quinta-feira, 7 de abril de 2016

E. M. Cioran / 3



Quando percebo que estou escorregando para o sono, tenho a impressão de mergulhar num paraíso providencial, de cair por toda a eternidade, sem nunca mais poder escapar. Então, nenhuma vontade de fugir me perturba. O que desejo, nessas ocasiões, é poder perceber cada um daqueles instantes o mais nitidamente possível, sem perder nada, usufruindo deles até o limite da inconsciência, antes da beatitude.

Tradução de Carlos Dala Stella


Quand j'observe mon glissement dans le sommeil, j'ai l'impression de m'enfoncer dans un abîme providentiel, d'y tomber pour l'éternité, sans pouvoir jamais m'en évader. D'ailleurs aucun désir d'évasion ne m'effleure. Ce que je souhaite dans ces instants, c'est de les percevoir le plus nettement possible, de n'en rien perdre et d'en jouir jusqu'au dernier, avant l'inconscience, avant la béatitude.

Aveux et Anathémes, E.M.Cioran


E. M. Cioran, Spaima, manuscrit de la traduction roumaine du poème Angoisse de Stéphane Mallarmé - next picture
     E. M. Cioran, Spaima, manuscrito da tradução romena do poema
                        Angústia, de Stéphane Mallarmé.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Eugenio Montale / 11


DEPOIS DA CHUVA


Ideogramas na areia molhada, 
pés de galinha. Me viro
mas onde uma ave poderá se esconder?
Talvez uma gaivota cansada, ou manca.
Nem sendo chinês para decifrar
aquela língua. Um sopro
e ela já era. Mentira que a natureza
é muda. Fala pelos cotovelos.
Tomara que ela não tagarele
demais sobre eu e você. 

Tradução de Carlos Dala Stella


DOPOPIOGGIA

Sulla rena bagnata appaiono ideogrammi
a zampa di gallina. Guardo addietro
ma non vedo rifugi o asili di volatili.
Sarà passata un'anatra stanca, forse azzoppata.
Non saprei decrittare quel linguaggio
se anche fossi cinese. Basterà un soffio
di vento a scancellarlo. Non è vero
che la Natura sia muta. Parla a vanvera
e la sola speranza è che non si occupi
troppo di noi.


Não há dúvida que algumas liberdades que se tomam ao traduzir são exageradas, mas às vezes sem esses exageros é praticamente impossível revivificar, na língua de destino, esse animal tão voluntarioso que é o poema. Avançamos o sinal também porque não conseguimos controlar completamente nossa vontade, mais ou menos idiossincrática, de meter o bedelho na criação alheia. De qualquer forma, o que conta mesmo é como o poema se comporta dentro do quadro da língua para a qual ele foi traduzido. Frequentemente as traduções de poesia mais 'fiéis' não impedem que os poema cheguem desconjuntados na nova língua. 

Foram essas liberdades que tomei ao traduzir Dopopioggia, de Eugenio Montale, acentuando certa concisão ideogramática a que o poema aspira. 


segunda-feira, 28 de março de 2016

Eugenio Montale / 10


INÍCIO DE JULHO

Julho mal começa e o pensamento
já está devendo.
Nenhum drama à vista, 
um mínimo de perturbações. 
O ritmo da mente em ponto morto
inexplicavelmente inspira sérias preocupações. 
Melhor se enfrenta o tempo afoito,
meio dia basta para liquidá-lo. 
Mas nesse início de julho cada segundo goteja 
e o encanador saiu de férias. 

Tradução de Carlos Dala Stella


I PRIMI DI LUGLIO


Siamo ai primi di luglio e già il pensiero
è entrato in moratoria.
Drammi non se ne vedono,
se mai disfunzioni.
Che il ritmo della mente si dislenti,
questo inspiegabilmente crea serie preoccupazioni.
Meglio si affronta il tempo quando è folto,
mezza giornata basta a sbaraccarlo.
Ma ora ai primi di luglio ogni secondo sgoccia
e l’idraulico è in ferie.


Poema do livro Diário de 71 e de 72, de Eugenio Montale, também traduzido para o português por Geraldo Holanda Cavalcanti, no livro Poesias, editora Record, transcrito a seguir.


COMEÇOS DE JULHO

Mal julho começa e já o pensamento
declara-se em moratória.
Dramas não mais ocorrem,
no máximo disfunções.
Que o ritmo da mente se relaxe,
e isso inexplicavelmente gera sérias preocupações.
Melhor se afronta o tempo quando é denso,
meia jornada basta a dispensá-lo.
Mas agora neste início de julho cada segundo pinga
e o bombeiro está de férias.

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Cinco estações / Matias Dala Stella


Um média metragem delicado sobre uma mulher cheia de delicadezas: sua história, sua fala mansa, seus silêncios. Um filme que conta a história de uma afetividade enraizada, entre quem está atrás e quem está na frente da câmera.
Filme do Matias Dala Stella na Cinemateca, dias 1 e 2 de abril, sexta e sábado, às 19 h.

sábado, 19 de março de 2016

1º voo / tela finalizada







    Óleo sobre tela
    285x185cm

Esta tela é resultado do aproveitamento dos estudos para um mural projetado há dois ou três anos para uma empresa de Maringá, cuja nova sede seria inaugurada na época. O edifício, em fase de acabamento, possuía 3 andares e uma fachada principal, com 10 m. de largura por 15 m. de altura, que seria ocupada pelo mural. Além do painel mural, mais três trabalhos seriam instalados internamente, um por andar, com 5 ou 6 m² cada, em cimento ou pintura.

Estavam incluídos no projeto também os trabalhos de instalação, com assessoria de Rosélio Machado, cuja empresa executou e instalou os murais de Poty Lazzarotto, em seus últimos dez anos de vida, e que me auxiliou na instalação do mural de Sto Inácio, no Colégio Medianeira de Curitiba. Faziam parte da instalação, a execução de uma nova fundação, para suportar os 15 mil quilos do mural, e a reestruturação das paredes dos três andares, que somadas formavam a fachada principal do edifício, na qual seriam fixadas as placas de cimento.

Infelizmente o projeto artístico não teve desdobramento. Para que a ideia não se perdesse, transpus para a pintura o que seria o núcleo do mural, composto pelas mesmas três figuras: o ovo, a figura feminina e Ícaro - os três estágios do sonho de voar.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Emily Dickinson / 6

Emily Dickinson

O Silêncio é nosso maior temor.
A Voz acena com o Resgate -
Mas o Silêncio é Infinitude.
Sequer tem um rosto.

Tradução de Carlos Dala Stella

J1251 (1873)

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.


Esta a versão italiana de Giuseppe Ierolli

Il Silenzio è tutto ciò che temiamo.
C'è Riscatto in una Voce -
Ma il Silenzio è Infinità.
In sé non ha un volto.

sábado, 2 de janeiro de 2016

brinquedo de morder para Gael






















As madeiras usadas foram: bambu, itaúba e pinho. A itaúba foi um cabo de ancinho, o bambu dos braços era uma pinça para fritar pastel ou peixe, e o pinheiro sobra de uma maquete de escultura.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

domingo, 22 de novembro de 2015

Iberê desenhando

Enquanto uso o telefone, desenho, aqui sobre papel toalha. Esses desenhos espontâneos e inconsequentes tornam suportáveis os call center. Descarregos, como me dizia Poty. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Les vieux fous de dessins



Quanto mais desenha, mais você toca, tateante de cegueira, a superfície do mundo. E vê pela linha, pela mancha negra, o que não via antes. E o que se vê desce até o reino escuro das raízes, e flui com os lençóis d'água, e se mineraliza com as pedras, e se aquece no núcleo quente da terra. Quando desenha, você está dispensado de fazer sentido, você é o sentido, uno e indiviso. E o que resulta disso é uma imensidão silenciosa de amor à vida.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Autorretrato / desenho com cabelo




Pode-se desenhar com praticamente tudo. Desenhar com cabelo, durante o banho, tem sido um exercício de espontaneidade. Mais e mais apreendo o mundo pela linha, pouco importa de que material ela é feita. A linha flexível do fio de cabelo impõe um certo barroquismo caótico à composição, com suas volutas, seus meio-arcos, suas ondulações geometricamente distorcidas. Uma vez apreendidas suas propriedades, o dedo desliza sobre o azulejo molhado, organizando sem nenhuma dificuldade o caos, até que algo se dê. E algo quase sempre se dá.


sábado, 24 de outubro de 2015

para ROBERT AMORIM


ASAS DA INGENUIDADE


aos poucos vou reconectando cabos
refazendo os frisos
substituindo algumas placas de cristal
o amarelo no lugar do cinza
com muito cuidado redesenho as bordas
reviso as articulações

tudo para que o vitral
de minha ingenuidade volte a se abrir
alado, sobre o vale do medo
e me leve em sobrevoo
para as campinas das papoulas
e volte a planar
sobre o deserto dos girassóis 
e eu possa mais uma vez
respirar as correntes ascendentes de ar

carlos dala stella


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

INSOLAÇÃO


O Brasil é um país assassino de sóis. Todos os dias nossa exuberância de sóis é diminuída. Por aqui sóis morrem de bala perdida no primeiro alvorecer, tombam na calçada de casa sem saber por quê; são esfaqueados de bicicleta no parque, na praça, são fuzilados nas escadarias da catedral. Todas as noites dezenas de sóis se apagam na escuridão iluminada das cidades, por atropelamento, por descuido, por prevenção. Melhor afogar os sóis negros antes da futura perversão, antes que eles contaminem o sistema solar. Todas as manhãs, neste país tropical, dezenas de sóis não amanhecem, para tristeza da estrela d'alva, nem nunca amanhecerão senão na memória anônima de um cometa perdido. No Brasil, as estrelas de primeira grandeza convivem pacificamente com as chacinas sistemáticas de sóis. Somos o país da alegria de viver, o país do carnaval, da cordialidade. Podemos desperdiçar sóis sem prejuízo de nossa abundância de luz. Um sol é menos que um centavo, não vale nada. Dois sóis menos ainda. Três, então, apagados de uma única vez, acenderão ainda mais os sóis de plantão. O Brasil investe todos os dias no genocídio de seus sóis, depois vai trabalhar, mais rico de luz, ou vai à praia pra relaxar e ganhar uma cor, com a consciência tranquila, afinal o excesso de sol faz mal a todos e, no limite, mata. Somos o país do futuro e do presente ensolarado. 

carlos dala stella

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

caderno de ateliê 55



Esses diários de ateliê poderiam ser chamados de meus cadernos de gratuidades, tantos os descarregos. Também podem ser vistos como minha espinha dorsal, o cerne de tudo o que faço, tanto volto a eles, registrando os mínimos abalos sísmicos de minha sensibilidade. O ovo da galinha, tantas coisas nascem aqui como para cá voltam. Esses diários carpem as mesmas sementes, redundam nas mesmas covas, chovem a mesma chuva ancestral que venho chovendo há séculos. Por sorte ou cúmulo do azar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Emily Dickinson / 5


821


Longe de Casa, estamos Eles e eu –
Ser um Imigrante
Em uma Metrópole Residencial
É fácil, quase sempre –

Habituar-se a um Céu Estrangeiro
Difícil – senão impossível
Como o Rosto das Crianças
Tanto mais se afastam – mais visível.

 Tradução de Carlos Dala Stella


Away from Home, are They and I -
An Emigrant to be
In a Metropolis of Homes
Is easy, possibly -

The Habit of a Foreign Sky
We - difficult acquire
As Children, who remain in Face
The more their Feet, retire.


Away from home, are they and IAway from home, are they and I 






















Minhas traduções são exercícios de leitura, amparadas sempre que possível por traduções para o italiano e espanhol, além de paráfrases em prosa. A disponibilidade dessas versões agora pela internet torna o processo muito prazeroso, e muito menos trabalhoso do que há pouco tempo. Mesmo assim sempre parto da edição completa que ganhei em 2008 de Cristovão Tezza, pela Little, Brown and Company, editada por Thomas H. Johnson, biógrafo e editor definitivo da escritora.

O poema 821 (segundo a datação Johnson), foi escrito em Cambridge, em abril de 1864, onde Emily Dickinson se recuperava de um problema nos olhos e onde ficaria até novembro. O que me atraiu foi a comparação do céu de onde nascemos com o rosto de uma criança, tanto mais vivo quanto mais ela caminha para longe, por artifício da memória. É fascinante que particularizemos uma porção do céu como mais íntima aos olhos de nossa alma do que o céu de outros lugares.

O céu parece sempre o mesmo, em qualquer lugar do mundo; não para os astrônomos, nem para os poetas. Os poetas moram poeticamente onde moram, o que significa que aquela porção do mundo foi sendo metaforizada por força da escrita, e da multiplicidade de percepções que a alimenta. Emily se habitua com a multidão de uma metrópole, não com seu céu desconhecido. Talvez porque o céu onde nascemos e vivemos boa parte da vida seja o cúmplice silencioso e compreensivo de nossa vocação, de nossa diária dedicação a ela. Nenhum outro céu acolhe tão incondicionalmente nossos olhos - doridos, cheios de júbilo, dúvida, indiferença, cegos de tanto ver.