sexta-feira, 29 de abril de 2011
Francis Bacon
Francis Bacon corta quando pinta, mas corta ainda mais quando fala. Como uma faca de açougueiro superafiada, ele corta a realidade, separa o que lhe interessa, nem um naco a mais, e expõem sem hesitação sobre a mesa o que pensa, com uma brusquidão fatual de quem se rende à verdade da carne, recém dessossada aos olhos do interlocutor. Seu olhar de viés aguça ainda mais o fio da lâmina, tanto mais verdadeira quanto mais impiedosa. Mas sua violência é a violência de boa parte do mundo. Se não nos consola, nem ele desejaria isso, ela nos mantém vivos, dolorosamente vivos.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011
O trânsito das relações
O estado eufórico desse trânsito parece estar substituindo o amor. Não há mais tempo para um sentimento que exige tanta dedicação e cuidado com o mesmo, com o único. A diversidade parece tão mais excitante, a mídia toda repete esse mote. Engenhosamente inventamos todos os dias novas razões para adiar o amor, comprazidos que estamos nessa avalanche de relações turvas, chegando mesmo a explorar matizes cada vez mais sutis da infidelidade - ao outro e a nós mesmos.
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quarta-feira, 27 de abril de 2011
O elogio da ignorância inteirada
O que espanta é a abundância não só dessa fome insaciável, como daquilo que compõe o cardápio: o sempre renovado velho kitsch, a mesma gama colorida de lugares comuns, o mesmo circo pop, armado na ante-sala da reflexão.
O resultado é o elogio - em tempo cada vez mais próximo do real - da ignorância inteirada, proclamado como um mantra, nas telas de tevê, de cinema, dos computadores, dos celulares, palm tops, ipads...
terça-feira, 26 de abril de 2011
espanto 2
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segunda-feira, 25 de abril de 2011
Estupidez e oportunismo
Cada vez mais os produtos culturais nascem de um oportunismo, da possibilidade de serem patrocinados e não de uma necessidade premente - que dificilmente se enquadra num regulamento e satisfaz a ânsia, legítima embora quase sempre simplória, da contrapartida social.
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sábado, 23 de abril de 2011
O negócio da vida privada
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Óscar Hahn 5
Na entrevista que serve de introdução ao livro Archivo expliatorio, poesías completas (1961-2009), ele conta que descobriu a poesia não em sala de aula, nem através um professor, mas ao acaso, na biblioteca da escola, ao folhear um volume de poemas medievais sobre a morte. Conta ainda que tem gravado na memória desde muito pequeno a imagem da mãe, de óculos, lendo um livro atrás do outro.
VAZIOS QUE RESPIRAM
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Robert Motherwell
Dos pintores norte-americanos, Motherwell é um dos que mais admiro, não só por suas abstrações informais cheias de vigor e beleza, mas também pela ressonância filosófica que misteriosamente emana delas.
O sentido que algumas obras fazem se deve em boa parte a esse eco, a esse isto que de alguma forma está lá, mais no gesto do que entre as cores, mais na estrutura geral do que no detalhe, e que sopra sobre nós como a aragem da vida. É esse sopro que dá densidade à obra de alguns pintores, e que falta a outros, por mais prolíficos que sejam, por maior que seja sua intencionalidade. Esse sopro, esse isto é o que no final das contas distingue aquilo que está morto do que está vivo.
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
Giacometti
Poema escrito por Giacometti em outubro de 1965, três meses antes de morrer, enquanto cruzava o Atlântico:
nada disso é grande coisa
pintura escultura desenho
escrita, ou melhor, literatura
tudo isso tem seu valor
e só
as tentativas é que contam
eh, maravilha
Tout cela n'est pas grand'chose,
toute la peinture, sculpture, dessin,
écriture ou plutôt littérature,
tout cela a sa place
et pas plus.
Les essais c'est tout,
Oh Merveille!
Tradução: Carlos Dala Stella
sábado, 16 de abril de 2011
Caderno de Ateliê 40
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Da magnificência à insignificância
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quarta-feira, 13 de abril de 2011
terça-feira, 12 de abril de 2011
Jean Cocteau
Em 2001 fiz uma série de retratos. Este é um dos 4 dedicados ao multiartista francês Jean Maurice Eugène Clément Cocteau. Misturei desenho e recorte. O resultado foi essa máscara de introspecção.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
da série Sombras
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No ateliê de escultura de Claudio Alvarez, recortei algumas sombras. Divido essa série em dois grupos, um de fotografias tal qual foram captadas e outro, menor, de imagens que manipulei, na cor e na luminosidade, nunca no formato.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
Que saudade de Hilda Hilst!
segunda-feira, 4 de abril de 2011
dor intensa
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Majik Mahgid, a história de um rosto
Da primeira à última folha, esse rosto vai se desfolhando em quatro movimentos maiores, como num andamento sinfônico, correspondentes a quatro facetas, que ora surgem entre fendas e retângulos, ora se desfazem fragmento a fragmento, até se abstratizarem e assumirem nova expressão.
A idéia me veio de um sonho, lá em setembro de 2003, como tantas vezes antes. Acordei com o título e o que viriam a ser estas imagens rondando na cabeça. Mostro aqui 3 das 180 páginas.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Óscar Hahn 4
Ainda entre as prateleiras, de pé, folheando o livro, procurava ouvir com atenção o que aquela voz me soprava. Tenho uma dificuldade enorme em ler poesia em lugar público, frequentemente não entendo nada. Mas alguns fragmentos me diziam que ali havia uma mina d'água.
Só mais tarde, em casa, no silêncio das madrugadas, compreendi a dimensão do poeta que me fisgara na livraria. Em tudo oposto a Neruda: conciso, reflexivo, muitas vezes sobrenatural ou surrealista, nunca grandiloquente, verdadeiro como uma pequena concha, trazida pelo mar aberto. Não um falso Midas, mas Sísifo como todos nós.
Traduzo aqui, como exercício, novo poema de Óscar Hahn, do livro En un abrir y cerrar de ojos.
terça-feira, 29 de março de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Óscar Hahn 3
tradução: Carlos Dala Stella
sábado, 26 de março de 2011
Menino
Esse menino primeiro foi um grafismo com nanquim. Depois uma série de gravuras em serigrafia. Depois ainda um menino de cimento soldado numa placa de vidro. E finalmente chegou a esse painel pintato com acrílica e escrito com cimento. Foi quando nasceu meu primeiro filho. Lá pelos três anos, lembro de vê-lo, de costas, desenhando peixes nos vidros da janela embaçada. Escrevi isso no painel, em espelho. Escrevi no cimento, como fiz depois, com o nascimento de meu segundo filho. Acho que era um poema que não vingou.
Ficaram esses fragmentos no cimento. Mas o prazer ensolarado de vê-lo está lá, de braços abertos pra melhor sentir o ar fresco do mundo amanhecendo.
Pouco importa se o menino desenha nos vidros da janela ou da porta, se desenha peixes ou pombas, se tem dois ou três anos. Pouco importa se o menino-grafismo veio antes do menino que desenha na sala, com o dedo, soprando no vidro seu bafo quente. O que importa é que o tempo funde tudo num único sentimento. E que esse sentimento às vezes se manifesta, na maioria das vezes não. Faltam palavras, falta sopro de vida ao cimento.
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sexta-feira, 25 de março de 2011
Barcelona de Gaudí, Curitiba de Poty
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Fiquei surpreso por constatar como figuras como essa mais do que emprestar seus traços à fisionomia de uma cidade, no limite passam a substituí-la. Para oito em dez turistas, embora continue dona de um corpo pleno de atributos particulares, Barcelona reduz-se - ou amplia-se, o que é ainda mais surpreendente - às obras arquitetônicas de Gaudí. Daí a uma imagem subjetiva e generalizante da cidade, sob o impacto dessa personalidade catalã originalíssima, vai apenas um passo.
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Se de um lado Barcelona parece extremamente generosa, porque permite que novos traços vão sendo incorporados à sua identidade sempre em expansão, por outro é preciso lembrar que só é possível tomar parte no corpo urbano à força de uma reivindicação poderosíssima. Não conta muito para essa conquista o poder instituído nomear uma praça, uma rua ou uma escola de engenharia com o nome de A. Gaudí. Mais do que qualquer dessas merecidas homenagens, suas obras é que conquistaram o direito de ampliar o imaginário da cidade, e fizeram isso à força, desprezando, por exemplo, o esquadrinhamento cartesiano das vias que circundam a Sagrada Famíla, o que ressalta ainda mais sua irregularidade quase monstruosa. Mas principalmente se batendo contra o projeto de arejamento que está na origem da arquitetura moderna.
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É certo, porém, que Barcelona aprendeu bem a lição, como provam o inquietante confronto entre o edifício do Colégio dos Engenheiros da Catalunha, de um lado da rua, e a Catedral Gótica, do outro, símbolo do confronto, mas também do convívio, entre a arquitetura gótica e a moderna naquela cidade.
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Embora Oscar Niemeyer seja indiscutivelmente responsável por alguns traços fundamentais da fisionomia do Brasil, especialmente no exterior, seu nome está mais ligado à Brasília do que a qualquer outra cidade brasileira, incluídas aí Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.
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Curitiba, que não possui um fisionomia arquitetônica particular, e que aprendeu a se contentar com os arremedos do mestre carioca, tem que procurar em outras áreas aqueles nomes que lhe emprestam identidade. Poty é sem dúvida um deles. Se é verdade que os turistas vêm a Curitiba atrás da Eldorado, em que a qualidade de vida seria superior à de outras cidades brasileiras, atraídos por algumas soluções urbanísticas originais e por uma estratégia de marketing eficaz, também é verdade que em algum momento da visita eles se deparam com o nome de Poty Lazzaroto, especialmente o muralista. E nesse sentido ele passa a fazer parte do imaginário da cidade.
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Mas a estratégia do artista paranaense parece ser bem menos bélica, ou reivindicativa; ele antes devide com o poder uma imagem que o Estado possui de si. O Poty baiano, próximo de Caribé, ambos atentos à cultura negra, o Poty sertanejo, que torna ainda mais real o grande sertão de Guimarães Rosa, o Poty indigenista, que revela segredos do dia a dia dos índios brasileiros, o Poty carioca, que dá traço aos personagens de Machado de Assis, o Poty interessado na cultura maia e asteca, esse Poty diverso se afunila, em Curitiba, num Poty unívoco, narrador convencional da formação histórica do Paraná.
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O muralista antes empresta seu nome à cidade do que lhe impõe uma identidade particular, identidade que inegavelmente ele possui, e que dá vida a grande parte de sua obra, especialmente à porção gráfica dela. Mas que à força de se subordinar a essa insana necessidade local de impor uma visão paranista à cidade, ocupando todos os espaços de seu imaginário, acabou se tornando redundante, degradando inclusive a qualidade de seu traço.
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À medida que o apuro técnico no manejo do isopor - material utilizado como fôrma para a fundição do concreto - vai se aprimorando, é visível que a concepção dos painéis, com seus pequenos núcleos temáticos, vai se repetindo à exaustão. Mesmo os painéis de cerâmica sofrem deste mal, como o duplo agravante de que agora o artista simula o uso da cor e perde a vitalidade de seu traço. É difícil, por exemplo, identificar a personalíssima nervura do traço de Poty no tubo de ligeirinho do painel da travessa Nestor de Castro, fundos da Catedral Metropolitana. Quanto ao uso recente da cor, basta colocar lado a lado qualquer gravura em preto e branco e um desenho da última safra, “colorido”. A cor, em seu caso, abranda a natureza rude do traço, tirando do desenho sua feição de estrutura armada, de finos fios retorcidos, que lhe davam personalidade e um poder impressivo incomum.
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A Curitiba de Poty não possui a diversidade genial da obra do artista. Infelizmente, o empenho com que se subordina, e portando se reduz, o estético ao político, no Estado, ao mesmo tempo que deu visibilidade local ao artista, não fez senão reduzi-lo à figura do ilustrador oficial de alguns momentos históricos do Paraná. Ao contrário de Gaudí, a obra de Poty cresce em diversidade e beleza justamente quando se vê desvinculada da cidade natal.
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Texto publicado na Gazeta do Povo
quinta-feira, 24 de março de 2011
Óscar Hahn 2
quarta-feira, 23 de março de 2011
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