quinta-feira, 24 de março de 2011

Óscar Hahn 2

Traduzo aqui mais 1 poema do chileno Óscar Hahn, dando continuidade ao que inciei na postagem de 15 de março. Ao que eu saiba, nenhum de seus livros foi ainda traduzido para o português. Arte Poética fecha o livro Apariciones profanas (2002-2005). Para quem tiver curiosidade, esse link dá acesso ao livro completo.
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ARTE POÉTICA

A puta que pariu da minha poesia
a frígida a virgem a tesuda
que me transforma num chifrudo
e fecha as pernas com teimosia

A que me nega o que eu queria:
a flor de sua beleza irreverente
sua corola que lateja noite e dia
afogueada em orvalho ardente

A que me engana com um ladino
com Rilke com Pessoa com Vallejo
a que joga nos astros meu destino

A que no espelho me maquia
a beata a agnóstica a sacrílega
a puta que pariu da minha poesia


ARTE POÉTICA


La puta madre de mi poesía
la frígida la virgen la caliente
la que me pone cuernos en la frente
la que aprieta los muslos a porfía

y no me suelta lo que yo querría:
la flor de su hermosura irreverente
su corola que late noche y día
envuelta en llamas y en rocío ardiente

La que me engaña con cualquier vecino
con Rilke con Pessoa con Vallejo
la que traza en los astros mi destino

La beata la agnóstica la impía
la que pinta mis labios en su espejo
la puta madre de mi poesía


tradução: Carlos Dala Stella
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quarta-feira, 23 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Figura japonesa com pinheiros

(clique na imagem para ampliá-la)
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figura japonesa com pinheiros
cimento branco estrutural
100x50cm
R$ 3.200,00
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rio abaixo

r.

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em meio à correnteza

murmurantes florações de pedra

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nó de raízes na barranca

a ponta dos dedos n’água

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chifres lunares afloram à superfície

uma manada atravessa o vau

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no céu uma garça branca

gibóia no galho da secóia

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entre peixes e seixos

a líquida membrana do sol

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silêncio no topo do arvoredo

a elocução do remo rio abaixo

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do livro O caçador de vaga-lumes (1998)


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domingo, 20 de março de 2011

Abajur, da série Sombras



Nas Nuvens, da série Sombras

(clique na imagem para ampliá-la)
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Redes Sociais


A hesitação, a ponderação e a delicadeza é que nos tornam mais humanos, não a redução vertiginosa das distâncias graças à tecnificação. A proximidade virtual, através da internet e das redes sociais, mais afasta do que une, porque reforça nossa interioridade, como se ela não fosse feita de fraturas, ao invés de expô-la à intempérie e ao amor do outro - o outro feito de carne, ossos e sonhos.

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quarta-feira, 16 de março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

Óscar Hahn

Passei os primeiros dias do ano no Chile, com minha namorada. Na livraria Qué Leo, de Santiago, na sessão de poesia, topei com Óscar Hahn, poeta chileno nascido em 1938, em Iquique. Hesitei, o preço era salgado. Mas acabei trazendo o Archivo expiatorio, Poesías completas (1961-2009).
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Ainda entre as prateleiras, de pé, folheando o livro, procurava ouvir com atenção o que aquela voz me soprava. Tenho uma dificuldade enorme em ler poesia em lugar público, frequentemente não entendo nada. Mas alguns fragmentos me diziam que ali havia uma mina d'água.
.e
Só mais tarde, em casa, no silêncio das madrugadas, compreendi a dimensão do poeta que me fisgara na livraria. Em tudo oposto a Neruda: conciso, reflexivo, muitas vezes sobrenatural ou surrealista, nunca grandiloquente, verdadeiro como uma pequena concha, trazida pelo mar aberto. Não um falso Midas, mas Sísifo como todos nós.
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Traduzo aqui, como exercício, um de seus poemas, retirado do livro Apariciones Profanas (2002-2005).
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Violino
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Essa árvore
guarda dentro um violino
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Não esculpido ainda, mas nela contido
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A espera do dia da ressurreição
dentro da árvore
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Disse o senhor Stradivarius:
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Preciso salvar esse violino
tirar a casca que o aprisiona
e deixá-lo respirar ao ar livre
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Quero ouvi-lo cantar para mim
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Esse violino
guarda dentro uma árvore
guarda flores que ouvem a música suave
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e guarda passarinhos
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Violín
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Ese árbol
tiene um violín adentro
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No fue tallado aún pero está adentro
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Espera el día de la resurrección
árbol adentro
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Dijo el señor Stradivarius:
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Tengo que rescatar a ese violín
tengo que quitarle la corteza que lo aprisiona
y verlo respirar al aire libre
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Tengo que oírlo cantar para mí
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Ese violín
tiene um árbol adentro
tiene flores que escuchan la música callada
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Tiene pájaros
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sábado, 12 de março de 2011

A casa ao pé do penhasco


O bom de morar entre as pedras, quando chove, é sentir o vapor mineral que sobe depois dos primeiros pingos e desaparece quando as rochas estão completamente molhadas.

O barulho da chuva consola. Mas é triste ver os pingos explodindo nas pedras e a água escorrendo pelos veios vermelhos, tão longe da terra.


Tao-chi (1641-1717): A Man in a House beneath a Cliff

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A única música que se ouve é o vento, mas nessa época do ano ele apenas sussurra durante o dia e se cala à noite. Nem parece o vento cortante do inverno, que assobia semanas a fio, limando os nervos.

Às vezes grito palavrões, de pé na varanda. Ninguém responde. Um desconhecido que errasse por esses lados na certa ia espalhar que um louco mora no pé do penhasco. Um outro, ouvindo contar essa história, acrescentaria que há muitos anos um homem abandonara seu filho no alto de um penhasco, afogara a mulher e fugira para os braços da amante, na cidade vizinha. Outro ainda ajuntaria que o menino crescera falando com as pedras. E que, fato inédito, as pedras não só compreendiam o que ele dizia, como o consolavam com palavras de afeto.
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***.

Nos fundos da casa de meus pais, caminhando descalço sobre as pedras do pequeno rio, descobri ainda menino como os pés dependem dos olhos.

Embora eu conseguisse chegar antes que meus irmãos na outra margem, pulando sobre as pedras, demorei muito até aprender a manter o equilíbrio numa única perna, com os olhos fechados, sobre uma pedra escolhida ao acaso. Eu acreditava que para manter o equilíbrio era preciso esquecer os gritos, assim como o barulho da água.

Quantas vezes não fiquei de pé, depois que vim morar aqui, os olhos fechados, uma perna dobrada, sobre essas pedras cor-de-rosas, ridículo e imóvel. Os ouvidos bem abertos, para que o silêncio passasse por mim como o vento pelos cômodos abertos de minha casa.
***
Ontem, tinha apenas escurecido, eu estava deitado sem fazer nada, flutuando entre fragmentos de idéias, desejos, lembranças. Uma cigarra continuava cantando apesar do sol ter se posto há pelo menos uma hora. Dormi profundamente, embora não costume dormir tão cedo. Sonhei com uma mulher que gritava do meio das pedras para a casa:

- O penhasco começa ou termina aqui?
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Subitamente confuso, sem conseguir resolver essa equação que me parecia um enigma terrível, não tive discernimento senão para dizer algumas bobagens como é preciso subir muito ainda até o topo, ou muitos já passaram por aqui, alguns nunca voltaram.

A mulher, visivelmente desapontada, virou as costas e desapareceu atrás de uma rocha mais alta. No resto do sonho, essa espécie de eternidade que todos conhecemos, eu fazia cálculos e mais cálculos debruçado sobre uma folha tão grande como um mapa, mas não conseguia chegar a um resultado convincente. Até que rascunhei dois versos no meio daquele universo caótico de traços e números. E tive certeza de ter encontrado a chave.
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Acordado, no meio da noite escura, os dois versos ainda estavam frescos na memória, os mesmos dois versos que agora, à luz do dia, ditos em voz alta, não significam nada.

***
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Todas as manhãs estendo essa tira preta de papel à minha frente e penso: eis a morte. Assim, sobre o assoalho, o preto parece a delimitação de um espaço a ser preenchido. Nada mais enganoso. Resisto como posso à tentação de espalmar as mãos sobre ele. Seria belo, eu sei, colocar sobre suas extremidades algumas dessas pedras espalhadas pela casa, de diferentes formas e tamanhos. Ou escrever uma única palavra, qualquer uma, sobre sua superfície aveludada, pressionando as fibras contra as tábuas do chão. Belo, talvez, mas falso.

Depois de algum tempo torno a enrolar a tira preta, com cuidado para não deixar nenhuma marca no papel, e guardo o rolo dentro de um vaso de boca estreita, sobre a mesa.

Nunca me ocorreu enfeitar o vaso com uma flor, até a primavera do ano passado, quando milhares de florzinhas silvestres desabrocharam nas frinchas do penhasco. O rolo negro, então, deu lugar por alguns dias ao amarelo, ao branco e ao lilás aquarelados dessas espécies vulgares que parecem brotar das pedras e que não vivem mais do que um par de dias.

***

Há pedras tão moles e farelentas que lembram o talco. Outras mais duras do que o ferro. A unidade absoluta de ambas, porém, não esconde sua natureza composta. Foi mais ou menos isso que meu professor de ciências escreveu no quadro há mais de trinta anos, numa de suas primeiras aulas, nos obrigando a copiar em silêncio, como se por trás daquelas palavras houvesse um significado oculto, que ele naturalmente conhecia e ao qual nunca teríamos acesso.
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Aquele platô à nossa esquerda, logo abaixo - ele na certa acrescentaria, caso estivesse aqui - por mais coeso que pareça é a soma de milhões de fragmentos. O segredo das pedras está em dar integridade à dispersão...
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Mas é bem capaz daquele desgraçado já ter morrido e eu estar evocando um fantasma.

***

Você está vendo aquela pedra maior, depois do caminho, ao lado de outras duas que parecem monges? Alguém que nos olhasse trepado nela, além da casa, devorada pelo paredão de pedra, veria montanhas íngremes ao fundo, e à direita o vazio.

Várias vezes apoiei os pés na espinha dorsal daquela pedra, as vértebras irregulares descendo de ambos os lados, como as costas de um animal pre-histórico. Pois ouça bem o que vou lhe dizer, minha sombra. Caso eu saltasse para o vazio, nós nos separaríamos por alguns instantes, mas seríamos obrigados a nos reencontrar pela última vez, lá embaixo. Portanto, não me tente com esse seu debruçar-se para o desfiladeiro.

***

A pedra calcária incrustada no dorso desta gigantesca pedra ferro parece um lírio. Macia ao toque da mão, tê-la como parte de uma ameaça constante sobre o telhado não me assusta.

Nas noites em que o silêncio é absoluto e o medo de morrer sozinho morde meus ossos, é no branco leitoso dessa pedra-flor que procuro descanso. Como um cego, tateio no escuro até o extremo da varanda. Esticando o braço para fora, toco a pedra fria. Então subo com a mão até sentir a maciez da cal na ponta dos dedos.

O súbito contraste entre a dureza da pedra e aquele reduto de fragilidade me devolve a calma. O silêncio volta a emitir seus resmungos de costume e o medo, o medo finge que dorme, sob as pilastras da casa.

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Esta manhã, mal abri os olhos, uma alegria súbita me arrancou da cama. Como se tivesse sido esfaqueado, o golpe me devolveu de uma só vez todas as alegrias da infância e os desejos da maturidade.

Corri para fora de casa e comecei a escalar o penhasco pela encosta leste, parcialmente iluminada pelo sol. A umidade do orvalho noturno, sobre as rochas, gelava a sola dos pés. Uma brisa suave, à medida que subia, refrescava os olhos. Mas esse frescor só fazia despertar ainda mais meus sentidos.

Na metade da subida, pouco antes das duas pedras gêmeas, o calor tênue nas costas, me virei de frente para o sol. Com os olhos semi-abertos, contra a horizontalidade dos raios, pude ver a encosta deste e a dos outros penhascos se encontrando lá embaixo, no vale ainda coberto ...

No final da manhã cheguei ao topo. Minha sombra não era mais do que uma mancha irregular ao redor dos pés. Tirei a roupa e, nu, abri os braços, girando ao redor de mim mesmo, à medida que gritava, lentamente, alguns nomes que me eram caros. Embora o vento se encarregasse de dissipá-los, eu acrescentava outro e outro ainda, riscando com minha voz o silêncio do meio-dia.

- Francisco, Lisa, Lurdes, Antônio, Maria, Augusto, Ângelo, Dolores, Lúcia, Matias, Laura, Gabriel...

De todos os lados, incluído o vazio do precipício, a natureza continuava indiferente. Mas essa indiferença era combustível para minha alegria.

Publicado na Gazeta do Povo em 1999

sexta-feira, 11 de março de 2011

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Leio cada vez menos

cada vez mais devagar.

Leio como caminho,

lentamente.

Uma larva atravessando a floresta negra das letras

na intimidade úmida da terra.

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do livro O gato sem nome

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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Seis copos de leite perfumam o ateliê à noite

(clique na imagem para ampliá-la)
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Seis copos de leite perfumam o ateliê à noite
acrílica sobre tela
182x112cm
R$ 4.100,00

domingo, 20 de fevereiro de 2011

espanto 1

O que espanta não é a voragem de consumo, que vai da base ao topo da pirâmide social brasileira; o que espanta é essa classe média esclarecida cada vez mais furiosamente ativa, esquecida, parece, da imensa capacidade subjetiva de felicidade de que somos capazes. Quem garante que produzir contínua e furiosamente, seja o que for, conduz à liberdade – sem a qual felicidade alguma pode ser alcançada?

Trepa-trepa, da série sombras




























sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

inveja da ameixeira

O beija-flor fez seu ninho

sobre a folha da ameixeira.

A folha nasce diretamente do tronco

que não tem mais de um metro de altura

e nenhum galho ainda.

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Do ateliê vejo o ninho de algodão

o branco pontuando o verde do mato.

No côncavo, dois ovinhos de pedra – disse o menino

polidas uma na outra.

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Por que tão baixo, tão perto do chão?

Por que tão à vista dos sagüis e do cão?

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Mas quem sou eu para questionar

a sabedoria do beija-flor

– tão mais leve e delicada do que podemos supor.

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Sinto é inveja da ameixeira,

tão novinha ainda, pouco mais que um broto

mesmo assim a escolhida

no bosque de araucárias e bambus.

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inédito

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Casal Enamorado

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Casal enamorado à sombra de uma árvore
óleo sobre tela
140x210cm
R$ 7.200,00

Pinto cada vez mais devagar. Foram 4 meses trabalhando nessa tela, sem falar nos esboços, de setembro do ano passado. Mas não tenho pressa. O mundo que corra, que cumpra seus compromissos. Eu martelo sempre a mesma pergunta, sem resposta. Martelo com o instrumento que estiver à mão: lápis, pincel, arame, diafragma... em silêncio, porque o barulho não adianta nada. Nunca antes o barulho e a pressa andaram tão juntos, nunca o silêncio custou tão caro. Mas nós, os devorados pelo tempo, nós vamos devagar, sussurramos uns com os outros e temos a eternidade pela frente.
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

+ 2 grafites do Chile


(clique nas imagens para ampliá-las)
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Essas câmeras pequenas de alta resolução são uma maravilha, você saca e atira, saca e atira, e ninguém vê nada, assim hiperdiscretamente é possível roubar o que o olho da alma apenas pressente, de esguelha, sem mesmo que os outros dois olhos vejam de fato, e é bom que seja assim, entre plumas, entrelinhas, cego de ver objetividades, que se impõem tanto via publicidade, tevê, moda, lataria de automóveis, lugares comuns, redes sociais, melhor que seja assim, câmera-arma de brinquedo, sem pose, sem desejo de posse, sem sobriedade, melhor só a nuvem do desejo disparando o que antes foi diafragma, sem projeto, sem contrapartida social, qual a contrapartida social de um poema, de um beijo? qual o público alvo de um suspiro? pra que lei de incentivo para o gozo? essas câmeras compactas são uma maravilha de inexistência, você saca e atira, abstraída a mira, saca e atira no corpo do belo tangível, translúcido de sombras, e só um louco de olhos bem abertos veria nele o intangível.
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

beijo no museu


Esses desenhos, fiz centenas deles, sempre com nanquim. Mas nessa hora da noite, com esse silêncio úmido de chuva, depois de tanto tempo, que sentido eles fazem? Fiquei cego para o que não seja a epiderme de algodão do papel, o cheiro do nanquim entrando pelas narinas. E, com os olhos fechados, não compreendo mais nada, embora descanse, tranquilo, bastante tranquilo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

sobre o sentido

O sentido está sempre incompleto. A arte cria a ilusão de que ele se dá em bloco, mas na verdade - que não há para além do relativo provisório - a verdade não passa de um fragmento em permanente mutação. Uma chispa do que nos move de um ponto a outro, indefinidamente. O sentido, mesmo quando nos atinge subitamente, não vale mais do que um aceno, ou a mínima fração desse silêncio raso, onde se reflete um mar de idiotia.
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alegria alegria

E olho admirado esse mar de bostas cheios de si, transbordantes de satisfação estéril, cheios até o ladrão dessa alegria viscosa que vaza de seus olhos imbecis. E me pergunto como podem?
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

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CASAL ENAMORADO

(homem flauta e mulher alaúde)

vidro jateado e óleo sobre tela

88x88cm

R$ 4.100,00

(com moldura)

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O cimento e o vidro andam juntos na arquitetura desde o modernismo, com a invenção do concreto armado. Mas não nas artes plásticas. A durabilidade do cimento, com suas qualidades estruturais, quase sempre se sobrepõe à fragilidade do vidro. A consequência é essa cisão de dois materiais tão estreitamente aparentados.

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Provavelmente isso se deva, ainda que não exclusivamente, às características intrínsecas do vidro, como a transparência e a fragilidade. É como se preferíssemos empregá-lo nos vitrais a fazer dele outros usos. Soldar uma peça de cimento numa placa de vidro impõe uma série de dificuldades técnicas não resolvida pela arquitetura, embora os materiais desenvolvidos pela construção civil possam ser usados para isso. Dilatação, flexibilidade e tensão estrutural são três dessas dificuldades.

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Mas mesmo o uso do vidro jateado, essa modalidade menos artesanal da gravura, vai pouco além da mera função decorativa. É como se o olhar sobre esse material fosse quase sempre conservador. Longe ou próximo do uso que dele sempre se fez, há uma dificuldade enorme em aliá-lo a outros materiais, especialmente ao cimento, mas também ao desenho, à tela, à colagem.

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Meio que ao acaso, munido de uma enorme curiosidade, foi essa costura que me ocorreu, incialmente com três painéis de cimento e vidro, que chamei de grafismos, inspirados numa série de abstrações quase caligráficas, feitas com nanquim. Três paineis surgidos de um sonho. Só depois é que empreguei simultaneamente vidro jateado, cimento e tela. Até chegar, fazendo o caminho de volta, ao vidro jateado e colagem, ou vidro jateado e desenho. Há um mundo a explorar aí.

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Esse casal enamorado acima, jateado no vidro, nasceu há anos. A tela preta que aparece por trás está montada a 8 cm do vidro, formando uma pequena caixa. Dois outros vidros foram jateados antes, retangulares, com as figuras separadas. E instalados na casa de um casal de clientes, como pequenas janelas. Entre ambos, a tela de um de meus Ícaros, em cujo corpo inscrevi parte do poema A Torre, de W. B. Yeats. .

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Esse diálogo em camadas, separadas por um vazio, ele não é novidade. Intuíam isso os gravuristas chineses, trabalhando em matrizes novas para cada cor. Embora o resultado da impressão compactasse cada um dos fragmentos do desenho, feitos em tacos separados, dando-lhes unidade, sempre pressenti entre essas camadas, lâminas de vazio. Meu coração gosta de pensar que é nesses vazios que gravitam os sentidos.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Nona Isa










(clique nas imagens para ampliá-las)



Ayde, aí vão as imagens de minha nona que prometi, pelo menos algumas delas. A escultura e o desenho em azul de meio corpo (um cartão postal que enviei a meu pai) fiz em Monselice, Pádova, em 1987, os outros no ano seguinte, em Santa Felicidade. Tenho até hoje uma forma em isopor de minha nona Isa, que não cheguei a fundir. O último desenho é um estudo para esse painel de cimento que nunca concluí.

Lembro dos losangos de um vestido azul que ela usava e que tentei reproduzir. Lembro principalmente de suas mãos, de um certo jeito de pousar uma sobre a outra, os dedos em vírgula, descansando de ter cortado lenha, trabalhado na horta, alimentado as galinhas... Lembro e lembrando vejo... Nós dois sentados num tronco, entre as árvores, depenando passarinhos, as penas esvoaçando ao súbito vento, no ar fresco da manhã...

.A esculturinha não tem mais do que sete centímetros. Fiz durante uma exposição em Pádova. O dono da galeria me deu uma massa epoxi, chamada DAS, se não me engano, enquanto eu conversava com algum convidado. Peguei uma tampa de caneta bic e comecei a brincar, quase esquecido do que fazia. Ao final da conversa, o susto. Era minha avó, que havia morrido seis dias antes de minha viagem. Quem fez essa esculturinha, que nunca mostrei, foram as mãos de minha memória, auxiliadas por estas com que escrevo agora.

Anos depois, fui limpá-la do pó acumulado no ateliê. Não lembro com o que umideci o pano, se álcool, algum solvente ou água mesmo. Mas lembro que as linhas das comissuras da boca, da testa, do pescoço começaram a sumir. Fiquei desesperado, tentanto interromper o processo. O resultado é esse que você vê numa das fotos, uma série de microfios apareceu não sei de onde. E, ao contrário do que eu temia, a superfície do epoxi se assemelhou à pele de um velho. Novo susto. O de que o imprevisto é um remédio ao qual não deveria me negar nunca.

Quem sabe um dia eu ainda não funda o painel de cimento que hoje é apenas uma placa branca de isopor? Não tenho pressa. Seria como apressar o crescimento de um pé de araçá, ou o amadurecimento de um cacho de bananas. Bananas de estufa não cheiram bem sequer quando apodrecem.

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alugo Palavras

(clique na capa para ampliá-la)
Dos sete desenhos para o livro Alugo Palavras, de Miguel Sanchces Neto, este foi para a capa. Usei bico de pena e pincel japonês, além de caneta branca. Ele ilustra/interpreta 0 poema da página 67, que transcrevo aqui:
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UM RETRATO
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Teve o poeta
que atolar suas raízes
nas profundezas da terra
árida da poesia
e podar seus galhos
mais verdes
sorver a umidade pouca
penhorar as folhas ao outono
e concentrar sua força
para segurar
um fruto mirrado
no ramo inatingível.
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Miguel Sanches Neto
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Alfredo Volpi

(clique no desenho para ampliá-lo)
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Trago pra cá mais um desenho da série Retratos. Fiz esse Volpi em 1989, mas o original se perdeu, ou anda por aí, onde não sei. Fotografei uma fotocópia guardada numa caixa de desenhos antigos. Sob os olhos, no original, as bandeirinhas eram coloridas. Usei nanquim, com bico de pena.

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

1ª EXPO DE ATELIÊ

(clique no flyer para ampliá-lo)

Convido amigos, clientes e público de um modo geral para minha primeira EXPOSIÇÃO DE ATELIÊ em Curitiba. Em 2001 fiz o mesmo em Montreal e fiquei encantado com o resultado, com os encontros, com as trocas. Abro as portas do ateliê em pleno funcionamento, lá estão as telas em andamento, os esboços, os projetos e as obras acabadas, em vidro, cimento, óleo, acrílica... a maioria destas com 30% de desconto.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

piano

(clique na imagem para ampliá-la)
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Este é um dos quase 20 estudos de piano para um painel de cimento e vidro sobre o mesmo tema, encomenda de Robert Amorim. O painel e os estudos serão expostos na inauguração do Piano Radamés Gnattali, na sala Gebran Sabbag, no Beto Batata do alto da XV, no início de janeiro.
Este trabalho foi feito feito com óleo sobre mdf, mais colagem com fotografias de minha série Variações Negras, nanquim preto e vermelho e lápis de cor. Cada vez mais misturo óleo e materiais gráficos, mesmo em telas de grande formato.
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Com esses desenhos e telas dou continuidade à minha série de trabalhos sobre instrumentos musicais. Cada instrumento é tema de dezenas de variações. Ela foi me ocorrendo aos poucos, especialmente depois que instalei um enorme painel de vidro e cimento em uma residência da cidade, em 2005, incluídos alguns jatos de areia sobre vidro. No futuro, gostaria de reunir esses conjuntos em um livro, inicialmente dedicado a instrumentos de corda.