terça-feira, 21 de setembro de 2010

2 olhos ancorados no infinito


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Fiz 15 desenhos a partir de poemas do livro Alugam-se Palavras, de Miguel Sanches Neto, a sair pela Edelbra. 7 deles serão publicados no livro. Os 2 acima são variações não utilizadas. Os versos a que eles remetem são "dois olhos ancorados no infinito". Sempre trabalho assim, um mesmo ponto de partida me leva a várias estações, às vezes muito próximas uma das outras, às vezes inacreditavelmente distantes. Tenho desenhado tanto, e com tanto prazer, que sinto em mim o que Hokusai disse de si: o louco por desenho.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

terça-feira, 7 de setembro de 2010

bate-papo de boteco



Sexta-feira, dia 10, a partir das 19h, participo de uma mesa redonda sobre livros no Wonka Bar. Devo falar sobre meu livro NegritoO Gato sem Nome e mostrar meu último diário de ateliê. O formato bate-papo de boteco é ótimo, espero que dê certo. Várias outras atividades estão progamadas para o Zíper Bazar, com muita música (veja no link a programação completa). E apareça.
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domingo, 5 de setembro de 2010

Hanna no ateliê



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No desenho, feito com pierre noir, Hanna tem 2 meses. No ateliê, comigo, pouco mais de 2 anos. Sempre trabalhei com um cachorro por perto. Talvez porque eles personifiquem minha porção de inconsciência, mas também porque posso acariciar os pelos do silêncio enquanto trabalho.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

sábado, 28 de agosto de 2010

Tarde Quente

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Ah, o cheiro lilás das orquídeas,

discreto frescor na tarde quente.

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No ar parado, nada faz supor

a voracidade do incêndio interior.

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

(acrílica sobre tela)
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Domingo morto
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Hoje, fiquei vendo o dia passar
e para minha surpresa
um a um os vagões foram me levando
para os longes deste mesmo lugar.

Hoje, fiquei olhando o vento
soprar, e para minha surpresa
acabei na Istambul que desconheço
e é a flor do meu olhar.

Hoje, no céu vi as profundezas
do mar, e para minha surpresa
as ondas brancas me engoliram
para nunca mais voltar.

poema inédito

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Sombra do Nanquim

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Este desenho pertence a série Sombras, inicialmente de fotografias, mas que se desdobra no ateliê, em outros materiais, outras técnicas. É impressionante como através das sombras lê-se a luz do dia e da noite. E lê-se a cor, porque as sombras têm cor, uma infinidade delas. O negro das sombras é apenas a sua superfície mais visível. Há sombras vermelhas, amarelas, há um mundo de sombras verdes, especialmente à noite.

No plano cognitivo, ou simbólico, as sombras duplicam o mundo. E assim fazendo, permitem que a leitura dele seja ambígua, multifacetada, de acordo com a subjetividade de cada um. Ler o mundo tendo como contraponto as sombras abranda a dureza dos gestos, incluindo movimentos novos na coreografia; tira das coisas e das pessoas o que mal pressentimos, mas nos compõem, desdobrando-nos, às vezes, em direção a uma insuspeitada e silente doçura.

As sombras são um reduto de intimidade, invisível quase sempre aos olhos, dada a presença imperativa das coisas elas mesmas. À sombra brotam o silêncio e a solidão mais fecundos e a alegria mais genuina. Sua natureza incorpórea é a lembrança sutil de que também somos feitos de delicadezas.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Lixeiras / da série Sombras


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Artes Plásticas/O Gato sem Nome

O homem que aprendeu a desenhar com as crianças
Rafael Urban
Folha de Londrina, 18.12.2008

Atrás de uma porta discreta no bairro de Santa Felicidade vive o universo de Carlos Dala Stella, escritor e artista plástico que reaprendeu seu próprio traço copiando os esboços dos pequenos

A porta da casa de Carlos Dala Stella no Bairro de Santa Felicidade, marcada pelo número 899, é discreta, por onde não passa mais de um carro, e esconde os 2.500 metros quadrados do terreno que vem logo atrás. Uma relação que, nas palavras do mesmo, é sintomática de seu trabalho. Tanto a residência como o novo ateliê, cuja construção foi completada em janeiro, foram desenhados pelo próprio, ainda que assinada por um arquiteto, atribuição que, dentre as várias que pratica, não está no currículo.
Dala Stella, 47 anos, trabalha com tinta, grafite, telas, papel, cimento, vidro. ''Quando eu conto que foram os poemas as coisas que mais fiz na vida, é aí que as pessoas ficam mesmo sem entender'', explica. O novo ateliê, de dois pisos e 300 m2, com muitas entradas de luz e vista para o jardim com pinheiros e a residência, tem sido palco de sua produção mais recente. Antes, desde 1991, utilizou um espaço de 60 m2 no primeiro andar da casa, em que tinha dificuldade de manejar as suas telas maiores - seu próximo quadro vai ter três por quatro metros.
Desde os 18 anos, registra cada momento do trabalho em cadernos que vão de 20x20 centímetros (o menor deles), ao maior, de um metro por 30 centímetros. São 36 volumes. No dia 26 de fevereiro de 2007 escreveu no de número 33 uma lista com 13 livros não-publicados, entre os prontos e em andamento. Os já editados são quatro: ''O Caçador de Vaga-lumes'', de poemas e contos, de 1998; ''Riachuelo, 266'', de contos e crônicas, de 2000; ''Bicicletas de Montreal'', de fotografias e desenhos, de 2002; e ''O Gato Sem Nome'', de recortes, reproduções, ilustrações e poemas, publicado em 2007.
Este último, de capa vermelha, e edição finalizada a mão, com 300 exemplares numerados, é vendido em Curitiba no Beto Batata do Alto da XV por R$ 70. Ao mostrar o livro, Dala Stella levanta na altura do rosto e assopra. O sopro dá volume às duas sequências de recortes feitos a estilete. Uma delas é nomeada ''A dor de Eleotério'', em homenagem ao livreiro que deixou Curitiba no início do ano.
''Foi muito interessante ver como ele sentiu a minha dor. Foi difícil ficar sem a cidade e os amigos. Ainda sonho em voltar a Curitiba'', conta Eleotério de Oliveira Burrego, 51, que desde o dia dois de fevereiro vive em São Paulo, onde é o gerente da Livraria Martins Fontes da Praça do Patriarca. Dala Stella pensou em homenagear o amigo quando soube da agressão física que Burrego sofreu em 2003. Eleotério, livreiro desde 1975, viu na obra o seu sofrimento de deixar a cidade.
São Paulo
A capital paulista também é palco de venda das obras do curitibano Dala Stella. ''Gosto de todo o trabalho dele, que é bom em vários suportes. É uma obra limpa, criativa e séria'', afirma Sabina de Libman, dona, desde 1971, da galeria Arte Aplicada. Ela vende recortes e telas do artista há um ano. ''Fiquei encantada quando conheci a sua arte. Ele é absolutamente desconhecido em São Paulo, mas de um talento excelente'', complementa Sabina. Sobre o fato de Dala Stella ser pouco conhecido, a galerista é de poucas palavras. ''Alguns artistas fazem muito marketing. Enquanto outros trabalham.''
Sabina se diz impressionada também com as fotos feitas pelo artista. Quando morou em Montreal, no Canadá, de março a dezembro de 2001, Dala Stella encontrou nas bicicletas, no caminho do ateliê na Mont Royal à sua casa na Saint-Laurent, um motivo para, em um primeiro momento, fotografar, e, depois desenhar/pintar, o que mais tarde resultou no já citado livro ''Bicicletas de Montreal''. Não se tratava de uma relação especial com o objeto, mas com a forma resultante de bicicletas abandonadas, por vezes retorcidas ou cobertas de vegetação e neve. ''Fui juntando fotos de bicicletas sem me perguntar por quê. A única coisa que eu queria era essa alegria sem razão, miúda mas autêntica, que entra pelos olhos'', explica o autor no posfácio.
Mais tarde, recebeu a oferta de um canal de venda de obras de arte na televisão para produzir dúzias de desenhos de bicicletas por mês, os quais teriam venda garantida. ''Um dos fatos que explica a minha invisibilidade é que não quis ser o artista plástico de um tema só, que pinta apenas bicicletas.'' Um de seus livros prontos, ''Majik Mahgid - A História de um Rosto'', é mais um exemplo de sua exigência autoral. ''Recebi vários nãos. Todos diziam que seria muito caro produzir. Me perguntaram: o trabalho é bom, mas quem é você?''. Por fim, um editor se propôs a produzir o livro com a condição que fosse dividido em três volumes. Mas a divisão, na opinião do artista, perderia o sentido da obra.
Baseado em um sonho de Dala Stella, ''Majik Mahgid'' é uma sequência de 200 recortes feita em cima de um livro de música, parecida com a que fez sobre Eleotério, mas desta vez colorida e mais complexa, em que forma novos rostos a cada virar de página. ''Colocar um sonho no papel é devolver ao original, de onde ele veio.''
Dala Stella sopra mais uma vez para mostrar o efeito do livro que também é obra de arte. ''Para funcionar, tem que ser manuseado bastante.'' Ao fim, guarda-o em uma das 85 pastas com projetos em andamento que tem em seu ateliê. ''É um livro de recortes para adultos que também pode ser visto pelas crianças. Por que os livros de recortes têm que ser apenas para os pequenos?''
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Sonho de viver da própria arte
Próximo projeto é publicar o livro ‘Quer jogar?’

Foi justamente com as crianças que Carlos Dala Stella reaprendeu a pintar. Matias, seu filho mais velho, hoje com 18 anos, desenhava no quadro negro, em casa, antes mesmo de completar dois anos. "Eu via aquilo e copiava, copiava. Queria aprender o traçado sem preconceitos da criança. Elas desenham bem até os sete anos. Depois, começam a desaprender e a fazer do jeito publicitário." As reproduções foram registradas em um caderno. "Quando não tinha filhos, copiava dos filhos dos amigos. Entregue uma folha para uma criança: ela abstrai todo o entorno. Depois, experimente fazer o mesmo com um adulto." Dala Stella diz que se fascina quando vai começar uma obra nova: "Não me vejo como um pintor, um desenhista pronto. Sinto o medo de não saber desenhar ao iniciar cada obra. É algo fundamental." Na epígrafe de seu livro mais recente, cita Fernando Pessoa: "Melhor o impreciso que embala do que o certo que basta".
Dentre os diversos projetos, o próximo a ser publicado é o livro "Quer jogar?", realizado em parceria com a namorada, Adriana Klisys, consultora nas áreas de educação, cultura e projetos lúdicos. Quando ela viu o livro sobre as bicicletas, em 2004, pensou: "Tenho que conhecer este homem." Estão juntos desde aquele ano. "Ela foi a única pessoa que veio me perguntar se alguns dos desenhos eram feitos com a mão esquerda. Gosto do traço com a mão que não é boa justamente pela imprecisão", conta. Dala Stella fez 96 desenhos para a parceria, alguns em seus cadernos de ateliê, que ilustram brincadeiras como "Bicipipoqueira", mas também têm vida própria. "Pensei neles como objetos independentes do texto de Adriana; que tratam daquele jogo ou brinquedo, mas também funcionam como obra de arte por si só." Adriana pretende, além do livro, expôr os originais do namorado, um artista que, até hoje, ainda não teve uma exposição individual de suas telas ou desenhos em Curitiba. Em 1995, a Sala Miguel Bakun, hoje Casa Andrade Muricy, recebeu seus trabalhos em cimento. "Vejo a obra dele como uma reserva de qualidade, que a qualquer momento poderá ser acessada por grandes públicos", comenta o admirador e também escritor
Miguel Sanches Neto.
Da infância, Carlos Dala Stella recorda do Bar Eucalipto, de propriedade de seu pai, que funcionava na frente de casa - onde hoje é uma loja de peças para automóveis. Na parte dos fundos do bar, lia Machado de Assis saltando página e fazia esculturas de barro. "Ia de bicicleta até as olarias da região e roubava os tijolos ainda frescos." O pai, Augusto Dala Stella, falecido em 1997, ele coloca no hall daqueles que considera grandes gênios como Johann Sebastian Bach e Franz Kafka. "Ele só estudou até a quarta série. Mas era um homem de uma generosidade incrível e uma habilidade manual maluca. Subia nas árvores e ficava 30 minutos em busca do melhor galho para uma setra. Me ensinou a ver a beleza na natureza. Cresci olhando o céu", conta.
Dos avós, agricultores, herdou o terreno, o qual, diz, jamais teria condições de comprar. Sonha, como o amigo de quase três décadas Cristovão Tezza, em viver da própria arte. Ainda dá aulas de português a pequenos grupos que dispendem uma boa quantia para dividir seus conhecimentos durante quatro horas semanais. Se dedica ao ateliê de oito a doze horas por dia. Dala Stella já escreveu para revistas, jornais e foi colaborador, inclusive, da Folha de Londrina. Formado em Letras, acabou por se distanciar da Academia e não terminou o mestrado em Literatura Brasileira, na Universidade Federal de Santa Catarina.
No momento, conclui uma escultura em vidro e cimento, uma encomenda de novembro de 2007 feita pelo casal de jornalistas Sonia Bittencourt e Jean Féder. Parecida com outras sete que já instalou na cidade, a obra de 2,30 x 1,13 vai para o topo da escada em uma das entradas da casa do casal. "Entendemos que é uma obra de arte e não um objeto de decoração. Então, não pode ter prazo de entrega", opina Sonia. "Me dedico integralmente a um projeto. É o mesmo que acontece quando leio um autor: é como se virasse um especialista. Entrego uma obra, mas faço mais de 100 rascunhos em papel e dezenas de testes com os materiais. Quando trabalho, tenho a alegria nas mãos."



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terça-feira, 17 de agosto de 2010

No ateliê, à noite / da série Sombras


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Sobre Sombras

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Não sei porque comecei a fotografar sombras, nunca sei porque começo. Começo porque preciso, preciso do que não sei. E às vezes nem preciso com tanta premência. Muitas vezes começo distraidamente. Mas o que vem depois me exige, me subjuga, me prende por um bom tempo, por anos a fio. Então fico me perguntando o sentido de tudo isso, enquanto continuo a trabalhar, agora mais do que antes. O sentido dessas sombras de árvores, de postes, de mim mesmo, das pessoas de que gosto e das que desconheço e pesco pelas ruas. O que sei é que o sentido das sombras é fugaz e que ele nasce da luz - embora isso pareça um paradoxo lugar-comum. Luz e ausência dela, dessa dualidade básica são feitas as sombras.
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Essa fugacidade é a mesma que impregna tudo. Como as sombras, um sorriso iluminado de agora vai se apagar logo mais, um corpo aceso por múltiplos sentidos será inesperadamente anulado pelos sem-sentidos do mundo e desaparecerá. Por isso é bom estar atento. O que põe fim a uma sombra não é a ausência de luz, mas uma sombra maior. Luz sempre haverá, basta uma faísca, um relâmpago, o olhar de uma criança. Por isso é bom estar atento.
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A partir das sombras fotografadas, começo a desenhar, recortar, pintar. Este é um primeiro estudo, sobre papelão. Usei sobras espalhadas pelo ateliê, restos de calendário, fotografias, lápis coloridos, canetas, carvão... Fui progredindo lentamente, outros estão em andamento. Por enquanto preferi partir de fotografias falhadas, mas que lá a seu modo, com seu corpo de sombra, me sugerem singificados que prefiro manter nessa zona de obscuridade de onde elas surgiram. Atento à luz que há nelas.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A bicicletinha que faltava



Amo tanto o desenho que várias vezes fico tentado a parar uma tela apenas esboçada. O esboço à carvão, suas nuances sutis, mas especialmente a qualidade aveludada do preto, exercem sobre mim um fascínio infantil. Adoro sujar as mãos com suas micropartículas discretamente brilhantes. Preciso cheirar os palitos de carvão antes de usá-los, assim como faço com o Conté, com os lápis aquarelados, meus preferidos, e com os grafites mais doces.
O mesmo hábito possuo com os livros. Cheiro-os discretamente, para que ninguém me flagre nesse gesto íntimo. Possuo até hoje o livro que comprei na adolescência e que considero o mais cheiroso, ou floral, de todos: Deus no Pasto, de Hermilo Borba Filho. De tempos em tempos tiro-o das estantes, fecho os olhos e inspiro, inspiro animado não sei por que gratuido e sincero prazer.
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Essa tela, inspirada na Bicicletinha que Faltava, incluída na segunda edição do livro Bicicletas de Montreal, foi uma encomenda de Cristóvão Tezza - cujo site está ilustrado por uma série de retratos que fiz dele. Apesar de ter tomado a bicicleta como tema para um conjunto de meus desenhos, só fiz duas pinturas delas - esta a segunda. Nem antes, nem agora fiz mais do que tomar a bicicleta como pretexto gráfico. É à complexidade gráfica, quase poética, de canos e raios, fios e rodas, que meus olhos se voltam quando veem uma bicicleta qualquer.
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Ciência, Arte e Jogo


Como tenho feito frequentemente, posto aqui a capa que fiz para mais um livro, agora de Adriana Klisys. A escultura é de Juliana Bollini, artista argentina que mora em São Paulo. Fiz a fotografia em seu ateliê, na Pompéia. Embora a capa esteja pronta desde outubro do ano passado, só agora o livro finalmente foi publicado, pela Editora Peirópolis. Naturalmente, o projeto gráfico inclui a 4ª capa e as orelhas. Mais uma vez, contei com a ajuda de uma ás em ártes gráficas no computador, Ivonete Santos - que cada vez mais funciona como minha terceira mão, sensível e competente.
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domingo, 1 de agosto de 2010

Brinca Ciência / Desenhos






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Em março e abril, fiz mais de 20 desenhos para o segundo livro do projeto BRINCA CIÊNCIA, do Atelier de Brinquedos Científicos, de SP. Posto aqui alguns deles. Somados aos do primeiro volume, eles chegam a mais de 40. Esses desenhos dão prosseguimento a um projeto maior, o de um livro integralmente dedicado a brinquedos e brincadeiras, para o qual conto com os 99 desenhos que fiz para o livro QUER JOGAR?, a sair pela EDIÇÕES SESC SP.

sábado, 24 de julho de 2010

da série Sombras

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Todas as fotos expostas aqui estão à venda. O preço de cada cópia é R$ 2.300,00. Tanto colorida como em preto e branco, no tamanho 60x90 cm (mancha final da imagem), em papel fuji, com passe-partout Cressent standart de 10 cm (tamanho final de 80x110cm), protegida por acrílico cristal 2mm ou vidro, conforme a preferência, mais moldura de alumínio preta.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Caderno 39 / O músico

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Com esse recorte, composto de 6 lâminas de papel alta gramatura, iniciei meu diário de ateliê nº 39. O tema é ainda a música, o violão, a figura do músico - esse tema inesgotável. Um prato cheio para quem vê nas variações um instrumento de especulação sobre o desenho e sobre o mundo.
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2 X o verso de um recorte




Reproduzo aqui, contra a página de guarda preta, o verso de dois recortes da figura com que iniciei um novo caderno de ateliê, o 39. A redução a um esquema básico, preto no branco, mesmo que sugerida pelo acaso, me permite avaliar se a coisa funcionou ou não. E quantas vezes a coisa não funciona, mesmo que o trabalho agrade à maioria. Então é preciso ter coragem e recomeçar. Recomeçar sempre.
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terça-feira, 13 de julho de 2010

Por puro Prazer

Antes de visitá-lo eu sempre ligava. Algumas vezes ele me esperava sentado no sofá da sala, de costas para o vitrô, a cortina fechada. Sobre a mesa oval a mesma babel de sempre: canetas, projetos, cotonetes sujos de nanquim, fotos, livros, e, naturalmente, desenhos, muitos desenhos, alguns apenas esboçados, outros concluídos.
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Mas naquela tarde ele veio abrir a porta com o formão na mão. Depois de trocarmos algumas palavras ele voltou ao trabalho, enquanto eu percorria um a um os cômodos do apartamento-ateliê. No primeiro quarto, à direita, no chão, encostados à parede, mais de uma dúzia de pequenas peças de madeira entalhadas por ele há muitos anos.
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- Arrematei esses entalhes numa galeria da cidade. Faz tanto tempo que nem mais lembrava deles. Custou uma bagatela.
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Na parede contrária à porta, de pé, quatro ou cinco portas de guarda-roupa, lado a lado, estreitas e compridas - todas entalhadas. Numa delas um São Francisco em tamanho natural. Não lembro se as outras continham variações da mesma figura ou se o tema era outro. Eram as portas do guarda-roupa que ele mantinha no Flamengo, no Rio de Janeiro. Quando decidiu morar definitivamente em Curitiba, e o apartamento foi vendido, ele retirou as portas, despachando-as para cá.
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- O guarda-roupa evidentemente não me interessava, então eu arranquei as portas, não ia deixar lá. O novo proprietário na certa ia preferir um armário embutido, mais moderno, e botar isso tudo fora.
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Agora, desprovidas de sua função habitual, elas descansavam num dos cômodos do apartamento-ateliê da rua da Paz. Às vezes me pergunto onde andarão essas portas, elas que revelam tão explicitamente como o trabalho desse artista e seu dia-a-dia eram inseparáveis. Gostaria de vê-las mais uma vez, expostas ao público, devidamente catalogadas. Mais de uma vez ele expressou o desejo de que esse trabalho de toda uma vida não se perdesse, disperso sabe-se lá em que cantos.
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No cômodo do fim do corredor, prateleiras cheias de livros. Sobre uma pequena mesa, livros. Em pilhas enormes, espalhadas pelo chão, livros e mais livros. Muitos deles contendo folhas com desenhos inéditos.
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- Fiz muito trabalho por encomenda, mas por conta própria não tenho dúvida que ilustrei muito mais.
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E, enquanto olhava para os livros empilhados em toda parte, como quem ri de uma simples travessura:
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- Os autores nem ficavam sabendo. Naturalmente muitos já morreram, não podiam saber mesmo. Ilustrei pelo puro prazer de ilustrar.
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O que parecia bagunça ou desordem era resultado de uma capacidade inesgotável de trabalho. Incansável como a água que brota da fonte, ele não parava nunca, porque nunca estava satisfeito, mas também porque trabalhar era a um só tempo fonte particular de subsistência e prazer.
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Não acredito que ele fosse o tipo de artista para quem o trabalho acaba sendo a única coisa que conta, com o passar do tempo, a única coisa que sobra. A generosidade era um traço do seu caráter, generosidade que é evidente na amplidão temática de sua obra, mas também na relação com o outro, especialmente com os amigos. Ele era generoso mesmo na hora de fazer o preço de seu trabalho.
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De volta à sala da frente, ouço o barulho do formão cortando a madeira. Atravesso a pequena cozinha e saio por uma porta estreita. Entre a parede à direita e o muro à esquerda, neste longo corredor que antes era uma área externa, agora coberta de eternit transparente, ele trabalha, sem camisa. O “cômodo” não tem mais do que um metro de largura, e as pranchas de madeira são mais altas do que ele.
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Mesmo assim ele não reclama, é a favor que ele trabalha, de pé, sem camisa, o formão afiado na mão, não contra, a favor da madeira, a favor do que seus olhos vêem e ainda não foi entalhado, a favor de uma força que se expande, positiva, para fora de seu corpo.
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Não digo nada. Observo aquele homem trepado numa banqueta, absorvido completamente por seu trabalho.
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Quando sonho com um grande atelier, não é porque acredite que a amplidão do espaço seja uma condição indispensável para o trabalho, mas porque gostaria de receber com largueza alguns amigos. Enquanto Poty caminhasse entre meus painéis de cimento, quadros e desenhos, e todos esses objetos heteróclitos e afetivos que acabam indo para o ateliê, eu trabalharia em silêncio - como resposta ao imenso prazer de sua visita.
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Venha ver o mar, Matias



Venha ver o mar, Matias
acrílica sobre tela
232,5 x 162 cm

quarta-feira, 7 de julho de 2010

da séria Sombras






































O vemelho matizado de um muro-parede no Butantã me permitiu desenhar esse poste, a delicadeza das fiações e essas caixas de telefone, suponho, distribuídas simetricamente, à direita e à esquerda. Ao lado dessa sombra, contra o mesmo vermelho, a sombra de uma árvore debruçada sobre um riacho imaginário. Depois, em casa, monto o quebra-cabeça. Ainda não comecei a desenhar com nanquim, mas é provável que isso aconteça, mais cedo ou mais tarde. Por enquanto procuro estabelecer um diálogo entre preto e branco e cor, diálogo que dificilmente flui num mesmo conjunto.