sábado, 9 de julho de 2011

Caderno 40 / Gêmeos caçando borboleta



Esses dois gêmeos caçando borboleta, eles não existem fora desse caderno, eles não foram premeditados, eles dizem o que dizem sem que eu participe de sua elocução. Mas esse silêncio em que me coloco não tem nada de passivo. Os pingos que tamborilam no telhado são agulhas sonoras para que minha sensibilidade não esqueça nunca que estou vivo, e que isso equivale a um tornado, um tufão, ao ápice da tempestade. Ainda que tudo se dê sob o manto da invisibilidade, onde mesmo o estéril em mim é fecundo, onde deito e durmo, enquanto relampeja a chispa vermelha do tempo.

domingo, 3 de julho de 2011

Não procure mais meu coração

1

Mais e mais o amor se consuma como uma relação de troca. Como dar o que já não se tem? o que há muito se perdeu? No lugar da doação, o investimento; do prazer consciente de si, a mecânica do ato fisiológico, a expectativa profissional pelo retorno.


2

Quanto maior a satisfação do ego consigo mesmo, de mais espelhos é feito o amor. E entre os reflexos, quanta frieza se interpõe.


3

O nível de dissolução objetiva da sociedade contemporânea é tão grave que mesmo o impulso erótico não é mais capaz de soldar os amantes. O êxtase deu lugar à performance. Vive-se uma sucessão do mesmo em escala planetária. Nunca a planície da inconsciência esteve tão habitada.

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quinta-feira, 30 de junho de 2011

sobre fotografia



óleo, grafite, carvão, lápis de cor, fotografia, recorte e colagem sobre papelão
95x64cm





















grafite, fotografia, recorte e colagem sobre fuan
39x39cm


domingo, 26 de junho de 2011

Da natureza do prazer em rede



O prazer, em rede, é espasmódico e superficial. O simples fato de encontrar os amigos ou seguidores on-line, em tempo real, convidando-os para um evento, ou postando um comentário genérico sobre seja o que for, já é suficiente para criar um estado de euforia que de alguma forma satisfaz o prazer ainda embrionário do encontro.

Essa satisfação se deve, em boa dose, à imediatez da reação do amigo virtual. Reação, não resposta. Porque uma resposta demanda envolvimento e uma série de operações cognitivas que não cabem nesse espaço soldado pela totalidade e cujo sentido está na quantificação. Estamos a quilômetros da qualidade nas relações humanas.

Nada que não tenha sido “resolvido” naquele exato momento de “encontro” será retomado mais tarde, no fluxo “convencional” do tempo. Não é da natureza do encontro virtual estabelecer-se um empenho que se desdobre para depois. Os empenhos, aqui-agora, são fluidos, em poucos segundos serão outros. E mesmo que se estabeleçam, a regra é que eles sejam descumpridos.

O surgimento das redes sociais parece ter alterado a natureza do prazer. Elas trouxeram à tona ingredientes narcisistas que a proximidade física inibia. Com a ausência dos corpos, e a segurança do distante, uma série de mecanismos primários de construção e manipulação da própria identidade vem à tona.

Não há mais risco para o prazer, por isso cada um se compraz na manipulação sem pudor de si mesmo, para um outro cuja fisicalidade e complexidade humana estão fora de alcance. Ele também empenhado na mesma construção solitária, portanto segura de si mesmo. E o prazer espoca aqui e acolá, linha após linha, como fogos de artifício vistos de um avião, no meio da noite.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

SUERTE



suerte es lo que pido
- a nadie
porque hace mucho no creo en los dioses
y ahora poco creo en los hombres

lo único que me queda
es usted

creo en ti
que me pone venas en el aire
y haces circular tus ganas
en mi deseo

sin tus ojos vuelvo a ser nada
si no soplas tu aire cálido
en las ramas de las palabras
más que mudo me quedo muerto

¿tuvo la alegría de encontrarmonoste
o la mala suerte
de perderme fuera del tiempo?
                                                                     
en verdad es duda como yo

pero compartimos
la misma boteja de vino
como dos nuevos amigos

y nos reímos  
cada uno de un lado del hilo

la suerte que te pido
es que al final te acostes conmigo

Dala Stella, poema inédito 

sexta-feira, 10 de junho de 2011

quer jogar?

Acaba de sair novo livro nosso, sobre jogos - pela Edições SESCSP. Fiz 96 desenhos para o texto da Adriana. Publico aqui as duas introduções, a dela e a minha.





introdução ao texto


Este é um livro a dois. Dois brincantes, um poeta-artista, que faz as imagens flutuarem ao sabor das lembranças de infância, e uma amante dos jogos, brinquedos, brincadeiras, que se aventura no universo da escrita para compartilhar vivências lúdicas e reflexões vitais a nossa constituição simbólica e subjetiva. Um livro a dois no modo de fazer, desenhar, imaginar, dialogar, mas acompanhado de muitos parceiros, subentendidos nas lembranças e sentidos que o brincar e o jogar nos ofereceram ao longo da vida. Desejamos encontrar ainda muitos outros parceiros de partida, dessa vivência peculiar.

“Quer Jogar?” é um convite que permanece através dos tempos, sempre na boca de criança, é a pergunta que quer parceria, o começo de uma troca. Este livro repete a pergunta incansável e disposta a ouvir um sim. É um início de conversa, um jogo de relembrar a infância e do que dela pode estar vivo na vida adulta. Com suas imagens imprescindíveis para disparar esta prosa, é a forma que encontrei para falar daquilo que povoa meu imaginário, um pouco do que penso e sinto em relação à natureza da vida que levo, de meu trabalho e do dia-a-dia. Procurei propositadamente ressaltar as experiências e deixar os fundamentos nas entrelinhas, um caminho diferente do acadêmico, que me parece, na maioria das vezes, um tanto afastado do lúdico, infelizmente.

Creio que o brincar é uma experiência estética arrebatadora, por isso a idéia de  trazer a essência dela para o livro, casando jogo e arte,  só foi possível com a participação de Carlos,  que de pronto aceitou o desafio de trabalhar a dois, muitas vezes antecipando-se, com seus desenhos, à minha escrita. Durante o processo, lá estava eu invariavelmente falando de uma lembrança lúdica e ele já a transformava em imagem, antes mesmo de eu colocá-la no papel. Isso proporcionou um diálogo de mão dupla em que eu incorporava à minha escrita coisas que estavam presentes no desenho, tornando a experiência mais universal. Outras vezes, Carlos desenhava brincadeiras de seu repertório pessoal, me convidando a olhar e encontrar os mais variados sentidos contidos em cores, gestos e formas que se confundem com as brincadeiras.

Quando comecei a esboçar o livro, queria antes de tudo um presente para a alma, um livro-arte, que pudesse trazer ao leitor as sutilezas da imaginação. Para tanto, precisava de uma parceria que brincasse com os materiais artísticos atento às miudezas e grandezas presentes nas brincadeiras, criando assim imagens-convites a um passeio pela nossa natureza primeira.

Desejo que os leitores e brincantes desfrutem deste diálogo texto-imagem, tanto quanto nós autores destas trocas lúdicas.

Adriana klisys

introdução aos desenhos


Comecei desenhando piões, uma série deles. Os piões que
ganhava da Adriana, tantos e tão diversos como nunca
imaginei; e os da minha infância, que não aprendi a
jogar direito, mas cujo som, de surdo zumbido e silêncio,
encantava meus olhos, também silenciosos no rés do chão.
Depois vieram os jogadores de mancala, um punk soprando
bolhas de sabão, a trama dos barbantes, as cartas, os dados...

Alimentado permanentemente por livros, fotos e tabuleiros,
que foram enchendo tanto o ateliê como minha casa,
passei horas e horas desenhando, entregue ao fluxo desse
processo obsessivo de investigar linha e cor. Pautado por
longas listas ou respondendo a uma lembrança particular
– como no caso das bolinhas de gude e da raia bidê –,
fui desvelando o conjunto temático do livro, e com ele dois
universos contíguos: o dos jogos, e seus mecanismos imprevisíveis,
e o dos desenhos, essa membrana tão suscetível às impressões.
A ligá-los, a agudeza do instante em que tudo pode se
perder, ou ganhar; o relaxamento das miudezas do mundo,
a distensão do eu.

Desenhar para um livro que ainda não estava todo escrito me
permitiu especular nesse estado de vagueza atenta de onde
extraio minha linha. Lá, onde a realidade é apenas pressentida,
onde uma série de operações ocorre, na semiobscuridade,
lá estão os sentidos que me mobilizam e que dão corpo
à minha concentração. Foi graças a essa liberdade, presente da
Adriana, que ao longo de dez meses pude investigar, como
quem brinca, a porção lúdica da natureza tanto dos jogos
como do desenho. E o livro foi surgindo, a dois, como nunca
tinha me acontecido antes.

Carlos Dala Stella

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fotografia e Pintura


 MULHER SOB ÁRVORE
óleo sobre tela
80x120 cm
R$ 3.800,00

Esse trabalho faz parte de um conjunto em que venho trabalhando há ano e meio, a partir de fotos e negativos. Às vezes para um mesmo negativo, ou foto, faço variações, a óleo, com desenhos e colagens, como nesta tela. A mulher sob a árvore, no jardim de casa, está apenas sugerida, o que contam são as linhas de força que estruturam o espaço ao seu redor. Por isso a ausência quase total da cor.


sábado, 28 de maio de 2011

+ 3 da série Sombras




O Caçador de Sombras


Grades, portões e balaustres são tão bons de desenhar, de pintar, como sabe qualquer pintor de final de semana. São bons também de fotografar, mas disso poucos fotógrafos amadores sabem. Recortar suas sombras geométricas abstratizadas é quase uma brincadeira para o olhar, uma brincadeira em que faltam peças, em que o tabuleiro está apenas sugerido e os jogadores fugiram. É dessa ausência que minhas fotos de sombras são feitas. E a cidade está cheia delas. Mesmo assim o contrastado fugaz que se repete todos os dias de sol passa desapercebido. A não ser que sejamos um caçador de sombras.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Abstração (a partir de bata de Caetano Veloso)



acrílica sobre tela
110x170cm
R$ 8.300,00

Essa tela nasceu de uma colagem, como tantas vezes antes e depois. Parti de um recorte da bata que Caetano usou lá no início da carreira. Devo ter recortado de uma revista, não lembro. A tela é antiga, mas acabou ficando comigo, por sorte. Na época pintei várias telas com referências visuais cifradas a artistas que admiro. Essa é uma dela. Há outras por aí. Acho que as pessoas nem desconfiam.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre os Autorretratos



Lucas, sua pergunta ficou martelando. Acho que não respondi direito, tento ainda uma vez. Você foi tão sincero e direto, obrigado.

Fazer um autorretrato não impõe dificuldade alguma de ordem psicológica. Difícil é desenhar um rosto alheio, os outros têm expectativas que nenhum pintor consegue satisfazer completamente. Nós pintores não temos expectativa alguma. Tomamos nosso rosto como quem desenha um pêssego, uma garrafa, o gradil do portão. É como desenhar um prato com frutas, já disse Cézanne. No final das contas, se estivermos certos, tudo revelará nossa paisagem interior, como demonstraram tão poeticamente os pintores chineses. Se estivermos errados, estaremos errados para nunca mais, para fora do tempo.

Quando nos desenhamos, emprestamos nossas mãos e olhos para que a velha pergunta seja feita ainda uma vez: quem somos, de onde viemos e para onde estamos indo? Qual o sentido disso tudo, dessa sucessão enganosamente infindável de dias e meses e anos? Os autorretratos são nossa resposta, satisfatória apenas no estrito decurso da pintura ou do desenho. Depois, voltamos a não saber nada. Os autorretratos são lacunas em que a pergunta é mais aguda. Nem antes, nem depois ficamos sabendo direito o que fizemos da vida e o que ela fez conosco. Brincamos de brincar, nos melhores momentos.

Mas há um certo prazer obsessivo em retomar dezenas de vezes o próprio rosto. Rembrandt fez mais de 40 autorretratos. No de1665, quatro anos antes de morrer, ele aparece rindo, como quem ri nos estertores do último ato. Esse riso in extremis, de si mesmo e do mundo, atravessa os séculos e nos atinge como uma bomba. Mais veemente do que o sorriso discreto da Mona Lisa, seu enigma só pode ser decifrado no subsolo de nós mesmos, no reino escuro das raízes, bem longe das palavras.  

Tudo bem somado, os autorretratos são a cozinha da alma do pintor. A menos que ele se pavoneie, pode-se meter o nariz na fresta da porta e sentir o aroma do manjar, ou da ração, com que ele se alimenta quando está realmente só.  

domingo, 22 de maio de 2011

3 autorretratos

caneta de tinta permanente sobre tela serigráfica



spray de grafite sobre azulejo




conté no verso de uma tela
 

Solidão em Rede

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A solidão resulta cada vez mais de uma vontade individual, que tem de ser tanto mais forte quanto maior o fluxo ininterrupto dos conteúdos e atividades globais, exatamente o contrário do que ocorria num passado não muito distante. As distâncias, o deslocamento moroso, a circulação restrita de livros, a natureza mesma da subsistência, quase tudo nos constrangia à solidão. Era necessário um grande esforço para abrir janelas nessa solidão, para enxergarmos apenas uma parcela ínfima da paisagem humana, que frequentemente parecia habitar regiões recônditas e inalcançáveis.

O que ocorre hoje é o contrário, tudo conspira para a socialização. Há um consenso subentendido de que a solidão é insuportável, de que é preciso mobiliá-la. E há algum tempo a peça principal desse mobiliário são as telas. Começou com o cinema, a TV, até desembocar no computador, no celular, no iPad, no palm top... Se por algum motivo esse sistema de transmissão de dados e imagens entrasse em colapso, o pânico se generalizaria de imediato. O pânico de ter de ficar só consigo mesmo, desconectado do mundo, como se o mundo existisse preponderantemente via tela do computador ou da TV. Quando é evidente que esse tele-mundinho não se compara à riqueza do mundo que nos vai dentro, desde que desejemos e tenhamos a coragem de explorá-lo, ou do mundo que se vê pela janela de casa, more-se em qualquer beco de qualquer cidade do planeta.

Mas parece mesmo que ficar só não exerce mais nenhum atrativo sobre o homem. É patética essa pseudo-solidão conectada, esse desacompanhamento coletivo em rede. Teria a solidão individual sido suplantada pelo espelhamento de si mesma em rede? Seria assim mais fácil suportá-la, menos traumático? Fugindo da solidão individual estaríamos constituindo uma tele-solidão coletiva, alimentada pelo fluxo ininterrupto de eventos que nos chegam como realidade meramente virtual?

Várias vezes penso que esse desejo de assistir ao mundo, de saber tudo o que está acontecendo em todos os lugares, de divulgar aos quatro ventos o evento que promovemos ou de que participamos, de possuir mais e mais amigos virtuais, não é senão a reedição rebaixada do velho desejo de voar que tínhamos quando criança, esse desejo de ver tudo e todos simultaneamente, lá embaixo, de abraçar o mundo com os olhos. Nossa eterna ânsia de absoluto. Ingênua então, mas fecunda, enquanto que a ânsia de agora não parece senão um pálido reflexo daquela, pobre e condenada quase sempre ao circuito fechado do mundo virtual.
 

sábado, 21 de maio de 2011

E. M. Cioran 2

Traduzo mais um excerto do filósofo romeno Cioran, agora retirado da entrevista concedida a Luis Jorge Jalfen, em 1982. E não consigo deixar de pensar nesse mar de telas que simultaneamente nos conectam e nos isolam uns dos outros.

SOLIDÃO

A catástrofe, para o homem, é que ele não consegue ficar sozinho. Não há sequer uma pessoa que consiga ficar só consigo mesma. Atualmente, todos os que deviam viver consigo mesmos se apressam em ligar a televisão ou o rádio. Acredito que se um governo acabasse com o televisor, os homens se matariam uns aos outros nas ruas, porque o silêncio os aterrorizaria. Antigamente, as pessoas ficavam muito mais tempo consigo mesmas, durante dias e meses, mas hoje isso não é mais possível. É por isso que se pode dizer que a catástrofe está aí, que nós vivemos catastroficamente.  

SOLITUDE

La catastrophe, pour l’homme, vient du fait qu’il ne peut rester seul. Il n’y a pas une seule personne qui puisse rester seule avec elle-même. Actuellement, tous ceux qui devraient vivre avec eux-même s’empressent d’allumer le téléviseur ou la radio. Je crois que si un gouvernement supprimait la télévision, les hommes s’entre-tueraient dans la rue, parce que le silence les terroriserait. Dans un lointain passé, les gens demeuraient beaucoup plus en contact avec eux-mêmes, pendant des jours et des mois, mais à présent, ce n’est plus possible. C’est pour cela que l’on peut dire que la catastrophe s’est produite, que nous vivons catastrophiquement.

Tradução: Carlos Dala Stella

sexta-feira, 20 de maio de 2011

E. M. Cioran

Desde 2003 leio sistematicamente o romeno Emil Cioran. Apesar de toda sua amargura e niilismo, frequentemente me pego rindo dos meandros de seu pensamento, como me ocorre quando leio Kafka. Há algo de cômico em sua tragicidade, que fica ainda mais evidente em seu uso constrito da língua francesa. Seus aforismos parecem se ater somente ao produto, à soma final, à conclusão, o que vai de par com certa agudeza no uso da linguagem..

BACH

Sem Bach, Deus seria menor. Sem Bach, Deus seria um tipo de terceira grandeza. Bach é a única coisa que dá a impressão de que o universo não é falho. Tudo nele é profundo, real, sem teatro. Não dá pra suportar Liszt depois de Bach. Se há um absoluto, é Bach. [...] Sem Bach, eu seria um niilista completo.

BACH

Sans Bach, Dieu serait diminué. Sans Bach, Dieu serait un type de troisième ordre. Bach et la seule chose qui vous donne l’impression que l’univers n’est pas raté. Tout y est profond, réel, sans théâtre. On ne peut supporter Liszt après Bach. S’il y a un absolu, c’est Bach. [...] Sans Bach, je serais un nihiliste absolu.

Avec Benjamin Ivry, 1989

Tradução: Carlos Dala Stella

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Uma canoa para Kandinsky



 UMA CANOA PARA KANDINSKY
acrílica sobre tela sobre isopor
47x100cm

Primeiro veio a colagem, depois a tela. Estiquei o algodão sobre uma placa de isopor. O título nasceu junto com a colagem. Embora há muito não veja nem leia Vassily Kandinsky, ele está lá, na origem de meus primeiros trabalhos, fecundo e luminoso como sempre, articulando sua máquina de sonhos com linhas, círculos, triângulos e o infinito amarelo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

mãe da minha fome




mãe da minha fome
mãos de minha alma
teus pães alimentam
os sonhos dos meninos
e a alegria do homen


domingo, 15 de maio de 2011

Colagem

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Sobre a Maturação
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As colagens geralmente não me custam muito esforço, o que elas precisam é de delicadeza e algum silêncio. Com muito cuidado e com alguma dose de acaso, elas se dão às mãos e aos olhos, quase sempre depois de esboçar um conjunto de sutis variações. Nada disso leva muito tempo.

Mas depois passo dias, às vezes semanas e até anos, desenhando a partir delas, experimentando suas linhas, suas cores, não importa com que material, escrevendo sobre elas. Até que de alguma forma elas ganhem sentido, simbólico até certo ponto. Preciso que elas guardem sua natureza gráfica até o último estágio, numa tela, num jato de areia sobre o vidro ou no cimento. Nada garante que o trabalho que resulta dessa ponta represente algum progresso em relação ao início do processo. Nem o sentido que procuro precisa ser explicitado, basta que ele exista de forma latente.

Penso seguidamente nesses lapsos de tempo de que preciso para conviver com um primeiro esboço, com uma colagem crua ainda, com uma tela apenas iniciada. E me pergunto, perdendo de vista a realidade física do trabalho, por quê? Será que os sentidos do mundo só me chegam com vagar, quando chegam? Será preguiça? Ou falta de ímpeto para superar meus sem sentidos íntimos, ou mesmo certo prazer de dilatar no tempo esse vazio? O que acontece é que desço a correnteza do único rio que passa pela minha aldeia.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Cristovão Tezza

Em 2003, fiz uma série de retratos de Cristovão Tezza, para o que seria seu site, presente de aniversário de um grupo de amigos. Posto aqui as variações quase completas. Mais um desenho do Cristovão cozinheiro, enviado como cartão postal, quando ele estava fora do país.











sábado, 7 de maio de 2011

A Ditadura do Social

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Só são levados em consideração, hoje, os conteúdos socialmente constituídos, ou seja, formulados de prévio acordo com a sociedade. O indivíduo mesmo, por mais emancipado que seja, só se torna visível a partir do momento em que passa a fazer parte da imensa rede social, formatada mais e mais pela internet.

Não contribuir com a exploração pública de sua identidade pela rede significa descender ao submundo da invisibilidade, vala comum também ela prevista, ainda que a contragosto, por esse novo complexo social. Mas se antes a invisibilidade afetava o sujeito, cuja imagem de alguma forma tinha sido constituída e negada pelo círculo social, por mais estreito que este fosse, agora ela afeta a sombra futura desse sujeito. Mas paradoxalmente afeta também aquele que provavelmente nunca chegará a sê-lo, embora poste todos os dias no facebook, no twitter, no blog...

O socorro da margem não existe mais, assim como a condenação ao reino escuro das idiossincrasias, relegados ao jurássico século XX. Tudo pretende estar previsto no quadro formatado pelos gestores das redes, não só o que é, mas especialmente aquilo que está por vir.

Pobre de nós, condenados às miríades do presente, herdeiros de um passado de que sentimos falta, nós que temos pudor, que zelamos pela individualidade, mesmo que nos digam que ela não vale grande coisa, que não sabemos o que fazer dela a maior parte do tempo, e que estamos bem assim, mesmo que estejamos mal. Pobre de nós que não queremos fazer parte de nenhum conglomerado, de nenhuma associação, aqueles que não se conformam às redes, às cercas, às grades. Aqueles para quem a economia nunca é criativa e o intangível existe desde sempre, como o ar que respiramos. Pobre de nós que preferimos os amigos mortos aos amigos virtuais, que vivemos de encontros e desencontros presenciais, nós para quem o vento no rosto é o paraíso, ou um temporal se armando.
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sábado, 30 de abril de 2011

O Anjo Rouco, de Paulo Venturelli



Imperdível o lançamento do livro O Anjo Rouco, de Paulo Venturelli, no próximo sábado, dia 07 de maio, às 11h, no Paço da Liberdade. Imperdível porque essa nova edição está linda. Mas principalmente porque Venturelli é um escritor em que a prosa sempre está de mãos dadas com a poesia.

Há um tom lírico em cada linha que ele escreve, uma docilidade no uso das palavras como se ele estivesse nos lembrando a todo momento que não podemos nos fiar na razão, que só é possível viver poeticamente. Há sempre um mistério prestes a se revelar, sugerido pelo vento, por um desejo contido, pelo olhar de um menino, por um poço fechado. Um mistério que se revela já nesse uso tátil da palavra, consciente da riqueza subjetiva que ela pode conter. Venturelli escreve como se tocasse outro corpo, e toca.

A apresentação do livro, escrita por Nelson de Oliveira, termina dizendo que "o Brasil inteiro precisa urgentemente descobrir este escritor." Urgência, essa é a palavra, para que não se perca a oportunidade de usufruir o quanto antes de um talento cuja sensibilidade torna afetivo tudo o que toca.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Sobre o fim das distâncias e a delicadeza

O encurtamento drástico da distância começou com o automóvel, os trens e os aviões, até chegar à sua completa abolição com a internet e as redes sociais. Paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes uns dos outros, nunca a delicadeza mascarou tantos fins.

O que liga duas pessoas são os meandros, as volutas, a sinuosidade da curva, nunca a linha reta. A linha reta abole a distância entre dois pontos, não entre duas pessoas. E a delicadeza vem de graça, dá flores mesmo quando não dá nada.
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Francis Bacon




Francis Bacon corta quando pinta, mas corta ainda mais quando fala. Como uma faca de açougueiro superafiada, ele corta a realidade, separa o que lhe interessa, nem um naco a mais, e expõem sem hesitação sobre a mesa o que pensa, com uma brusquidão fatual de quem se rende à verdade da carne, recém dessossada aos olhos do interlocutor. Seu olhar de viés aguça ainda mais o fio da lâmina, tanto mais verdadeira quanto mais impiedosa. Mas sua violência é a violência de boa parte do mundo. Se não nos consola, nem ele desejaria isso, ela nos mantém vivos, dolorosamente vivos.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

O trânsito das relações

Não sei se desfoco quando vejo, é possível, mas o que vejo de todos os lados são relações insatisfeitas, relações que só se veem como bem-sucedidas quando se desdobram em outras relações, como se o amor já não fosse suficiente. O que importa, hoje, é transitar entre as relações, fazendo com que uma desemboque em outra, e esta em outra ainda e assim sucessivamente.

O estado eufórico desse trânsito parece estar substituindo o amor. Não há mais tempo para um sentimento que exige tanta dedicação e cuidado com o mesmo, com o único. A diversidade parece tão mais excitante, a mídia toda repete esse mote. Engenhosamente inventamos todos os dias novas razões para adiar o amor, comprazidos que estamos nessa avalanche de relações turvas, chegando mesmo a explorar matizes cada vez mais sutis da infidelidade - ao outro e a nós mesmos.
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O xadrez da alegria



O xadrez da alegria
acrílica sobre tela
250x110cm
R$ 8.200,00

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O elogio da ignorância inteirada

Mais do que nunca, a ordem do dia é consumir tudo em todas as direções, insaciavelmente e sem outro critério que não seja a novidade, o lançamento. Consumir e descartar. Isso vale para roupas, filmes, livros, música, roteiros de viagem...

O que espanta é a abundância não só dessa fome insaciável, como daquilo que compõe o cardápio: o sempre renovado velho kitsch, a mesma gama colorida de lugares comuns, o mesmo circo pop, armado na ante-sala da reflexão.

O resultado é o elogio - em tempo cada vez mais próximo do real - da ignorância inteirada, proclamado como um mantra, nas telas de tevê, de cinema, dos computadores, dos celulares, palm tops, ipads...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Homem-Ovo contém Laocoonte


 Homem-ovo contém Laocoonte
acrílica sobre tela
120x90cm

espanto 2

O que espanta é o conforto com a distância, ainda que virtualmente encurtada, a pobreza dessa solidão conectada em rede e a inconsciência da temporalidade. Parece que a pele não é mais necessária - muito menos o toque - nem faz mais sentido temer a morte.
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da série Sombras



segunda-feira, 25 de abril de 2011

Estupidez e oportunismo

Se as ações exageradamente calculadas sempre têm algo de estúpido, imagine-se hoje o mar de estupidez de tantos projetos culturais minuciosa e matematicamente planejados, seguindo tão servilmente as estratégias prescritas, seja pelos editais de cultura das empresas, seja pelas leis de incentivo.

Cada vez mais os produtos culturais nascem de um oportunismo, da possibilidade de serem patrocinados e não de uma necessidade premente - que dificilmente se enquadra num regulamento e satisfaz a ânsia, legítima embora quase sempre simplória, da contrapartida social.
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Variações Negras


da série Variações Negras
óleo sobre tela
100x100cm
R$ 3.700,00

sábado, 23 de abril de 2011

O negócio da vida privada

Toda vez que leio ou ouço algo sobre as redes sociais, não consigo deixar de pensar que elas representam um passo decisivo na transformação da vida íntima num negócio, o negócio da vida privada. E que a paga desse negócio custa os olhos da alma.
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