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quinta-feira, 15 de outubro de 2015
INSOLAÇÃO
O Brasil é um país assassino de sóis. Todos os dias nossa exuberância de sóis é diminuída. Por aqui sóis morrem de bala perdida no primeiro alvorecer, tombam na calçada de casa sem saber por quê; são esfaqueados de bicicleta no parque, na praça, são fuzilados nas escadarias da catedral. Todas as noites dezenas de sóis se apagam na escuridão iluminada das cidades, por atropelamento, por descuido, por prevenção. Melhor afogar os sóis negros antes da futura perversão, antes que eles contaminem o sistema solar. Todas as manhãs, neste país tropical, dezenas de sóis não amanhecem, para tristeza da estrela d'alva, nem nunca amanhecerão senão na memória anônima de um cometa perdido. No Brasil, as estrelas de primeira grandeza convivem pacificamente com as chacinas sistemáticas de sóis. Somos o país da alegria de viver, o país do carnaval, da cordialidade. Podemos desperdiçar sóis sem prejuízo de nossa abundância de luz. Um sol é menos que um centavo, não vale nada. Dois sóis menos ainda. Três, então, apagados de uma única vez, acenderão ainda mais os sóis de plantão. O Brasil investe todos os dias no genocídio de seus sóis, depois vai trabalhar, mais rico de luz, ou vai à praia pra relaxar e ganhar uma cor, com a consciência tranquila, afinal o excesso de sol faz mal a todos e, no limite, mata. Somos o país do futuro e do presente ensolarado.
carlos dala stella
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Desencontro
Nunca falou-se tanto da necessidade de encontro. O teatro, repetem incansavelmente diretores e atores, é um local de encontro, sagrado às vezes, em meio à correria do dia a dia; as redes sociais propiciam encontros fascinantes, embora fluidos em sua frivolidade, impensáveis há alguns anos, e reencontros quase impossíveis com quem se havia perdido o contato; segundo um consenso coletivo informal, os espaços públicos têm que ser tomados mais e mais com grandes movimentos espontâneos, sem motivo evidente senão o próprio encontro; as agências de namoro, os sites, blogs, as igrejas pentecostais, todos querem propiciar algum tipo de encontro.
Mesmo o estado tenta dar conta dessa demanda por encontros, embora na maioria das vezes atue mesmo é como bombeiro. Os telefones, os celulares, o skype, o MSN permitem que se fale com várias pessoas ao mesmo tempo, potencializando os encontros. Parece haver um acordo planetário para que nos encontremos mais e mais, sempre, claro, pautados por plataformas pré-definidas, onde cada clique nos localiza geográfica, econômica e culturalmente, fazendo subir as ações desta ou daquela empresa.
No entanto, quando antes as conversas foram tão truncadas por tanta publicidade, por tantas mensagens, por outro chamado telefônico, por novos e velocíssimos encontros? Nos desencontramos rapidamente com amigos que não víamos há meses no lançamento de um livro, ou em um show; nos desencontramos indo de um palco a outro da virada cultural, entre fragmentos de inexpressão verbal; nos desencontramos na conversa rala e efusiva durante a ponte aérea Rio-São Paulo; nos desencontramos no entrecruzamento dos círculos de amigos, conhecidos, familiares do google +, nos desencontramos nas festas, nos bares, nos cafés, na cama, rapidamente, pele com pele, para voltarmos a mergulhar cada um em seu ritmo desenfreado de doces agonias; e nos desencontramos principalmente nas redes virtuais, reduzidos a um polegar positivo, a uma curtição, a um toque, a um parabéns, a um compartilhamento de nada vezes nada para o galáctico nada.
E culpamos o tempo, reduzindo-nos com docilidade à rala linha do tempo do facebook, onde não cabem as delicadezas da subjetividade, muito menos seus temores, onde não cabem sequer as alegrias sem sentido que nos movem nessa ou naquela direção, gratuitas como a laranja que se colhe do pé, como o miolo do pão ou o toque das línguas no beijo. Culpamos a falta do mesmo tempo que jogamos fora com uma desenvoltura e uma sem-cerimônia que deveria nos espantar, se é que estamos vivos - vivos do eterno espanto de viver.
O que está em curso, nesse caótico emaranhado de fluxos, é uma desagregação violenta. Quando os amigos não têm mais tempo para os melhores amigos, quando o amor não tem mais tempo para se dilatar preguiçosamente no corpo infinito do amado, quando se deixa de dedicar tempo para o aprofundamento dos prazeres que mais nos movem, quando se politiza tudo por razões sociais, da arte até a mais íntima intimidade, são mínimas as chances de nos encontrarmos pra valer.
Como antes e sempre, vivemos nos desencontrando, mas agora por excesso de encontros, ou melhor, pelo excessivo desejo de encontrar, pouco importa quem, onde ou por quanto tempo. Preferimos viver no fluxo vertiginoso dessa cadeia aparentemente infindável de encontros e mais encontros. É fake.
domingo, 3 de julho de 2011
Não procure mais meu coração
1
Mais e mais o amor se consuma como uma relação de troca. Como dar o que já não se tem? o que há muito se perdeu? No lugar da doação, o investimento; do prazer consciente de si, a mecânica do ato fisiológico, a expectativa profissional pelo retorno.
2
Quanto maior a satisfação do ego consigo mesmo, de mais espelhos é feito o amor. E entre os reflexos, quanta frieza se interpõe.
3
O nível de dissolução objetiva da sociedade contemporânea é tão grave que mesmo o impulso erótico não é mais capaz de soldar os amantes. O êxtase deu lugar à performance. Vive-se uma sucessão do mesmo em escala planetária. Nunca a planície da inconsciência esteve tão habitada.
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Mais e mais o amor se consuma como uma relação de troca. Como dar o que já não se tem? o que há muito se perdeu? No lugar da doação, o investimento; do prazer consciente de si, a mecânica do ato fisiológico, a expectativa profissional pelo retorno.
2
Quanto maior a satisfação do ego consigo mesmo, de mais espelhos é feito o amor. E entre os reflexos, quanta frieza se interpõe.
3
O nível de dissolução objetiva da sociedade contemporânea é tão grave que mesmo o impulso erótico não é mais capaz de soldar os amantes. O êxtase deu lugar à performance. Vive-se uma sucessão do mesmo em escala planetária. Nunca a planície da inconsciência esteve tão habitada.
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domingo, 26 de junho de 2011
Da natureza do prazer em rede
O prazer, em rede, é espasmódico e superficial. O simples fato de encontrar os amigos ou seguidores on-line, em tempo real, convidando-os para um evento, ou postando um comentário genérico sobre seja o que for, já é suficiente para criar um estado de euforia que de alguma forma satisfaz o prazer ainda embrionário do encontro.
Essa satisfação se deve, em boa dose, à imediatez da reação do amigo virtual. Reação, não resposta. Porque uma resposta demanda envolvimento e uma série de operações cognitivas que não cabem nesse espaço soldado pela totalidade e cujo sentido está na quantificação. Estamos a quilômetros da qualidade nas relações humanas.
Nada que não tenha sido “resolvido” naquele exato momento de “encontro” será retomado mais tarde, no fluxo “convencional” do tempo. Não é da natureza do encontro virtual estabelecer-se um empenho que se desdobre para depois. Os empenhos, aqui-agora, são fluidos, em poucos segundos serão outros. E mesmo que se estabeleçam, a regra é que eles sejam descumpridos.
O surgimento das redes sociais parece ter alterado a natureza do prazer. Elas trouxeram à tona ingredientes narcisistas que a proximidade física inibia. Com a ausência dos corpos, e a segurança do distante, uma série de mecanismos primários de construção e manipulação da própria identidade vem à tona.
Não há mais risco para o prazer, por isso cada um se compraz na manipulação sem pudor de si mesmo, para um outro cuja fisicalidade e complexidade humana estão fora de alcance. Ele também empenhado na mesma construção solitária, portanto segura de si mesmo. E o prazer espoca aqui e acolá, linha após linha, como fogos de artifício vistos de um avião, no meio da noite.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Sobre os Autorretratos
Lucas, sua pergunta ficou martelando. Acho que não respondi direito, tento ainda uma vez. Você foi tão sincero e direto, obrigado.
Fazer um autorretrato não impõe dificuldade alguma de ordem psicológica. Difícil é desenhar um rosto alheio, os outros têm expectativas que nenhum pintor consegue satisfazer completamente. Nós pintores não temos expectativa alguma. Tomamos nosso rosto como quem desenha um pêssego, uma garrafa, o gradil do portão. É como desenhar um prato com frutas, já disse Cézanne. No final das contas, se estivermos certos, tudo revelará nossa paisagem interior, como demonstraram tão poeticamente os pintores chineses. Se estivermos errados, estaremos errados para nunca mais, para fora do tempo.
Quando nos desenhamos, emprestamos nossas mãos e olhos para que a velha pergunta seja feita ainda uma vez: quem somos, de onde viemos e para onde estamos indo? Qual o sentido disso tudo, dessa sucessão enganosamente infindável de dias e meses e anos? Os autorretratos são nossa resposta, satisfatória apenas no estrito decurso da pintura ou do desenho. Depois, voltamos a não saber nada. Os autorretratos são lacunas em que a pergunta é mais aguda. Nem antes, nem depois ficamos sabendo direito o que fizemos da vida e o que ela fez conosco. Brincamos de brincar, nos melhores momentos.
Mas há um certo prazer obsessivo em retomar dezenas de vezes o próprio rosto. Rembrandt fez mais de 40 autorretratos. No de1665, quatro anos antes de morrer, ele aparece rindo, como quem ri nos estertores do último ato. Esse riso in extremis, de si mesmo e do mundo, atravessa os séculos e nos atinge como uma bomba. Mais veemente do que o sorriso discreto da Mona Lisa, seu enigma só pode ser decifrado no subsolo de nós mesmos, no reino escuro das raízes, bem longe das palavras.
domingo, 22 de maio de 2011
Solidão em Rede
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A solidão resulta cada vez mais de uma vontade individual, que tem de ser tanto mais forte quanto maior o fluxo ininterrupto dos conteúdos e atividades globais, exatamente o contrário do que ocorria num passado não muito distante. As distâncias, o deslocamento moroso, a circulação restrita de livros, a natureza mesma da subsistência, quase tudo nos constrangia à solidão. Era necessário um grande esforço para abrir janelas nessa solidão, para enxergarmos apenas uma parcela ínfima da paisagem humana, que frequentemente parecia habitar regiões recônditas e inalcançáveis.
A solidão resulta cada vez mais de uma vontade individual, que tem de ser tanto mais forte quanto maior o fluxo ininterrupto dos conteúdos e atividades globais, exatamente o contrário do que ocorria num passado não muito distante. As distâncias, o deslocamento moroso, a circulação restrita de livros, a natureza mesma da subsistência, quase tudo nos constrangia à solidão. Era necessário um grande esforço para abrir janelas nessa solidão, para enxergarmos apenas uma parcela ínfima da paisagem humana, que frequentemente parecia habitar regiões recônditas e inalcançáveis.
O que ocorre hoje é o contrário, tudo conspira para a socialização. Há um consenso subentendido de que a solidão é insuportável, de que é preciso mobiliá-la. E há algum tempo a peça principal desse mobiliário são as telas. Começou com o cinema, a TV, até desembocar no computador, no celular, no iPad, no palm top... Se por algum motivo esse sistema de transmissão de dados e imagens entrasse em colapso, o pânico se generalizaria de imediato. O pânico de ter de ficar só consigo mesmo, desconectado do mundo, como se o mundo existisse preponderantemente via tela do computador ou da TV. Quando é evidente que esse tele-mundinho não se compara à riqueza do mundo que nos vai dentro, desde que desejemos e tenhamos a coragem de explorá-lo, ou do mundo que se vê pela janela de casa, more-se em qualquer beco de qualquer cidade do planeta.
Mas parece mesmo que ficar só não exerce mais nenhum atrativo sobre o homem. É patética essa pseudo-solidão conectada, esse desacompanhamento coletivo em rede. Teria a solidão individual sido suplantada pelo espelhamento de si mesma em rede? Seria assim mais fácil suportá-la, menos traumático? Fugindo da solidão individual estaríamos constituindo uma tele-solidão coletiva, alimentada pelo fluxo ininterrupto de eventos que nos chegam como realidade meramente virtual?
Várias vezes penso que esse desejo de assistir ao mundo, de saber tudo o que está acontecendo em todos os lugares, de divulgar aos quatro ventos o evento que promovemos ou de que participamos, de possuir mais e mais amigos virtuais, não é senão a reedição rebaixada do velho desejo de voar que tínhamos quando criança, esse desejo de ver tudo e todos simultaneamente, lá embaixo, de abraçar o mundo com os olhos. Nossa eterna ânsia de absoluto. Ingênua então, mas fecunda, enquanto que a ânsia de agora não parece senão um pálido reflexo daquela, pobre e condenada quase sempre ao circuito fechado do mundo virtual.
sábado, 7 de maio de 2011
A Ditadura do Social
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Só são levados em consideração, hoje, os conteúdos socialmente constituídos, ou seja, formulados de prévio acordo com a sociedade. O indivíduo mesmo, por mais emancipado que seja, só se torna visível a partir do momento em que passa a fazer parte da imensa rede social, formatada mais e mais pela internet.
Não contribuir com a exploração pública de sua identidade pela rede significa descender ao submundo da invisibilidade, vala comum também ela prevista, ainda que a contragosto, por esse novo complexo social. Mas se antes a invisibilidade afetava o sujeito, cuja imagem de alguma forma tinha sido constituída e negada pelo círculo social, por mais estreito que este fosse, agora ela afeta a sombra futura desse sujeito. Mas paradoxalmente afeta também aquele que provavelmente nunca chegará a sê-lo, embora poste todos os dias no facebook, no twitter, no blog...
O socorro da margem não existe mais, assim como a condenação ao reino escuro das idiossincrasias, relegados ao jurássico século XX. Tudo pretende estar previsto no quadro formatado pelos gestores das redes, não só o que é, mas especialmente aquilo que está por vir.
Pobre de nós, condenados às miríades do presente, herdeiros de um passado de que sentimos falta, nós que temos pudor, que zelamos pela individualidade, mesmo que nos digam que ela não vale grande coisa, que não sabemos o que fazer dela a maior parte do tempo, e que estamos bem assim, mesmo que estejamos mal. Pobre de nós que não queremos fazer parte de nenhum conglomerado, de nenhuma associação, aqueles que não se conformam às redes, às cercas, às grades. Aqueles para quem a economia nunca é criativa e o intangível existe desde sempre, como o ar que respiramos. Pobre de nós que preferimos os amigos mortos aos amigos virtuais, que vivemos de encontros e desencontros presenciais, nós para quem o vento no rosto é o paraíso, ou um temporal se armando.
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Só são levados em consideração, hoje, os conteúdos socialmente constituídos, ou seja, formulados de prévio acordo com a sociedade. O indivíduo mesmo, por mais emancipado que seja, só se torna visível a partir do momento em que passa a fazer parte da imensa rede social, formatada mais e mais pela internet.
Não contribuir com a exploração pública de sua identidade pela rede significa descender ao submundo da invisibilidade, vala comum também ela prevista, ainda que a contragosto, por esse novo complexo social. Mas se antes a invisibilidade afetava o sujeito, cuja imagem de alguma forma tinha sido constituída e negada pelo círculo social, por mais estreito que este fosse, agora ela afeta a sombra futura desse sujeito. Mas paradoxalmente afeta também aquele que provavelmente nunca chegará a sê-lo, embora poste todos os dias no facebook, no twitter, no blog...
O socorro da margem não existe mais, assim como a condenação ao reino escuro das idiossincrasias, relegados ao jurássico século XX. Tudo pretende estar previsto no quadro formatado pelos gestores das redes, não só o que é, mas especialmente aquilo que está por vir.
Pobre de nós, condenados às miríades do presente, herdeiros de um passado de que sentimos falta, nós que temos pudor, que zelamos pela individualidade, mesmo que nos digam que ela não vale grande coisa, que não sabemos o que fazer dela a maior parte do tempo, e que estamos bem assim, mesmo que estejamos mal. Pobre de nós que não queremos fazer parte de nenhum conglomerado, de nenhuma associação, aqueles que não se conformam às redes, às cercas, às grades. Aqueles para quem a economia nunca é criativa e o intangível existe desde sempre, como o ar que respiramos. Pobre de nós que preferimos os amigos mortos aos amigos virtuais, que vivemos de encontros e desencontros presenciais, nós para quem o vento no rosto é o paraíso, ou um temporal se armando.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
Sobre o fim das distâncias e a delicadeza
O encurtamento drástico da distância começou com o automóvel, os trens e os aviões, até chegar à sua completa abolição com a internet e as redes sociais. Paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes uns dos outros, nunca a delicadeza mascarou tantos fins.
O que liga duas pessoas são os meandros, as volutas, a sinuosidade da curva, nunca a linha reta. A linha reta abole a distância entre dois pontos, não entre duas pessoas. E a delicadeza vem de graça, dá flores mesmo quando não dá nada.
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O que liga duas pessoas são os meandros, as volutas, a sinuosidade da curva, nunca a linha reta. A linha reta abole a distância entre dois pontos, não entre duas pessoas. E a delicadeza vem de graça, dá flores mesmo quando não dá nada.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011
O trânsito das relações
Não sei se desfoco quando vejo, é possível, mas o que vejo de todos os lados são relações insatisfeitas, relações que só se veem como bem-sucedidas quando se desdobram em outras relações, como se o amor já não fosse suficiente. O que importa, hoje, é transitar entre as relações, fazendo com que uma desemboque em outra, e esta em outra ainda e assim sucessivamente.
O estado eufórico desse trânsito parece estar substituindo o amor. Não há mais tempo para um sentimento que exige tanta dedicação e cuidado com o mesmo, com o único. A diversidade parece tão mais excitante, a mídia toda repete esse mote. Engenhosamente inventamos todos os dias novas razões para adiar o amor, comprazidos que estamos nessa avalanche de relações turvas, chegando mesmo a explorar matizes cada vez mais sutis da infidelidade - ao outro e a nós mesmos.
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O estado eufórico desse trânsito parece estar substituindo o amor. Não há mais tempo para um sentimento que exige tanta dedicação e cuidado com o mesmo, com o único. A diversidade parece tão mais excitante, a mídia toda repete esse mote. Engenhosamente inventamos todos os dias novas razões para adiar o amor, comprazidos que estamos nessa avalanche de relações turvas, chegando mesmo a explorar matizes cada vez mais sutis da infidelidade - ao outro e a nós mesmos.
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quarta-feira, 27 de abril de 2011
O elogio da ignorância inteirada
Mais do que nunca, a ordem do dia é consumir tudo em todas as direções, insaciavelmente e sem outro critério que não seja a novidade, o lançamento. Consumir e descartar. Isso vale para roupas, filmes, livros, música, roteiros de viagem...
O que espanta é a abundância não só dessa fome insaciável, como daquilo que compõe o cardápio: o sempre renovado velho kitsch, a mesma gama colorida de lugares comuns, o mesmo circo pop, armado na ante-sala da reflexão.
O resultado é o elogio - em tempo cada vez mais próximo do real - da ignorância inteirada, proclamado como um mantra, nas telas de tevê, de cinema, dos computadores, dos celulares, palm tops, ipads...
O que espanta é a abundância não só dessa fome insaciável, como daquilo que compõe o cardápio: o sempre renovado velho kitsch, a mesma gama colorida de lugares comuns, o mesmo circo pop, armado na ante-sala da reflexão.
O resultado é o elogio - em tempo cada vez mais próximo do real - da ignorância inteirada, proclamado como um mantra, nas telas de tevê, de cinema, dos computadores, dos celulares, palm tops, ipads...
terça-feira, 26 de abril de 2011
espanto 2
O que espanta é o conforto com a distância, ainda que virtualmente encurtada, a pobreza dessa solidão conectada em rede e a inconsciência da temporalidade. Parece que a pele não é mais necessária - muito menos o toque - nem faz mais sentido temer a morte.
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segunda-feira, 25 de abril de 2011
Estupidez e oportunismo
Se as ações exageradamente calculadas sempre têm algo de estúpido, imagine-se hoje o mar de estupidez de tantos projetos culturais minuciosa e matematicamente planejados, seguindo tão servilmente as estratégias prescritas, seja pelos editais de cultura das empresas, seja pelas leis de incentivo.
Cada vez mais os produtos culturais nascem de um oportunismo, da possibilidade de serem patrocinados e não de uma necessidade premente - que dificilmente se enquadra num regulamento e satisfaz a ânsia, legítima embora quase sempre simplória, da contrapartida social.
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Cada vez mais os produtos culturais nascem de um oportunismo, da possibilidade de serem patrocinados e não de uma necessidade premente - que dificilmente se enquadra num regulamento e satisfaz a ânsia, legítima embora quase sempre simplória, da contrapartida social.
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sábado, 23 de abril de 2011
O negócio da vida privada
Toda vez que leio ou ouço algo sobre as redes sociais, não consigo deixar de pensar que elas representam um passo decisivo na transformação da vida íntima num negócio, o negócio da vida privada. E que a paga desse negócio custa os olhos da alma.
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domingo, 20 de março de 2011
Redes Sociais
A hesitação, a ponderação e a delicadeza é que nos tornam mais humanos, não a redução vertiginosa das distâncias graças à tecnificação. A proximidade virtual, através da internet e das redes sociais, mais afasta do que une, porque reforça nossa interioridade, como se ela não fosse feita de fraturas, ao invés de expô-la à intempérie e ao amor do outro - o outro feito de carne, ossos e sonhos.
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domingo, 20 de fevereiro de 2011
espanto 1
O que espanta não é a voragem de consumo, que vai da base ao topo da pirâmide social brasileira; o que espanta é essa classe média esclarecida cada vez mais furiosamente ativa, esquecida, parece, da imensa capacidade subjetiva de felicidade de que somos capazes. Quem garante que produzir contínua e furiosamente, seja o que for, conduz à liberdade – sem a qual felicidade alguma pode ser alcançada?
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