nos olhasse trepado nela, além da casa, devorada pelo paredão de pedra, veria montanhas íngremes ao fundo, e à direita o vazio.

Várias vezes apoiei os pés na espinha dorsal daquela pedra, as vértebras irregulares descendo de ambos os lados, como as costas de um animal pre-histórico. Pois ouça bem o que vou lhe dizer, minha sombra. Caso eu saltasse para o vazio, nós nos separaríamos por alguns instantes, mas seríamos obrigados a nos reencontrar pela última vez, lá embaixo. Portanto, não me tente com esse seu debruçar-se para o desfiladeiro.

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A pedra calcária incrustada no dorso desta gigantesca pedra ferro parece um lírio. Macia ao toque da mão, tê-la como parte de uma ameaça constante sobre o telhado não me assusta.

Nas noites em que o silêncio é absoluto e o medo de morrer sozinho morde meus ossos, é no branco leitoso dessa pedra-flor que procuro descanso. Como um cego, tateio no escuro até o extremo da varanda. Esticando o braço para fora, toco a pedra fria. Então subo com a mão até sentir a maciez da cal na ponta dos dedos.

O súbito contraste entre a dureza da pedra e aquele reduto de fragilidade me devolve a calma. O silêncio volta a emitir seus resmungos de costume e o medo, o medo finge que dorme, sob as pilastras da casa.

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Esta manhã, mal abri os olhos, uma alegria súbita me arrancou da cama. Como se tivesse sido esfaqueado, o golpe me devolveu de uma só vez todas as alegrias da infância e os desejos da maturidade.

Corri para fora de casa e comecei a escalar o penhasco pela encosta leste, parcialmente iluminada pelo sol. A umidade do orvalho noturno, sobre as rochas, gelava a sola dos pés. Uma brisa suave, à medida que subia, refrescava os olhos. Mas esse frescor só fazia despertar ainda mais meus sentidos.

Na metade da subida, pouco antes das duas pedras gêmeas, o calor tênue nas costas, me virei de frente para o sol. Com os olhos semi-abertos, contra a horizontalidade dos raios, pude ver a encosta deste e a dos outros penhascos se encontrando lá embaixo, no vale ainda coberto ...

No final da manhã cheguei ao topo. Minha sombra não era mais do que uma mancha irregular ao redor dos pés. Tirei a roupa e, nu, abri os braços, girando ao redor de mim mesmo, à medida que gritava, lentamente, alguns nomes que me eram caros. Embora o vento se encarregasse de dissipá-los, eu acrescentava outro e outro ainda, riscando com minha voz o silêncio do meio-dia.

- Francisco, Lisa, Lurdes, Antônio, Maria, Augusto, Ângelo, Dolores, Lúcia, Matias, Laura, Gabriel...

De todos os lados, incluído o vazio do precipício, a natureza continuava indiferente. Mas essa indiferença era combustível para minha alegria.

Publicado na Gazeta do Povo em 1999

terça-feira, 18 de maio de 2010

Perdido Beco sem Saída

Uma marca da genialidade de alguns raros escritores é a capacidade de definir uma situação com apenas algumas palavras. Enquanto a maioria deles precisa de páginas e mais páginas para “debruçar-se sobre a alma humana”, como se diz, alguns poucos descobriram como fazê-lo com não mais do que meia dúzia de palavras. Com uma pincelada rápida a situação está armada, e o leitor se sente um refém do texto.
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Mas é um engano ver pressa e brusquidão num gesto longamente construído. A escrita, para esses escritores obstinados e rigorosos, é tratada com minúcia de botânico. Em suas mãos a linguagem aparenta-se com a flor. É um erro grosseiro ver tosquidão onde há delicadeza e dedicação.
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Um exemplo extremo dessa habilidade, em grande parte sintática, de incluir doses maciças de contexto em textos curtíssimos é Dalton Trevisan. Vinte ou trinta palavras são suficientes para evocar um mundo. Um mundo que surpreendentemente nos inclui, por mais desumano que pareça, por mais saudoso do passado que possa enganosamente parecer. Várias vezes lendo seus contos, ou poemas, me pergunto: quanto esforço terá sido necessário para fazer desse território comum que é a linguagem uma terra particular? Qual foi a paga para esse domínio inquestionável?
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A evocação a Curitiba, à qual o autor se autocondenou, ou ao seu vampirismo, podem não ser pistas falsas, mas ajudam muito pouco a compreender como ele chegou a esse uso a um só tempo rigoroso e poético da linguagem. Sim, porque é inegável que há poesia em tudo o que ele vem escrevendo, mas poesia que corta, que machuca o leitor. Ou, pior, uma poesia que chega ao limite de fundir ternura e sangue, como no conto do desequilibrado que mata meninos depois de molestá-los sexualmente, para enviar os anjinhos para o céu. Por alguns segundos o juízo é suspenso, e nos vemos feitos da mesma matéria de que são feitos esses personagens “desumanos” que certa crítica insiste em restringir à classe média baixa, quando não ao passado, erro ainda mais grosseiro.
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Naturalmente essa poesia pouco ou nada tem a ver com a poesia produzida pelos poetas brasileiros contemporâneos. Ela caminha na mão inversa de toda sorte de pirotecnias da poesia que se quer eternamente de vanguarda, assim como do sentimentalismo piegas dos versejadores de província. A poesia de Dalton, por uma ilusão de ótica, parece pertencer às coisas elas mesmas, como um atributo natural do homem. Mas quando pede para que ouçamos o canto que a casca vazia da cigarra no tronco da árvore evoca, é dele que vem o canto da cigarra retirada de lá antes mesmo que pudéssemos vê-la. E esses pequenos diálogos em que apenas um fala, embora sintamos a presença incontestável do outro, sinalizada minimamente pelo travessão e pelas reticências? É essa capacidade de animar o mínimo, de recolher os gestos que cotidianamente são desprezados como insignificantes ou condenados como vergonhosos, é esse procedimento, entre outros, que dá a cada um dos seus ais um vigor poético incomum.
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Esse domínio da arte de escrever, melhor, da arte de trazer o mundo para o que se escreve, é tão cristalino em Dalton que mesmo a atitude mais vil de seus personagens está carregada de um vigor positivo tão grande que somos levados a rever nossos parâmetros éticos, aceitando como humano gestos que prefeririamos atribuir aos animais. E aí entra outro ingrediente da poética do autor, poucas vezes percebido, através do qual o que é torpe, sujo e feio revela certa beleza, passando a ser aceito como parte do que somos: o humor. Como não rir quando a mulher reclama, ao final de um diálogo erótico, que o parceiro instruído por ela esqueceu, mais uma vez, de usar o chicotinho? Ou ainda, quando a mulher põe fim à enfiada de palavrões com que o marido a assedia: “Sou cadelinha. Sou putinha. Só me deixa pregar o botão nesta camisa. E daí sou tudo o que quiser.” Esse humor encapsulado é explorado em uma série de nuances, às vezes corrosivo, às vezes recatado, às vezes mesmo terno.
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Em outro de seus poemas, depois de comparar Guido Viaro a uma rua barulhenta de Curitiba e Poty à praça Tiradentes às cinco da tarde, Dalton diz de si mesmo: “E eu, mal de mim, esse perdido beco sem saída atrás da Catedral”. Embora trechos como esse possam ser tomados como confirmação de que o autor é um refém de si mesmo, como se diz repetidamente, prefiro ver nele a constatação de uma outra verdade. Para além do fato de que são reféns de si mesmos todos os escritores ou artistas que com sua obra deram significado ao nome que receberam, fica evidente aqui a coragem de fazer um auto-retrato sem pompa, sem adereço, que exclua todo o supérfluo.
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Se Viaro é uma rua barulhenta, onde todos se cruzam mas ninguém conhece ninguém, se Poty é uma praça, local de encontro de toda a fauna humana, ele, Dalton é um beco sem saída, onde se está irremediavelmente só, local onde os vampiros se escondem, poderíamos dizer. Mas não estamos falando de um vampiro, senão de um homem que laboriosamente foi construindo um conjunto de dutos e veias por onde circula seu sangue. O beco de Dalton, esse uso idiossincrático da linguagem, mais do que um não à metrópole curitibana, me faz pensar nos becos de Manuel Bandeira. Com a diferença de que o pernambucano via o beco pela janela, prosaicamente protegido pelo anteparo do vidro ou da sacada, enquanto Dalton o sente na tensão difícil entre os poucos corpos que se aventuram a percorrê-lo ou mesmo a habitá-lo. O beco é sujo, mal iluminado, esquecido na geografia da cidade, mas ele guarda vida, e o risco sempre iminente da morte.
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O que importa em Dalton é que o vigor do seu não tem um poder regenerador. Paradoxalmente, é do beco que vem o olhar menos provinciano, menos local, menos paranaense, um dos olhares mais vivos e maduros que o Brasil já teve. Por isso Curitiba tem tão pouca importância em sua obra, afinal Curitiba poderia ser Dublin, São Petersburgo ou Paris.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um Grande Silêncio

Depois de procurar a campainha sem sucesso, ela abriu o portão. Surpreendentemente não havia nenhum cão.

Às margens da pequena estrada de pedra que levava até a casa, as hortênsias pareciam não ter sido podadas desde que ela tinha ido embora com a mãe. As flores vicejavam, no entanto, ora em azul aquarelado ora em quase branco.

A porta principal estava aberta. Ela deixou a mala de náilon na varanda e entrou. No sofá da sala uma mulher mais ou menos da sua idade dormia, uma toalha cobria parte do corpo nu. Os cabelos lisos, negros, ainda estavam molhados. Os seios eram menores do que os seus, talvez não tivesse vinte anos. Entre as pernas, a penugem escura não escondia a parte superior dos lábios.

Enquanto caminhava para o fundo da sala, ela apertou o próprio sexo, com ambas as mãos, sobre a calça. A enorme porta de correr aberta deixava ver o pequeno vale, como aprendera a chamar a encosta suave do morro que vinha terminar no jardim interno. O verde das árvores começava a ganhar um tom mais claro, que tornava a mata mais espessa mas também mais íntima.

Da soleira pôde ver o pai deitado na grama, sem camisa, à sombra de um caquizeiro, os dois meninos pequenos aninhados um em seu peito, o outro entre as pernas. As crianças com certeza dormiam, ele talvez cochilasse, ou apenas ouvisse o canto de um pintassilgo.

Um estrondo repentino, como o de um pneu de caminhão furado, fez com que ela recuasse dois passos. O homem apenas se moveu um pouco, sem abrir os olhos. Ela desviou o olhar para a mesa da sala.

A mesma miscelânea que estava acostumada a ver durante a infância: revistas, recortes de jornal, livros, cartas, cartões, um ou outro brinquedo, e a velha fruteira de vime, repleta de fruits exotiques, como sua mãe dizia, assumindo um ar afetado, que na realidade ela não possuía. Além de um pequeno álbum de fotografias, provavelmente tiradas em seqüência. As crianças usavam todo tipo de chapéus, bonés, boinas, com expressões que iam do cômico ao dramático.

À esquerda, a porta do escritório entreaberta, via-se o computador ligado, contra a janela. Ela entrou. Na tela um poema sem título, provavelmente inacabado. De pé, sem medo de ser surpreendida, ela leu.


nesse silêncio noturno
entrecortado por motores
e grilos – ouço o silêncio
que meus mortos fazem

não vai reverência nenhuma
nessa dupla audição
vão meu oco e carvão

o que nos une
não é a interdita frase
o tempo lesionado

mas carinhos em casulos



Levantou os olhos, por um momento viu a si mesma correndo na chuva, de um lado para o outro, o vestidinho colado ao corpo, enquanto seus pais a chamavam para dentro, rindo e gesticulando. A mesma paisagem vista da janela, a mesma estante pequena, a mesma organização relaxada. Os livros, com certeza, não seriam exatamente os mesmos.

Sentou-se, e como se o computador fosse seu abriu uma janela de pastas, escolhendo a que tinha como título Diário. Depois selecionou o mês de julho, e mais uma vez leu, como leria uma carta em seu próprio quarto.

10/07
Não lembro de ter tateado antes tão minuciosamente as paredes do silêncio, de ter respirado tão conscientemente e só.

12/07
Há uma pequena possibilidade – minúscula – que haja salvação, mesmo para nós, que no negro da noite, sem asas, voamos. Uma possibilidade ínfima, capaz de reverberar essa alegria que me sustenta – para além de mim.

26/07
Todos os dias pergunto, temente ao meu destino de homem: o que fazer de mim? Nenhum deus responde. Nos melhores momentos, há um motor que nos move, um motor divino.

28/07
Nenhuma palavra, nenhum significado, sequer uma vírgula que não seja a expressão do meu sentimento mais vital me interessa. Creio em mim como Santo Agostinho creu em deus, cheio de dúvidas, mas capaz de apaziguá-las.

30/07
Introduzir uma cigarra em cada ouvido. Ouvir seu canto serrilhado. E nos intervalos de silêncio cristalino, emudecer cada célula do corpo.

Depois de uma longa pausa, o rosto apoiado na palma da mão esquerda, ela fechou o diário e voltou ao poema sobre o silêncio. Seus olhos refizeram o trajeto do poema, verso a verso, até o final. Depois de nova pausa, ela acrescentou um último verso ao original: cápsulas de dor no ar parado.

Num movimento brusco, voltou para a sala. O relógio com mostruário de pedra, presente de um casal de argentinos, marcava três e meia da tarde. Com um pouco de sorte ainda conseguiria pegar o ônibus das quatro.

Atravessou a sala em direção à porta da frente, os cabelos da mulher agora estavam secos, apanhou a mala na varanda e fez o caminho de volta pela estradinha das hortênsias. Chegou à estação às quatro e cinco, mas o ônibus estava atrasado. Ainda teve que esperar quinze minutos antes de partir.

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