sábado, 1 de dezembro de 2018

Falas ao Acaso



Blog de JOBA TRIDENTE

sábado, 1 de dezembro de 2018


Carlos Dala Stella: A Arte Muda da Fuga


Neste novembro primaveril de 2018, o escritor de verso e prosa e artista plástico brasileiro Carlos Dala Stella lançou o belíssimo livro A Arte Muda da Fuga, que traz 108 poemas meticulosamente pinçados dos seus fascinantes Cadernos de Ateliê, onde há 39 anos ele une recortes, colagens e manuscritos poéticos. Para esta luxuosa edição ilustrada com obras do autor, a crítica literária e escritora Marta Morais da Costa, doutora em literatura pela Universidade de São Paulo, e autora do excelente posfácio, mergulhou em aproximadamente duas mil páginas dos Cadernos 47 a 57, produzidos em 2014 e 2015, para desvelar ao grande público leitor e apreciador da boa arte a intensa e desconcertante produção de Dala Stella, que já está em seu Caderno de Ateliê 70.




A princípio pensei em apresentar alguns extratos do posfácio de Marta Morais, mas ponderei que, além de mutilar o encadeamento perfeito do seu extenso texto, este não seria suficiente para o leitor conhecer Carlos Dala Stella em sua plenitude. Assim, preferi sugerir alguns links de postagens anteriores aqui no Falas ao Acaso, de blogs do autor e da editora, entre outros, em sua breve biografia, ao final da página.



Para esta postagem selecionei cinco poemas do livro A Arte Muda da Fuga (2018): a arte muda da fuga; vazios; parlatório; ignorância solar; aprendizado. As fotos (fac-símiles do livro ou dos Cadernos)  são de Pith Haid.



      
     
a arte muda da fuga
Carlos Dala Stella

o silêncio sempre foi
meu maior interlocutor
qualquer coisa que eu diga
um monossílabo que engula
ele ouve e sopesa
por mais que eu grite
para dentro e sufoque
um substantivo, ele me acolhe
côncavo e atento
mesmo que eu sopre pérolas
inaudíveis, ele recupera a concha
nunca o silêncio me foi
indiferente, cada vez mais
interfiro na trama
de seus fios transparentes
quem sabe dessa parceria
um dia não surja
a arte muda da fuga


vazios
Carlos Dala Stella

o vazio está cheio
de possibilidades e não transborda

a clareira no meio do mato
o pátio na arquitetura
o silêncio no teatro
o côncavo da caverna
o oco do quarto
o domo da Stª Maria del Fiore

quanto vazio para dizer
sem palavras
a plenitude de deus
o maior de todos os vazios


parlatório
Carlos Dala Stella

chega uma hora em que o mundo
nos fala sem intermediários

falam as nuvens carregadas
e falam cúmulos de organza

falam as janelas fechadas
e fala o branco no varal

falam as pálpebras ligeiras
e falam os olhos leonardos

fala tudo que se mostra
e tudo que se esconde

o que se exibe no espelho
e o que se dá trás-os-montes

só não fala o desconhecido
que todas as manhãs acorda


comigo


ignorância solar
Carlos Dala Stella

estamos no meio do mar morto
encalhados, mais vivos impossível
por todos os lados esse silêncio religioso
essa linha circular do horizonte
reduzidos à chama bruxuleante
da respiração, mudos de tocar
com os olhos o brocado das estrelas
mudos e entregues à ignorância
solar de não saber cada vez mais
em que Ítaca esse barco vai dar


aprendizado
Carlos Dala Stella

tão longo o aprendizado
pra chegar no mesmo lugar
onde nossos antepassados chegaram
pra cair exatamente
no mesmíssimo buraco
e no entanto nossos amores
proibidos e absolutos foram todos
intimamente particulares

tão vário o aprendizado
tão moderno e diverso daquele
de nossos queridos pais
e no entanto o deserto florido
a que chegamos é o mesmo
deserto de nossos ancestrais
a mesma areia entre os dedos
os mesmos cegos girassóis

de uma alegria tão doce
e genuína, e tão imprevista
que nem chega a ser aprendizado
é vida que sucede à vida
e no entanto acabamos
desaguando no mesmo rio
de peixes imemoriais
que vai dar no sal do mar

tanto ímpeto desse corpo
tanto esforço renovado
e tanto gozo na lida amorosa
com o corpo cheio de paraísos
e armadilhas do outro
e no entanto não aprendemos
nada de novo senão reavivar
o espírito rubro do fogo


Carlos Dala Stella em seu ateliê, no Bairro de Santa Felicidade, em Curitiba

Carlos Dala Stella é escritor de verso e prosa e artista plástico. Nasceu no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba, Brasil, no ano de 1961. É formado em Letras, pela Universidade Federal do Paraná e desde a década de 1980 dedica-se ao desenho. Carlos, que já expôs na Itália, publicou os livros O Caçador de Vaga-lumes (poemas, 1998), Riachuelo, 266 (contos e crônicas, 2000), Bicicletas de Montreal (fotografia e outras artes visuais, 2002), O gato sem nome (poemas, 2007) e A Arte Muda da Fuga (poemas, 2018). Em 2012, Dala Stella foi finalista do prestigiado Prêmio Jabuti, na categoria Ilustração, com o livro Quer Jogar?(2011), de Adriana Klisys.
Para saber mais: no Falas ao Acaso, cinco poemas do livro O Gato sem Nome: Poema I;Poema II, Poema III; Poema IV; Poema V..., e o magnífico A Beleza dos Bichos, poema que está presente em A Arte Muda da Fuga; blogs de Carlos Dala Stella: dalastella e cdalastella; resenhando: entrevista com Carlos Dalla Stella; site da Editora Positivo, que publicou A Arte Muda da Fuga, para compra online...

Posfácio de A ARTE MUDA DA FUGA


Marta Morais da Costa


Este posfácio nasce do silêncio.
Este posfácio nasce da mudez do espanto.
Nasce fadado à incompletude.
Nasce para deixar vazios.
Este posfácio é uma confissão de fraturas e falhas.

1. E fez-se o livro

Livros não apenas contam histórias. Livros são histórias. E este nasceu em uma visita, em tarde de chuva, ao ateliê de Carlos Dala Stella. Gestado inicialmente na cabeça do poeta e de sua editora, ganhou concretude quando matrizes encadernadas e soltas, guardadas em imensa série de cadernos no ateliê, foram sendo abertas e delas jorraram páginas e páginas e páginas de uma escrita abundante, de manuscritos ilustrados, de alta poesia liberta que tomou conta do ambiente, de meus olhos surpresos e encantados, criando uma atmosfera de respeito à arte e de desejo de aventura. Travessos, estes olhos míopes sentiam o apelo daquelas páginas de onde saltavam imagens, desenhos, recortes, colagens.

No mar em preto e branco, indistinguíveis, as volutas de tinta preta criavam simbioses entre o que era forma plástica e forma poética. As linhas dos versos seguiam cursos fluviais caprichosos, misturando-se às imagens ora apresentadas em contornos fechados, ora abertas em cavernas vazadas a insinuar camadas de outras formas e sentidos. O turbilhão em preto e branco engolfava esta leitora de palavras e imagens.

Organizados, etiquetados, imóveis, os grandes cadernos de ateliê, tal uma ilha de tesouros, anunciavam muitos, infinitos poemas que a intenção de apenas um livro era incapaz de conter. Ficavam ali, descansando, à espera de pesquisa, de seleção, de volumes a serem editados. De objeto em objeto, de opulentas e provocativas ilustrações, de poemas e mais poemas e mais poemas, Dala Stella falava de sua fecunda, notívaga e madrugadora produção poética. De incontíveis e incontáveis escritas que se armavam, se derramavam, se orquestravam naquelas páginas manuscritas. Talvez um livro novo em cada caderno.

A fecundidade da obra do poeta esbarrava no projeto contido de apenas um livro. Como selecionar, entre a riqueza de obras artísticas do Louvre, apenas uma? Como selecionar, entre as aves do Pantanal, apenas uma? Como, diante do Universo, afirmar a existência de apenas um planeta habitado? A tarefa de fazer nascer “A arte muda da fuga” pertencia a difíceis – e impossíveis – seleções.

Uma possível saída – e que se revelou produtiva e acertada – foi solicitar ao poeta a escolha da produção recente que, segundo ele, representasse melhor  sua poesia do presente. Como nauta experiente, ele saberia navegar melhor no oceano de sua produção.

Assim se fez: da internet começaram a jorrar em meu computador arquivos e mais arquivos de poemas selecionados por Carlos Dala Stella, de sua produção de apenas dois anos (2014-2015). Eram dezenas e dezenas de textos, com temas, motivos e extensão variados, a pedir tinta, impressão, luz do dia. Em sua autonomia e feliz liberdade, proclamavam, no entanto, elementos comuns, parentescos, liames e conjuntos.

Em busca dos fios a se entrelaçar, a se combinar e enovelar, fui pouco a pouco descobrindo meadas comuns, matizes de cores predominantes, possíveis agrupamentos. Nasceram assim as categorias de amarração dos poemas pré-selecionados pelo autor e novamente selecionados por mim. O volume ganhou sua primeira forma, que a editora aperfeiçoou e enriqueceu, imprimindo-lhe ritmo e visualidade.

A tarefa se transformou em viagem lúdica e prazerosa. O que parecia aridez era antes avidez de leitura. Indagações já traziam implícitas as respostas. Estabelecidos os grupos, definidas suas características, os poemas facilmente deslizavam da tela fria dos arquivos enviados para os ninhos em que se agrupavam, solidários e irmanados. E este volume se fez.


2. Uma poética de vazios e silêncios

O artista plástico revela, nos vazados e nas aberturas, uma multiplicação de planos: camadas sucessivas em que continente e conteúdo se alternam e se contrapõem. Ao enveredar pela “A arte muda da fuga”, o leitor vai confrontar variáveis dessa escolha estética da multiplicação de planos. A primeira constatação é de que Carlos Dala Stella é um poeta fingidor, integrante da constelação de Fernando Pessoa. Não é o único. Não será o último. Suas verdadeiras dores e saberes chegam à luz envoltos no manto diáfano de apurada técnica de escrita. É um poeta de miudezas, de sintaxe sem nós e de imagens de simplicidade e espartana concisão.

Em volutas poéticas que rocambolam de poema a poema, o poeta se desnuda e se autointitula. É uma poesia em que a imagem, aparentemente plana, aos poucos se abre em recortes e vazados por onde o leitor (também um espectador) é atraído para camadas profundas das palavras, dos ritmos e da poderosa visualidade que sedimenta sua obra.

As linhas mestras deste livro e, muito especialmente, seu título explicitam-se nos versos de “A arte muda da fuga”:

nunca o silêncio me foi
indiferente, cada vez mais
interfiro na trama
de seus fios transparentes
quem sabe dessa parceria
um dia não surja
a arte muda da fuga

Surgiu. Materializou-se. Ganhou forma, corpo, estrutura, conexões, tinta e papel. O poeta, não mais sem voz, pode apresentar-se vestido de cenários, de cores, de rimas e qualificar-se para antenar silêncios e mergulhar em vazios. Há uma espécie de metafísica construída pelo desejo de ter acesso aos enigmas do não dito, até para opor-se à vida trepidante, e quase sempre artificial, deste século que nos engolfa. O poeta capacita-se a outro fazer e sentir, como toda a confraria de poetas: “Somos os que ouvem o silêncio universal”, proclama ele em “casulos de sol”.

O “silêncio universal” poderia enganosamente provocar no leitor a compreensão de uma poesia sideral, astrofísica, cósmica. Algo como ouvir estrelas, captar mensagens de outros mundos, antenar-se nas galáxias.  É verdade que, enquanto motivos poéticos, é possível descobrir na sequência de poemas desta seleção boa quantidade de referências verbais a esse campo semântico. No entanto, qual Ulisses resistente ao cantar das sereias, Carlos Dala Stella percebe o espaço sideral, mas somente o aceita e dá sentido quando ele se espelha em partículas terrenas: “grão infinitamente estelar/ em universos de areia”, versifica ele em “finitude estelar”. 
O paralelo universo estelar=grão de areia não é apenas uma comparação, a prima pobre da metáfora. É antes a possibilidade, como afirmava Carl Sagan, de nossa finitude humana ser resultado da “poeira das estrelas”, ou, como este cientista diria menos poeticamente, “A vida é apenas um vislumbre passageiro das maravilhas que existem no Universo.”

A correspondência entre sentidos corporais e a decifração da realidade, claras ressonâncias da obra de Rimbaud, colocam na berlinda um dos procedimentos-chave de sua obra: a concretude do mundo que o assalta em todas as horas e em todos os espaços transfigura-se em imagens de neblinas, de sutilezas, de silêncios significativos, de vazios vazados abertos a planos cada vez mais profundos que interrogam os sentidos da vida.

meus olhos fazem a ponte
entre as levezas inúteis
do mundo de dentro
e a linha curva do horizonte  [insignificâncias]

Essas pontes, por vezes bastante sutis, leves e pênseis, povoam a poesia com correspondências inovadoras a juntar, por meio dos liames das palavras, os diferentes planos da vida visível. 

continuo grato por tanta generosidade
mas eu não desejei essas coisas
muito menos elas esperavam ser desejadas
apenas colei nelas o selo do meu espanto [admiração]

A presença da natureza, representada por uma pluralidade de elementos simples – aves, árvores, chuva, sol, estrelas, grão de areia –, beira o bucólico, caso não fosse ampliada em dimensões cósmicas ou em estados de alma. Nesse aspecto, a poesia de Dala Stella bordeja a obra de Eugênio Montale (1896-1981), poeta italiano considerado hermético em linguagem poética e nos sentidos dos poemas. A crítica vê em Montale uma escrita que, servindo-se de fragmentos de tempo aparentemente desimportantes, busca compreender a vida que neles brilha e ganha sentido.

Montale expressa esse estado poético, por exemplo, no poema “Os limões”:

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade.
O olhar perscruta em volta,
a mente indaga concerta desune
em meio ao perfume que se espalha
enquanto o dia enlanguesce.
São os silêncios em que se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma Divindade surpreendida.

O poeta deste livro tem, porém, uma propriedade particular e oposta à do poeta italiano: foge do pessimismo montaleano e prefere articular sua visão da natureza-vida com o espanto, o desconhecido, o “silêncio universal”, porque “há em cada um de nós/ uma coroa de mistérios/ que luz alguma alumia”.

Esse interrogar constante, mesmo sem encontrar respostas definitivas, guarda a riqueza de constatar com espanto as manifestações da natureza. São animais, “bichos”, que, em variedade copiosa, impedem que o poeta se sinta só. E voejam pararus, urubus, sabiás, pintassilgos. E se arrasta a lesma sobre o mármore, a libélula esplende em vitral e a aranha tece, como o tempo. São pequenos animais a significar enigmas da vida e da arte.

A poesia de Dala Stella produzida neste estágio de sua obra artística incorpora uma visão madura aos questionamentos sobre a subjetividade, uma das linhas mestras temáticas de sua escrita: ”seja quem eu for/ sou irremediavelmente o que sou/ e ninguém é comigo!”. Há uma aceitação tranquila da singularidade entre os mortais e uma inquirição constante da individualidade em face do universo, mesmo que, em momentos de desilusão e de uma perspectiva negativa, seus versos considerem os seres humanos tal qual “cometas kamikazes”, envoltos em “um miasma/ de vaidades”, fazendo ecoar nesses versos a crueza de um Augusto dos Anjos.

Mas são raros esses lampejos de acerba crítica à conduta humana. De um modo geral, isolado em seu casulo de verdes e cantos, entregue à arte, ao espanto, à aproximação vital da natureza exuberante (“à indiferença majestática da natureza”), em meio a “telas, esculturas, recortes, esboços” e rimas, o poeta constrói seu ninho artístico e existencial, no meio do qual, feito “água-viva”, se movimenta.

A máscara da calma maturidade não evita, entretanto, a consciência do corpo frágil e do tempo poderoso que “me apaga com afagos” e, no mesmo influxo,  o obriga à aflição da criação artística. Tempo que, com “indiferença exuberante”, age como “um deus que não existe/ mas está em todo lugar”.

Se escrevi “calma maturidade”, não elimino de minha percepção –  seguindo os versos do poeta – toda uma angústia e perturbação interna, uma desacomodação que está na origem de toda arte. Integra intrinsecamente essa madureza “aquilo em cada um de nós/ que nunca virá à luz do dia”. Contradições que não impedem que, descobrindo as arestas de uma secreta e indefinível parte de si, faça o poeta supor que “se eu estivesse aqui/ estaria chovendo passarinhos mortos/ sobre minha alegria”. Entre a sintonia com a natureza, a arte de interrogar silêncios e a descoberta de faces desassossegadas de sua interioridade, o poeta derrama versos em busca da arte e de si mesmo.

Para quem se alimenta da fome, os versos se derramam em rios, as ideias se expressam em camadas e em desvãos, a busca de respostas para “mundos de ignorância e ausência” produzem no leitor efeitos desafiadores da sensibilidade e da compreensão.

Essa busca dos sentidos do mundo e do tempo, esse indagar os vazios e os silêncios como repositórios de respostas e de beleza acabam por conferir à poesia de Carlos Dala Stella a marca indelével de uma poética de inquirição, de comunhão estelar, de denúncia dos desacertos do homem em sociedade, de incompletudes pessoais e sociais. Constrói, à semelhança de Bach, uma arte como fuga, isto é, uma composição polifônica no contraponto de conjuntos temáticos.

E tal como em seu poema “silêncio”, chego ao final deste prefácio replicando seus versos: “o bom de pensar/ é que depois/ vem o silêncio”.

Marta Morais da Costa é crítica literária, escritora e professora.
É doutora em literatura pela Universidade de São Paulo.


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Resenhando.com


.: Entrevista com Carlos Dala Stella, autor do livro “A Arte Muda da Fuga”


"A palavra e o desenho são a extensão de meu corpo.", 
Carlos Dala Stella

Por Helder Moraes Miranda, em novembro de 2018.


Carlos Dala Stella acaba de lançar pela editora Positivo o livro “A Arte Muda da Fuga”, com 108 poemas reunidos que foram manuscritos nos cadernos de ateliê de Dala Stella. 


Uma seleção criteriosa foi feita por Marta Morais da Costa, doutora em literatura pela USP, a partir de um conjunto com aproximadamente duas mil páginas de textos, desenhos, recortes e colagens. As imagens do livro são pistas sobre o processo criativo do autor, que escreve e desenha cotidianamente em seus cadernos ilustrados há 39 anos.


Poeta, artista plástico e contista, ele nasceu em 1961, no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba. Formado em Letras pela Universidade Federal do Paraná, dedica-se ao desenho desde a década de 80, quando expôs na Itália. Publicou os livros “O Caçador de Vaga-lumes” (poemas, 1998), “Riachuelo, 266” (contos e crônicas, 2000), “Bicicletas de Montreal” (fotografia e outras artesvisuais,2002) e “Ogatosemnome” (poemas, 2007). 


Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2012 na categoria Ilustração com o livro “Quer Jogar?” (livro ilustrado, 2011). Nas artes, o autor transita por murais de cimento e vidro, telas, retratos a lápis, nanquim e esculturas em papel, mas é nos cadernos de ateliê que cotidianamente escreve e desenha.


RESENHANDO - Para você, o que pode ser considerada a arte muda da fuga?

CARLOS DALA STELLA - Poesia como fuga do excesso de realidade, incluído esse "universo bíblico de telas" do mundo virtual. Mas fuga de fora para dentro, em direção a um certo recolhimento, onde a liberdade é maior. Mas também fuga no sentido musical do termo: gênero barroco do contraponto, onde duas ou mais vozes musicais correm lado a lado, fugindo e se entrelaçando umas nas outras. Em ambos os casos, a arte muda do diálogo, através da poesia. Já que o diálogo está tão difícil cá fora. 

RESENHANDO - Foram 108 poemas escolhidos a partir de aproximadamente duas mil páginas. Qual foi o critério de seleção?
C.D.S. - Quem fez a primeira seleção fui eu, de um conjunto maior, a definitiva, o conjunto do livro, foi Marta Morais da Costa. Ela poderia responder melhor. Mas o critério é o de sempre, os poemas que imaginamos ter mais qualidade. Os que se agrupam em temas mais estruturados, que imaginamos dialogar melhor com o presente, seja confirmando-o ou contradizendo-o. 

RESENHANDO - Como a imagem e o texto podem se completar?

C.D.S. - Gostaria de ouvir a resposta do leitor. A intenção foi, inicialmente, recuperar o contexto gráfico de onde os poemas foram retirados. Porque na verdade eles fazem parte de um fluxo de imaginação maior. Depois descobrir vínculos entre um determinado recorte, por exemplo e o poema que vem logo a seguir. Esses links foram feitos pela editora Cristiane Mateus. Os recortes com estilete são uma modalidade de desenho que pratico com frequência. Imaginamos que eles se dão numa frequência de sutileza assemelhada a de muitos poemas do livro. 

RESENHANDO - A natureza é algo muito presente na sua obra. Qual é o motivo disso?
C.D.S. - Cresci entre o mato de Santa Felicidade e o concreto da urbe. Tenho uma intimidade muito grande com essa natureza primitiva, ainda que não mais selvagem. Gosto de árvores e bichos, gosto que se acentuou com a infância de meus filhos e agora netos. Também a natureza é uma espécie de fuga, como bem sabiam os poetas-pintores chineses. Mas não há nada de bucólico no que escrevo. Escrevo olhando para frente, não para trás. Além do que, meu jardim é um pequeno bosque. 

RESENHANDO - Você considera que se autobiografa em sua obra? Por quê?

C.D.S. - Sempre há autobiografia no que escrevemos, mais ou menos ficcionalizada. Afinal temos que partir de alguma coisa, nossa história ou nossa percepção da história. No livro, há uma série de poemas explicitamente autobiográficos, dedicados a pessoas que admiro. Mas também há poemas de reflexão, veio poético menos lírico ao qual me dedico bastante.

RESENHANDO - Você é um artista plástico consagrado, e também é poeta e cronista. Em que o artista plástico, o poeta e o cronista contribuem para formar o ser humano?
C.D.S. - Não sei como responder a essa pergunta. Eu padeço essa junção. Mas ela não se dá assim simultaneamente. Quando escrevia para jornal escrevia menos poesia, pintava menos. Quando pinto ou desenho bastante, escrevo menos. Embora cada vez mais consiga me dedicar a projetos cruzados, em várias áreas. O que junta tudo é um enigma que eu não gostaria de ver decifrado. 

RESENHANDO - O que representam a literatura e as artes plásticas na sua vida?

C.D.S. - Mais do que representar alguma coisa, elas são a vida. A palavra e o desenho são a extensão de meu corpo. Nunca escrevi ou pintei pensando no mercado, a não ser quando tenho que responder a uma demanda. Mas mesmo as encomendas, é possível atendê-las sem interromper o desdobramento de projetos mais íntimos. O que posso dizer é quase uma obviedade: a escrita me dá uma consciência maior do mundo, enquanto a pintura e mesmo o desenho me obrigam a usar mais o corpo, consequentemente a enfrentar esse caos de percepções intuitivas. 

RESENHANDO - Qual é o seu maior medo e por quê?
C.D.S. - De que as pessoas que amo sofram. Porque o sofrimento delas me afeta mais do que o meu. 

RESENHANDO - No poema que dá título ao seu livro, você afirma: "o silêncio sempre foi meu maior interlocutor". Explique.

C.D.S. - Não explico nem a pau.

RESENHANDO - Há alguma explicação para as obras do livro serem em preto e branco?

C.D.S. - Originalmente a maioria dos recortes não tem cor. E a poesia é sempre em preto e branco. O resultado fica mais harmônico. Além disso o preto e branco ressalta minha arquitetura de papel.

*Helder Moraes Miranda escreve desde os seis anos e publicou um livro de poemas, "Fuga", aos 17. É bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.

terça-feira, 27 de novembro de 2018


APRENDIZADO

tão longo o aprendizado
pra chegar no mesmo lugar
onde nossos antepassados chegaram
pra cair exatamente
no mesmíssimo buraco
e no entanto nossos amores
proibidos e absolutos foram todos
intimamente particulares


tão vário o aprendizado
tão moderno e diverso daquele
de nossos queridos pais
e no entanto o deserto florido
a que chegamos é o mesmo
deserto de nossos ancestrais
a mesma areia entre os dedos
os mesmos cegos girassóis

de uma alegria tão doce
e genuína, e tão imprevista
que nem chega a ser aprendizado
é vida que sucede à vida
e no entanto acabamos
desaguando no mesmo rio
de peixes imemoriais
que vai dar no sal do mar

tanto ímpeto desse corpo
tanto esforço renovado
e tanto gozo na lida amorosa
com o corpo cheio de paraísos
e armadilhas do outro
e no entanto não aprendemos
nada de novo senão reavivar
o espírito rubro do fogo

Carlos Dala Stella, 
do livro A ARTE MUDA DA FUGA


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BREVES REFLEXÕES SOBRE MINHA POESIA


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1

Há em A Arte Muda da Fuga um pathos às vezes
melancólico e cru cuja exposição não gostaria que fosse
exacerbada para além do tom francamente íntimo dos
poemas. Mesmo nos casos em que aparentemente busco a
polêmica, mais regurgito minha parte no diálogo, como
quem responde uma deixa, do que me ponho em posição
de ataque. Para além desse pathos, o que me interessa
mais é a polifonia de percepções e materialidades verbais
de que é feito cada poema. Quando à melancolia, ela é um
dos vórtices de que sou feito, não há porque negá-la.


2

A poesia é sempre um arranjo de redução – de um fato, de
um sentimento ou mesmo de uma ideia – mais ou menos
evidente, mais ou menos misterioso, para um corpo verbal
conciso de reverberação abstrata. Esses arranjos se dão
sob pressão, não exatamente das circunstâncias fatuais,
mas de uma certa atmosfera que se cria, especialmente
durante a escrita, e mesmo antes, inseparável já das
palavras que a vão fundindo ou desvelando. Nos melhores
casos essa pressão estrutura o corpo :nal e torna latente
no sentido do poema.


3

Não escrevo tomado por um sentimento; escrevo tomado
pela ideia de um sentimento. Mesmo quando as coisas
confluem, tenho sempre um pressentimento abstrato do
corpo verbal, em direção ao qual procuro trabalhar, até que
ele vá se estruturando, com essa miríade de pequenos
mecanismos internos, sem os quais o poema não vem à
vida, e de onde provém boa parte do sentido.


4

A ideia de que alguns poemas são escritos de dentro para
fora, de que a arquitetura interna antecede, ou mesmo
torna dispensável, a construção externa, porque assume
para si, como uma vocação telúrica, a inteira função
estrutural do edifício semântico-verbal, essa ideia vale para
grupos inteiros de meus poemas, e mesmo para alguns
poucos poetas cuja vocação irrompe em meio a um
contexto fortemente restritivo.


5

O poeta é um intuicionado. Mesmo o pensamento nele vem
em forma de intuição, o que significa dizer que ele está
sempre lidando com o que não sabe, o que não vê, o que
não alcança. Disso decorre sua precariedade, mas também
a força de seu destino.


6

Por mais reflexiva que seja, a poesia é sempre um convite à
cointuição, a esse indeterminado que nos escapa, mas que
se dá ao pressentimento da razão em todos os instantes da
vida, e que não pode ser senão perfeito e acabado.


7

Um poema não é uma linha reta entre o que o poeta sente,
ou pensa, e a expressão desse sentimento ou dessa ideia. É
no percurso da escrita que o sentimento de mundo se dá,
num espelhamento interno e externo sem o qual a vida
resultaria num simples artefato de palavra, desprovido da
animação que lhe é tão cara. Um poema é um pequeno
percurso de linguagem onde a vida, misteriosa e
engenhosamente, se dá. A linha reta, em poesia, é sempre
curva.


8

Não exatamente a palavra usada, nem a ideia por ela
expressa, mas a ênfase com que ela é usada é que anima o
tema e vivifica a ideia. Sem essa ênfase, que só pode
decorrer da identidade particular de quem escreve, não há
palavra exata nem ideia pertinente ou mesmo sublime que
salve um poema da palidez emocional e da opacidade
intelectual. E a ênfase não se manifesta só, obviamente,
nas metáforas e antíteses, nem mesmo apenas nos
substantivos fundantes, francamente expressos, nem nos
adjetivos vocacionados, mas também, e particularmente,
no subtexto de assonâncias, aliterações reversas e
espelhadas, nos silêncios súbitos ou premonitórios que
costuram os versos e as estrofes. São esses pequenos
recursos que vivificam a vida de alguns poemas, fazendo-os
respirar como seres vivos.


9

Os poemas de A Arte Muda da Fuga nasceram de um
vórtice de pressão comum, apesar da diversidade de temas
que eles tocam. Pressão externa, naturalmente, do
contexto ao qual estou subjugado, mas também, e não
menos intensamente, do contexto semântico interno de
cada poema, instaurado desde o primeiro verso e que de
alguma forma precisava cobrir com urgência o
pressentimento de um corpo de sombra. Eles descendem
praticamente todos desse mesmo vórtice de pressão e
urgência.