Colagem a partir de foto de Niobe Xandó, artista brasileira para quem escrita e pintura são indissociáveis. Com ela dou prosseguimento à série de retratos, iniciada há trinta anos, de artistas que admiro, vivos e mortos, brasileiros e estrangeiros, escritores e pintores, amigos próximos ou distantes.
domingo, 27 de maio de 2018
Niobe Xandó, da série RETRATOS
Colagem a partir de foto de Niobe Xandó, artista brasileira para quem escrita e pintura são indissociáveis. Com ela dou prosseguimento à série de retratos, iniciada há trinta anos, de artistas que admiro, vivos e mortos, brasileiros e estrangeiros, escritores e pintores, amigos próximos ou distantes.
domingo, 11 de março de 2018
terça-feira, 6 de março de 2018
domingo, 24 de dezembro de 2017
Emily Dickinson, poema 77

nunca ouço a palavra 'fuga'
sem que o coração
me saia pela boca
na iminência de voar
nunca ouço que arrombaram
uma prisão, sem sacudir
estas grades, na ilusão
de ganhar liberdade
tradução de Carlos Dala Stella

nunca ouço a palavra 'fuga'
sem que o coração
me saia pela boca
na iminência de voar
nunca ouço que arrombaram
uma prisão, sem sacudir
estas grades, na ilusão
de ganhar liberdade
tradução de Carlos Dala Stella
Primeiro quis traduzir a urgência do sentimento de fuga, ou de aprisionamento, desincumbido dos recursos técnicos do original, depois fazer uma variação interpretativa desse sentimento, que de alguma forma é aparentado com minha arte muda da fuga, embora aqui a ênfase recaia sobre o silêncio mudo de meu diálogo com o mundo. E finalmente acabei ganhando essa liberdade abstrata que os pintores exercitam reinterpretando pinturas famosas, de artistas que admiram, e que lhes permite de um lado alargar a própria fala, de outro botar mais um elo nessa corrente de imaginação que dá volta ao mundo.
I never hear the word “escape”
Without a quicker blood,
A sudden expectation
A flying attitude!
Without a quicker blood,
A sudden expectation
A flying attitude!
I never hear of prisons broad
By soldiers battered down,
But I tug childish at my bars
Only to fail again!
By soldiers battered down,
But I tug childish at my bars
Only to fail again!
Emily Dickinson
segunda-feira, 13 de março de 2017
A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS de PAULO VENTURELLI
A sensibilidade delicada de PAULO VENTURELLI é peça rara no quebra-cabeças da literatura nacional. Independentemente do tema, ele toca na palavra com um cuidado e com um ardor inventivo que fazem dele um poeta da linhagem de Mario Quintana e Manoel de Barros, especialmente quando escreve ficção, como nesse A ALMA SECRETA DOS PASSARINHOS. A inspiração e o labor resultam tão imbricados que seria impossível separá-los. Em tempos de maniqueismo e barbárie, como o presente, a literatura de VENTURELLI é uma manhã de frescor em nossas vidas.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Seamus Heaney
UM ARTISTA
Adoro o cismar de sua ira.
A obstinação contra a pedra, a tensão
sobre a carnadura das maçãs verdes.
Como ele se fazia de cachorro, latindo
para a imagem rosnenta de si mesmo.
E o ódio à própria ideia do trabalho
como única coisa que funcionava -
a vulgaridade de se submeter sempre
ao reconhecimento e à admiração
consentindo em ser roubado.
Como atuava sua força, adensada
porque agir era sua sabedoria.
Sua testa à mostra como bola
de bocha atravessando o espaço virgem
atrás da maçã e da montanha.
Tradução de Carlos Dala Stella

An Artist
I love the thought of his anger.
His obstinacy against the rock, his coercion
of the substance from green apples.
The way he was a dog barking
at the image of himself barking.
And his hatred of his own embrace
of working as the only thing that worked –
the vulgarity of expecting ever
gratitude or admiration, which
would mean a stealing from him.
The way his fortitude held and hardened
because he did what he knew.
His forehead like a hurled boule
travelling unpainted space
behind the apple and behind the mountain.
Seamus Heaney
![]() |
| Cézanne, Mont Sainte-Victoire |
domingo, 29 de janeiro de 2017
ENIGMAS
olho pro céu e vejo o incompreensível
olho pro quintal e vejo vaga-lumes
piscando o silêncio úmido da noite
na laranjeira junto ao quarto
um luze-lume acende a laranja e apaga
como é vasto o desconhecido
desconheço cada partícula de minha vastidão
o que eu sei faz silêncio em mim
desde antes de eu nascer
em minha ignorância sempre cabe mais um espanto
a noite é comigo
e eu sou uma multidão de desconhecidos
esses cachorros devo ser eu latindo a escuridão
à noite ausculto o mundo da janela
as árvores tão paradas
é assombroso e incompreensível
os primneiros pingos da chuva são partículas
de milagre que despencam do céu
a natureza só existe em polifonia
os primeiros pingos nas folhas
prometem um paraíso de ingenuidades
a cada noite que passa morro um pouco
e o pouco que sobra mais me vivifica
é tanto desencontro de beleza
que eu não caibo em mim
se eu soubesse chover dormiria menos aflito
sem o disfarce da repetição como suportaríamos
esse entorno contínuo de fatalidades?
de madrugada passo horas à janela
pasmo das ternuras que perdi
contemplar é mil vezes mais atento
e silencioso do que se distrair
desde criança a chuva me fascina
os vaga-lumes me iluminam
e a noite me desperta os enigmas
inédito de Carlos Dala Stella
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Emily Dickinson / 7
Se eu não estiver viva
Quando as Sabiás chegarem,
Dê à de Peito Vermelho
Migalhas em meu Nome.
Se eu não disser obrigado,
Tanto o sono me devora,
Saibam que tento mover
Lábios de Mármore agora!
Tradução de Carlos Dala Stella
182; c.1860/1890
If I shouldn't be alive
When the Robins come,
Give the one in Red Cravat,
A Memorial crumb.
If I couldn't thank you,
Being fast asleep,
You will know I'm trying
Why my Granite lip!
"Oxeye-daisy" in Emily Dickinson. Herbarium, ca. 1839-1846. MS Am 1118.11. Gift, Gilbert H. Montague, 1950. © President and Fellows of Harvard College.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
CADERNOS DE ATELIÊ / NEBULA
Esse mini doc sobre meus cadernos de ateliê foi feito por Victor Spadotto e Leo Bourscheid, do canal Nebula, a quem sou grato pela generosidade da iniciativa e pela delicadeza do resultado.
Os cadernos são um filão que abri, sem saber, lá no início da adolescência. Desde então trabalho neles, em torno de 15 mil páginas, com desenhos, recortes, aforismos, reflexões sobre artes plásticas e literatura, sonhos e sobretudo poemas. Lá está a raiz de O caçador de vaga-lumes, O gato sem nome, Bicicletas de Montreal e Quer Jogar?, entre outros livros. É um pouco desses cadernos que dividimos com você.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
QUEM DIRIA
todos os dias tranço
as várias franjas de silêncio
que o vento sopra e balança
as várias franjas de silêncio
que o vento sopra e balança
e colho cada moedinha de luz
que a manhã espalha na grama
que a manhã espalha na grama
quem diria que o sentido
fosse tão dispensável à vida
e mesmo assim tão genuína
a alegria
domingo, 1 de janeiro de 2017
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