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quinta-feira, 28 de março de 2019

Como escreve Carlos Dala Stella

Carlos Dala Stella é poeta-pintor.
Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Nos últimos três, quatro anos tenho acordado bem tarde, às vezes depois do meio-dia. Depende até que horas fiquei trabalhando, no ateliê ou em casa mesmo. Faço exercícios por 40, 45 minutos, muito lentamente, como quem medita. Enquanto preparo meu café, olho pela janela: lá estão a torre da igreja de Santa Felicidade, a copada das árvores, cobrindo quase completamente o dorso do bairro. Algumas vezes o sol esplende, outras a neblina engolfa as araucárias e os podocarpus lambertii – a tal Curitiba londrina! Depois de comer algumas frutas e tomar café, desço para o ateliê, a 50 metros de casa, atravessando um pequeno bosque. Com algumas interrupções trabalho por 12, 14 horas, todos os dias. Mas é óbvio que contada assim essa rotina é teatral; as coisas se dão muito mais naturalmente, com pequenas variações. O mais importante de tudo é o silêncio. Passo dias inteiros sem pronunciar uma palavra.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
Prefiro as madrugadas, o silêncio quase absoluto. Assim posso trabalhar por estirões de duas, três horas sem interrupção. Mas acordo e durmo escrevendo, e escrevo entre uma tela e outra, entre um desenho e outro: reflexões sobre artes plásticas, sobre a natureza dos materiais, sobre trabalhos que estou fazendo, escólios de leitura, poesia e alguma ficção. O que mais se aproxima de um ritual é escrever em meus diários de ateliê. Faço isso há 41 anos, quase todos os dias. Com o tempo escreve-se pelo prazer e pela necessidade de nos desdobrarmos em direção àquilo que ainda não somos, ou não sabemos que somos. Não há ritual, tudo é questão de pôr-se em movimento. Ou, mais precisamente, de não interromper o fluxo do movimento. Gosto de escrever em mesas atulhadas de sobras, aparas, livros, recortes, lápis de cor, tesouras, pedaços de isopor, madeira… Poesia escrevo basicamente na cama, no finalzinho da madrugada ou no início da manhã.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Escrevo quase todos os dias, e reescrevo sempre. Escrever e reescrever são práticas inseparáveis. Mesmo depois de anos, ao retomar um conjunto para um livro, reescrevo boa parte dos poemas. É interessante perceber que às vezes, desarmado pelo cansaço, o poema finalmente vem a nós. Há uma excessiva consciência, ou lucidez reflexiva, que só atrapalha a escritura, pondo limites a um corpo verbal que parece vocacionado, ‘naturalmente’ carregado de sentidos. Em alguns casos o poema vem quase pronto, como um descarrego, artesania e sentido inseparáveis. Noutros, é preciso dias e dias de dedicação, sem garantia de que se vai chegar a bom termo. Noutros ainda o resultado não vai além de um exercício, de alguma forma útil, mesmo que seja para afiar a lâmina da língua portuguesa. De comum entre esses casos, o manuseio permanente do artefato verbal.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
O que entra na composição de um poema não resulta de uma pesquisa objetiva, mas de anos e anos de percepções, mais ou menos elaboradas, mais ou menos conclusivas. Mesmo quando tomamos nota de uma expressão, de uma notícia de jornal, de um verso alheio, estamos lidando com a porção mais fluida da realidade, no limite com o que não se sabe, com o que não se vê, mas que de alguma forma se pressente, se intui, às vezes de modo inequívoco. Compatibilizar essas percepções à primeira vista abstratas com um corpo verbal permeado de objetividades, sonoras, visuais e semânticas, num todo eletrificado pelo mesmo tônus – é que são elas. Gosto da ideia de que a poesia repara a realidade, recuperando dela aquela porção subjetiva desprezada pela lógica racional, mas agora promovida à corporeidade do mundo físico. Porque é isso que um poema faz, dá corpo à fluidez do sentido.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Vamos por partes. Não há travas na poesia, pelo menos na poesia lírica, por mais reflexiva que ela seja. Procrastinar um poema significa perdê-lo para sempre. Em raros casos, depois de muito treino, é possível manter viva por dois ou três dias a pulsão de um futuro poema e de sua circunstância. Às vezes a ocasião é tão forte que a premonição do poema perdura, latejando à nossa volta, à espera. Mas mesmo nesses casos não há garantia de que o poema venha à luz com relativa perfeição. Melhor largar tudo e dar vasão à premência. Não há outra alternativa. Mesmo poemas mais longos, reflexivos, como um poema sobre o riso de Rembrandt no seu último autorretrato, por exemplo, riso de insondável ambiguidade, só se resolverão em processo. Por mais que se tenha tomado notas e levantado dados, é no calor da hora que o poema se arma. Quanto às expectativas, elas fazem parte de um horizonte tão difuso que é melhor nem perder tempo com elas. As expectativas são as nossas no momento da escrita, de percorrermos um percurso de relativa obscuridade de sentido em direção a uma explicitação que ainda desconhecemos, mas que cremos não só possível como comum a outras pessoas. Afora o prazer de exercitarmos o risco de uma habilidade que não depende de ninguém senão de nós mesmos.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Alguns poemas merecem revisão contínua, e mesmo assim não chegamos a lugar nenhum. Meu primeiro livro de poemas, O caçador de vaga-lumesé o diagrama de um projeto malogrado. O livro era originalmente composto por uma centena de poemas de dez estrofes cada, cada uma com dois versos. Esses dísticos elegíacos pretendiam dar conta de um fusionamento de ‘imagens altamente reflexivas’, com cortes tão abstratos entre si que cada dístico poderia valer por um poema isolado. O projeto tinha certa beleza. À medida que fui trabalhando, no entanto, os poemas foram encurtando de tamanho, alguns resultaram em quatro ou mesmo dois versos. Outros simplesmente desapareceram. O livro saiu mirradinho, magro e empalidecido. Recebeu duas resenhas altamente positivas, mas nunca mais esqueci que em poesia é preciso partir para o ataque antes que um plano estratégico seja elaborado. Sobre a segunda pergunta, não envio meus originais a ninguém, mas tenho o hábito de ler alguns poemas aos amigos que recebo no ateliê. A leitura em voz alta explicita tanto as qualidades como os defeitos de um poema. Quase sempre funciona.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
Escrevo sempre à mão. Gosto da porção gráfica da escrita, do atrito da caneta no papel, do traço preto da tinta na superfície não encerada dos papeis que uso. De alguma forma, bastante ingênua e mesmo antiquada, me ponho numa tradição antiquíssima de amor à escrita grafada minuciosamente. Tem sido assim desde os dois anos, imagino, quando ganhei os primeiros lápis, com grafites mais moles e mais duros, conforme a porção menor ou maior de argila. Escrever é já um desenho; desenhar é a escrita esquecida de si, em sonho. Mas às vezes uso computador, como no livro de contos “Nas mãos de Benedita”, a sair pela Ed. Positivo. Pequenos trechos dos contos foram pinçados dos diários de ateliê, manuscritos, mas acabaram estruturados no computador, onde o processo de revisão é muito mais prático e mais rápido. Talvez porque o tempo da poesia me seja outro, mais dilatado e silencioso.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Tudo é pretexto para a invenção, se estivermos atentos. A intuição inicial, ou a ideia, pode ter uma descendência bem definida, restrita a um naipe de percepções que estrutura nosso sentimento de mundo, mas pode-se alimentá-la com o que a circunstância nos oferece, quaisquer circunstâncias. É muito frequente que um gesto ou uma fala oferecidos pelo acaso deem corpo a um sopro de vida com o qual acordamos, e detone todo o mecanismo de um poema. Outras vezes o ímpeto para a alegria, gratuito e misteriosamente renovado, se estrutura em versos ao primeiro parágrafo do livro que estamos lendo, o céu pela janela, hortênsia ao alcance das mãos, como em sonho. Misterioso também é como a premência da circunstância que nos socorre se apaga no trajeto do poema, à superfície feito de uma rarefação surpreendente de contexto. Talvez por isso tanta gente tenha a impressão que certos poemas foram escritos exclusivamente para elas, como se elas devolvessem ao poema a circunstância que ele obliterou.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Comecei a escrever muito cedo, aos dez, talvez onze, escrevia para um jornalzinho mimeografado da escola, onde também tapava buracos com desenhos. Minha referência eram os poetas românticos. Mas fazia alguns poemas gráficos também. Não se mexe com esse período de formação, sob o risco de pôr tudo a perder. Há um frescor no primeiro manuseio da palavra, um tal desejo de aproximação, de intimidade, que o resultado prático pouco importa. Antes mesmo do aprendizado da leitura e da escrita, a palavra já atua em nós. Quando ouvi Evocação do Recife, aos cinco, seis anos, no primeiro ano do primário, atual ensino básico, lido pela professora, numa salinha multisseriada de madeira, aquela sonoridade melodiosamente repetida: Rua da União, Capiberibe-Capibaribe, Rua da Saudade, Rua da Aurora, aquele carinho evocatório me pegou para sempre. Decerto muita coisa mudou de lá para cá, mudei eu e mudou o mundo, mas aquela sensação de acolhimento no ninho da palavra continua viva até hoje, apesar dos percalços. Se pudesse voltar àquele tempo, me sentaria ao lado do menino que reprovou o primeiro ano por não conseguir aprender a ler, e faria um carinho em seu ombro, convidando-o para soltar pipa depois da aula.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Gostaria de publicar livros com um único poema ilustrado para adultos. Tenho um poema pronto, mais longo, chamado “O riso de Rembrandt”, e uma ideia relativamente precisa das ilustrações. Essa segunda pergunta nunca me ocorreu. A grandeza do que já foi escrito é inabarcável. A ela se somam milhares de livros publicados todos os anos. Espero poder ler alguns deles.

segunda-feira, 13 de março de 2017

A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS de PAULO VENTURELLI


A sensibilidade delicada de PAULO VENTURELLI é peça rara no quebra-cabeças da literatura nacional. Independentemente do tema, ele toca na palavra com um cuidado e com um ardor inventivo que fazem dele um poeta da linhagem de Mario Quintana e Manoel de Barros, especialmente quando escreve ficção, como nesse A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS. A inspiração e o labor resultam tão imbricados que seria impossível separá-los. Em tempos de maniqueismo e barbárie, como o presente, a literatura de VENTURELLI é uma manhã de frescor em nossas vidas.


terça-feira, 12 de maio de 2015

PÊ E O VASTO MUNDO / PAULO VENTURELLI



Sábado próximo, dia 16, às 16h, Paulo Venturelli lança na Livraria Cultura seu livro PÊ E O VASTO MUNDO, pela Editora Positivo. O livro é ilustrado pela iraniana Fereshteh Najafi, que vem ao Brasil especialmente para o lançamento. 

Transcrevo a seguir e-mail meu, a pedido do próprio Venturelli, sobre nossa amizade e uma pequena parcela do que penso da grandeza de seu trabalho.


De: Carlos Dala Stella [mailto:cdalastella@yahoo.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 16 de abril de 2015 21:07
Para: Paulo Venturelli
Assunto: contentamento

Paulo, querido
 
Fico muito contente com a repercussão de teus livros, cada vez mais fazendo parte da identidade artística do país, e mesmo social, já que quando inventamos estamos envolvidos por esse acordo sempre cambiante a que chamamos realidade. Aos poucos, mas agora de modo irreversível, o que você imagina aí, em sua biblioteca, vai ganhando o Brasil, virando a realidade diária de outras pessoas, que te leem e estudam. Nada mais merecido, num país de tanto desmerecimento, especialmente pra quem vive fora do eixo - que felizmente, se descentra. 

O merecimento do sucesso é todo teu. Ele se deve à qualidade de teu trabalho, 'desde sempre', mas também a tua persistência, dedicação, a esse envolvimento meio religioso com a literatura. Curitiba quase sempre atrapalha, e dá gosto ver como você continuou, vencendo o atrapalho, até que Curitiba se abrisse um tiquinho. Vejo teu caso como uma vitória do sonho, que em algum momento precisa de outros pra se viabilizar por inteiro. Em teu caso, essas parcerias vieram, e elas são merecedoras de uma parcela do que te acontece agora.

Nos vemos tão pouco, me ressinto disso, como agora. Mas sinto que estamos perto um do outro, atentos, admirados, desejosos de espanto. Essa exposição generalizada de uma meia dúzia de nomes, às vezes merecedores das luzes, repercutida pela mídia, um pouco pela universidade, por tantas feiras e festivais, pela internet mais rala, ela reduz drasticamente a riqueza tão grande e diversa de nossa imaginação. Fico tão contente quando alguém querido fura esse bloqueio, quebra a pauta. É como se finalmente o Brasil passasse a merecer aqueles que custam tanto a vir a ser o que finalmente acabaram sendo, essa maravilha de individualidade. A verdade está na riqueza de nossa diversidade criativa, não nesse jogo de grandezas, que se deve mais à política da cultura do que à literatura de fato. 

Fico lembrando de nossos primeiros encontros, no alto da Brigadeiro Franco, Pink Floyd, caixas de maçã na sala, café e pão com manteiga madrugada adentro, você lendo dezenas e dezenas de meus poemas, todas as semanas,e comentando um a um, fora as indicações de leitura. Lembro com um carinho danado, sem saber como agradecer tanta pertinência e generosidade. Mesmo que eu agradeça sempre, nunca vai ser suficiente. Você está entremeado, quando lembro dessa época, à foto enorme do Henry Miller, no fundo do corredor, à sensação física que o poema me provocava, palavras vivas na mão como peixes recém-saídos d'água, ao menino Gigio chispando de um lado pro outro, a amuletos ou esculturas de pedra sabão (de Ouro Preto?) na parede, e àquela janela se abrindo para um dos grotões escuros de Curitiba. A doçura lá de dentro, de nossos encontros, é ela que sinto na minha vida ainda hoje, desdobrada nos filhos, na neta, e em minha poesia, que silenciosa e anonimamente vai pingando. 

Quantas vezes durante todos esses anos não pensei em mostrar um trabalho pra você, em dividir uma alegria, que quase sempre tive que acabar engolindo sozinho. Mesmo você aí no Bacacheri e eu aqui, em Santa, converso sempre contigo. Estou terminando um livro que você me deu há anos, Dia e Noite, da Virgínia Woolf, que só agora consegui ler, e todos os dias leio o marcador, um cartão seu, falando dessa nossa proximidade de alma. Fora a dedicatória, com tua letra veloz. Quero dizer que ao agradecimento e ao carinho de antes, vou somando cada vez mais o orgulho de ser seu amigo. E de ver como você está se colocando no mundo, docemente, mas sem concessões. Você faz parte do Brasil que já deu certo, a anos luz dessa nossa política comezinha. Quando falam em ano perdido, recessão, esquecem da imensa riqueza de nossa inventividade, já formalizada em livros, música, esculturas, desenhos, dança - maravilhosos. Nosso corpo cultural é de tal maturidade que vai demorar décadas para que o país consiga absorver a parcela mais significativa dele. Temo, como já acontece, que sejamos mais e mais visíveis lá fora do que aqui dentro.  

Te mando um abraço cheio de contentamento. Quando a coisa apertar, não desista sequer por um segundo, vou estar pensando em você e te mandando meu carinho.

Dê um beijo na Líbera, imagino que ela também esteja muito contente.
carlos

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

literatura contemporânea


O grande mal da literatura contemporânea feita especialmente por professores universitários e jornalistas é investir demasiada e exclusivamente naquilo que diz, como se apenas a intencionalidade das ideias bastasse para construir uma visão de mundo, deixando em segundo plano o ímpeto de dizer, seja ele movido pelo desespero, pelo desconsolo, pela relativa alucinação ou pelo empuxo da alegria.

Nas grandes obras de arte, a construção minuciosa das várias camadas de significado anda a par e passo com a necessidade irrevogável de existir. É essa urgência que as distingue do mar de obras cheias de inteligência e vazias de pressentimentos. O sentido, tanto quanto o consolo que encontramos nelas, provém mais do impulso com que o autor transcende a realidade do que daquilo que nelas vai dito explicitamente. Mas é preciso ter coragem para entregar-se a esse impulso vital pleno de abstrações e obscuridades. E não há volta.


terça-feira, 10 de abril de 2012

sobre o tempo

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Não está errado dizer que o tempo passa e passa cada vez mais rápido à medida que envelhecemos. Mas mais justo seria dizer que nós é que passamos, pois estamos a bordo do tempo. Quanto mais tenhamos vivido, mais nossa apreensão do mundo se enche da consciência da temporalidade. O tempo é o grande mistério, certo, mas ele não pode nos escapar, porque nos carrega com ele a cada minuto de nossa existência. Portanto, é um erro dizer que não dispomos de tempo; o único bem de que dispomos, equitativamente, enquanto estamos vivos, é o tempo, muito mais do que dispomos dos desejos, dos sonhos, do amor, da fé, da disponibilidade para o trabalho ou do ímpeto para a alegria. O tempo é uma riqueza incalculável, que malbarateamos como se ele fosse um recurso renovável. Não é. É da natureza do mistério dar-se todo sem explicação, mas também eclipsar-se definitivamente, como se nada fosse mais natural.

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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Emily Dickinson / 3


                                                       à Pascoa e ao Pentecostalismo

Então o Céu é Doutor?
Corre que Ele pode curar –
Mas Curas do Além
Como checá-las?
Então o Céu é Banqueiro?
Dizem que somos devedores –
Mas nessa negociata
Não entra meu Dízimo

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Is Heaven a Physician?
They say that He can heal –
But Medicine Posthumous
Is unavailable –
Is Heaven an Exchequer?
They speak of what we owe –
But that negotiation
I’am not a Party to –

tradução de Carlos Dala Stella

domingo, 1 de abril de 2012

minha aldeia

                                               para Robert Amorim

 
o presente que habito
habitantes de minha aldeia
há muito não coincide
com esse tempo de incidências em cadeia
diversa da minha alegria
essa insaciável euforia – do mesmo
essa violência de sobrevivência

o presente que me cabe
se abre em deslumbramento
e não nego que não sei o que me sabe
e digo sim ao vazio e não
ao oásis do entretenimento
mil vezes meu presente ardente
a esse crédito em 60 meses

o presente que passeio
convivas indiferentes que circulam
pelas ruas de minha aldeia
é precipício de possibilidades
a cada passo uma paisagem
uma ponte de segredos
sobre o rio do riso e do medo

o presente que invento
converte motores em moto-contínuo
de favos e flores, o vento
da necessidade em lentas nuvens
quando caminho pela minha aldeia
circunavego o vir a ser
da lua cheia

poema inédito, Dala Stella

sábado, 30 de abril de 2011

O Anjo Rouco, de Paulo Venturelli



Imperdível o lançamento do livro O Anjo Rouco, de Paulo Venturelli, no próximo sábado, dia 07 de maio, às 11h, no Paço da Liberdade. Imperdível porque essa nova edição está linda. Mas principalmente porque Venturelli é um escritor em que a prosa sempre está de mãos dadas com a poesia.

Há um tom lírico em cada linha que ele escreve, uma docilidade no uso das palavras como se ele estivesse nos lembrando a todo momento que não podemos nos fiar na razão, que só é possível viver poeticamente. Há sempre um mistério prestes a se revelar, sugerido pelo vento, por um desejo contido, pelo olhar de um menino, por um poço fechado. Um mistério que se revela já nesse uso tátil da palavra, consciente da riqueza subjetiva que ela pode conter. Venturelli escreve como se tocasse outro corpo, e toca.

A apresentação do livro, escrita por Nelson de Oliveira, termina dizendo que "o Brasil inteiro precisa urgentemente descobrir este escritor." Urgência, essa é a palavra, para que não se perca a oportunidade de usufruir o quanto antes de um talento cuja sensibilidade torna afetivo tudo o que toca.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Que saudade de Hilda Hilst!

         
         Há algum tempo a crônica deixou de ser um biscoito fino para se tornar um desses enjoativos biscoitos recheados com baunilha ou chocolate, que agradam tanto às crianças. Quem está cansado da lenga-lenga sobre nada de Raquel de Queirós e João Ubaldo Ribeiro, quem não agüenta mais a crônica como tema de si mesma, quem se via obrigado a enfrentar um banquete para saciar a fome miúda e fora de hora, prepare-se para degustar as guloseimas e os quitutes mais deliciosos do cardápio brasileiro.
         Saiu há mais de dez anos, pela Nankin Editorial, o livro Cascos & Carícias, de Hilda Hilst (reeditado pela Globo, em 2007, com o acréscimo de  novos textos), reunindo crônicas publicadas originalmente no jornal Correio Popular de Campinas, entre 1992 e 1995. Antes mesmo de abrir o livro, somos fisgados pela capa, que reproduz o retrato da artista quando jovem, bela e provocadora. A repetição do mesmo rosto, em preto e branco, segundo cortes sempre diferentes, torna contagioso o sorriso dos lábios e dos olhos, maroto como o gesto obsceno feito com a mão direita.
         Em contraste com o tom aparvalhado a que se viu reduzido o gênero que ganhou maioridade na mão de um time de primeira - formado entre outros por Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Vinícius de Moraes, Rubem Braga e Drummond -, o tom das crônicas de Hilda Hilst é surpreendentemente debochado, indignado, agressivo às vezes. Embora pertençam ao mesmo universo de sua ficção, especialmente a partir de O Caderno Rosa de Lory Lambi, elas esbanjam uma irreverência e uma ludicidade que ultrapassa os limites já por natureza generosos do gênero.
         Mas nem só de cascos é feita a crônica desta poeta, dramaturga e ficcionista que estreou em 1950, com o livro de poemas Presságio. Com mais de 30 títulos publicados em diversos idiomas, ela conseguiu unir com uma lucidez particularíssima duas pulsões humanas que raramente andam juntas: a obscenidade e o lirismo. Mais exatamente ela denuncia uma união indesejada, mas inevitável, entre o obsceno e o lírico, como se dissesse que cascos e carícias fazem parte a mesma natureza humana.
         Um dos exemplos mais bem humorados de sua irreverência libidinosa: Bem, agora quero lhes contar do meu filho. Tem 40 anos. Casado. Sua mulher é tolinha, dessas que falam sem parar, sempre imbecilidades. Leu algum que discorreu sobre a importância de “agilizar o conceito fala”, de extravasar. Sua visista era um inferno, eu colocava meu xale acastanhado e cantava baixinho, só para ela, uma canção muito engraçada dos meus tempos de faculdade: “cumé que é, meu capim barba de bode, / faz tempo que nóis num mete / faz tempo que nóis num fode...” Ela se arrepiava inteira. Dizia para meu filho: Leocádio, sua mãe está louca. Como é que você pode deixá-la aqui sozinha quando ela deveria estar naqueles belos lugares onde as velhinhas bordam, cantam canções de ninar, fritam bolinhos...  
         Freqüentemente seu humor incorpora o sotaque caipira típico do interior de São Paulo, sotaque que na maioria das vezes é ridicularizado na escola e nunca chega às páginas dos jornais. Um bom exemplo do uso dessa modalidade da língua é a crônica Tô Só: Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchando a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Que termina assim: Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão da gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia leitor. Tô brincando de ilha.
         Quando faz referência à crônica é para criticar o lugar-comum do gênero: Uma das coisas que mais me chateiam nisso de escrever crônicas é a quase obrigação de ser sempre pra cima, vivaz, alegrinha, ou então estar sempre em dia, na crista, notícias cintilantes...Ser sempre interessante como se todos fossem inteligentíssimos, profundos, finos, cultos, delicados... Nem alegrinha nem na crista. A essas duas solicitações ela contrapõe um humor debochado e uma crítica mordaz, principalmente quando se refere à realidade social e política do país; ou desaponta o leitor - e os editores - recheando os textos com poemas seus, como os três belos poemas de Alcoólicas, dedicados ao também poeta e cronista Jamil Snege.
         O que Hilda Hilst faz é subverter o conceito comum de crônica, sem no entanto desprezar o leitor de jornal. Quem tem uma intenção tão reta e feroz, embora subversiva, não tolera que se perca de vista o leitor. Em última instância é ele quem a autora procura subverter, com uma espécie de catecismo às avessas. A poesia, e também o sexo, seriam duas formas de encher de beleza e de justa ferocidade o coração do outro, do outro que é você leitor.
Embora suas crônicas mantenham o viço mesmo publicadas em livro, é inevitável reconhecer que o espanto e o gozo seriam ainda maiores se abríssemos o jornal de Campinas, por exemplo no domingo, dia 26 de fevereiro de 1995: Gente... que coisa! o cara colocando a camisinha na banana! E que música mais chinfrim! Não acredito que nestes nossos tempos epidêmicos de Aids e Ebola nenhum comunicador tenha encontrado uma fórmula sóbria e eficaz para alertar o povão sobre o perigo das relações sexuais sem o uso de preservativos! Vocês acham que lá nos cafundós (que é o Brasil inteiro) seo Mané vai entender o que estão querendo dizer em meio àquela suarenta de traseiros e tetas, e todos rebolando frenéticos num frenesi dementado e patético? O que vai acontecer com essa estória de banana é o seguinte:
         ô seo Mané, já comprô as bananas pras camisinhas?
         já, seu Jucão.
         põe no cacho inteiro, viu? Assim a gente pode metê pra valê.


         Publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo

sábado, 12 de março de 2011

A casa ao pé do penhasco


O bom de morar entre as pedras, quando chove, é sentir o vapor mineral que sobe depois dos primeiros pingos e desaparece quando as rochas estão completamente molhadas.

O barulho da chuva consola. Mas é triste ver os pingos explodindo nas pedras e a água escorrendo pelos veios vermelhos, tão longe da terra.


Tao-chi (1641-1717): A Man in a House beneath a Cliff

***
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A única música que se ouve é o vento, mas nessa época do ano ele apenas sussurra durante o dia e se cala à noite. Nem parece o vento cortante do inverno, que assobia semanas a fio, limando os nervos.

Às vezes grito palavrões, de pé na varanda. Ninguém responde. Um desconhecido que errasse por esses lados na certa ia espalhar que um louco mora no pé do penhasco. Um outro, ouvindo contar essa história, acrescentaria que há muitos anos um homem abandonara seu filho no alto de um penhasco, afogara a mulher e fugira para os braços da amante, na cidade vizinha. Outro ainda ajuntaria que o menino crescera falando com as pedras. E que, fato inédito, as pedras não só compreendiam o que ele dizia, como o consolavam com palavras de afeto.
.
***.

Nos fundos da casa de meus pais, caminhando descalço sobre as pedras do pequeno rio, descobri ainda menino como os pés dependem dos olhos.

Embora eu conseguisse chegar antes que meus irmãos na outra margem, pulando sobre as pedras, demorei muito até aprender a manter o equilíbrio numa única perna, com os olhos fechados, sobre uma pedra escolhida ao acaso. Eu acreditava que para manter o equilíbrio era preciso esquecer os gritos, assim como o barulho da água.

Quantas vezes não fiquei de pé, depois que vim morar aqui, os olhos fechados, uma perna dobrada, sobre essas pedras cor-de-rosas, ridículo e imóvel. Os ouvidos bem abertos, para que o silêncio passasse por mim como o vento pelos cômodos abertos de minha casa.
***
Ontem, tinha apenas escurecido, eu estava deitado sem fazer nada, flutuando entre fragmentos de idéias, desejos, lembranças. Uma cigarra continuava cantando apesar do sol ter se posto há pelo menos uma hora. Dormi profundamente, embora não costume dormir tão cedo. Sonhei com uma mulher que gritava do meio das pedras para a casa:

- O penhasco começa ou termina aqui?
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Subitamente confuso, sem conseguir resolver essa equação que me parecia um enigma terrível, não tive discernimento senão para dizer algumas bobagens como é preciso subir muito ainda até o topo, ou muitos já passaram por aqui, alguns nunca voltaram.

A mulher, visivelmente desapontada, virou as costas e desapareceu atrás de uma rocha mais alta. No resto do sonho, essa espécie de eternidade que todos conhecemos, eu fazia cálculos e mais cálculos debruçado sobre uma folha tão grande como um mapa, mas não conseguia chegar a um resultado convincente. Até que rascunhei dois versos no meio daquele universo caótico de traços e números. E tive certeza de ter encontrado a chave.
.
Acordado, no meio da noite escura, os dois versos ainda estavam frescos na memória, os mesmos dois versos que agora, à luz do dia, ditos em voz alta, não significam nada.

***
.
Todas as manhãs estendo essa tira preta de papel à minha frente e penso: eis a morte. Assim, sobre o assoalho, o preto parece a delimitação de um espaço a ser preenchido. Nada mais enganoso. Resisto como posso à tentação de espalmar as mãos sobre ele. Seria belo, eu sei, colocar sobre suas extremidades algumas dessas pedras espalhadas pela casa, de diferentes formas e tamanhos. Ou escrever uma única palavra, qualquer uma, sobre sua superfície aveludada, pressionando as fibras contra as tábuas do chão. Belo, talvez, mas falso.

Depois de algum tempo torno a enrolar a tira preta, com cuidado para não deixar nenhuma marca no papel, e guardo o rolo dentro de um vaso de boca estreita, sobre a mesa.

Nunca me ocorreu enfeitar o vaso com uma flor, até a primavera do ano passado, quando milhares de florzinhas silvestres desabrocharam nas frinchas do penhasco. O rolo negro, então, deu lugar por alguns dias ao amarelo, ao branco e ao lilás aquarelados dessas espécies vulgares que parecem brotar das pedras e que não vivem mais do que um par de dias.

***

Há pedras tão moles e farelentas que lembram o talco. Outras mais duras do que o ferro. A unidade absoluta de ambas, porém, não esconde sua natureza composta. Foi mais ou menos isso que meu professor de ciências escreveu no quadro há mais de trinta anos, numa de suas primeiras aulas, nos obrigando a copiar em silêncio, como se por trás daquelas palavras houvesse um significado oculto, que ele naturalmente conhecia e ao qual nunca teríamos acesso.
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Aquele platô à nossa esquerda, logo abaixo - ele na certa acrescentaria, caso estivesse aqui - por mais coeso que pareça é a soma de milhões de fragmentos. O segredo das pedras está em dar integridade à dispersão...
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Mas é bem capaz daquele desgraçado já ter morrido e eu estar evocando um fantasma.

***

Você está vendo aquela pedra maior, depois do caminho, ao lado de outras duas que parecem monges? Alguém que nos olhasse trepado nela, além da casa, devorada pelo paredão de pedra, veria montanhas íngremes ao fundo, e à direita o vazio.

Várias vezes apoiei os pés na espinha dorsal daquela pedra, as vértebras irregulares descendo de ambos os lados, como as costas de um animal pre-histórico. Pois ouça bem o que vou lhe dizer, minha sombra. Caso eu saltasse para o vazio, nós nos separaríamos por alguns instantes, mas seríamos obrigados a nos reencontrar pela última vez, lá embaixo. Portanto, não me tente com esse seu debruçar-se para o desfiladeiro.

***

A pedra calcária incrustada no dorso desta gigantesca pedra ferro parece um lírio. Macia ao toque da mão, tê-la como parte de uma ameaça constante sobre o telhado não me assusta.

Nas noites em que o silêncio é absoluto e o medo de morrer sozinho morde meus ossos, é no branco leitoso dessa pedra-flor que procuro descanso. Como um cego, tateio no escuro até o extremo da varanda. Esticando o braço para fora, toco a pedra fria. Então subo com a mão até sentir a maciez da cal na ponta dos dedos.

O súbito contraste entre a dureza da pedra e aquele reduto de fragilidade me devolve a calma. O silêncio volta a emitir seus resmungos de costume e o medo, o medo finge que dorme, sob as pilastras da casa.

***
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Esta manhã, mal abri os olhos, uma alegria súbita me arrancou da cama. Como se tivesse sido esfaqueado, o golpe me devolveu de uma só vez todas as alegrias da infância e os desejos da maturidade.

Corri para fora de casa e comecei a escalar o penhasco pela encosta leste, parcialmente iluminada pelo sol. A umidade do orvalho noturno, sobre as rochas, gelava a sola dos pés. Uma brisa suave, à medida que subia, refrescava os olhos. Mas esse frescor só fazia despertar ainda mais meus sentidos.

Na metade da subida, pouco antes das duas pedras gêmeas, o calor tênue nas costas, me virei de frente para o sol. Com os olhos semi-abertos, contra a horizontalidade dos raios, pude ver a encosta deste e a dos outros penhascos se encontrando lá embaixo, no vale ainda coberto ...

No final da manhã cheguei ao topo. Minha sombra não era mais do que uma mancha irregular ao redor dos pés. Tirei a roupa e, nu, abri os braços, girando ao redor de mim mesmo, à medida que gritava, lentamente, alguns nomes que me eram caros. Embora o vento se encarregasse de dissipá-los, eu acrescentava outro e outro ainda, riscando com minha voz o silêncio do meio-dia.

- Francisco, Lisa, Lurdes, Antônio, Maria, Augusto, Ângelo, Dolores, Lúcia, Matias, Laura, Gabriel...

De todos os lados, incluído o vazio do precipício, a natureza continuava indiferente. Mas essa indiferença era combustível para minha alegria.

Publicado na Gazeta do Povo em 1999

terça-feira, 7 de setembro de 2010

bate-papo de boteco



Sexta-feira, dia 10, a partir das 19h, participo de uma mesa redonda sobre livros no Wonka Bar. Devo falar sobre meu livro NegritoO Gato sem Nome e mostrar meu último diário de ateliê. O formato bate-papo de boteco é ótimo, espero que dê certo. Várias outras atividades estão progamadas para o Zíper Bazar, com muita música (veja no link a programação completa). E apareça.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

(acrílica sobre tela)
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Domingo morto
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Hoje, fiquei vendo o dia passar
e para minha surpresa
um a um os vagões foram me levando
para os longes deste mesmo lugar.

Hoje, fiquei olhando o vento
soprar, e para minha surpresa
acabei na Istambul que desconheço
e é a flor do meu olhar.

Hoje, no céu vi as profundezas
do mar, e para minha surpresa
as ondas brancas me engoliram
para nunca mais voltar.

poema inédito

terça-feira, 18 de maio de 2010

Perdido Beco sem Saída

Uma marca da genialidade de alguns raros escritores é a capacidade de definir uma situação com apenas algumas palavras. Enquanto a maioria deles precisa de páginas e mais páginas para “debruçar-se sobre a alma humana”, como se diz, alguns poucos descobriram como fazê-lo com não mais do que meia dúzia de palavras. Com uma pincelada rápida a situação está armada, e o leitor se sente um refém do texto.
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Mas é um engano ver pressa e brusquidão num gesto longamente construído. A escrita, para esses escritores obstinados e rigorosos, é tratada com minúcia de botânico. Em suas mãos a linguagem aparenta-se com a flor. É um erro grosseiro ver tosquidão onde há delicadeza e dedicação.
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Um exemplo extremo dessa habilidade, em grande parte sintática, de incluir doses maciças de contexto em textos curtíssimos é Dalton Trevisan. Vinte ou trinta palavras são suficientes para evocar um mundo. Um mundo que surpreendentemente nos inclui, por mais desumano que pareça, por mais saudoso do passado que possa enganosamente parecer. Várias vezes lendo seus contos, ou poemas, me pergunto: quanto esforço terá sido necessário para fazer desse território comum que é a linguagem uma terra particular? Qual foi a paga para esse domínio inquestionável?
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A evocação a Curitiba, à qual o autor se autocondenou, ou ao seu vampirismo, podem não ser pistas falsas, mas ajudam muito pouco a compreender como ele chegou a esse uso a um só tempo rigoroso e poético da linguagem. Sim, porque é inegável que há poesia em tudo o que ele vem escrevendo, mas poesia que corta, que machuca o leitor. Ou, pior, uma poesia que chega ao limite de fundir ternura e sangue, como no conto do desequilibrado que mata meninos depois de molestá-los sexualmente, para enviar os anjinhos para o céu. Por alguns segundos o juízo é suspenso, e nos vemos feitos da mesma matéria de que são feitos esses personagens “desumanos” que certa crítica insiste em restringir à classe média baixa, quando não ao passado, erro ainda mais grosseiro.
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Naturalmente essa poesia pouco ou nada tem a ver com a poesia produzida pelos poetas brasileiros contemporâneos. Ela caminha na mão inversa de toda sorte de pirotecnias da poesia que se quer eternamente de vanguarda, assim como do sentimentalismo piegas dos versejadores de província. A poesia de Dalton, por uma ilusão de ótica, parece pertencer às coisas elas mesmas, como um atributo natural do homem. Mas quando pede para que ouçamos o canto que a casca vazia da cigarra no tronco da árvore evoca, é dele que vem o canto da cigarra retirada de lá antes mesmo que pudéssemos vê-la. E esses pequenos diálogos em que apenas um fala, embora sintamos a presença incontestável do outro, sinalizada minimamente pelo travessão e pelas reticências? É essa capacidade de animar o mínimo, de recolher os gestos que cotidianamente são desprezados como insignificantes ou condenados como vergonhosos, é esse procedimento, entre outros, que dá a cada um dos seus ais um vigor poético incomum.
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Esse domínio da arte de escrever, melhor, da arte de trazer o mundo para o que se escreve, é tão cristalino em Dalton que mesmo a atitude mais vil de seus personagens está carregada de um vigor positivo tão grande que somos levados a rever nossos parâmetros éticos, aceitando como humano gestos que prefeririamos atribuir aos animais. E aí entra outro ingrediente da poética do autor, poucas vezes percebido, através do qual o que é torpe, sujo e feio revela certa beleza, passando a ser aceito como parte do que somos: o humor. Como não rir quando a mulher reclama, ao final de um diálogo erótico, que o parceiro instruído por ela esqueceu, mais uma vez, de usar o chicotinho? Ou ainda, quando a mulher põe fim à enfiada de palavrões com que o marido a assedia: “Sou cadelinha. Sou putinha. Só me deixa pregar o botão nesta camisa. E daí sou tudo o que quiser.” Esse humor encapsulado é explorado em uma série de nuances, às vezes corrosivo, às vezes recatado, às vezes mesmo terno.
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Em outro de seus poemas, depois de comparar Guido Viaro a uma rua barulhenta de Curitiba e Poty à praça Tiradentes às cinco da tarde, Dalton diz de si mesmo: “E eu, mal de mim, esse perdido beco sem saída atrás da Catedral”. Embora trechos como esse possam ser tomados como confirmação de que o autor é um refém de si mesmo, como se diz repetidamente, prefiro ver nele a constatação de uma outra verdade. Para além do fato de que são reféns de si mesmos todos os escritores ou artistas que com sua obra deram significado ao nome que receberam, fica evidente aqui a coragem de fazer um auto-retrato sem pompa, sem adereço, que exclua todo o supérfluo.
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Se Viaro é uma rua barulhenta, onde todos se cruzam mas ninguém conhece ninguém, se Poty é uma praça, local de encontro de toda a fauna humana, ele, Dalton é um beco sem saída, onde se está irremediavelmente só, local onde os vampiros se escondem, poderíamos dizer. Mas não estamos falando de um vampiro, senão de um homem que laboriosamente foi construindo um conjunto de dutos e veias por onde circula seu sangue. O beco de Dalton, esse uso idiossincrático da linguagem, mais do que um não à metrópole curitibana, me faz pensar nos becos de Manuel Bandeira. Com a diferença de que o pernambucano via o beco pela janela, prosaicamente protegido pelo anteparo do vidro ou da sacada, enquanto Dalton o sente na tensão difícil entre os poucos corpos que se aventuram a percorrê-lo ou mesmo a habitá-lo. O beco é sujo, mal iluminado, esquecido na geografia da cidade, mas ele guarda vida, e o risco sempre iminente da morte.
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O que importa em Dalton é que o vigor do seu não tem um poder regenerador. Paradoxalmente, é do beco que vem o olhar menos provinciano, menos local, menos paranaense, um dos olhares mais vivos e maduros que o Brasil já teve. Por isso Curitiba tem tão pouca importância em sua obra, afinal Curitiba poderia ser Dublin, São Petersburgo ou Paris.
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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Desvendério


Esta a nova capa do livro Desvendério, do Chico dos Bonecos, que ilustrei para a editora Peirópolis. Usei a colagem do próprio texto original na composição dos desenhos. Para cada conto, o texto a ele correspondente. Desenho, recorte e colagem foram as técnicas que usei.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Legado

O miolo não se diz
não se pinta, não se dança, não se toca.

O miolo é intraduzível,
vãs as línguas, os tratados, as biografias.

O miolo do filho na escola.
O miolo da mulher, nos olhos.
O miolo do pão, do ser ou não.

O miolo que se sente dentro,
latente, ou sobre a cidade, azul.
O miolo é nosso legado,
inútil, de nuvens em combustão.

Par de asas no breu.


do livro O Gato sem Nome

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Observações de um Retratista

Várias vezes me surpreendo com a escrita do rosto. Às vezes com sua beleza limpa, com a economia de palavras; outras com a complexidade gráfica das letras, com o mapa minuciosamente traçado. Às vezes é o irregular da caligrafia que me atrai, as sucessivas camadas geológicas dos veios, linhas, grafismos. Várias vezes me pego olhando fixamente para um rosto anônimo no ônibus, surpreso com tanto texto não dizer nada à primeira vista. Seria preciso ler um a um, lentamente.

* * *

Um rosto não guarda menos tensão do que uma tourada, menos dramaticidade. Não é menos mutante do que uma nuvem; menos harmônico, misteriosamente harmônico, do que o mar. Não padece menos da euforia dos girassóis. Um rosto é o mundo - qualquer rosto.

* * *

Os olhos, no rosto, quem poderia dizer tudo que vai neles? Mesmo os olhos mais apáticos, dispensados de ver pelo cansaço, mesmo eles, assim desarmados, mostram um falso fundo. O que os olhos dizem, em silêncio, e para quem, é um enigma. Os olhos dizem, como canta um pintassilgo em pleno vôo, como giram as pás de um exaustor eólico. Dizer, permanentemente, é sua sina. Dizer dobrado, para que a ênfase não se perca, dizer siamês, para dentro e para fora.

* * *

O retrato na parede, do pai, ou o reflexo no espelho, do nosso rosto, são a pergunta de todo eu. A pergunta que todo rosto faz, mesmo quando a boca tagarela, com a cumplicidade muda dos olhos e com a teatralidade desenvolta das mãos. O rosto pergunta mesmo no caso da ignorância mais ingênua, mesmo que seu dono converse com o lugar-comum dos botões, ou conte suas moedinhas, avaro. O rosto pergunta por conta e risco próprios. Mas nunca responde. Talvez o riso seja a suspensão temporária da eterna pergunta; o choro, sua explicitação cheia de lamentos.

* * *

Não é preciso ser fotógrafo profissional para se fazer um bom retrato - há para o rosto um limite estreito de dissimulação. Basta abrir a janela mecânica da câmera para que a pergunta entre. Os fotógrafos mais experientes, no entanto, pressentem o momento certo, quando a pergunta de um rosto vai ser formulada com ênfase particular. E põem-se à espreita, as janelas da alma bem abertas.


Trilha sonora par esta leitura: A gentleman's honor (vocal), Philip Glass (The photographer)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

domingo, 20 de setembro de 2009

Tradimento


Ci sono lamine nel linguàggio.

Mai si potrà tradure in parole
la giòia calda del amore.
,
Nucleata in se stessa
- alle volte silenziosa e fredda –
è la natura delle cose.


do livro O Gato sem Nome

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um Grande Silêncio

Depois de procurar a campainha sem sucesso, ela abriu o portão. Surpreendentemente não havia nenhum cão.

Às margens da pequena estrada de pedra que levava até a casa, as hortênsias pareciam não ter sido podadas desde que ela tinha ido embora com a mãe. As flores vicejavam, no entanto, ora em azul aquarelado ora em quase branco.

A porta principal estava aberta. Ela deixou a mala de náilon na varanda e entrou. No sofá da sala uma mulher mais ou menos da sua idade dormia, uma toalha cobria parte do corpo nu. Os cabelos lisos, negros, ainda estavam molhados. Os seios eram menores do que os seus, talvez não tivesse vinte anos. Entre as pernas, a penugem escura não escondia a parte superior dos lábios.

Enquanto caminhava para o fundo da sala, ela apertou o próprio sexo, com ambas as mãos, sobre a calça. A enorme porta de correr aberta deixava ver o pequeno vale, como aprendera a chamar a encosta suave do morro que vinha terminar no jardim interno. O verde das árvores começava a ganhar um tom mais claro, que tornava a mata mais espessa mas também mais íntima.

Da soleira pôde ver o pai deitado na grama, sem camisa, à sombra de um caquizeiro, os dois meninos pequenos aninhados um em seu peito, o outro entre as pernas. As crianças com certeza dormiam, ele talvez cochilasse, ou apenas ouvisse o canto de um pintassilgo.

Um estrondo repentino, como o de um pneu de caminhão furado, fez com que ela recuasse dois passos. O homem apenas se moveu um pouco, sem abrir os olhos. Ela desviou o olhar para a mesa da sala.

A mesma miscelânea que estava acostumada a ver durante a infância: revistas, recortes de jornal, livros, cartas, cartões, um ou outro brinquedo, e a velha fruteira de vime, repleta de fruits exotiques, como sua mãe dizia, assumindo um ar afetado, que na realidade ela não possuía. Além de um pequeno álbum de fotografias, provavelmente tiradas em seqüência. As crianças usavam todo tipo de chapéus, bonés, boinas, com expressões que iam do cômico ao dramático.

À esquerda, a porta do escritório entreaberta, via-se o computador ligado, contra a janela. Ela entrou. Na tela um poema sem título, provavelmente inacabado. De pé, sem medo de ser surpreendida, ela leu.


nesse silêncio noturno
entrecortado por motores
e grilos – ouço o silêncio
que meus mortos fazem

não vai reverência nenhuma
nessa dupla audição
vão meu oco e carvão

o que nos une
não é a interdita frase
o tempo lesionado

mas carinhos em casulos



Levantou os olhos, por um momento viu a si mesma correndo na chuva, de um lado para o outro, o vestidinho colado ao corpo, enquanto seus pais a chamavam para dentro, rindo e gesticulando. A mesma paisagem vista da janela, a mesma estante pequena, a mesma organização relaxada. Os livros, com certeza, não seriam exatamente os mesmos.

Sentou-se, e como se o computador fosse seu abriu uma janela de pastas, escolhendo a que tinha como título Diário. Depois selecionou o mês de julho, e mais uma vez leu, como leria uma carta em seu próprio quarto.

10/07
Não lembro de ter tateado antes tão minuciosamente as paredes do silêncio, de ter respirado tão conscientemente e só.

12/07
Há uma pequena possibilidade – minúscula – que haja salvação, mesmo para nós, que no negro da noite, sem asas, voamos. Uma possibilidade ínfima, capaz de reverberar essa alegria que me sustenta – para além de mim.

26/07
Todos os dias pergunto, temente ao meu destino de homem: o que fazer de mim? Nenhum deus responde. Nos melhores momentos, há um motor que nos move, um motor divino.

28/07
Nenhuma palavra, nenhum significado, sequer uma vírgula que não seja a expressão do meu sentimento mais vital me interessa. Creio em mim como Santo Agostinho creu em deus, cheio de dúvidas, mas capaz de apaziguá-las.

30/07
Introduzir uma cigarra em cada ouvido. Ouvir seu canto serrilhado. E nos intervalos de silêncio cristalino, emudecer cada célula do corpo.

Depois de uma longa pausa, o rosto apoiado na palma da mão esquerda, ela fechou o diário e voltou ao poema sobre o silêncio. Seus olhos refizeram o trajeto do poema, verso a verso, até o final. Depois de nova pausa, ela acrescentou um último verso ao original: cápsulas de dor no ar parado.

Num movimento brusco, voltou para a sala. O relógio com mostruário de pedra, presente de um casal de argentinos, marcava três e meia da tarde. Com um pouco de sorte ainda conseguiria pegar o ônibus das quatro.

Atravessou a sala em direção à porta da frente, os cabelos da mulher agora estavam secos, apanhou a mala na varanda e fez o caminho de volta pela estradinha das hortênsias. Chegou à estação às quatro e cinco, mas o ônibus estava atrasado. Ainda teve que esperar quinze minutos antes de partir.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Poesia e Pintura

Fala-se muito ultimamente na relação entre poesia e pintura, mas esse tema não é novo, nem faltam exemplos de poetas-pintores. Só a tradição chinesa nos oferece inúmeros nomes de artistas que se dedicaram com igual empenho à pintura e à poesia.

Su Shih (1036 - 1101), mais conhecido como Su Tung - p’o, figura central da dinastia Sung (960 - 1279), foi a um só tempo poeta, prosador, homem público, calígrafo e pintor. Idealizador da escola de “pintores literatos”, ele aglutinou em torno de si vários amigos que desempenharam simultaneamente a poesia e a pintura. O tantas vezes reproduzido retrato imaginário de Li Tai Po, o mais famoso dos poetas chineses, feito com as admiráveis “pinceladas abreviadas” de Liang K’ai (metade do século XIII), é um bom exemplo de como caligrafia e pintura são indissociáveis na tradição artística oriental.

Mas a tradição ocidental também nos fornece exemplos de homens que praticaram ambas as atividades artísticas. É verdade que grande parte deles é reconhecida apenas pelo desempenho numa dessas atividades. Quando se fala em Miguelângelo, por exemplo, nos vem à mente o impetuoso Moisés, a altivez nua e muda de Davi, ou o desespero terno com que Maria - a um só tempo mãe e menina - envolve o filho em seus braços, na Pietá. Mas é injusto esquecer que o pintor do teto da Capela Sistina escreveu também versos como este terceto que fecha um soneto dedicado a Dante:

Ah, se eu fosse ele! Tivesse eu nascido tão pleno,
para sê-lo, com seu amargo exílio e sua virtude,
daria a maior felicidade da humana latitude.



Mas mais recentemente, ao longo dos seus 70 anos de vida, que vão da segunda metade do século XVIII até a primeira metade do século XIX, temos o exemplo do inglês Willian Blake, que embora seja mais conhecido como o autor de Milton e de Jerusalém, foi um dos responsáveis pela ampliação dos processos técnicos da gravura, técnica que ele utilizou desde os 20 anos, tendo ilustrado entre outros os Canterburry Pilgrims, de Chaucer, e também Dante Alighieri.

Mais recentemente ainda, temos uma série de escritores, ou poetas, que flertaram com a pintura, ou pintores que praticaram mais ou menos circunstancialmente a literatura. Os franceses Jacques Prévert, autor de algumas dezenas de colagens surrealistas, e Jean Cocteau, desenhista, pintor e decorador da capela Saint Blaise des Simples, mais o belga Henri Michaux, pertencem ao primeiro grupo. Ernesto Sábato e Lúcio Cardoso ao segundo. O poeta Jorge de Lima e o pintor Portinari exerceram um a atividade do outro. No final da vida, Clarice Lispector pintava, no início de sua carreira, Cézanne escrevia poemas. Alguns afortunado, como Vassili Kandinsky, Paul Klee e especialmente Juan Miró, pintaram poesia.

Se a fusão dessas duas artes não atingiu a perfeição que imaginamos seja possível - movidos não sei por que desejo misterioso - isso naturalmente não impediu que uma série de vasos comunicantes fossem estabelecendo ligações, ás vezes evidentes, às vezes inusitadas, entre poesia e pintura. Dificilmente uma única pessoa seria capaz de intuir sozinha a que grau de complexidade, ou intimidade, chegaria o diálogo entre ambas, por mais instruída e bem intencionada que fosse.

De qualquer forma, é bom lembrar que essas incursões em outro domínio artístico, por mais fracassadas ou diletantes que passam parecer, têm uma importância única para o artista, muitas vezes determinante para o desenvolvimento de sua obra. No final das contas ele brinca com uma possibilidade meio travessa, ilustrada exemplarmente por uma anedaota envolvendo o super-exposto Pablo Picasso.

É sabido que, a partir de determinado momento, o artista vivia rodeado não só de personalidades do mundo artístico, mas também de uma infinidade de chatos e medíocres, artistas ou não. Pois em certa ocasião, em seu atelier-residência Notre-Dame de Vie, em Mougins, Picasso revelou a uma dessas visitas que escrevia poesia tanto ou mais do que pintava, apenas as pessoas é que não o levavam a sério. Ao que a visita respondeu dizendo que talvez no futuro, ao abrir uma enciclopédia, alguém leria: Pablo Picasso, famoso poeta espanhol, nascido em Málaga em 1881, autor de algumas dezenas de livros de poesia. E, como mero complemento: também pintou alguns quadros.

Como já tinha ouvido antes essa mesma hipótese, Picasso ficou impressionado.



Gostaria de lembrar agora, rapidamente, dois procedimentos comuns à poesia e à pintura: o claro-escuro e a colagem; movido não só pelo desejo de compreender em que termos se dá esse diálogo, mas também pelo prazer de lembrar alguns nomes que me são caros.

A técnica do claro-escuro e a da colagem pertencem ambas ao universo das artes plásticas, mas os procedimentos inerentes a cada uma delas encontram utilização corrente na poesia e na literatura de um modo geral.

Paulo Astor Soethe, professor de alemão da Universidade Federal do Paraná, numa passagem de sua tese de doutorado, na qual faz uma leitura comparada das obras A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, propõe a intrigante e convincente idéia de que o autor mineiro, em Grande Sertão, se serviu freqüentemente da técnica do claro-escuro.

Segundo essa técnica, nascida provavelmente quando os pintores antigos reproduziam os contornos da sombra projetada pelo sol (Leon Battista Alberti - De pictura), algumas áreas de um quadro ou desenho são deixadas na sombra para que outras áreas apareçam potencializadas, sem que se perca de vista, no entanto, um complexo jogo harmônico entre elas. Esse jogo de luz e sombra, apesar de imitar o que o olho vê à superfície dos corpos ou objetos, confere à representação pictórica volume e profundidade.

Paulo Astor transcreve várias anotações manuscritas sobre pintura do “Caderno de estudos para a obra - Pintura”, de Guimarães Rosa, pertencente ao acervo do Arquivo G. R. do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Numa dessas anotações o romancista escreve, epigramaticamente:

m% = a instantaneidade do desenho / virtuosidade / o claroescuro produz a modelagem / O claro e o escuro servem para exprimir o lado plástico da figura e a fazer sobressair os níveis ocupados pelos objetos, as distâncias que os separam; e a delimitar sua forma”. (p.153)


Logo em seguida, o professor cita um trecho de Grande Sertão que atesta a “aplicação” do conceito de claro-escuro, que Guimarães depreende de leituras teóricas, mas provavelmente também de seu próprio gosto pela pintura. Trata-se de uma cena noturna em que Diadorim sente ciúmes de Otacília, que acaba de conhecer Riobaldo. Transcrevo a citação:

Daí, sendo a noite, aos pardos gatos. Outra nossa noite, na rebaixa do engenho, deitados em couros e esteiras - nem se tinha o espaço de lugar onde rede armar. Diadorim perto de mim. Eu não queria conversa, as idéias que já estavam se acontecendo eram maiores. Assim eu ouvindo o ciciri dos grilos. Na beira da rebaixa, a fogueira feita sarrava se acabando, Alaripe ainda esteve lá, mexendo em tição, pitou um cigarro (GR2, 128).



Talvez pudéssemos acrescentar que essa técnica, tanto na pintura como na literatura, está a serviço de um recurso menos explícito, mas mais abrangente, um recurso que tem ascendência mesmo sobre a colagem, e que a crítica literária chama de “rarefação”, mais especificamente “rarefação de contexto”.

Se é certo que ela nomeia um recurso presente na poesia de várias épocas, cabe à poética contemporânea adotá-la, obviamente não como um item programático, mas como um recurso bastante freqüente, seja pelo caráter fragmentário de vários aspectos da vida contemporânea, seja pela incapacidade de dar unidade a tudo aquilo que nos constitui enquanto indivíduos.

Quando o tradutor José Antonio Arantes diz, por exemplo, na introdução à antologia do poeta irlandês Seamus Heaney, publicada ano passado pela Companhia das Letras, que os poemas de suas coletâneas recentes (Station island, Haw Lantern, de 1987, Seeing things, de 1991, e, The spirit level, de 1996) soam mais rarefeitos, ele provavelmente está-se referindo à pequena extensão do contexto daqueles poemas. Como se eles tivessem uma vocação para a metafísica, ainda que nascidos da terra, da infância, ou, melhor dizendo, do lugar-comum.

Essa ânsia de transcendência pode ser observada em muitos outros poetas, de várias épocas e nacionalidades, mas é raro que a ela corresponda a aptidão técnica da reticência, capaz de desenhar com lúcida precisão o contorno do que é apenas sugerido. Wallace Stevens do longo poema O homem do violão azul (The man with the blue Guitar), ou de um dos seus últimos poemas curtos, o belo Meramente ser (Of mere being), é um outro exemplo feliz dessa poética do arejamento.


MERAMENTE SER



A palmeira no final da mente,
Além do pensamento último, se eleva
Na Brônzea distância,

Um pássaro de penas de ouro
Canta na palmeira, sem sentido humano,
Nem sentimento humano, um canto estrangeiro.

Então compreende-se que não é a razão
Que traz tristeza ou alegria.
O pássaro canta. As penas brilham.

A palmeira paira no limiar do espaço.
O vento roça devagar seus galhos.
As penas de fogo do pássaro pendem frouxas.


Compreendida como um recurso de extrema decantação da linguagem, a rarefação do contexto só aparentemente suspende o fluxo de significados. Ao contrário, esta suspensão momentânea potencializa o significado, solicitando do leitor uma espécie de intuição reflexiva, atenta tanto ao sentido claro das palavras como ao silêncio sobre o qual elas se inscrevem. Perseguir e descobrir a matéria que anima esse silêncio poético é uma exigência vital de certa poesia. “Assim, o riscado interrupto do vaga-lume” poderia figurar “como metáfora desta poesia elíptica, que trabalha com luz e sombra”.

Gostaria de tomar emprestado da crítica literária o termo rarefação justamente porque ele corresponde a um recurso semelhante nas artes plásticas, um recurso que é caro ao meu trabalho: a colagem. Não a colagem como uma simples justaposição de partes, que expõe a cartilagem como um troféu de guerra, e que tão freqüentemente levou à criação de monstros como o do doutor Frankenstein. Nem a colagem que explora o trânsito dos significados engenhosamente descontextualizados. Mas a colagem como a busca de uma nova harmonia, feita de pedaços, mas íntegra e una, cujas articulações funcionem sutilmente, fora do alcance da vista.

Assim compreendida, a colagem não é apenas um fim em si mesma, mas também um meio. Portadora de um significado rarefeito, ela obriga o espectador a perscrutar um espaço desconhecido. O contexto de onde as partes saíram perdeu-se. Tanto a cor como a forma esqueceram o local de origem. A integridade que pretendo que minhas colagens possuam se deve de um lado a esse desligamento do contexto ao qual elas pertenceram originariamente, de outro à descoberta de conexões capazes de instituir um contexto que, por não deixar pistas, pareça surgido de si mesmo.

Ora, é exatamente esse um dos procedimentos mais utilizados por alguns dos escritores pertencentes ao cânone da literatura ocidental, entre eles Walt Whitman, que segundo a biografia de Paul Zweig compunha listas intermináveis de uma estranha miscelânea de objetos, profissões e apontamentos rápidos que depois eram “encaixados” em seus poemas. Processo semelhante ocorre com os Quatro Quartetos, de Eliot, nos quais podem se entrever recortes de outros textos “colados” a uma ossatura nova, que na verdade eles constituem e da qual passam a fazer parte inseparável.

Vale lembrar, ainda, que grande parte da literatura pós-moderna, assim como da arquitetura contemporânea, se serve desse mesmo recurso, o que de forma alguma significa dizer que o resultado seja esteticamente sempre válido, ou consistente.


Mas o mapeamento desses e de outros tantos procedimentos dificilmente daria conta do grau de fusão a que chegaram neste século a pintura e a literatura, particularmente a poesia.
Kandinsky, Klee e Miró são provavelmente os três pintores responsáveis por essa fusão, ou, se formos incrédulos, pelo desejo de fundir poesia e pintura. Todos disseram em algum momento de suas vidas, a seu modo é claro, que desejavam levar a pintura a seu ponto de partida, onde ela ainda não se libertou do gesto. Esse retorno às origens, “em direção a uma violência primitiva” (Miró, A cor dos meus sonhos), pode ser acompanhado ao longo do desenvolvimento da obra de cada um desses pintores.

Klee sonhava com a possibilidade de improvisar livremente sobre a tela, como seu filho Félix fazia ao desenhar ao seu lado. Kandinsky se entrega a uma espécie mais rígida de improvisação, por isso com freqüëncia dava a suas telas o título Composição. Miró, o mias radical na invenção da pintura como grafismo, não cansa de exaltar o primeiro impulso, quase sempre violento, como o momento detonador de todo o processo de criação pictórica.

Por isso ele dá tanta importância às manchas que seus pincéis deixam sobre sua mesa de trabalho, aos objetos que ele recolhe na orla marítima de Palma de Mallorca, onde fez construir seu grande ateliê, aos sacos de supermercado, aos papéis envelhecidos pelo tempo, à lavagem dos seus pincéis diretamente sobre uma tela virgem, no final do dia, ou a um rabisco de criança; ali pode estar o germe do vermelho de um novo quadro, o volume sugestivo para uma nova escultura ou o grafite de um novo desenho. Quanto mais trabalha, mais atento a ninharias, porque ele aprendeu que elas guardam a força e o frescor do nascimento, início de tudo; mais atento também ao erro. Poderiam ser suas as palavras de Leon Battista Alberti, contemporâneo de alguns dos mais importantes artistas do renascimento italiano, e autor do primeiro tratado teórico inteiramente dedicado à pintura: “arte alguma existe que não tenha tido seus inícios em coisas erradas” (p. 140).

Segundo esses três pintores, no princípio era o grafismo, o grafismo sem cor. Assim como podemos dizer que no princípio da dança era o gesto, no princípio da música era o ruído, a fala, talvez o grunhido, no princípio da literatura ou da escrita era a garatuja. Ou seja: no princípio poesia e pintura são uma única e mesma coisa. É ainda Miró que afirma, em seu livro de entrevistas A cor dos meus sonhos: “Não estabeleço nenhuma diferença entre pintura e poesia”, afirmação utilizada com epígrafe do livro Poesia e Pintura - um diálogo em três dimensões, de Valdevino Soares de Oliveira.

O que existe por trás dessa opção pelo ponto de partida é o reconhecimento de que a parte vital do trabalho do pintor - e do poeta -, embora ela não seja a única, se dá na fonte, no gesto intuitivo seminal, que a crítica definiu reiteradamente como “estética pura”. Por isso tantas vezes esses pintores preferiram representar no lugar de uma árvore a casca, da terra uma pedrinha, do céu uma libélula, o sol ou o céu e não a paisagem, a garatuja e o grafite e não a narração.
Procedendo assim, pintor e poeta fazem da pintura e da poesia a amplificação de um nó vital, dessa intuição inicial que cultivada dá vida e humanidade ao inumano, ao insignificante, ao frágil.
Gostaria de terminar citando de memória o que Paul Valéry disse em alguma das páginas de seu Introdução ao método de Leonardo da Vinci: o esplendor de luzes que vem do castelo mais magnífico é tão somente a luz de uma única vela refletida numa infinidade de espelhos espalhados por todos os cômodos.

Klee e Miró, mais do que quaisquer outros pintores, refletiram com seus quadros, aquarelas, desenhos e esculturas, a luz de uma única vela, a que talvez possamos chamar de baça luz da identidade. Mas que por efeito de refração contínua inclui o outro e ganha uma luminosidade que surpreende e inquieta.