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sexta-feira, 25 de março de 2011

Barcelona de Gaudí, Curitiba de Poty

Fiquei surpreso quando li que de cada dez pessoas que visitam Barcelona, oito o fazem por causa de Antoni Gaudí. Não que o genial arquiteto catalão não mereça a honra de tantas visitas. Seu trabalho é a prova de que o sonho faz parte de nossas necessidades vitais, como comer, beber, dormir, amar, mesmo que às vezes ele se aproxime perigosamente do pesadelo. E o homem que tudo podia a partir de simples pedras ou fragmentos de azulejos dilatou como poucos os limites da necessidade humana de sonhar em direção a uma espécie de fantasmagoria em vários aspectos infantil.

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Fiquei surpreso por constatar como figuras como essa mais do que emprestar seus traços à fisionomia de uma cidade, no limite passam a substituí-la. Para oito em dez turistas, embora continue dona de um corpo pleno de atributos particulares, Barcelona reduz-se - ou amplia-se, o que é ainda mais surpreendente - às obras arquitetônicas de Gaudí. Daí a uma imagem subjetiva e generalizante da cidade, sob o impacto dessa personalidade catalã originalíssima, vai apenas um passo.

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Se de um lado Barcelona parece extremamente generosa, porque permite que novos traços vão sendo incorporados à sua identidade sempre em expansão, por outro é preciso lembrar que só é possível tomar parte no corpo urbano à força de uma reivindicação poderosíssima. Não conta muito para essa conquista o poder instituído nomear uma praça, uma rua ou uma escola de engenharia com o nome de A. Gaudí. Mais do que qualquer dessas merecidas homenagens, suas obras é que conquistaram o direito de ampliar o imaginário da cidade, e fizeram isso à força, desprezando, por exemplo, o esquadrinhamento cartesiano das vias que circundam a Sagrada Famíla, o que ressalta ainda mais sua irregularidade quase monstruosa. Mas principalmente se batendo contra o projeto de arejamento que está na origem da arquitetura moderna.

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É certo, porém, que Barcelona aprendeu bem a lição, como provam o inquietante confronto entre o edifício do Colégio dos Engenheiros da Catalunha, de um lado da rua, e a Catedral Gótica, do outro, símbolo do confronto, mas também do convívio, entre a arquitetura gótica e a moderna naquela cidade.

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Embora Oscar Niemeyer seja indiscutivelmente responsável por alguns traços fundamentais da fisionomia do Brasil, especialmente no exterior, seu nome está mais ligado à Brasília do que a qualquer outra cidade brasileira, incluídas aí Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

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Curitiba, que não possui um fisionomia arquitetônica particular, e que aprendeu a se contentar com os arremedos do mestre carioca, tem que procurar em outras áreas aqueles nomes que lhe emprestam identidade. Poty é sem dúvida um deles. Se é verdade que os turistas vêm a Curitiba atrás da Eldorado, em que a qualidade de vida seria superior à de outras cidades brasileiras, atraídos por algumas soluções urbanísticas originais e por uma estratégia de marketing eficaz, também é verdade que em algum momento da visita eles se deparam com o nome de Poty Lazzaroto, especialmente o muralista. E nesse sentido ele passa a fazer parte do imaginário da cidade.

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Mas a estratégia do artista paranaense parece ser bem menos bélica, ou reivindicativa; ele antes devide com o poder uma imagem que o Estado possui de si. O Poty baiano, próximo de Caribé, ambos atentos à cultura negra, o Poty sertanejo, que torna ainda mais real o grande sertão de Guimarães Rosa, o Poty indigenista, que revela segredos do dia a dia dos índios brasileiros, o Poty carioca, que dá traço aos personagens de Machado de Assis, o Poty interessado na cultura maia e asteca, esse Poty diverso se afunila, em Curitiba, num Poty unívoco, narrador convencional da formação histórica do Paraná.

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O muralista antes empresta seu nome à cidade do que lhe impõe uma identidade particular, identidade que inegavelmente ele possui, e que dá vida a grande parte de sua obra, especialmente à porção gráfica dela. Mas que à força de se subordinar a essa insana necessidade local de impor uma visão paranista à cidade, ocupando todos os espaços de seu imaginário, acabou se tornando redundante, degradando inclusive a qualidade de seu traço.

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À medida que o apuro técnico no manejo do isopor - material utilizado como fôrma para a fundição do concreto - vai se aprimorando, é visível que a concepção dos painéis, com seus pequenos núcleos temáticos, vai se repetindo à exaustão. Mesmo os painéis de cerâmica sofrem deste mal, como o duplo agravante de que agora o artista simula o uso da cor e perde a vitalidade de seu traço. É difícil, por exemplo, identificar a personalíssima nervura do traço de Poty no tubo de ligeirinho do painel da travessa Nestor de Castro, fundos da Catedral Metropolitana. Quanto ao uso recente da cor, basta colocar lado a lado qualquer gravura em preto e branco e um desenho da última safra, “colorido”. A cor, em seu caso, abranda a natureza rude do traço, tirando do desenho sua feição de estrutura armada, de finos fios retorcidos, que lhe davam personalidade e um poder impressivo incomum.

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A Curitiba de Poty não possui a diversidade genial da obra do artista. Infelizmente, o empenho com que se subordina, e portando se reduz, o estético ao político, no Estado, ao mesmo tempo que deu visibilidade local ao artista, não fez senão reduzi-lo à figura do ilustrador oficial de alguns momentos históricos do Paraná. Ao contrário de Gaudí, a obra de Poty cresce em diversidade e beleza justamente quando se vê desvinculada da cidade natal.

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Texto publicado na Gazeta do Povo

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CRÍTICA/Artes Plásticas e Literatura

 

GAZETA DO POVO Cristovão Tezza
Visita a Carlos Dala Stella
Publicado em 03/05/2011

Curitibano jamais visita alguém sem avisar antes, uma regra que vale tanto para os vizinhos de prédio quanto para os amigos longínquos. O resultado é que vamos nos encapsulando num conforto sem riscos, de emoções cuidadosamente controladas. Pois na semana passada saí de casa seguindo a aventura geográfica que percorro duas vezes por semana e que me tira do miolo da cidade para os confins de São João, nos limites de Curitiba.
Ao espichar o mapa do GPS, que resolveu minha tradicional incapacidade de orientação topográfica, percebi que duas quadras adiante não existia mais nada – o mundo acabava súbito em 120 metros, conforme informava a telinha falante. Temeroso daquele vazio, fiz a volta e digitei “Toaldo Túlio”, bairro de Santa Felicidade, segunda parte da viagem, para onde avancei por atalhos até reencontrar, depois de quase um ano, três e-mails e um aviso por telefone, meu amigo Carlos Dala Stella, que conheci bem antes de ele se tornar o artista plástico que é hoje. Começamos juntos um mestrado de Letras, nos anos 1980, e dali ele enveredou para a pintura, mas sem jamais perder o contato com a literatura, o que é visível em seu trabalho.
Em poucos minutos, atravessando um portão, passei da agitação dos carros para um corredor inesperado e tranquilo de araucárias, uma pequena chácara encravada e protegida no bairro, com um cachorro, pássaros, verde em toda parte, o céu cortado de copas de árvores, um breve frio de outono. No meio de tudo, Dala Stella ergueu seu ateliê, um espaço a um tempo discreto e amplo, com dois andares abertos e vazados de luz por altas faixas de vidro. Enquanto ele fotografava alguns desenhos e bicos de pena seus que estavam comigo, e que farão parte de um novo projeto que está criando, perambulei pelo ateliê admirando os quadros expostos e relembrando sua arte.
Um ateliê de pintura é sempre um espaço que me agrada muito, uma síntese física de um modo pessoal de ver o mundo, pela via da imagem, do traço, da combinação de formas e cores, como alguém que vive dentro de sua própria obra. Posso sentir essa ligação também na literatura, mas o texto nunca se deixa ver completamente (daí porque um escritório de escritor em geral diz pouco), enquanto a pintura, na sua apreensão instantânea, escancara-se ao olhar. O ateliê do Carlos é ele inteiro, em cada detalhe. Surpreende no seu trabalho – que eu revia com prazer, para onde quer que olhasse – o domínio de muitas técnicas, dos retratos a lápis e bico de pena (ele é um desenhista refinado), passando pelos recortes em cartão com seus efeitos de luz e sombra, aos impactantes murais em tela, concreto ou vidro. Sobre a mesa maior, folheei uma coleção de cadernos, ou diários, em que poesia e desenho se alternam página a página.
Na despedida, ainda ganhei de presente uns dois quilos de pinhão colhidos na hora. Uma visita maravilhosa.

CIMENTAIS

Manuel da Costa Pinto
Editor da revista CULT/Catálogo

Num momento em que a arte contemporânea vive entre as alternativas excludentes da tela e das instalações, como se pôde ver nas últimas Bienais de São Paulo, a exposição CIMENTAIS, de Carlos Dala Stella, surge como uma espécie rara de reflexão sobre as possibilidades expressivas da oscilação entre o plano e o tridimensional.

Sem deixar de ter um valor estético apreensível pela instantaneidade do olhar, os painéis de Dala Stella poderiam ser definidos com um exercício de constrição formal, em que o artista cria limites, regras estritas a partir das quais organiza o caos da criação. Daí o progressivo e lento percurso de suas figuras, que vão saltando dos relevos dos painéis até ganharem a dimensão espacial da escultura.

Abdicando de optar por formas puras, Dala Stella consegue criar, nesta seqüência de obras, um efeito narrativo, que conduz da aridez plana do cimento ( material predominante dos painéis) à opulência corpórea de suas personagens. Some-se a isso o aparato didático que cerca cada painel (esboço e textos que precederam a concepção final de cada um) e teremos a sua filosofia da composição.

A referência à literatura não é gratuita. Afinal, esse artista que faz sua primeira exposição individual é também poeta, o que ajuda a explicar aquela idéia de constrição que norteia o rigor estilístico de suas obras. Assim como escritores tão diferentes quanto Poe, Borges ou Calvino que perceberam a arbitrariedade necessária da forma, criando para si cânones que pressupõem uma possibilidade de transgressão, o poeta Carlos Dala Stella forjou seu próprio universo de representações, um universo que se vai diluindo na espacialização dos painéis, ou pelos simulacros de si mesmos (como no ilusionismo irônico do isopor pintado, que reproduz o efeito visual do concreto, abolindo a oposição entre peso e leveza).

As obras de Carlos Dala Stella estavam até agora dispersas em reproduções de jornais e capas de livros. Mas CIMENTAIS não é apenas a oportunidade de presenciar o diálogo existente entre as suas diversas criações; a exposição permite também identificar suas referências estéticas, como Poty e os grandes artistas catalãos (sobretudo Miró), que têm presença óbvia na alegria mediterrânea das obras desse poeta da matéria.

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CIMENTAIS

Cristóvão Tezza / escritor

Há muito o que admirar na arte de Dala Stella. O princípio é esse trânsito tranqüilo entre a figura e a (quase) abstração, que vai se desenhando com o poder da intuição e o domínio técnico dos materiais que, falar nisso, vão do cimento armado ao papel de seda, com um à vontade que espanta. Nele, mesmo o mais fragmentário ser no nanquim, no vidro, na cor já nasce inteiro e firme, claríssimo nos limites do espaço, sempre bom de ver. Mas há outra admiração minha: é a paixão de Dala Stella pela literatura, que sem retórica, parece criar de longe, como quem não quer nada, a estranha consistência de suas formas, pondo de mãos dadas tanto a prosa (a linguagem dos outros) quanto a poesia (a linguagem dele) tudo isso desenhado, e às vezes por escrito. E por essas e outras que considero um privilégio tê-lo na capa dos meus livros.

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DALA STELLA NO CONCRETO / fragmentos

Paulo Venturelli
Escritor e Professor de Literatura na UFPR

No deserto em que Dala Stella se coloca, ele tem qualquer coisa de oriental. Rejeita o barulho, rejeita a proliferação desordenada de investidas ocas, cujo brilho é sempre fátuo. E entra numa espécie de essencialidade, fruto de um satori, de uma iluminação que é seu modo de flagrar cada degrau do universo. Pensemos num menino sobre o cabo da vassoura: cavalo. Pensemos numa menina com um toco entre panos que seus braços embalam: filho/boneca. Carlos suga desses instantes a graça de uma captação que vira toque de mutação: a pincelada faz voar, o recorte reatualiza a visão que vem dos lugares escondidos de Santa Felicidade. Por isso seu trabalho tem economia de formas, é uma arte que rejeita qualquer retórica, porque assume a pureza da linha e da cor, estilizando seus encantos pela vida.
Ele quer, antes de mais nada, o ludismo. Seu ludismo não quer dizer inconseqüência, ou falta de seriedade, ou descompromisso. Seu ludismo é a porta que ele abre para apascentar-se de novidades e forrar seu ateliê com a eletricidade de cores e volumes que vão registrando uma história, um caminho. E tudo isso é evidente quando encaro um material básico em seu trabalho: o cimento. De aparência fria, desumana, com função só utilitarista, Carlos consegue transformá-lo em seiva quente, matéria pulsante, humana, sobretudo humana. Na última vez em que estive em sua casa, conheci outra área que ele está explorando: cimento com vidro. As duas linguagens parecem se repelir, parecem guardar em si um curto-circuito de anulação. Mas o artista está sempre empenhado na busca, e nela já se ergue nova linguagem, material inovador. Ele retira dos dois a incrível poesia da leveza, o total lirismo da transparência. É neste instante, mais que nunca, que chego a perceber como a palavra poética nele transforma-se em matéria tátil, visual. Seus objetos têm muito disso: convidam ao toque, insistem numa interação que é de todos os sentidos, não só do visual.
Cada quadro, cada desenho, escultura ou montagem ou colagem fustiga nossos subterrâneos e nos leva a um outro patamar da compreensão. Para fruir tais texturas, é preciso mais que a esfera mental. É preciso ainda ir além, ir à poesia no concreto e na tinta e ver através de, por meio de. Germina em cada detalhe a explosão do que se pode transfigurar. E não é milagre ou misticismo ou inspiração. Não, é trabalho, um trabalho que de repente revela a paz que há no barulho, a calmaria que se estende sob o sol, a concha profundamente quieta, enquanto o oceano se parte em mil. Nada de tormentos descabelados, nada de suar sangue, nada de prazer de explodir os ossos, puro vazio. O que Dala Stella está a oferecer é a construção que segue um roteiro de harmonias, sem alarde, e muitas vezes, harmonias surpreendentes, porque não se esperava encontrá-las logo ali, no vidro, no cimento, no isopor, no recorte de revista, naquele tom de cor. Notem bem: é por isso que ele trabalha com olhos e genitálias. Estas fecundam, aqueles abrem gigantescos parênteses no meio da pletora do mundo e descondicionam nossas vistas cansadas, para que possamos entender a vida como algo integralmente realizável, viável, sobretudo na criação. Carlos navega num mar de pequenas descobertas que se agigantam.
Adoro passar uma tarde em sua casa, chafurdar em sua mesa, onde encontro Montaigne, Cioran, Kafka encavalados em Matisse, Frida Kahlo, Picasso. Na meio luz da biblioteca, ou na claridade do ateliê, tudo se abraça a tudo, tudo insemina tudo e saio de lá sempre grávido de novas luzes, experimentando uma insuportável vontade de bater asas. Dala Stella vive em regime de concentração. Num centímetro quadrado faz o mundo, recria o dia, refaz a estrada. Uma tesoura e um jornal, e, pronto, lá vem coisa surpreendente, chaves para novas investidas. Ao seu redor, a gente vê que o sonho de verdade comanda a alma, não como embriaguez, e sim como via de acesso a tudo o que podemos ter de real: recriar cada instante


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Artes Plásticas/O Gato sem Nome

O homem que aprendeu a desenhar com as crianças
Rafael Urban
Folha de Londrina, 18.12.2008

Atrás de uma porta discreta no bairro de Santa Felicidade vive o universo de Carlos Dala Stella, escritor e artista plástico que reaprendeu seu próprio traço copiando os esboços dos pequenos

A porta da casa de Carlos Dala Stella no Bairro de Santa Felicidade, marcada pelo número 899, é discreta, por onde não passa mais de um carro, e esconde os 2.500 metros quadrados do terreno que vem logo atrás. Uma relação que, nas palavras do mesmo, é sintomática de seu trabalho. Tanto a residência como o novo ateliê, cuja construção foi completada em janeiro, foram desenhados pelo próprio, ainda que assinada por um arquiteto, atribuição que, dentre as várias que pratica, não está no currículo.
Dala Stella, 47 anos, trabalha com tinta, grafite, telas, papel, cimento, vidro. ''Quando eu conto que foram os poemas as coisas que mais fiz na vida, é aí que as pessoas ficam mesmo sem entender'', explica. O novo ateliê, de dois pisos e 300 m2, com muitas entradas de luz e vista para o jardim com pinheiros e a residência, tem sido palco de sua produção mais recente. Antes, desde 1991, utilizou um espaço de 60 m2 no primeiro andar da casa, em que tinha dificuldade de manejar as suas telas maiores - seu próximo quadro vai ter três por quatro metros.
Desde os 18 anos, registra cada momento do trabalho em cadernos que vão de 20x20 centímetros (o menor deles), ao maior, de um metro por 30 centímetros. São 36 volumes. No dia 26 de fevereiro de 2007 escreveu no de número 33 uma lista com 13 livros não-publicados, entre os prontos e em andamento. Os já editados são quatro: ''O Caçador de Vaga-lumes'', de poemas e contos, de 1998; ''Riachuelo, 266'', de contos e crônicas, de 2000; ''Bicicletas de Montreal'', de fotografias e desenhos, de 2002; e ''O Gato Sem Nome'', de recortes, reproduções, ilustrações e poemas, publicado em 2007.
Este último, de capa vermelha, e edição finalizada a mão, com 300 exemplares numerados, é vendido em Curitiba no Beto Batata do Alto da XV por R$ 70. Ao mostrar o livro, Dala Stella levanta na altura do rosto e assopra. O sopro dá volume às duas sequências de recortes feitos a estilete. Uma delas é nomeada ''A dor de Eleotério'', em homenagem ao livreiro que deixou Curitiba no início do ano.
''Foi muito interessante ver como ele sentiu a minha dor. Foi difícil ficar sem a cidade e os amigos. Ainda sonho em voltar a Curitiba'', conta Eleotério de Oliveira Burrego, 51, que desde o dia dois de fevereiro vive em São Paulo, onde é o gerente da Livraria Martins Fontes da Praça do Patriarca. Dala Stella pensou em homenagear o amigo quando soube da agressão física que Burrego sofreu em 2003. Eleotério, livreiro desde 1975, viu na obra o seu sofrimento de deixar a cidade.
São Paulo
A capital paulista também é palco de venda das obras do curitibano Dala Stella. ''Gosto de todo o trabalho dele, que é bom em vários suportes. É uma obra limpa, criativa e séria'', afirma Sabina de Libman, dona, desde 1971, da galeria Arte Aplicada. Ela vende recortes e telas do artista há um ano. ''Fiquei encantada quando conheci a sua arte. Ele é absolutamente desconhecido em São Paulo, mas de um talento excelente'', complementa Sabina. Sobre o fato de Dala Stella ser pouco conhecido, a galerista é de poucas palavras. ''Alguns artistas fazem muito marketing. Enquanto outros trabalham.''
Sabina se diz impressionada também com as fotos feitas pelo artista. Quando morou em Montreal, no Canadá, de março a dezembro de 2001, Dala Stella encontrou nas bicicletas, no caminho do ateliê na Mont Royal à sua casa na Saint-Laurent, um motivo para, em um primeiro momento, fotografar, e, depois desenhar/pintar, o que mais tarde resultou no já citado livro ''Bicicletas de Montreal''. Não se tratava de uma relação especial com o objeto, mas com a forma resultante de bicicletas abandonadas, por vezes retorcidas ou cobertas de vegetação e neve. ''Fui juntando fotos de bicicletas sem me perguntar por quê. A única coisa que eu queria era essa alegria sem razão, miúda mas autêntica, que entra pelos olhos'', explica o autor no posfácio.
Mais tarde, recebeu a oferta de um canal de venda de obras de arte na televisão para produzir dúzias de desenhos de bicicletas por mês, os quais teriam venda garantida. ''Um dos fatos que explica a minha invisibilidade é que não quis ser o artista plástico de um tema só, que pinta apenas bicicletas.'' Um de seus livros prontos, ''Majik Mahgid - A História de um Rosto'', é mais um exemplo de sua exigência autoral. ''Recebi vários nãos. Todos diziam que seria muito caro produzir. Me perguntaram: o trabalho é bom, mas quem é você?''. Por fim, um editor se propôs a produzir o livro com a condição que fosse dividido em três volumes. Mas a divisão, na opinião do artista, perderia o sentido da obra.
Baseado em um sonho de Dala Stella, ''Majik Mahgid'' é uma sequência de 200 recortes feita em cima de um livro de música, parecida com a que fez sobre Eleotério, mas desta vez colorida e mais complexa, em que forma novos rostos a cada virar de página. ''Colocar um sonho no papel é devolver ao original, de onde ele veio.''
Dala Stella sopra mais uma vez para mostrar o efeito do livro que também é obra de arte. ''Para funcionar, tem que ser manuseado bastante.'' Ao fim, guarda-o em uma das 85 pastas com projetos em andamento que tem em seu ateliê. ''É um livro de recortes para adultos que também pode ser visto pelas crianças. Por que os livros de recortes têm que ser apenas para os pequenos?''
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Sonho de viver da própria arte
Próximo projeto é publicar o livro ‘Quer jogar?’

Foi justamente com as crianças que Carlos Dala Stella reaprendeu a pintar. Matias, seu filho mais velho, hoje com 18 anos, desenhava no quadro negro, em casa, antes mesmo de completar dois anos. "Eu via aquilo e copiava, copiava. Queria aprender o traçado sem preconceitos da criança. Elas desenham bem até os sete anos. Depois, começam a desaprender e a fazer do jeito publicitário." As reproduções foram registradas em um caderno. "Quando não tinha filhos, copiava dos filhos dos amigos. Entregue uma folha para uma criança: ela abstrai todo o entorno. Depois, experimente fazer o mesmo com um adulto." Dala Stella diz que se fascina quando vai começar uma obra nova: "Não me vejo como um pintor, um desenhista pronto. Sinto o medo de não saber desenhar ao iniciar cada obra. É algo fundamental." Na epígrafe de seu livro mais recente, cita Fernando Pessoa: "Melhor o impreciso que embala do que o certo que basta".
Dentre os diversos projetos, o próximo a ser publicado é o livro "Quer jogar?", realizado em parceria com a namorada, Adriana Klisys, consultora nas áreas de educação, cultura e projetos lúdicos. Quando ela viu o livro sobre as bicicletas, em 2004, pensou: "Tenho que conhecer este homem." Estão juntos desde aquele ano. "Ela foi a única pessoa que veio me perguntar se alguns dos desenhos eram feitos com a mão esquerda. Gosto do traço com a mão que não é boa justamente pela imprecisão", conta. Dala Stella fez 96 desenhos para a parceria, alguns em seus cadernos de ateliê, que ilustram brincadeiras como "Bicipipoqueira", mas também têm vida própria. "Pensei neles como objetos independentes do texto de Adriana; que tratam daquele jogo ou brinquedo, mas também funcionam como obra de arte por si só." Adriana pretende, além do livro, expôr os originais do namorado, um artista que, até hoje, ainda não teve uma exposição individual de suas telas ou desenhos em Curitiba. Em 1995, a Sala Miguel Bakun, hoje Casa Andrade Muricy, recebeu seus trabalhos em cimento. "Vejo a obra dele como uma reserva de qualidade, que a qualquer momento poderá ser acessada por grandes públicos", comenta o admirador e também escritor
Miguel Sanches Neto.
Da infância, Carlos Dala Stella recorda do Bar Eucalipto, de propriedade de seu pai, que funcionava na frente de casa - onde hoje é uma loja de peças para automóveis. Na parte dos fundos do bar, lia Machado de Assis saltando página e fazia esculturas de barro. "Ia de bicicleta até as olarias da região e roubava os tijolos ainda frescos." O pai, Augusto Dala Stella, falecido em 1997, ele coloca no hall daqueles que considera grandes gênios como Johann Sebastian Bach e Franz Kafka. "Ele só estudou até a quarta série. Mas era um homem de uma generosidade incrível e uma habilidade manual maluca. Subia nas árvores e ficava 30 minutos em busca do melhor galho para uma setra. Me ensinou a ver a beleza na natureza. Cresci olhando o céu", conta.
Dos avós, agricultores, herdou o terreno, o qual, diz, jamais teria condições de comprar. Sonha, como o amigo de quase três décadas Cristovão Tezza, em viver da própria arte. Ainda dá aulas de português a pequenos grupos que dispendem uma boa quantia para dividir seus conhecimentos durante quatro horas semanais. Se dedica ao ateliê de oito a doze horas por dia. Dala Stella já escreveu para revistas, jornais e foi colaborador, inclusive, da Folha de Londrina. Formado em Letras, acabou por se distanciar da Academia e não terminou o mestrado em Literatura Brasileira, na Universidade Federal de Santa Catarina.
No momento, conclui uma escultura em vidro e cimento, uma encomenda de novembro de 2007 feita pelo casal de jornalistas Sonia Bittencourt e Jean Féder. Parecida com outras sete que já instalou na cidade, a obra de 2,30 x 1,13 vai para o topo da escada em uma das entradas da casa do casal. "Entendemos que é uma obra de arte e não um objeto de decoração. Então, não pode ter prazo de entrega", opina Sonia. "Me dedico integralmente a um projeto. É o mesmo que acontece quando leio um autor: é como se virasse um especialista. Entrego uma obra, mas faço mais de 100 rascunhos em papel e dezenas de testes com os materiais. Quando trabalho, tenho a alegria nas mãos."

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Artes Plásticas/Bicicletas de Montreal

  José Castello

“Partindo do quase-nada, Carlos Dala Stella não só fez um livro sensível e belo, mas nos ensinou alguma coisa a respeito da arte e da escrita. Teve as qualidades que formam o artista e o escritor: a paciência para esperar, sem saber o que se espera; a liberdade interior; a coragem para suportar o susto quando a coisa chega. Clarice Lispector, meio freudiana, dizia: o ‘isso’. Carlos não quis impor seu estilo, ou estabelecer significados. Limitou-se a aceitar aquilo que lhe vinha, sem nada pedir em troca, sem impor condições ou discriminar respostas, e foi por isso, só por isso, que fez um livro estupendo.”

Rascunho, março de 2003.
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Ubiratan Brasil

“O livro é composto de 35 fotografias e 44 trabalhos sobre papel, como desenhos, gravuras, recortes e colagens. A intenção, bem-sucedida, do artista plástico era estabelecer um diálogo entre as imagens, permitindo que a leitura não seguisse a ordem natural das páginas. Nesse sentido, o livro funciona como um grande quebra-cabeça que pode ser lido na ordem que se preferir.”

O Estado de S. Paulo, 19 de março de 2003.

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André Seffrin

“Com a máquina fotográfica em punho, ele pouco a pouco registrou essa alegria, esse nada. Depois, com nanquim, crayon, grafite, etc., em variantes técnicas que não excluíram a fotografia propriamente dita, chegou ao livro. Um livro que nos revela o artista ‘à disposição da infinita realidade’, ou seja, que nos revela o sentido da arte e o lugar do artista no mundo dos homens. Ele também escreveu para o livro um texto impregnado de poesia, quase agônico em sua inquietude. Em meio aos tantos embustes do panorama atual das artes plásticas, eis um nome que merece toda a atenção.”

Pasquim, 25 de março de 2003
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José Carlos Fernandes

“Não bastasse, as bicicletas de que se ocupa Dala Stella são um caso à parte, uma espécie de lixo industrial deixado ao tempo e ao vento em um país rico, sem serventia nenhuma. São, por isso, presas perfeitas para fazer uma variação de um único tema, idéia que persegue o artista não é de hoje. Carlos sempre trabalha uma idéia à exaustão, para conseguir, justo, o que alcançou com as velos. Não lhes falta, por isso, dramaticidade, lirismo, emoção e umas tantas narrativas sugeridas.”

Gazeta do Povo, 27 de fevereiro de 2003

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 Diogo Sinhorotto

“Vendo as obras contidas em ‘Bicicletas de Montreal’, recordamos a poesia que pode ficar esquecida no corre-corre urbano. Além de belas imagens, Carlos Dala Stella pretende oferecer uma sonoridade: ‘Criei uma espécie visual, mas de grande apelo aos outros sentidos. As bicicletas são um pretexto gráfico para ouvir a música das rodas e das folhas’, comenta.”

Jornal do Commercio, 20,21 e 22 de abril de 2003.