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domingo, 24 de dezembro de 2017

Emily Dickinson, poema 77



nunca ouço a palavra 'fuga'
sem que o coração
me saia pela boca
na iminência de voar

nunca ouço que arrombaram
uma prisão, sem sacudir
estas grades, na ilusão
de ganhar liberdade

tradução de Carlos Dala Stella

Primeiro quis traduzir a urgência do sentimento de fuga, ou de aprisionamento, desincumbido dos recursos técnicos do original, depois fazer uma variação interpretativa desse sentimento, que de alguma forma é aparentado com minha arte muda da fuga, embora aqui a ênfase recaia sobre o silêncio mudo de meu diálogo com o mundo. E finalmente acabei ganhando essa liberdade abstrata que os pintores exercitam reinterpretando pinturas famosas, de artistas que admiram, e que lhes permite de um lado alargar a própria fala, de outro botar mais um elo nessa corrente de imaginação que dá volta ao mundo. 
I never hear the word “escape”
Without a quicker blood,
A sudden expectation
A flying attitude!
I never hear of prisons broad
By soldiers battered down,
But I tug childish at my bars
Only to fail again!
Emily Dickinson

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Emily Dickinson / 7


Se eu não estiver viva
Quando as Sabiás chegarem,
Dê à de Peito Vermelho
Migalhas em meu Nome.

Se eu não disser obrigado,
Tanto o sono me devora,
Saibam que tento mover
Lábios de Mármore agora!

Tradução de Carlos Dala Stella

182; c.1860/1890

If I shouldn't be alive
When the Robins come,
Give the one in Red Cravat,
A Memorial crumb.

If I couldn't thank you,
Being fast asleep,
You will know I'm trying
Why my Granite lip! 

















"Oxeye-daisy" in Emily Dickinson. Herbarium, ca. 1839-1846. MS Am 1118.11. Gift, Gilbert H. Montague, 1950. © President and Fellows of Harvard College.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Emily Dickinson / 6

Emily Dickinson

O Silêncio é nosso maior temor.
A Voz acena com o Resgate -
Mas o Silêncio é Infinitude.
Sequer tem um rosto.

Tradução de Carlos Dala Stella

J1251 (1873)

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.


Esta a versão italiana de Giuseppe Ierolli

Il Silenzio è tutto ciò che temiamo.
C'è Riscatto in una Voce -
Ma il Silenzio è Infinità.
In sé non ha un volto.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Emily Dickinson / 5


821


Longe de Casa, estamos Eles e eu –
Ser um Imigrante
Em uma Metrópole Residencial
É fácil, quase sempre –

Habituar-se a um Céu Estrangeiro
Difícil – senão impossível
Como o Rosto das Crianças
Tanto mais se afastam – mais visível.

 Tradução de Carlos Dala Stella


Away from Home, are They and I -
An Emigrant to be
In a Metropolis of Homes
Is easy, possibly -

The Habit of a Foreign Sky
We - difficult acquire
As Children, who remain in Face
The more their Feet, retire.


Away from home, are they and IAway from home, are they and I 






















Minhas traduções são exercícios de leitura, amparadas sempre que possível por traduções para o italiano e espanhol, além de paráfrases em prosa. A disponibilidade dessas versões agora pela internet torna o processo muito prazeroso, e muito menos trabalhoso do que há pouco tempo. Mesmo assim sempre parto da edição completa que ganhei em 2008 de Cristovão Tezza, pela Little, Brown and Company, editada por Thomas H. Johnson, biógrafo e editor definitivo da escritora.

O poema 821 (segundo a datação Johnson), foi escrito em Cambridge, em abril de 1864, onde Emily Dickinson se recuperava de um problema nos olhos e onde ficaria até novembro. O que me atraiu foi a comparação do céu de onde nascemos com o rosto de uma criança, tanto mais vivo quanto mais ela caminha para longe, por artifício da memória. É fascinante que particularizemos uma porção do céu como mais íntima aos olhos de nossa alma do que o céu de outros lugares.

O céu parece sempre o mesmo, em qualquer lugar do mundo; não para os astrônomos, nem para os poetas. Os poetas moram poeticamente onde moram, o que significa que aquela porção do mundo foi sendo metaforizada por força da escrita, e da multiplicidade de percepções que a alimenta. Emily se habitua com a multidão de uma metrópole, não com seu céu desconhecido. Talvez porque o céu onde nascemos e vivemos boa parte da vida seja o cúmplice silencioso e compreensivo de nossa vocação, de nossa diária dedicação a ela. Nenhum outro céu acolhe tão incondicionalmente nossos olhos - doridos, cheios de júbilo, dúvida, indiferença, cegos de tanto ver.
    

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Emily Dickinson / 4

Poucas admirações do passado continuam, duas ou três aumentam. Emily Dickinson é das que leio cada vez mais atentamente, tanto pelo mecanismo preciso e inesperado de seus poemas, como pela sua personalidade. E mais do que tudo pelo descarnado de seu olhar sobre o mundo, contrito de belezas. Basta um único de seus poemas para que eu mergulhe nesse experimento de linguagem tão conectado à vida como o próprio corpo, como o próprio sonho.  

1149

Percebi que as pessoas sumiam
Ainda criança pequena –
Viajavam para longe, supunha
Ou se mudavam para Regiões selvagens –
Agora compreendo – elas viajavam
De mudança para Regiões selvagens –
Mas porque estavam mortas
Fato velado à criança pequena –



I noticed People disappeared
When but a little child -
Supposed they visited remote
Or settled Regions wild -
Now know I - They both visited
And settled Regions wild -
But did because they died
A Fact withheld the little child -


Tradução de Carlos Dala Stella

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Emily Dickinson / 3


                                                       à Pascoa e ao Pentecostalismo

Então o Céu é Doutor?
Corre que Ele pode curar –
Mas Curas do Além
Como checá-las?
Então o Céu é Banqueiro?
Dizem que somos devedores –
Mas nessa negociata
Não entra meu Dízimo

.
Is Heaven a Physician?
They say that He can heal –
But Medicine Posthumous
Is unavailable –
Is Heaven an Exchequer?
They speak of what we owe –
But that negotiation
I’am not a Party to –

tradução de Carlos Dala Stella

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Emily Dickinson / 2


Pisei Tábua após Tábua
Lenta e cautelosamente.
Sobre a Cabeça, as Estrelas
E o Mar, sob os Pés.

Sem saber se o próximo
seria o último passo –
Vem daí minha Marcha incerta
Que alguém chama Experiência.


.

I stepped from Plank to Plank
A slow and cautious way
Tha Stars about my Head I felt
About my Feet the Sea.

I Knew not but the next
Would be my final inch –
This gave me that precarious Gait
Some call Experience.

Tradução de Carlos Dala Stella

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Emily Dickinson


Sou ninguém! E você, é quem?
Ninguém – também?
Então formamos um par?
Fale baixo – seríamos condenados!

Que tristeza – ser Alguém!
Que Celebridade – a do Sapo –
coaxar o próprio nome –
para as cintilâncias do Banhado!



I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – too?
Then there’s a pair of us?
Don’t tell they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

Tradução de Carlos Dala Stella

Que me perdoe Augusto de Campos, com sua bela e erudita tradução desse poema de Emily Dickinson, mas de anonimato entendo eu.