terça-feira, 12 de maio de 2015

PÊ E O VASTO MUNDO / PAULO VENTURELLI



Sábado próximo, dia 16, às 16h, Paulo Venturelli lança na Livraria Cultura seu livro PÊ E O VASTO MUNDO, pela Editora Positivo. O livro é ilustrado pela iraniana Fereshteh Najafi, que vem ao Brasil especialmente para o lançamento. 

Transcrevo a seguir e-mail meu, a pedido do próprio Venturelli, sobre nossa amizade e uma pequena parcela do que penso da grandeza de seu trabalho.


De: Carlos Dala Stella [mailto:cdalastella@yahoo.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 16 de abril de 2015 21:07
Para: Paulo Venturelli
Assunto: contentamento

Paulo, querido
 
Fico muito contente com a repercussão de teus livros, cada vez mais fazendo parte da identidade artística do país, e mesmo social, já que quando inventamos estamos envolvidos por esse acordo sempre cambiante a que chamamos realidade. Aos poucos, mas agora de modo irreversível, o que você imagina aí, em sua biblioteca, vai ganhando o Brasil, virando a realidade diária de outras pessoas, que te leem e estudam. Nada mais merecido, num país de tanto desmerecimento, especialmente pra quem vive fora do eixo - que felizmente, se descentra. 

O merecimento do sucesso é todo teu. Ele se deve à qualidade de teu trabalho, 'desde sempre', mas também a tua persistência, dedicação, a esse envolvimento meio religioso com a literatura. Curitiba quase sempre atrapalha, e dá gosto ver como você continuou, vencendo o atrapalho, até que Curitiba se abrisse um tiquinho. Vejo teu caso como uma vitória do sonho, que em algum momento precisa de outros pra se viabilizar por inteiro. Em teu caso, essas parcerias vieram, e elas são merecedoras de uma parcela do que te acontece agora.

Nos vemos tão pouco, me ressinto disso, como agora. Mas sinto que estamos perto um do outro, atentos, admirados, desejosos de espanto. Essa exposição generalizada de uma meia dúzia de nomes, às vezes merecedores das luzes, repercutida pela mídia, um pouco pela universidade, por tantas feiras e festivais, pela internet mais rala, ela reduz drasticamente a riqueza tão grande e diversa de nossa imaginação. Fico tão contente quando alguém querido fura esse bloqueio, quebra a pauta. É como se finalmente o Brasil passasse a merecer aqueles que custam tanto a vir a ser o que finalmente acabaram sendo, essa maravilha de individualidade. A verdade está na riqueza de nossa diversidade criativa, não nesse jogo de grandezas, que se deve mais à política da cultura do que à literatura de fato. 

Fico lembrando de nossos primeiros encontros, no alto da Brigadeiro Franco, Pink Floyd, caixas de maçã na sala, café e pão com manteiga madrugada adentro, você lendo dezenas e dezenas de meus poemas, todas as semanas,e comentando um a um, fora as indicações de leitura. Lembro com um carinho danado, sem saber como agradecer tanta pertinência e generosidade. Mesmo que eu agradeça sempre, nunca vai ser suficiente. Você está entremeado, quando lembro dessa época, à foto enorme do Henry Miller, no fundo do corredor, à sensação física que o poema me provocava, palavras vivas na mão como peixes recém-saídos d'água, ao menino Gigio chispando de um lado pro outro, a amuletos ou esculturas de pedra sabão (de Ouro Preto?) na parede, e àquela janela se abrindo para um dos grotões escuros de Curitiba. A doçura lá de dentro, de nossos encontros, é ela que sinto na minha vida ainda hoje, desdobrada nos filhos, na neta, e em minha poesia, que silenciosa e anonimamente vai pingando. 

Quantas vezes durante todos esses anos não pensei em mostrar um trabalho pra você, em dividir uma alegria, que quase sempre tive que acabar engolindo sozinho. Mesmo você aí no Bacacheri e eu aqui, em Santa, converso sempre contigo. Estou terminando um livro que você me deu há anos, Dia e Noite, da Virgínia Woolf, que só agora consegui ler, e todos os dias leio o marcador, um cartão seu, falando dessa nossa proximidade de alma. Fora a dedicatória, com tua letra veloz. Quero dizer que ao agradecimento e ao carinho de antes, vou somando cada vez mais o orgulho de ser seu amigo. E de ver como você está se colocando no mundo, docemente, mas sem concessões. Você faz parte do Brasil que já deu certo, a anos luz dessa nossa política comezinha. Quando falam em ano perdido, recessão, esquecem da imensa riqueza de nossa inventividade, já formalizada em livros, música, esculturas, desenhos, dança - maravilhosos. Nosso corpo cultural é de tal maturidade que vai demorar décadas para que o país consiga absorver a parcela mais significativa dele. Temo, como já acontece, que sejamos mais e mais visíveis lá fora do que aqui dentro.  

Te mando um abraço cheio de contentamento. Quando a coisa apertar, não desista sequer por um segundo, vou estar pensando em você e te mandando meu carinho.

Dê um beijo na Líbera, imagino que ela também esteja muito contente.
carlos

quinta-feira, 16 de abril de 2015

CRISTAL NEGRO

                               para Milton Nascimento
 
as hipóteses líricas de suas pedras
seus quintais de arribação
os rebrotos floridos de sua voz
tudo em seu canto é lajeado
de águas minerais, onde brilha
o cristal negro da paixão


inédito de Carlos Dala Stella

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

com o cachorro morto no colo

        


                       Desenho do acaso. Técnica: caldo de berinjela ao forno sobre fôrma de pizza.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

IPANEMA, Caderno de ateliê 51



                           Carvão e karat aquarell sobre papel, caderno de ateliê 51, 70x50cm aberto.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O voo começa no ovo / caderno 50




Estudos para painel-mural em cimento, 150m². Tema: o voo começa no ovo. Caderno de ateliê 50. Possíveis futuras telas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Federico García Lorca/O Divã do Tamarit

LEMBRANÇA DE AMOR


Não leves embora a lembrança.
Deixa-a mais em meu peito,

arrepio de cerejeira
no alvor frio de janeiro.

Só me separa dos mortos
um muro de pesadelos.

Dor de um lírio fresco
em um coração de gesso. 

A noite toda dois cães, 
meus olhos na plantação.

A noite toda correndo
entre valas de veneno. 

Às vezes é uma tulipa
cheia de medo, o vento. 

Uma tulipa enferma,
a madrugada de inverno. 

Só um muro de pesadelos
me separa dos mortos. 

A névoa cobre em silêncio
o vale gris de teu corpo. 

Cresce a cicuta sobre
o arco de nosso encontro. 

Mas deixa tua lembrança
um pouco mais em meu peito.


RECUERDO DE AMOR

No te lleves tu recuerdo.
Déjalo solo en mi pecho,

temblor de blanco cerezo
en el martirio de enero.

Me separa de los muertos
un muro de malos sueños.

Doy pena de lirio fresco
para un corazón de yeso.

Toda la noche en el huerto
mis ojos, como dos perros.

Toda la noche, corriendo
los membrillos de veneno.

Algunas veces el viento
es un tulipán de miedo,

es un tulipán enfermo,
la madrugada de invierno.

Un muro de malos sueños
me separa de los muertos.

La niebla cubre en silencio
el valle gris de tu cuerpo.

Por el arco del encuentro
la cicuta está creciendo.

Pero deja tu recuerdo
déjalo solo en mi pecho.

Tradução de Carlos Dala Stella. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

OFERENDA FLORAL


cada criança que Israel explode
na Faixa de Gaza é uma flor branca
arrancada da paisagem

perfumemos os jardins de Jerusalém
com cada uma das 300 flores
tingidas de vermelho pelo exército de Israel

decoremos a mesa de jantar
de 300 famílias de judeus ortodoxos
com as pétalas vermelhas do espírito santo

e inundemos a noite pestilenta
da terra santa com os jasmins da infância
desejando a todos bons sonhos


inédito de Dala Stella


quinta-feira, 24 de julho de 2014

AUGUSTO

meu pai
assim que começava a chover
se metia no banco detrás do fusca
com um travesseiro
para dormir ao som dos pingos
tamborilando na lataria

não conheci ninguém que vivesse
com tanta desenvoltura

quanta falta me faz
um mundo menos complicado e violento
vivo da simples ternura de viver

inédito Carlos Dala Stella